domingo, janeiro 31, 2010

DEIXA ELA ENTRAR (Låt den Rätte Komma In)



Até que enfim eu vi um filme no cinema em 2010 que me agradou de verdade. Neste final de semana finalmente entrou em cartaz em Fortaleza DEIXA ELA ENTRAR (2008), o elogiado filme de vampiro de Tomas Alfredson. Até achei que o veria numa cópia digital – todo filme agora que entra em cartaz no Espaço Unibanco Dragão do Mar tem esse risco –, mas graças aos céus o filme veio em gloriosa película. A propósito, fiquei cismado um pouco com a janela do filme, que não preenchia totalmente a tela. Achei que fosse uma dessas janelas raras, em 2:1, mas de acordo com o IMDB é 2,35:1 mesmo. De todo modo, não é algo que vá atrapalhar a impressão do filme. Eu é que acabei me tornando meio cri-cri nesse tipo de coisa.

Filmes românticos de vampiros têm aos montes por aí. E depois de CREPÚSCULO e da série TRUE BLOOD, então, o subgênero parece até que virou uma epidemia. Mas isso não quer dizer que melhores e mais intrigantes filmes do gênero não surjam. E quer exemplo melhor do que este DEIXA ELA ENTRAR? O filme tem algo que faz lembrar um pouco DESEJO E OBSESSÃO, de Claire Denis, principalmente no início, com o senhor que seria o pai da jovem vampirinha "coletando" sangue para ela. Mas esse detalhe se tornaria logo secundário, quando o filme passa a focar no relacionamento da adolescente que diz duas vezes que não é uma garota com o menino que sofre violência física e psicológica dos colegas da escola.

Desse modo, as dificuldades da adolescência acabam sendo um assunto tão ou mais importante quanto a sede de sangue da vampira Eli. Ela acabou de se mudar para o prédio de Oskar, o garoto de 12 anos que começa o filme como uma espécie de miniatura de Travis Bicker, o protagonista perturbado de TAXI DRIVER. Isso porque ele fica ensaiando um dia agir de maneira violenta com alguém. Mais adiante veremos que essa tendência violenta tem suas causas e que bastará um empurrãozinho para que ele possa agir violentamente contra seus inimigos na escola.

Quanto a Eli, difícil não ficar encantando com o seu jeito, ainda que a jovem atriz que a interprete não seja exatamente uma beldade. E os efeitos visuais e de maquiagem que a transformam numa fera assustadora também contribuem para que o seu papel seja digno de ser incluído numa antologia dos melhores monstros do cinema.

O filme tem uma beleza plástica de dar gosto, com um predomínio do branco, que, com certa frequência, é maculado pelo vermelho do sangue das vítimas sobre a neve. DEIXA ELA ENTRAR também não economiza no gore. Destaque para a cena do hospital, quando Eli sobe para ver o "pai", de rosto desfigurado. Se fosse uma produção americana, com certeza teria ganhado os cinemas de shopping e não entrado num circuito alternativo que pode não recebê-lo tão bem. Uma pena que muitos jovens apreciadores de terror deixarão de ver o filme por puro desconhecimento de sua existência.

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