terça-feira, janeiro 26, 2010

CHÉRI



Curioso este atual momento da cinematografia mundial, com as questões afetivas sendo tratadas com amargura e desencanto. Mesmo em um filme de época como CHÉRI (2009), de Stephen Frears, isso pode ser sentido. O filme é o retorno da parceria de Frears com o roteirista Christopher Hampton. Juntos eles realizaram o ótimo LIGAÇÕES PERIGOSAS (1988), outro filme de época, mas de outra época. Mas ambos se passam na França. Outro elemento comum aos dois filmes, além da presença de Michelle Pfeiffer, é um sutil traço homo nos personagens masculinos. Mas se John Malkovich equilibrava bem o masculino e o feminino no predador Valmont, do romance de Choderlos de Laclos, o mesmo não se pode dizer do jovem Rupert Friend, que traz um olhar tão afetado que chega a incomodar um pouco. Isso, diante de uma possível identificação do personagem com o público masculino. Se bem que mesmo que ele fosse um pouco mais másculo, acredito que uma identificação com o personagem seria um pouco mais difícil, já que o ponto de vista mais forte do filme é o de Lea de Lonval, a personagem de Michelle Pfeiffer.

Ao contrário do que muitos podem pensar, Chéri do título não é Michelle Pfeiffer e sim Rupert Friend. Ele é o jovem filho de uma cortesã aposentada (Kathy Bates) que anda meio deprimido. Para resolver o seu problema, a mãe tem o plano de convidar a sua amiga Lea, cortesã prestes a se aposentar também, a passar uns tempos com o rapaz. Ele se sente atraído pela experiente e atraente mulher e topa passar uns dias com ela. E os dias se tornam anos e os dois não conseguem se separar um do outro. Até o dia em que a mãe de Chéri arranja-lhe um casamento.

Michelle Pfeiffer é a melhor coisa desse filme que carrega em si uma característica mais francesa do que inglesa, embora a utilização de uma fotografia menos nítida e mais "suave" seja uma marca dos filmes ingleses. Mas o espírito francês está bastante presente no filme, o que pode ser visto como um ponto positivo. Ainda que no fim, eu tenha achado que Frears fez um sub-Rohmer, o diretor acertou na atmosfera. Há também um traço literário bem presente, na utilização de um narrador que não é nenhum dos personagens do filme. Esse narrador aparece muito pouco, mas suas falas são essenciais para a complementação do enredo, especialmente em seus momentos finais. E se o jovem Chéri não é lá muito simpático, a sempre bela Michelle Pfeiffer encara com coragem o efeito dos anos sobre seu corpo. Se o filme tem algo de perfeito, é a sua presença luminosa. Com ela, até o tempo tem sido generoso.

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