sexta-feira, maio 29, 2009

A ILHA DA MORTE (El Cayo de la Muerte)



Coincidência eu ter visto A ILHA DA MORTE (2009) no mesmo final de semana que vi CHE - O ARGENTINO. Digo isso porque ambos os filmes são ambientados em Cuba, em momentos pré-revolução. Bem menos ambicioso que o trabalho de Steven Soderbergh - aliás, nem dá pra comparar os dois filmes -, a co-produção Brasil-Cuba-Espanha dirigida por Wolney Oliveira mostra uma visão ingênua do amor pelo cinema e faz uma reflexão sobre a arte e a vida - no caso, aspectos políticos da vida. Tendo se formado na Escola de Cinema de San Antonio de Los Baños, em Cuba, o diretor cearense, guarda um carinho especial pela ilha de Fidel. A ILHA DA MORTE foi exibido pela primeira vez no Brasil no Cine Ceará de 2007 e passou mais de dois anos para ser lançado comercialmente, com poucas cópias e distribuição modesta. Trata-se do primeiro filme inteiramente de ficção de Wolney, depois de um trabalho misto entre ficção e documentário - MILAGRE EM JUAZEIRO (2000). Entre um e outro filme, houve o documentário em média-metragem BORRACHA PARA A VITÓRIA (2004).

A ILHA DA MORTE, apesar dos diversos problemas, é um filme que transmite sinceridade ao tratar do amor pelo cinema. E que fala muito mais a mim do que o trabalho anterior do cineasta, que me pareceu excessivamente católico. Na trama de A ILHA DA MORTE, que se passa em Cuba, no turbulento ano de 1958, quando o governo de Batista caçava os envolvidos numa conspiração para derrubar o regime, um jovem apaixonado por cinema pouco liga para assuntos de política e está mais interessado em enviar cartas para o presidente da MGM, com roteiros, para um dia poder trabalhar em Hollywood. Enquanto isso não acontece, ele é obrigado a abandonar Havana e se esconder com a família em uma cidade pequena do interior. Ao chegar lá, duas coisas chamam a sua atenção: uma sala de cinema, pois, para cinéfilo que se preze, morar em cidade sem sala de cinema parece castigo; e uma bela jovem, por quem ele se apaixona. Porém, esses dois objetos de desejo estão de difícil acesso para o rapaz, já que o cinema está passando por uma reforma e a jovem é namorada do filho do prefeito. Sabendo que o rapaz recebeu uma carta de Hollywood, um grupo de entusiastas de cinema da cidade o convida para dirigir um filme, que seria, a princípio, financiado com dinheiro do filho do prefeito e teria a paixão do rapaz como protagonista. O tal filme se chamaria "A Ilha da Morte", uma aventura fantasiosa, comum nos anos 50.

Um dos destaques de A ILHA DA MORTE é o filme dentro do filme, que é uma homenagem a um filme real, que funciona como tributo aos cineastas de Santo Antonio de Los Baños. Em 1988, Wolney havia realizado um curta-metragem similar, intitulado EL INVASOR MARCIANO, que dizem ser bem divertido. Tudo indica que A ILHA DA MORTE nasceu desse trabalho inicial do diretor. Comparando o aspecto do "filme dentro do filme" presente na obra, uma produção recente da cinematografia brasileira que guarda semelhanças com A ILHA DA MORTE é SANEAMENTO BÁSICO, O FILME, de Jorge Furtado, que foi bem mais feliz no resultado final. Mas podemos dizer que ambos os filmes são simpáticos.

quinta-feira, maio 28, 2009

CHE - O ARGENTINO (Che: Part One / Che, El Argentino)



Uma das coisas mais dignas de admiração em CHE - O ARGENTINO (2008), primeira parte do projeto mais ambicioso de Steven Soderbergh, sobre o mais famoso líder guerrilheiro do mundo, é sua coragem em não fazer concessões. E que bom que atualmente o cinema americano tem feito obras que tentam ser mais autênticas. Se no passado a regra era fazer filmes sobre a história de outros países falados apenas em inglês, hoje já temos obras ousadas, como os dois últimos filmes de Mel Gibson (A PAIXÃO DE CRISTO, APOCALYPTO) e CARTAS DE IWO JIMA, de Clint Eastwood, que, através da língua e de atores estrangeiros, procuram deixar o projeto mais crível. Até mesmo uma produção que segue a tradição de usar a língua inglesa, como OPERAÇÃO VALQUÍRIA, teve o cuidado de mostrar, no início do filme, a voz do protagonista falando em alemão e se transformando em inglês aos poucos. E esse não é o único mérito de CHE, já que Soderbergh também não abre mão de fazer uma obra menos comercial, sem preocupação de agradar grandes audiências, com sua longa duração, seus "tempos mortos", sua tentativa de fazer uma obra mais próxima do cinema europeu do que do cinema americano.

A escolha de um time de atores latinos também foi acertada. Especialmente o porto-riquenho Benicio Del Toro, que incorpora Ernesto Che Guevara com força. Dá até pra esquecer a cara de pateta que ele fez quando uma entrevistadora foi questionar os atos de Che. Ele é o homem perfeito para o papel. Outros atores de diferentes países da América Latina interpretam personagens importantes para a história da Revolução Cubana: o mexicano Demián Bichir, como Fidel Castro; Rodrigo Santoro, no papel de Raúl Castro; e a bela colombiana Catalina Sandino Moreno, como Aleida March, a moça que parece ter sido amante de Che. Ou teria sido apenas um amor platônico? (Ainda não vi a parte dois, por isso a pergunta.)

Talvez o filme fruste um pouco as expectativas para quem espera um super-thriller sobre a queda da ditadura de Fulgencio Batista e o início do governo de Fidel. Também dá pra reclamar da falta de mais sangue - Soderbergh evita mostrar, sempre que possível, os inimigos de Che e Fidel durante os tiroteios nas matas nas regiões ao redor de Havana. Mas, em compensação, ao vermos o filme do ponto de vista de Che, podemos entender um pouco mais como foi o processo da revolução, que estrategicamente começou em outras cidades, até finalmente chegar a Havana.

Algumas cenas em preto e branco, com Che na ONU, nos Estados Unidos, são bem interessantes e mostram trechos do corajoso discurso que ele fez na casa do inimigo. É um dos poucos momentos onde se fala inglês no filme. Fidel, que é mostrado como um homem amado pelos companheiros, é visto muito pouco, talvez até menos que seu irmão Raúl. A obra de Soderbergh enfatiza o problema de asma de Che, seus conhecimentos médicos, a valorização da educação (saber ler e escrever era essencial para fazer parte da guerrilha), sua coragem. Havia também, por parte dele e de Fidel, os dois grandes cabeças da revolução, a certeza de que queriam total independência. Não queriam que Cuba se tornasse uma espécie de colônia da União Soviética. É certamente um filme que agrada, principalmente, aos interessados na história da América Latina. Essa primeira parte de CHE foi baseada no diário do guerrilheiro sobre a revolução cubana. Eventualmente, o vemos escrevendo o tal diário, enquanto descansa e se prepara para novas batalhas.

quarta-feira, maio 27, 2009

LEONERA



Os outros dois filmes de Pablo Trapero exibidos em Fortaleza - DO OUTRO LADO DA LEI (2002) e FAMÍLIA RODANTE (2004) -, por alguma razão não consegui vê-los. Achei que aconteceria o mesmo com LEONERA (2008), mas felizmente o filme ficou mais uma semana em cartaz e eu pude conferir. E que bom. Pois acabei vendo um dos melhores títulos do ano, coisa rara neste atual período de vacas magras nos cinemas. Um dos principais méritos de LEONERA está em nos fazer acompanhar uma personagem "sem passado" - Julia, interpretada com intensidade por Martina Gusman - e ainda assim nos sentirmos um pouco na pele dela. Depois, li num texto sobre o cinema de Trapero que esses personagens sem passado e com um futuro imposto são recorrentes em sua filmografia.

Julia é presa logo no início do filme, acusada de ter matado o namorado e de ferir o suposto amante do namorado (Rodrigo Santoro, cada vez mais à vontade no cinema internacional). Se Julia é culpada ou inocente, não se sabe ao certo, mas impossível não ficarmos do seu lado. Até porque o filme muito raramente abandona o ponto de vista dela. A maior parte de sua metragem é centrada na penitenciária feminina onde ela se encontra. Por causa da gravidez, Julia recebe o benefício de ficar num pavilhão destinado a mulheres grávidas ou mulheres que entraram grávidas e que podem criar seus filhos até eles completarem quatro anos de idade, quando a criança tem sua guarda transferida para alguém da família ou, na falta de alguém, encaminhada a um orfanato.

