terça-feira, janeiro 12, 2010

A CARREIRA DE SUZANNE (La Carrière de Suzanne)



Ontem foi um dia especialmente triste para o cinema. Deixou o nosso plano, aos 89 anos, um dos mais queridos cineastas de todos os tempos: Eric Rohmer. Rohmer foi um mestre na radiografia das relações humanas e na construção de diálogos saborosos sem deixar de lado o cuidado visual. Inclusive, meu primeiro contato com sua obra foi com A INGLESA E O DUQUE (2001), um dos seus filmes mais caprichados no aspecto visual. A partir da semana seguinte, graças a uma mostra organizada pelo Cinema de Arte, pude me deliciar com os filmes das Quatro Estações. Aqueles cinco sábados seguidos foram especiais. Sair de casa para ver um filme do Rohmer no cinema é bom demais. Não dá pra descrever. Infelizmente, depois desses cinco sábados, tudo o mais que vi do cineasta foi graças ao dvd e à internet. Seus últimos filmes não foram lançados comercialmente no Brasil. Mas não tenho do que me queixar. Seus trabalhos são tão instigantes que vê-los na telinha é quase tão agradável quanto vê-los no cinema.

Rohmer nos mostrou o doce e o amargo da vida. Lembro de ter saído da sessão de CONTO DE INVERNO (1992) completamente fascinado e com a crença na ideia da existência da alma gêmea restabelecida. Uma coisa que não se pode deixar de perceber em seus personagens é o quanto eles são obstinados. Em MINHA NOITE COM ELA (1969), lembro de ter ficado indignado com o fato de o protagonista não ter dormido com a morena sensual que estava dando mole pra ele, justamente por acreditar que a mulher de sua vida não era ela. E por ser católico convicto. Também me incomodei um pouco com a maluquinha de UM CASAMENTO PERFEITO (1982), que bota na cabeça que vai se casar e fica espalhando isso pra todo mundo, mesmo sem ter um noivo. Ela, apesar de levar tantos foras, continua perseguindo seu objetivo. Mas o exemplo máximo de obstinação talvez esteja no mágico O RAIO VERDE (1986). Claro que nem tudo são flores no cinema de Rohmer. E esse equilíbrio está no mostrar também as frustrações do ser humano, em obras como A COLECIONADORA (1967), A MARQUESA D'O (1976), ou em filmes que parecem não ter um enredo tão definido, como A MULHER DO AVIADOR (1981).

Rohmer me acompanhou até quando eu estava com dor de cotovelo e vi o belo curta A PADEIRA DO BAIRRO (1963), mais um de seus vários filmes que mostram pessoas perambulando pelas ruas. Aliás, como se anda nos filmes de Rohmer, hein! Desde O SIGNO DO LEÃO (1959) que é assim. Deve haver algum significado metafórico nessas caminhadas. Talvez para nos dizer que "quem fica parado é poste", que se não nos mexermos a vida não muda, nossos objetivos não são alcançados, tudo fica estagnado. Caminhando a gente areja a cabeça. Pena que A CARREIRA DE SUZANNE (1963), média-metragem produzido na mesma época de A PADEIRA DO BAIRRO, com o mesmo estilo despojado, não acerta tanto. É talvez o seu filme menos interessante. Mas devido ao pouco tempo que tinha ontem, foi o que escolhi para ver em sua homenagem.

O filme acompanha a trajetória de dois amigos e uma jovem que é humilhada e aproveitada por um deles. Guillaume é o malvado da dupla. Bertrand é o jovem que aceita tudo o que o amigo faz, mesmo não concordando. Ele aceita o amigo como ele é; não o vê como um mau caráter. E Suzanne é a jovem ingênua da história. Ela aceita as humilhações de Guillaume e fica endividada por causa dele. Aos poucos o filme vai transferindo a importância de Guillaume para Bertrand, que de apagado vai se tornando mais vívido na trama. A cena em que Suzanne dorme no apartamento de Bertrand me lembrou MINHA NOITE COM ELA, mas sem a forte tensão erótica do filme posterior. Se há, é muito sutil. A CARREIRA DE SUZANNE está longe das melhores obras de Rohmer, mas ver o filme no dia da morte do cineasta foi uma experiência solene. Era o meu momento de silêncio para o homem das palavras.

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