O tempo passa rápido e vemos a evolução de Julia nessa situação, despindo-se de preconceitos e estabelecendo vínculos de amizade com as outras detentas, criando até mesmo um relacionamento fisicamente mais íntimo com uma delas. O salto temporal que mostra a cena de Julia, nua, com um barrigão no chuveiro, é um destaque. O próprio espectador, talvez um pouco chocado diante daquela realidade nua e crua de mulheres feias, tomando banho juntas e eventualmente brigando feito cachorros, vai aos poucos se acostumando com aquele mundo. Até porque, ao longo da narrativa, a visão do pavilhão é relativamente suavizada. E também porque não nos resta outra alternativa, pois o filme praticamente não se utiliza de narrativas paralelas ou de situações fora da prisão, a não ser quando Julia retorna ao juíz para tentar mais uma vez sua liberdade, ou com o surgimento da mãe de Julia e sua ligação com o neto. Rodrigo Santoro tem uma participação pequena mas marcante no filme, mas quem rouba as cenas são mesmo as mulheres. Alguns momentos são particularmente poéticos, com um misto de alegria e melancolia, como a cena do filho de Julia se balançando entre as grades, ou quando acontece uma celebração natalina no presídio. É filme de gente grande, carregado do forte sentimentalismo argentino, mas com uma força diante das adversidades e uma vontade de superar que causa emoção. Filmes que lidam com o tema do amor maternal sempre acabam por mexer com as emoções desse canceriano aqui. E com LEONERA não foi diferente.

terça-feira, maio 26, 2009

O DIA DA DESFORRA (La Resa dei Conti / The Big Gundown)



Graças ao estímulo do blog coletivo O Dia da Fúria, que no mês de maio está sendo dedicado ao cineasta Sergio Sollima, resolvi, para entrar em sintonia com a turma, furar a fila mais uma vez e ver o tão elogiado spaghetti western O DIA DA DESFORRA (1966). E acabo matando dois coelhos com uma só cajadada, pois também estou começando a ver um dos filmes que guardam relação com BASTARDOS INGLÓRIOS, de Quentin Tarantino, que contém em sua trilha sonora dois temas retirados do clássico de Sollima: "After the Verdict" e "La Resa", ambos do grande Ennio Morricone, que faz em O DIA DA DESFORRA um de seus mais belos trabalhos, ainda que se assemelhe à excepcional trilha de TRÊS HOMENS EM CONFLITO, de Sergio Leone. E é da obra-prima de Leone que sai também o protagonista, vivido por Lee Van Cleef. Ele interpreta Jonathan Corbertt, um caçador de recompensas que resolve entrar para o mundo da política. Durante uma festa patrocinada por um magnata, ele fica sabendo que um mexicano, Cuchillo Sanchez (Tomas Milian), teria estuprado e matado uma garotinha. Ele logo se prontifica a ir à caça do tal bandido. Seria o seu último trabalho de pistoleiro antes de mudar de vida. No entanto, não é fácil caçar Cuchillo. Ele até consegue rastreá-lo facilmente, mas o jovem fora-da-lei é escorregadio e foge rapidinho. Assim, o filme inteiro é sobre as tentativas de Corbertt em caçar o mexicano.

Sergio Sollima utiliza mais humor do que Leone em seu western de estreia. E ele fez tanto sucesso que dirigiu mais dois filmes do gênero logo em seguida: QUANDO OS BRUTOS SE DEFRONTAM (1967) e CORRE HOMEM CORRE (1968). A passagem de Sollima pelo spaghetti western é considerado o ponto alto de sua carreira. Do cineasta, eu só havia visto o estiloso policial CIDADE VIOLENTA (1970), com Charles Bronson. Sollima também coloca elementos bem estranhos em seu filme, como, por exemplo, uma mulher que é uma espécie de colecionadora de homens. Ela transa com eles, transforma-os em seus escravos e gosta de vê-los sendo açoitados. Parece uma personagem saída da obra do Marquês de Sade. Ela seduz o fugitivo mexicano e tenta seduzir também o pistoleiro americano.

Interessante que mesmo antes de sabermos da inocência do mexicano, já criamos por ele uma simpatia. Ele é tão inteligente e divertido que logo conquista o espectador. Bem mais do que o sisudo personagem de Van Cleef. O clímax do filme, que mostra o tiroteio final entre o verdadeiro responsável pela morte da garotinha e os dois protagonistas, se assemelha um pouco ao clímax de TRÊS HOMENS EM CONFLITO, dando também mais ênfase ao suspense do que propriamente ao tiroteio. Aliás, Cuchillo prefere usar uma faca em vez de um revólver. Há quem diga que isso é bastante representativo da auto-afirmação primitiva de um homem de um país pobre diante da modernidade bélica do homem branco. Sem falar que Cuchillo aparece o filme todo sujo e cheio de lama. Se nos westerns italianos, os americanos eram mostrados sujos, os mexicanos tinham que ser mais sujos ainda. :) No mais, Sollima também capricha nos planos gerais do deserto espanhol, captados na bela fotografia em scope e auxiliados frequentemente pelo belo tema musical de Morriccone que abre e encerra o filme. A cópia que consegui de O DIA DA DESFORRA parece ser uma das mais completas, apresentando momentos que foram cortados quando do lançamento do filme nos Estados Unidos. As cenas cortadas aparecem com áudio em italiano.

segunda-feira, maio 25, 2009

THE SKIN GAME



Tenho impressão que os produtores ingleses que financiavam os filmes de Alfred Hitchcock nas décadas de 20 e 30 provavelmente devem ter ficado com uma ponta de arrependimento quando viram no que se tornou o homem quando migrou para os Estados Unidos. Arrependimento por terem dado tantos trabalhos de encomenda que não interessavam ao cineasta, em vez de explorarem o seu potencial no que ele melhor sabia e gostava de fazer. Eram trabalhos que ele aceitava apenas por imposições contratuais e talvez por não ter ainda autoridade para dizer não. Assim, as obras de suspense, que eram as que mais importavam para Hitchcock acabaram sendo, durante a fase inglesa, exceções, entre comédias e dramas adaptados de peças teatrais de sucesso. No caso de THE SKIN GAME (1931), o nome do autor da peça é mais destacado nos créditos do que o nome do próprio Hitchcock. Ainda assim, comparando com outro filme baseado em peça teatral de sucesso feito um ano antes (JUNO AND THE PAYCOCK, 1930), THE SKIN GAME é uma evolução, no sentido de que o cineasta se mostra mais interessado em ousar nos movimentos e ângulos de câmera, muito mais elegantes. Destaque para a cena do leilão, onde a câmera fica pendendo de um lado para o outro, para simular o ponto de vista do leiloeiro. Ainda assim, prefiro uma cena externa, quando a câmera vai se afastando aos poucos de uma casa e temos uma visão da rua. O fato de a cópia ser da versão remasterizada do DVD francês ajuda um pouco a apreciar o belo visual do filme.

Todo esse capricho visual foi feito num momento em que ainda havia dificuldades com mixagem e edição de som. Assim, Hitchcock filmava tudo com quatro câmeras e uma só banda sonora para conseguir os melhores resultados. O uso do som direto no filme é bom, embora em alguns momentos, possa se sentir a voz dos personagens diminuindo à medida que eles vão se afastando da câmera. Pena que não era um fime exatamente do seu interesse, como era o trabalho imediatamente anterior, ASSASSINATO (1930), um de seus filmes mais importantes da fase inglesa. A trama de THE SKIN GAME envolve uma disputa entre famílias. O líder de uma delas é um novo burguês que quer investir em fábricas, expulsando os atuais habitantes do lugar e tirando a beleza rural da região. Essa decisão não é vista com bons olhos pelos vizinhos, um grupo de aristocratas que resolvem comprar a briga. Isso vai repercutir principalmente na vida da filha do novo burguês, que tem um segredo do passado que é posto em evidência, por causa do jogo sujo (o "skin game" do título) entre as duas famílias.

As melhores sequências do filme são os momentos de angústia da tal jovem. Ela tem uma expressividade impressionante e Hitchcock soube aproveitar bem isso. Nota-se que a câmera enamora-se da atriz. Mas no geral, o que acaba predominando mesmo é o tom teatral, numa trama que apesar de ter um final muito bom não consegue manter a atenção do espectador durante muito tempo. Eu, pelo menos, assisti meia hora, parei por ter me dispersado, e acabei começando a ver tudo de novo para entender melhor a trama, um pouco confusa, mas que vai se esclarecendo aos poucos.

sexta-feira, maio 22, 2009

U2 3D



Depois de algumas tentativas sem êxito, finalmente pude conferir a nova tecnologia 3D que aos poucos tem chegado às salas de cinema brasileiras. E acredito que comecei bem: com o documentário/show U2 3D (2007) que mostra a performance da maior banda de rock do mundo em diversos países (México, Brasil, Chile, Argentina, Austrália). Quanto ao 3D, confesso que os óculos me causaram um pouquinho de dor de cabeça, mas fiquei impressionado com alguns efeitos, especialmente os dos desenhos animados apresentados nos trailers. Os óculos, em si, são inteligentemente construídos e, além de leves e confortáveis, funcionam bem, junto com os óculos de grau também. Quanto à leve dor de cabeça, fico imaginando os efeitos desse tipo de tecnologia num filme de mais de duas horas, como provavelmente terá o aguardado AVATAR, de James Cameron. No filme do U2, os efeitos utilizados são interessantes, às vezes nos fazendo sentir como se estivéssemos no meio do público ou podendo segurar a mão do Bono. E gostei muito do sistema de som da sala do Via Sul também. O som estava bem dividido, de dar gosto.

Mesmo com o título de maior banda do mundo, pode-se dizer que o U2 já passou do seu auge criativo. Ainda assim, continua sendo uma banda admirável. A começar pela união dos quatro membros, um raro exemplo de amizade que vai além do profissionalismo - diferente dos Rolling Stones, por exemplo. Mas não é só isso que faz do U2 a banda que é, nem o carisma e interesse por causas humanitárias de seu vocalista. O que faz do U2 a banda que é, é a sua obra consistente e cheia de clássicos.

O filme foi editado a partir de shows da turnê Vertigo Tour, do álbum HOW TO DISMANTLE AN ATOMIC BOMB (2004), um dos menos inspirados da carreira da banda. U2 3D abre com "Vertigo", a faixa de abertura do referido disco, que tem um riff de guitarra poderoso. Ainda que eu costume dizer que "One" é a grande obra-prima da banda, entre tantas outras faixas especiais, o momento mais emocionante do show pra mim acontece na hora de "Miss Sarajevo", uma canção que fala de paz, tendo implicitamente a guerra como pano de fundo. A canção ainda conta com a leitura da Declaração dos Direitos Humanos, mostrada em dois enormes telões. A canção só não ficou melhor porque não tinha o Pavarotti para cantar o trecho operístico.

Mas voltando a "One", eu estava achando que a banda estava demorando a tocar uma faixa de ACHTUNG BABY (1991). Além de "One", a outra única faixa do disco que aparece no filme é "The Fly", com The Edge arrebentando nas guitarras. Como se trata de um show editado, e tendo visto a apresentação deles no Brasil (o exibido na Globo), sei que o disco mais ignorado da banda nos shows tem sido ZOOROPA (1993). Também senti falta de um momento que geralmente acontece nos shows da banda, que é quando Bono retira do público uma bela jovem para dançar com ela no palco, em geral durante "With or Without", embora eu também já tenha visto isso acontecendo durante "Tryin' to Throw Your Arms Around the World", mas isso foi nos bons tempos da Zoo Tv Tour. Essa bela canção, se eu não me engano, tem sido limada dos shows atuais.

Um dos maiores méritos do U2 está no fato de suas canções admitirem múltiplas interpretações, muitas vezes dependendo de nossa conexão sentimental com a música. Até mesmo uma faixa como "Pride (In the name of love)" - que aliás se mantém cada vez mais forte -, ainda que seja uma homenagem a Martin Luther King, pode ser vista também como uma canção religiosa, especialmente cristã. E falando em religião, que lindo que é ver a tentativa de Bono de unir três grandes religiões que têm a mesma raiz: Abraão. Com a intenção de pregar a paz no mundo, o vocalista utiliza símbolos do Islamismo, do Judaísmo e do Cristianismo formando a palavra "coexist". Eis um grupo admirável e digno do nosso mais profundo respeito. Mas o ideal seria mesmo se esse show fosse exibido num ambiente sem cadeiras, para pular, dançar e cantar junto. É essa a vontade que dá assistindo ao filme.

O set list:

Vertigo
Beautiful Day
New Year's Day
Sometimes You Can't Make It On Your Own
Love and Peace
Sunday Bloody Sunday
Bullet the Blue Sky
Miss Sarajevo
Pride (In the Name of Love)
Where the Streets Have No Name
One
The Fly
With or Without You
Yahweh

quinta-feira, maio 21, 2009

ANJOS E DEMÔNIOS (Angels & Demons)



Como é possível o mesmo diretor de um dos melhores filmes do ano (FROST/NIXON, 2008) ter dirigido um dos piores de 2009? Talvez Ron Howard não tenha tido o mesmo carinho para dar à sua produção cáça-níqueis o mínimo valor artístico. Tudo bem que a obra na qual ANJOS E DEMÔNIOS (2009) é baseada não é lá mesmo um grande romance e o cinema não tem o mesmo poder que a literatura tem de trabalhar com mais profundidade os temas apresentados. Mas isso não é desculpa. Já dizia o mestre Hitchcock que é bem mais possível pegar uma obra literária medíocre e fazer um grande filme do que o oposto. ANJOS E DEMÔNIOS é tão desleixado que nada no filme consegue ser minimamente interessante. Seu suspense e sua ação non-stop ficam a dever ao mais fraco dos episódios de 24 HORAS, para comparar com uma obra que também lida com a passagem impiedosa do tempo.

Como não sou exatamente um admirador da Igreja Católica, com seu passado negro e seus segredos bem guardados por covardia e interesses econômicos, o filme até poderia me agradar, pelas alfinetadas constantes que o personagem de Tom Hanks dá na Santa Madre Igreja. Sem falar no interesse que eu também tenho por simbolismos. Mas nada disso é bem utilizado no filme, que adota uma fotografia escura, que pode ser uma boa desculpa para trazer um tom mais sombrio à trama de assassinatos no Vaticano, mas pra mim nada mais é do que mais um indício de que o filme foi realizado "nas coxas", apressadamente, e com interesse exclusivo em capitalizar.

A seu favor talvez esteja a nova parceira de Tom Hanks, que pelo menos não é tão irritante quanto a Audrey Tatou em O CÓDIGO DA VINCI (2006). Mesmo assim, a israelense Ayelet Zurer se mostra bem apagada no filme. O que é até natural, para um filme que não tem tempo de privilegiar os personagens, em detrimento da ação. Ewan McGregor, sabendo que estava numa megaprodução picareta, se esforça para ser mais canastrão do que o costume. Talvez se todos no filme fossem como McGregor - que interpreta o filho do papa recém-falecido -, ANJOS E DEMÔNIOS funcionaria como uma boa comédia involuntária. Ou não, já que a ação contínua do filme, feita sem entusiasmo, deixa tudo muito monótono.

E por mais que o filme toque, muito superficialmente, em assuntos importantes e polêmicos - como a censura de Galileu Galilei -, do jeito que o diretor (e acho que o autor do livro também) amarra sua trama, tudo fica raso e sem importância. Mas o que mais me incomodou acontece na sequência em que Tom Hanks e Ayelet Zurer entram nos arquivos secretos do Vaticano e vêem o original de Galilei, antes da Igreja o obrigar a "mudar de ideia" e escrever outro tratado, desmentindo o que havia escrito. Nessa sequência, o casal de heróis encontra no documento palavras escondidas escritas em inglês, que segundo eles era considerada uma língua profana pela Igreja na época. Por mais que isso seja verdade - o fato de a língua inglesa ser profana naquela época -, isso me parece mais um meio de dar uma importância à lingua de Shakespeare mais do que o necessário.

quarta-feira, maio 20, 2009

24 HORAS - SÉTIMA TEMPORADA (24 – Season Seven)



Antes que peçam que eu mude o nome do blog para Diário de um "Seriéfilo" - a Alessandra, inclusive, até comentou, brincando, que isso aqui costumava ser um blog de cinema :) -, aviso que esse é o quinto e último da série de posts sobre as recém-encerradas temporadas de séries. E dessa vez falo sobre uma das séries que mais tempo eu acompanho. A sétima temporada de 24 HORAS (2009) foi surpreendentemente uma das melhores da história da série. Depois de uma sexta temporada vergonhosa e de um telefilme fraco e metido a Rambo que aparentemente antecipava uma temporada ainda mais medíocre, eis que os realizadores acertam a mão e fazem a engrenagem funcionar bem novamente.

Um dos problemas mais difíceis de 24 HORAS é a dificuldade de se fugir dos próprios clichês que a série criou ao longo dos anos. Mas uma vez que se percebe que não se pode fugir totalmente da fórmula original, o que se espera é que as pequenas inovações que venham a surgir e o bom andamento da direção e das reviravoltas na trama sejam suficientes para se criar uma boa e agradável temporada, com novas aventuras de Jack Bauer, um dos personagens mais representativos dos anos 2000 e que nasceu praticamente junto com a paranoia antiterrorista que abateu os Estados Unidos e boa parte do mundo. Assim, uma coisa que sempre veremos na série é Jack Bauer enfrentando um grupo de terroristas. Bem que eu queria ver uma coisa diferente disso, mas parece que isso nunca ocorrerá.

A novidade da sétima temporada é que a CTU, a unidade contra-terrorismo bancada pelo Governo americano fechou. E uma mulher é atualmente presidente do país. Aliás, aproveito para dizer que ela é uma das personagens mais chatas dessa temporada. Ficava o tempo todo esperando que a matassem, especialmente num dos momentos mais marcantes da temporada, que foi a invasão dos terroristas africanos à Casa Branca. Em compensação, uma certa agente do FBI conquistou a todos com sua beleza, seu charme e seu excelente desempenho. Trata-se da agente Renee Walker (interpretada por Annie Wersching), que tem as vinte e quatro horas mais intensas de sua vida, ao trabalhar em parceria com Jack Bauer, um homem que está tendo que responder na justiça pelos atos de tortura que realizou no passado.

Rostos velhos conhecidos aparecem: Tony Almeida, que estava morto; a fiel Chloe, sempre a postos para auxiliar Jack; Bill Buchanan, em participação importante; e até a sumida filha de Jack, Kim, dá o ar de sua graça e é responsável por um dos momentos mais emocionantes da temporada. Acho que desde a segunda ou terceira temporada que a série não me fazia chorar. E as circunstâncias em que isso acontece são mais ou menos parecidas. Geralmente envolvendo pessoas com expectativa de uma morte iminente em momento de despedida com um ente querido. No mais, é o velho corre-corre de sempre, os quase sempre eficientes ganchos, as mudanças constantes de vilões – quando um morre, outro pior aparece -, e sempre há um traidor, seja na Casa Branca, seja na CTU – no caso da sétima temporada, isso é transferido para uma agência do FBI em Washington. O último episódio guarda uma surpresa na estrutura, o que só ajuda a confirmar a impressão de que essa é uma das melhores temporadas de 24 HORAS. Andam dizendo que a oitava será a última.

P.S.: Está no ar uma das edições mais legais da Revista Zingu!, agora com Gabriel Carneiro como editor-chefe. O destaque é um dossiê do chamado "cinema de bordas", sobre cineastas brasileiros que fazem filmes underground, como Petter Baiestorf e Felipe M. Guerra, que geralmente trabalham com o gênero horror, cinema de guerrilha mesmo, não importando a pobreza da produção. O importante é filmar, fazer o que gosta. Na sessão Musas Eternas, Filipe Chamy escreve sobre a encantadora Julie Delpy.

terça-feira, maio 19, 2009

THE OFFICE – QUINTA TEMPORADA (The Office – Season Five)



A mais irregular das temporadas de THE OFFICE, a quinta (2008-2009) passou por momentos onde a série parecia fadada ao fim, chegando ao fundo do poço com o episódio "Prince Family Paper", onde Michael é convidado a prestar contas com o diretor regional da Dundler Mifflin, enquanto o resto da turma fica no escritório discutindo se Hilary Swank é ou não gostosa. É um momento "quero ser SEINFELD" que definitivamente não funciona na série. Talvez seja o pior episódio da história da série. O que escapa nesse episódio é a expressão de Michael ao ter que responder qual o segredo do sucesso econômico de sua filial.

Se em outras temporadas, Jim e Pam roubam a cena com seu romance, e nesta Andy se torna um personagem cada vez mais legal, a quinta temporada é definitivamente de Michael Scott. Steve Carell está cada vez mais à vontade no papel, imprimindo ao seu personagem uma tonalidade de cores que torna Michael às vezes odiável, como no episódio em que ele quer colocar a culpa de sua falta em Dwight ("Golden Ticket"), com medo de perder o emprego; outras vezes admirável, no fantástico episódio "Broke"; e em outras ocasiões, digno de pena, como no episódio "New Boss", quando seu emprego é ameaçado.

A quinta temporada também se caracterizou por levar às últimas consequências a vergonha alheia, fazendo com que a série transcendesse o caráter cômico e trafegasse por um território próximo da tragédia, atingindo o ápice no episódio "Two Weeks". Alguns espectadores até chegaram a vir com a teoria de que THE OFFICE não era uma sitcom, mas uma série bem mais séria do que se imaginava. Acho que não chega a ser o caso, mas a mistura de emoções que a série proporciona é inédita na televisão.

Destaque também para os prólogos cada vez mais caprichados. Como não se mijar de rir na cena em que Dwight faz uma simulação de incêndio no escritório e todo mundo fica desesperado? E como não rir de satisfação com a cena do sujeito que chega para falar com o Michael e a Pam é obrigada a mentir, dizendo que ele não está? E não é genial a sequência dos cheetos na Michael Scott Paper Company? São pequenas coisas que tornam a série grande e fazem com que a gente esqueça a irregularidade e abrace a série com prazer. Se o episódio final não foi tão bom quanto o citado "Broke", pelo menos flagrou toda a turma em momento de descontração, jogando vôlei, em clima alto astral. Sem falar no reencontro de Michael com Holly e a cena em completo silêncio no consultório médico. Não dá pra não admirar THE OFFICE.

Meu top 5 da temporada:

1. "Broke". Esse deveria ser o episódio final da temporada. Nunca a série me deixou com um sorriso de orelha a orelha tão satisfatório antes. No episódio, a nova empresa de Michael está à beira da falência, mas continua incomodando a Dundler Mifflin.

2. "New Boss". O diretor da Dundler Mifflin envia à filial em Scranton o autoritário Charles para vistoriar as atividades de Michael e sua equipe. Michael se revolta e vai até o chefão, nem que para isso ele tenha que perder o seu emprego.

3. "Frame Toby". Michael quer incriminar o seu desafeto Toby, conseguindo o que ele acredita ser maconha com os rapazes do depósito. E depois chama a polícia. Um dos melhores episódios onde Michael tenta mostrar o quanto odeia Toby.

4. "Moroccan Christmas". Numa festa marroquina organizada pela Phillys, o cabelo de Meredith pega fogo e Michael atribui o problema ao alcoolismo dela. Michael leva-a, então, à força até uma clínica de desintoxicação.

5. "Dream Team". Michael recruta seu time de empregados para formar a Michael Scott Paper Company.

segunda-feira, maio 18, 2009

PRISON BREAK – A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (Prison Break – The Complete Fourth Season)



Já estava até triste com os rumos e com a forma desleixada como a Fox estava tratando uma de suas séries mais populares e lucrativas. Especialmente após o hiato de vários meses – que já foi um desrespeito para uma série que prima pelo ritmo, pela adrenalina. Felizmente, o final reservado para a quarta temporada de PRISON BREAK (2008-2009) foi belo e poético. Mais até do que o final da terceira, que foi ao som de "Llhorando", a versão em espanhol de "Crying", do Roy Orbinson. Dessa vez, a canção escolhida foi a linda "Lay it down slow", do Spiritualized. Inclusive, assisti o finalzinho duas vezes, e nas duas vezes, eu chorei copiosamente. O conjunto da música, das imagens, e, principalmente, do carinho que a gente tem pelos personagens, tudo contribui para um momento de grande emoção, que funciona como um prêmio para o espectador que acompanhou fielmente as aventuras de Michael Scofield e cia. durante esses quatro anos.

A quarta temporada começa de maneira pouco satisfatória, com os roteiristas forçando a barra para reunir o time de ex-presidiários – inclusive T-Bag, Bellick e Sucre, que estavam presos em Sona, no Panamá - para formar um grupo com a finalidade de capturar Scylla, uma engrenagem eletrônica que tem uma importância ainda desconhecida. Ainda que perto do final da temporada finalmente saibamos do que se trata, Scylla funciona mesmo como um mcguffin, uma maneira de impulsionar a ação. O grupo é formado também por Michael Scofield, Lincoln Burrows, Sara Tancredi (sim, ela está viva, para alegria de Michael e dos fãs) e Alexander Mahone. Em troca, eles ganhariam a tão sonhada liberdade. Sabe-se que tudo isso é uma mera desculpa para a ação e o suspense. Porém, uma vez que se aceita e se releva isso, os episódios funcionam bem, seguindo a linha "homens numa missão" e séries de espionagem com influências de MISSÃO: IMPOSSÍVEL. O que já é algo positivo, pois traz novo fôlego para a trama.

Assim como sua prima mais próxima, 24 HORAS, PRISON BREAK também é cheia de reviravoltas na trama e de vilões que surgem, morrem e novos vilões aparecem. O primeiro vilão da temporada, um assassino frio e sanguinário que trabalha para o General Jonathan Krantz, é um dos melhores vilões da série. Dá para compará-lo com psicopatas de filmes de horror. Tanto que quando ele morre, boa parte da série morre junto com ele. Nessa última temporada, o mistério envolvendo a mãe de Scofield é revelado, trazendo algumas surpresas, ainda que, lá pelo final, o excesso de reviravoltas traga um pouco de indiferença ao espectador. A sorte é que o fechamento foi muito feliz. Não feliz no sentido de alegre, mas no sentido de acertado. Os minutos finais de PRISON BREAK destoam da temporada inteira, mas funcionam como um tributo respeitoso aos nossos heróis. Em especial, a Michael Scofield.

sexta-feira, maio 15, 2009

LOST - A QUINTA TEMPORADA COMPLETA (Lost – The Complete Fifth Season)



Antes de começar, um aviso de que esse texto pode conter spoilers. Depois do aviso, posso começar dizendo que se a quinta temporada (2009) não foi tão empolgante e instigante quanto a anterior, serviu para colocar vários pingos nos is. A penúltima temporada tem uma cara própria e o seu principal tema é o destino. Tanto destino no sentido de missão, quanto destino no sentido de acontecimento que pode ou não ser revertido. No final da temporada passada, Ben muda a ilha de lugar, para evitar que seu arquiinimigo, Charles Widmore, consiga rastreá-la novamente. E isso faz com que aqueles que continuam na ilha passem a viajar no tempo, passeando por diversos períodos da história do lugar, finalmente parando - graças a uma intervenção de Locke - no ano de 1977, com a Iniciativa Dharma em plena atividade, trabalhando na construção das diversas estações que aparecem desativadas quando nossos heróis embarcam na ilha.

Houve quem não gostasse dos exageros de ficção científica e do tom às vezes debochado dessa temporada – devido às sempre divertidas tiradas de Hurley, que ora faz uma comparação da relação de Miles e seu pai com Luke Skywalker e Darth Vader; ora brinca com um filme clássico de viagem no tempo: DE VOLTA PARA O FUTURO. Quanto ao lado mais sério da série, nem sempre a quinta temporada conseguiu ser feliz. Em alguns momentos, inclusive no episódio final duplo ("The Incident"), as interpretações do elenco nas cenas mais dramáticas pareceram forçadas e pouco convincentes, quando poderiam ser emocionantes e capazes de provocar o choro da audiência. Mas vai ver eu fiquei mais exigente depois de ver JOHN ADAMS para reclamar desse tipo de coisa.

O que há de muito interessante nesse último episódio é que tudo parece tão louco que na cena do sugamento magnético o clima é surreal. Senti-me como se estivesse num sonho. E a julgar pela tela branca no final, que dá a entender é de que tudo será diferente na sexta e última temporada. O problema do final da temporada é que tudo acontece muito rápido. Os personagens mudam de ideia de uma hora para a outra e o mínimo de verossimilhança necessária - dentro do que pode haver numa série que trata de viagens no tempo e ilhas que se movem - é ameaçada. Mesmo assim, LOST é tão gostosa de assistir que esses problemas incomodam muito pouco.

A quinta temporada trouxe de volta os flashbacks, depois dos empolgantes flashforwards da temporada passada. Mas nem todo episódio dessa temporada utilizou esse recurso. O que é bom, pois desengessou a série. Em alguns episódios as mentes criativas preferiram colocar a ação centrada na ilha, não focando especialmente em nenhum personagem em particular; em outros, naqueles que estavam fora da ilha; e um bem especial, "The Life and Death of Jeremy Bentham", traz uma dinâmica diferente, se destacando dos demais - ainda que não seja necessariamente o meu favorito da temporada. E se as brincadeiras de viagem no tempo já ficam divertidas com a maior parte da turma principal em 1977, um personagem especial, Daniel Faraday, trata de virar tudo de cabeça pra baixo, ao apontar a possibilidade de se mudar o destino de todos, o que faria com que Jack e Kate, por exemplo, nunca se conhecessem.

Kate, se não teve tanto destaque quanto na temporada passada – perdendo muitas vezes o foco das atenções para sua rival, Juliet – ao menos teve um episódio especial centrado nela, onde ficamos sabendo o que Sawyer disse para ela antes de pular do helicóptero na temporada passada. A cena dela com Aaron num supermercado é angustiante. E no que se transformou Locke? O "morto-vivo" voltou bem diferente na nova temporada e só saberemos o que de fato aconteceu com ele no próximo ano, quando também deveremos ter mais detalhes de qual o papel do misterioso Jacob no destino de todos.

quinta-feira, maio 14, 2009

BIG BANG: A TEORIA - A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (The Big Bang Theory – The Complete Second Season)



E começou a temporada de fechamento das temporadas. Simplesmente 27 séries encerram seus trabalhos - algumas definitivamente - no período de 11 a 17 de maio. Quatro dessas 27, eu acompanho. E tem mais uma que eu acompanho e que será encerrada nos próximos dias também. Portanto, nesta semana e na outra, o blog vai dar um espaço considerável às séries de televisão. Na segunda-feira passada, BIG BANG: A TEORIA fechou a sua segunda temporada (2008/2009). Bem azeitada, a sitcom dos quatro amigos nerds e da loirinha Penny fechou muito bem o segundo ano, melhorando o que já estava bom. Alguns episódios devem entrar para a história das sitcoms. A turma de Leonard, Sheldon, Penny, Howard e Raj se envolve em novas e engraçadíssimas situações.

Como notaram que Sheldon é uma das principais razões do sucesso da série, a maioria das situações é centrada nele. Até um pouco mais sociável ele se tornou – isto é, na medida do possível para a versão em carne e osso do C-3PO. Entre alguns dos melhores momentos de Sheldon, estão aqueles em que ele se esforça para fazer amizade com a Penny, que está cada vez mais à vontade com a turma de geeks. Em determinado episódio, ela chega até mesmo a ficar viciada num game! O desenvolvimento da amizade dela com Sheldon depois de muitas brigas é uma das melhores coisas dessa temporada. Muito legal ela o imitando quando ele bate em sua porta, no último episódio. Aliás, o último é também um dos mais divertidos, embora não fique num top 5. Mas é um que aposta no lado afetivo da série.

O pequeno e tarado judeu Howard também tem sua vez de brilhar, especialmente no episódio onde ele tem que lidar com a sua própria "insignificância", depois de ouvir uns insultos de Penny. Nesse episódio – e no que ele vai para Las Vegas com os amigos Leonard e Raj -, Howard recebe os merecidos holofotes. No mais, a segunda temporada não teve nenhuma mudança radical em relação à primeira. Apenas os roteiristas pareceram estar mais inspirados e o elenco incorporou de vez os personagens. As referências à cultura pop, como quadrinhos e filmes, continuam a todo vapor.

Abaixo, meu top 5 da temporada:

1. "The Maternal Capacitance". A mãe de Leonard chega para visitá-lo e a surpresa é que ela parece uma versão feminina do Sheldon. Os dois se dão muito bem e ele a considera "fascinating".

2. "The Financial Permeability". Sheldon empresta um dinheiro a Penny. O problema é que ela fica achando que ele está cobrando dela o tempo todo.

3. "The Euclid Alternative". Sheldon não anda de ônibus e tem dificuldade em encontrar carona para o trabalho com os amigos por ser muito pentelho. De mijar de rir a cena dele na motoca do Howard.

4. "The Barbarian Sublimation". Penny fica viciada num game ambientado no universo de Conan, o Bárbaro, chegando ao ponto de pedir conselhos a Sheldon em seu quarto em plena madrugada.

5. "The Bath Item Gift Hypothesis". É natal e Penny resolve presentear os amigos. Mesmo acreditando que o natal é uma farsa como festa cristã - já que nada mais é do que uma variação das antigas saturnálias – ele se sente obrigado a comprar um presente para Penny também. Impagável a cena em que ele recebe o presente dela.

quarta-feira, maio 13, 2009

FILMEFOBIA



Talvez o problema de FILMEFOBIA (2009) esteja em não conseguir sair do racional. As imagens, no máximo, são curiosas. Não me geraram medo ou repulsa. No entanto, sabe-se de sessões em que pessoas desistem de ver o filme achando se tratar de uma obra de tortura. Pra mim, o polêmico trabalho de Kiko Goifman não é eficiente em apavorar ou perturbar. Tem, sim, uma frieza cirúrgica diante das experiências apresentadas. Experiências que, segundo um dos voluntários, é sádica e cruel. Mas que pode ser vista com interesse à luz da antropologia. O próprio diretor, Kiko Goifman, é antropólogo e, por mais que não se possa gostar do seu filme, o interesse dele pelo assunto parece genuíno.

FILMEFOBIA consiste num falso documentário sobre experiências que um diretor de cinema – interpretado por Jean-Claude Bernadet – faz com pessoas que tem fobias. Segundo ele, a única imagem verdadeira é a de um fóbico diante de sua fobia. Assim, ele convida voluntários para participar do filme-experiência, que aceitam encarar os seus próprios medos. Para deixar tudo mais aterrorizante para o fóbico, a equipe os coloca amarrados em engrenagens estranhas, de modo a criar um ambiente incômodo. Às vezes, o recurso utilizado para aterrorizar as pessoas é bem simples, como a mulher amarrada na cadeira, enquanto um sujeito põe uma cobra em sua direção. Ela fica histérica, totalmente descontrolada. Alguns voluntários ficam tensos e imóveis diante de seus medos, um deles chega a desmaiar durante o processo. Alguns dos medos mostrados no filme apresentam desde casos mais comuns como medo de agulhas, de sangue e de altura até medos bem estranhos, como medo de anões e deficientes físicos ou de ralos de banheiro.

Uma das questões levantadas é o tênue limite entre o que é real e o que é representado. Como muito bem já demonstrou Eduardo Coutinho em seus trabalhos, diante da câmera, um entrevistado se transforma num ator. O diferencial de FILMEFOBIA é flagrar um momento em que essas pessoas, diante de um pavor sem igual, ignorariam a câmera, gerando emoções verdadeiras.

Interessante a observação de José Mojica Marins, que aparece no filme vestido de Zé do Caixão. Ele comenta uma experiência onde um rapaz que tem fobia de ratos é amarrado nu a um colchão onde se coloca dezenas de ratos. Mojica nota que o pênis do rapaz fica semiereto. Segundo ele, numa situação de completo pavor, isso não teria acontecido. Então, teria havido ali uma mistura de medo com a satisfação de um fetiche? O fato de estar nu e amarrado (indefeso) diante das câmeras teria dado ao rapaz um pouco de tesão? Seria ele um masoquista? Seriam vários dos voluntários masoquistas? Ou seriam os espectadores e a equipe do filme sádicos? Essas são outras questões que o filme levanta.

Quanto a Jean-Claude Bernadet, seu personagem é bastante curioso. Ele passa a maior parte do filme no que parece uma cadeira de rodas bem equipada, o que passa inicialmente a impressão de que ele estaria paralítico. No entanto, mais tarde o vemos andando pela cozinha de sua residência. O que mais me deixou curioso foi o fato de seu personagem ter sérios problemas de visão, de estar ficando cego e do quanto a completa escuridão o assusta. Fiquei curioso para saber se isso era um problema só do personagem ou se era também de Bernadet. Na internet, pude ver que o problema de visão de Bernadet é mesmo real e que ele está ficando cego em consequência da AIDS. Ah, e o sujeito que desmaia no filme, com medo de sangue, é o próprio Goifman!

terça-feira, maio 12, 2009

JUNO AND THE PAYCOCK



Alfred Hitchcock começou no cinema falado com o pé direito: dirigindo o ótimo CHANTAGEM E CONFISSÃO (1929). Infelizmente a fase inglesa do diretor continuou bem irregular e o jovem mestre do suspense ainda não tinha a devida liberdade na produtora onde trabalhava, dirigindo com frequência projetos de encomenda. Sem falar que na aurora do cinema falado, tanto Hitchcock quanto os demais cineastas tinham que lidar com as limitações do novo sistema. Ainda não era possível fazer mixagem de som ou dublagem. O som era captado "ao vivo" mesmo. Assim, em determinada cena de JUNO AND THE PAYCOCK (1930), onde vemos uma família ouvindo um gramofone, Hitchcock comentou em entrevista a Peter Bogdanovich que, para fazer essa cena, uma pessoa teve que prender o nariz e fazer voz nasalizada para passar a ilusão de que o som estava saindo do jurássico toca-discos.

JUNO AND THE PAYCOCK traz uma trama que gira em torno dos problemas de uma família irlandesa pobre em Dublin. O filme mostra com tom de humor (e posteriormente de tragédia) as dificuldades que eles enfrentam e a maneira como o Capitão Boyle, o patriarca da família e o homem que foge do trabalho como o diabo da cruz, tenta enfeitar o passado. Capitão Boyle e sua esposa rotunda Juno têm dois filhos: uma moça bonita e triste e um rapaz que perdeu um braço numa luta dos irlandeses contra os ingleses. O rapaz vive deprimido pelos cantos da casa e sua presença é carregada de certa morbidez. Uma reviravolta acontece quando um jovem advogado, forte candidado a namorado da moça, aparece com a notícia de que o Capitão Boyle herdará um bom dinheiro de uma herança.

Infelizmente o filme passa a impressão de que Hitchcock não estava mesmo interessado em filmá-lo. Sente-se essa falta de interesse no ar. E ele confirma isso em entrevista a François Truffaut. Interessante que JUNO AND THE PAYCOCK foi bastante elogiado pela crítica britânica na época de seu lançamento. Mas os elogios se devem mais à sua natureza literária ou teatral e pelo desempenho do elenco do que por suas qualidades cinematográficas, já que em poucos momentos o filme consegue ser mais do que uma peça filmada. Um desses momentos, porém, chega a ser memorável. Ele acontece quando Hitchcock aproxima a câmera do rosto do filho de Juno e do Capitão Boyle, assim que ele ouve, durante uma conversa na família, alguém falando sobre crimes e morte. É como se apenas naquele momento, Hitchcock finalmente se interessasse pelo filme. A câmera vai se aproximando vagarosamente do rapaz, como acontece, por exemplo, na famosa cena do "despertar da besta" de O PODEROSO CHEFÃO, quando Coppola aproxima a câmera de Al Pacino e revela o dom de liderança e sede de sangue de Michael Corleone. Nesse momento de JUNO AND THE PAYCOCK, Hitchcock solta sua verve e mostra porque suas obsessões por crimes e morte são tão fortes a ponto de fazerem a diferença até em filmes que não lidam diretamente com isso.

A cópia que eu peguei do filme era bem ruim, cortando as cabeças dos atores em diversos momentos. Deve ter sido algum problema de telecinagem, já que eu duvido muito que Hitchcock tenha filmado dessa maneira. Seria o cúmulo do desinteresse.

segunda-feira, maio 11, 2009

STAR TREK



Assim como a grande maioria dos mortais, não sou conhecedor do extenso universo de Star Trek. No cinema, só comecei a ver mesmo a partir de JORNADA NAS ESTRELAS – A NOVA GERAÇÃO (1994), que foi o filme que passou o bastão da tropa do Capitão Kirk para a tripulação do Capitão Picard. Portanto, meus conhecimentos da chamada série clássica se limitam às minhas vagas lembranças de alguns filmes que aluguei no início dos anos 90 e de reprises de episódios vistos na televisão em fins dos anos 80. Mas para corrigir isso pretendo rever os seis primeiros filmes quando sair o luxuoso box da Paramount. E por mais que digam que o novo filme agrada tanto aos velhos fãs da série quanto a novatos desse universo, acredito que quem tem pelo menos um pouco de familiaridade vai curtir mais. O importante é que o novo STAR TREK (2009), dirigido por J.J. Abrams, traz novo fôlego para uma série que parecia enterrada com o fracasso de NÊMESIS (2002). O novo STAR TREK, se for bem recebido por um grande público, pode também trazer de volta a moda dos filmes de ficção científica espaciais, que estão cada vez mais escassos nos dias de hoje.

Comparando com os filmes que vi da série, ainda tenho como favorito JORNADA NAS ESTRELAS – PRIMEIRO CONTATO (1996), mas a nova encarnação da tripulação de James T. Kirk, Spock e cia. faz bonito e promete dar nova vida à cultuada franquia. Os novos astros que incorporam a nova versão de STAR TREK, principalmente os que assumem os papéis de Kirk (Chris Pine) e Spock (Zachary Quinto), são bem parecidos com os originais. Quanto a nova Uhura, interpretada por Zoe Saldana, é bem mais bonita que a original. Uma gata. Quem eu não reconheci foi Eric Bana, que faz o papel do grande vilão do filme, Nero, que não põe fogo em Roma, mas faz pior: destrói todo o planeta Vulcano, como uma forma de se vingar de Spock, que teria causado um enorme mal à sua raça, os romulanos. Sua estratégia para se vingar de Spock é fazer uma viagem no tempo até o passado e encontrar a recém-formada tripulação da Enterprise tendo que testemunhar a destruição de um planeta inteiro, numa das melhores sequências do filme. Nessa sequência, o famoso recurso do teletransporte é utilizado de forma eletrizante. Assim como noutra cena em que vemos Kirk num país hostil, habitado por criaturas parecidas com insetos gigantes. Inclusive, a cena lembrou o fantástico TROPAS ESTELARES, ainda que sem a mesma carga de medo, perigo e violência da obra de Paul Verhoeven.

Outro mérito do novo STAR TREK é o fato de que é uma autêntica aventura, dessas de ação ininterrupta. O que de certa maneira pode até ter um efeito indesejado na vontade de agradar o público, pois chega uma hora que muita ação pode cansar, deixar o filme monótono. Por isso que ainda prefiro a primeira metade do filme, mesmo gostando também da segunda, com a tripulação da Enterprise enfrentando de fato os perigos de quem vai onde nenhum homem jamais esteve. Também de tirar o chapéu a maneira inteligente como os roteiristas deram um reboot na série. Utilizando o velho recurso da viagem no tempo, J.J. Abrams, ou quem quer que assuma o comando dos próximos filmes, poderá fazer qualquer mudança sem que isso perturbe a mitologia original, afinal, criou-se uma nova linha temporal, onde novas aventuras estão à disposição, sem tirar a essência da criação de Gene Roddenbery. E com a devida bênção de Leonard Nimoy, o Spock original.

Ah, e só agora eu fiquei sabendo de onde o Sheldon, de THE BIG BANG THEORY, tira o adjetivo "fascinating". :)

sexta-feira, maio 08, 2009

TOP 20 ANOS 30



1. M - O VAMPIRO DE DÜSSELDORF, de Fritz Lang
2. E O VENTO LEVOU, de Victor Fleming
3. LEVADA DA BRECA, de Howard Hawks
4. O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES, de John Ford
5. LUZES DA CIDADE, de Charles Chaplin



6. HERÓIS ESQUECIDOS, de Raoul Walsh
7. O HOMEM INVISÍVEL, de James Whale
8. PARAÍSO INFERNAL, de Howard Hawks
9. JOVEM E INOCENTE, de Alfred Hitchcock
10. KING KONG, de Ernest B. Schoedsack e Merian C. Cooper



11. MONSTROS, de Tod Browning
12. O MORRO DOS VENTOS UIVANTES, de William Wyler
13. NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS, de John Ford
14. A NOIVA DE FRANKENSTEIN, de James Whale
15. A DAMA DAS CAMÉLIAS, de George Cukor



16. O VAMPIRO, de Carl Theodor Dreyer
17. A REGRA DO JOGO, de Jean Renoir
18. BOÊMIO ENCANTADOR, de George Cukor
19. DUAS VIDAS / POEMA DE AMOR, de Leo McCarey
20. NINOTCHKA, de Ernst Lubitsch

A década de 30 foi especial para o cinema. Começou com o cinema falado dando seus primeiros passos e terminou com um ano de safras extraordinárias. Muitos afirmam que 1939 foi o ano de ouro da História do Cinema. Infelizmente também foi o ano do início de um período negro para a humanidade, com o estouro da Segunda Guerra Mundial, que modificou toda a política mundial e fez com que Hollywood se tornasse a grande potência cinematográfica dominante. Não à toa que A REGRA DO JOGO, de Jean Renoir, ganhou uma importância ainda maior, pelo fato de ter sido produzido enquanto a Europa lutava para sobreviver ao conflito.

Os anos 30 foram os anos dos filmes de gângster, com astros como James Cagney e Edward G. Robinson como figuras míticas. Provavelmente o melhor exemplar dessa época gloriosa seja HERÓIS ESQUECIDOS, do aventureiro Raoul Walsh. A Warner se firma como a produtora de filmes desse gênero, enquanto a Universal cresceria com filmes de terror de monstros clássicos, gerando obras-primas como A NOIVA DE FRANKENSTEIN e O HOMEM INVISÍVEL, ambos dirigidos pelo talentoso James Whale.

Grandes mestres do cinema mudo, como Charles Chaplin e Fritz Lang, mostraram vigor e uma capacidade de se superarem. O último trabalho de Lang na Alemanha pré-Segunda Guerra, M - O VAMPIRO DE DÜSSELDORF, encabeça a minha lista de favoritos. E se o filme de Lang não tinha nenhum vampiro real, um filme mudo tardio, dirigido por Carl T. Dreyer, chamado O VAMPIRO, trouxe o horror sofisticado e marcante para a história do cinema. Quanto a Chaplin, durante a década de 30, ele resistiu ao cinema falado enquanto pôde e Carlitos continuou vivo ainda nessa década. LUZES DA CIDADE é talvez o melhor filme do simpático vagabundo.

O cinema-espetáculo está muito bem representado pelo clássico melodrama E O VENTO LEVOU, talvez o filme mais popular de todos os tempos e que até hoje emociona audiências de todo o mundo. Outra grande produção que marcou época e que antecipou a era dos blockbusters dos anos 80 foi KING KONG. Nenhuma das outras versões da história do macacão gigante até hoje alcançou a excelência desse original. E falando em monstros, Tod Browning levou o conceito a outro patamar com seu MONSTROS, um dos filmes de horror mais originais, bizarros e que ainda impressionam, apesar da distância do tempo.

Dois diretores quase irmãos também chegaram ao cinema falado já com o status de gigantes. Caso de John Ford e Howard Hawks, cineastas de identidade própria, verdadeiros autores e mestres. Apesar de Hawks também ser um mestre nos filmes dramáticos - caso de PARAÍSO INFERNAL -, ele flertou mesmo com a comédia, tendo dirigido marcos do gênero. Era o apogeu das screwball comedies, que contam como sua obra máxima LEVADA DA BRECA com a genialidade de Cary Grant e Katharine Hepburn. Ambos os astros também estiveram presentes na obra de outro grande nome do cinema americano, George Cukor, que os utilizou no leve e elevador BOÊMIO ENCANTADOR. Cukor também se mostrou um mestre do melodrama, dirigindo uma deusa do porte de Greta Garbo, em A DAMA DAS CAMÉLIAS. Garbo também esteve no clássico NINOTCHKA, de Lubitsch. Quanto a Ford, duas obras são representativas de seu talento: O PRISIONEIRO DA ILHA DOS TUBARÕES e NO TEMPO DAS DILIGÊNCIAS.

No terreno dos melodramas, duas obras até hoje impressionam por estarem impregnadas de um espírito romântico: O MORRO DOS VENTOS UIVANTES e DUAS VIDAS. Se o primeiro flerta com a morbidez e o "mal do século", o segundo se tornaria um exemplar do gênero pelo menos até os anos 60. O filme de Leo McCarey, inclusive, ganhou dois remakes, o primeiro deles, produzido nos anos 50 e em technicolor, foi dirigido pelo próprio McCarey.

E foi na década de 30 que um jovem chamado Alfred Hitchcock se firmou como o mestre do suspense. Ainda que tenha alcançado o status de gênio apenas quando migrou para Hollywood, dos clássicos produzidos na Inglaterra, um tem o meu carinho especial: JOVEM E INOCENTE, filme que usa o tão querido tema do homem inocente acusado por um crime que não cometeu.

Lista feita por ocasião dos rankings promovidos pela Liga dos Blogues Cinematográficos.

quinta-feira, maio 07, 2009

A REGRA DO JOGO (La Règle du Jeu)



Desde meus primeiros anos de cinefilia que sei da fama de A REGRA DO JOGO (1939). A obra de Jean Renoir está quase sempre presente na maioria das listas de melhores filmes de todos os tempos. Mas não sei por que razão resisti por tanto tempo em ver essa obra. O primeiro Renoir que vi foi A MARSELHESA (1938), em companhia do amigo Michel, quando estive em São Paulo. E como achei o filme demasiado patriota, não expondo os contras, apenas os prós da Revolução Francesa, acabei não ficando tão interessado na filmografia do homem. Até que, por ocasião da brincadeira promovida pela Liga dos Blogues Cinematográficos de fazer mais um ranking de décadas, eu me senti na obrigação de ver pelo menos uns dois filmes fundamentais dessa década. Até tentei ver O ANJO AZUL, de Joseph von Sternberg, mas o DVD que eu tinha estava com defeito. Vi e já comentei por aqui DIABO A QUATRO, de Leo McCarey, mas esse não entrará no top 20. Mas com certeza A REGRA DO JOGO terá o seu lugar reservado.

A REGRA DO JOGO é um filme sem protagonistas, cheio de personagens, que até lembra alguns trabalhos de Robert Altman, principalmente ASSASSINATO EM GOSFORD PARK. A maior parte da ação acontece num castelo onde um casal da alta sociedade recebe um grupo de convidados. Entre esses convidados está André Jurieux, um aviador apaixonado por Christine, uma mulher casada cuja principal característica é a indecisão. Ela é esposa de Robert, que por sua vez também tem um caso com outra mulher. Octave, o personagem de Jean Renoir, também é apaixonado por Christine, mas guarda esse amor recolhido e até serve de intermediário entre a mulher e seu amigo aviador. O filme também mostra os casos entre os empregados da casa, que são de igual importância para o desenrolar da trama. O tom do filme é humorístico mas com um pé no drama, na reflexão. Afinal, a guerra já estava explodindo na Europa durante as filmagens. Tanto que a sequência em que os ricos caçam coelhos e pássaros no bosque, num verdadeiro massacre de animais, guarda relação com a guerra.

A cópia que consegui do filme contém alguns extras bem interessantes. O mais importante deles é JEAN RENOIR - FROM LA BELLE EPOQUE TO WORLD WAR II, a primeira parte de cerca de uma hora de duração de um documentário sobre a vida e a carreira de Renoir. Não sei em que DVD foi lançada a segunda parte. Essa primeira mostra a infância do diretor; a influência do pai, o famoso pintor Auguste Renoir; os primeiros trabalhos, caseiros; os primeiros filmes profissionais, passando por títulos importantes como A GRANDE ILUSÃO (1937) e A BESTA HUMANA (1938), até chegar em A REGRA DO JOGO, que marca o fim da primeira fase francesa de Renoir. Depois, o cineasta faria uma série de filmes nos Estados Unidos. O documentário, além de trazer depoimentos do próprio Renoir, também conta com convidados ilustres como Peter Bogdanovich, Wim Wenders e Claude Chabrol.

Também entre os extras, há um dos especiais sobre Renoir para o programa francês CINÉASTES DE NOTRE TEMPS. Destaque para a cena de Renoir, nos anos 60, recriando o seu personagem Octave, de A REGRA DO JOGO nas escadarias do castelo. Noutro extra, a apresentação do filme por Renoir, o cineasta fala da recepção inicial do público ao seu controverso filme. Há também um minidoc comparando a versão de 1939 com a versão de 1959, que foi acrescida de 12 minutos e se tornou a oficial. Há também, como curiosidade, o finalzinho da versão de 1939, com os cortes feitos na época e um epílogo diferente. Nota-se que essa versão anterior não deixava muito claro o mal entendido que acabou por matar um dos personagens do filme. Aproveitando a deixa, a tal cena da morte é bem esquisita. Um tanto inverossímil, mas como quase tudo no filme, principalmente o comportamento dos personagens, me pareceu estranho, mais uma estranheza não vai fazer muita diferença.

quarta-feira, maio 06, 2009

O SEQÜESTRO DO METRÔ (The Taking of Pelham One Two Three)



Quando fui assistir VELOZES E FURIOSOS 4, vi o cartaz do remake de O SEQÜESTRO DO METRÔ (1974), de Joseph Sargent. A nova versão está a cargo de Tony Scott e conta com Denzel Washington e John Travolta encabeçando o elenco. Promete ser no mínimo um bom filme, se Scott repetir o excelente desempenho de DEJA VU. Só não sei pra quando está agendada a estreia. O fato é que assim que vi o cartaz, lembrei logo que o Renato havia enviado uma cópia do filme original pra mim um tempo atrás (thanks, buddy!) e quis ver o original antes da estreia do remake. O SEQÜESTRO DO METRÔ (mantendo o elegante trema em homenagem ao título da época), de Joseph Sargent, conta com Walter Matthau como o policial - ou autoridade de trânsito da cidade, para ser mais exato - que serve de negociador entre um grupo de sequestradores do metrô de Nova York e o prefeito da cidade. O filme é um belo exemplar do que se fazia de bom no cinema de gênero nos anos 70 em Hollywood.

Na trama, quatro homens de meia-idade usando bigodes falsos e longos casacos invadem um metrô, tomam o controle do vagão principal e chantageiam as autoridades em troca de uma boa quantia em dinheiro. Caso o dinheiro não seja encaminhado no lugar especificado no tempo que desejam, eles executarão um a um os reféns do vagão. O fato de os criminosos usarem os nomes de Mr. Blue, Mr. Gray etc. foi provavelmente inspiração para que Quentin Tarantino fizesse o mesmo em seu CÃES DE ALUGUEL. O filme constrói muito bem o suspense, sempre deixando o espectador interessado na guerra de nervos da situação. Outro detalhe interessante é que O SEQÜESTRO DO METRÔ é narrado em tempo real, antecipando em muitos anos a tensão gerada pela rápida passagem do tempo na série 24 HORAS. (Na verdade, essa história do uso do "tempo real" no cinema já não era bem uma novidade, mas como é um recurso pouco utilizado, vale sempre frisar.) O que causa alegria para os fãs de SEINFELD é ver Jerry Stiller - mais conhecido hoje como o pai de George Constanza - no papel do colega de trabalho do personagem de Matthau. Robert Shaw, de TUBARÃO, é o líder do bando, o Mr. Blue.

Curiosamente, o produtor do filme falou em entrevista que O SEQÜESTRO DO METRÔ foi um grande sucesso nas cidades que possuem metrô, mas que foi considerado um fracasso nas demais cidades. Outra curiosidade que eu pesquei do IMDB é que as autoridades de segurança do metrô de Nova York a princípio não aceitaram que as filmagens fossem feitas no próprio metrô, com medo de que algum criminoso fosse imitar a ação dos criminosos. Eles só aceitaram depois da intervenção do prefeito, mas exigiram que a United Artists pagasse um seguro antissequestro.

terça-feira, maio 05, 2009

SIMPLESMENTE FELIZ (Happy-Go-Lucky)



A alegria e a tristeza são apenas resultados de processos químicos em nosso cérebro? Sendo assim, uma pessoa que é muito falante e alegre não deve ter um distúrbio mental tanto quanto uma pessoa muito reservada e caladona? Mesmo que seja, claro que as pessoas preferem estar eufóricas do que depressivas, certo? Muitos acreditam que não estamos neste mundo para sofrer, mas para sermos felizes. E por mais que digam que a alegria é superficial (enquanto a tristeza é profunda), nos dias de hoje, em que a sociedade vive atacada por paranóias, pânicos e pela depressões, é preciso encontrar um caminho para a felicidade, para a apreciação das coisas pequenas da vida. Aliás, não é preciso: é essencial não encontrar apenas consolações mas algo próximo da felicidade mesmo – se é que isso é possível. Poppy, a personagem de Sally Hawkins em SIMPLESMENTE FELIZ (2008), é naturalmente feliz com sua vida. Não importando a situação difícil em que se encontra, Poppy não esquenta nem mesmo quando, ao entrar numa livraria num belo dia de sol, percebe ao sair que acabaram de roubar sua bicicleta. Até faz um comentário engraçado: diz que nem teve tempo de se despedir da bicicleta. E à noite já está dançando euforicamente numa danceteria com um grupo de amigas solteiras. Inclusive, ela nem liga muito de estar sozinha. Talvez por achar que encontrar alguém é só questão de tempo.

Depois de dois filmes bastante depressivos – AGORA OU NUNCA (2002) e VERA DRAKE (2004) -, o inglês Mike Leigh volta com uma espécie de celebração da vida. Talvez por julgar necessário nesses tempos estranhos em que vivemos. Nem sempre o cinema (ou qualquer outra forma de arte) precisa ser um espelho da vida. Pode-se usar a arte como um meio de resistência, de luta contra a situação vigente, ainda que seja quase nadar contra a maré. Mesmo assim, o filme de Leigh não ignora os problemas vividos pela sociedade atual, apresentando, por exemplo, o personagem do instrutor de autoescola. O cara é mais nervoso do que o meu primeiro instrutor de autoescola, que era um grande pé-no-saco, de tão chato. O tal instrutor do filme é paranóico e está à beira de um ataque de nervos.

Um dos riscos de SIMPLESMENTE FELIZ é o de ser confundido com um filme de autoajuda. Mas acredito que Leigh tem o devido cuidado de distanciar o seu filme de um melodrama, o que, levando em consideração os últimos trabalhos do diretor, não deixa de ser um mérito. SIMPLESMENTE FELIZ também conta com uma fotografia bem colorida, que destoa dos tons marrons e sombrios ou as fotografias esmaecidas típicas da cinematografia inglesa. Até parece que os ingleses resolveram usar novos tipos de lentes. Ou então Leigh tem um carinho especial por seu filme, o bastante pra ter caprichado também no aspecto formal. A beleza da fotografia e o fato de o filme evitar os dias de chuva, privilegiando os dias de sol, passam um ar de alegria e descontração que não se via no cinema inglês desde sei lá quando. Bom seria que essa alegria fosse contagiante e duradoura e um filme como esse tivesse o poder de mudar o mundo.

P.S.: Está no ar um blog especial: O Dia da Fúria, comandado por um time de feras da blogosfera, vários deles, visitantes assíduos aqui do blog. Todo mês eles vão focar num diretor em particular. Acho que o projeto da turma vai ser uma contribuição valiosa para a cinefilia brasileira.

segunda-feira, maio 04, 2009

JOHN ADAMS



Acho difícil ver neste ano algo tão bom, seja no cinema, seja na televisão, quanto JOHN ADAMS (2008), a premiada minissérie da HBO. É mais um exemplo de excelência da emissora, que ainda tem o mérito da regularidade – o mesmo diretor e o mesmo roteirista estão presentes em todos os sete capítulos, dando uma uniformidade que falta a outros trabalhos para a televisão. Trata-se de um grande épico familiar ambientado nos Estados Unidos da época da independência e seus primeiros cinquenta anos pelo ponto de vista de John Adams, o segundo Presidente americano e um dos menos lembrados pelos livros de História. Claro que o espectador que decidir se aventurar por essa produção vai ter que estar disposto a assistir vários debates políticos, mas em nenhum momento esses debates deixam de ser minimamente interessantes. São na verdade bastante empolgantes, principalmente para quem tem interesse nesse momento histórico. JOHN ADAMS é também uma grande aula de História. Aprendi nesses últimos dias sobre o assunto mais do que nos livros didáticos. Claro que a verdade histórica sempre pode ser questionada, ainda mais em filmes ou produções televisivas, mas a minissérie passa tanta credibilidade que não dá pra imaginar que o que está ali na tela seja uma mentira. E eu diria também que o que eu chorei ontem deve ter esgotado o meu estoque de lágrimas para o ano inteiro.

Sim, JOHN ADAMS, além de tudo, é muito emocionante. Muito por causa das performances espetaculares de Paul Giamatti e Laura Linney. Os dois astros interpretam John e Abigail Adams. O primeiro episódio começa num momento em que já havia em Massachusetts uma grande movimentação em torno de uma independência das treze colônias das mãos dos britânicos. Brigas nas ruas entre soldados da coroa com americanos já eram rotina. O Congresso ficava em Filadélfia e John Adams, mostrando justiça e imparcialidade depois de se mostrar um grande advogado defendendo justamente alguns soldados britânicos, foi convidado a fazer parte da elite política do embrião do novo país. E segundo o que vimos na minissérie, a Independência dos Estados Unidos não teria surgido se não fossem homens como Adams, Thomas Jefferson e o General George Washington (David Morse), responsável pela liderança do exército rebelde durante a sangrenta guerra pela Independência. Quem não sai bem na fita é Benjamin Franklin (outra performance brilhante de Tom Wilkinson), que é visto como um sujeito que ganhou fama e glória por feitos de seus colegas, passando o fim de sua vida na corte da França, vivendo de luxo. E é muito legal ver com antecedência a lista dos presidentes americanos e ver que os três primeiros estão ali naquela turminha, no Congresso. Thomas Jefferson, em especial, é um personagem fascinante. Ele é o principal redator da Declaração de Independência e de uma nobreza admirável. Nas vezes que ele aparece, interpretado por Stephen Dillan (de PECADOS INOCENTES), ganha imediatamente a simpatia e o respeito do espectador. Adoro quando Adams fala com ele sobre o quanto suas ideias são revolucionárias e pergunta-lhe porque ele não as manifesta no Congresso. Ele responde que porque não tem o dom da retórica. O gesto de aceitação do cargo de George Washington e sua hombridade e humildade também me deixaram emocionado. E olha que nem chegamos a ver Washington em ação, combatendo os britânicos, já que o ponto de vista é de Adams.

É na família de John Adams e no contexto histórico que os cerca que a minissérie firma seus alicerces. Assim, na vida de Adams, vemos passar eventos importantes como a luta pela independência, a busca pelo auxílio da França, John Adams sendo eleito como embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra e seu encontro com o Rei (louco) George III, a emocionante cerimônia de posse de George Washington, a Revolução Francesa, a ascensão de Napoleão Bonaparte, entre outros momentos importantes. E o excelente trabalho de reconstituição de época, junto com a magnífica interpretação do casal de protagonistas e do elenco de apoio, mais um capricho nos demais detalhes, tudo isso junto faz de JOHN ADAMS uma obra-prima, que só não encontra espaço no cinema porque o cinema deixou de ser tão bom e adulto como foi no passado. E porque é uma história muito longa para a telona. Mas é muito curta para quem a acompanha. Quando se chora de emoção com o final da minissérie, chora-se também pelo fato de ela estar acabando. Como não se comover com o momento da despedida de John e Abigail, já velhinhos; ele chamando-a de "minha amiga"? Ela, que foi tudo pra ele: esposa, conselheira, amiga. E puxa, como Laura Linney é um gigante em cena. Cada momento dela na tela é carregado de fortes emoções. Maravilhosa, essa mulher.

O diretor de todos os episódios de JOHN ADAMS chama-se Tom Hooper e ele está a cargo da nova adaptação do clássico "A Leste do Éden", de John Steinbeck, que deu origem a VIDAS AMARGAS, de Elia Kazan, com James Dean no papel principal. É pra ficar de olho.

Agradecimentos ao chapa Renato Doho. Se não fosse por ele, que tanto elogiou essa produção, eu não teria tomado a iniciativa de baixar os episódios e vê-los com interesse.

sexta-feira, maio 01, 2009

X-MEN ORIGENS: WOLVERINE (X-Men Origins: Wolverine)



O que dizer de um filme cuja única parte interessante é os créditos iniciais? Não diria que fiquei desapontado com X-MEN ORIGENS: WOLVERINE (2009), porque já não esperava mesmo grande coisa do filme, mas aí é que está: se eu já não esperava nada, as chances de encontrar algo de bom podiam ser maiores. E eis que me deparo com um dos filmes mais insípidos desse novo gênero que se transformou os filmes de super-heróis. Nem estou reclamando aqui da falta de fidelidade aos quadrinhos. Isso de fato me incomodou no primeiro filme dos X-Men, mas depois fui relevando e deixando de lado, tentando apreciar o filme independente dos quadrinhos. Afinal, nem sempre fidelidade ao original quer dizer excelência. Muitas vezes é fugir da essência e buscar outros rumos para a mitologia o caminho certo a fazer. Mas o que testemunhamos nesse filme de Wolverine, dirigido pelo sul-africano Gavin Hood (INFÂNCIA ROUBADA, 2005; O SUSPEITO, 2007), é um total descaso com o público. Ou com o público que seja minimamente exigente. Acham que entregar um roteiro meia-boca, arranjar um elenco inexpressivo, enfatizar a ação e deixar que Hugh Jackman leve o filme nas costas é o bastante. Por mais hábil e carismático que o ator seja, não é ele quem vai transformar um projeto ruim num bom filme.

Minha intenção inicial hoje era conferir a tal tecnologia 3D, que supostamente estaria à disposição dos fortalezenses no shopping Via Sul. Saí de casa cedo a fim de chegar a tempo para ver a primeira sessão e comer algo por lá mesmo. Estava encarando o fato de ir a um shopping novo e desconhecido pra mim e conferir salas novas quase como se estivesse em outra cidade. Mas qual não foi a minha decepção quando, ao chegar lá, os sujeitos encarregados de "recepcionar" os visitantes no estacionamento avisam que só estavam funcionando três salas. A sala 3D, que exibia MONSTROS VS. ALIENÍGENAS, não estava pronta ainda. Pelo menos tinha alguém lá pra avisar, não é? E ao menos o lugar é perto do Iguatemi e pude chegar a tempo para pegar a primeira sessão do mutante mais invocado da Marvel, embora sem a mínima empolgação. Bom também eu não ter que esperar muito num shopping cheio de lojas fechadas: a sessão iria começar em quinze minutos, tempo suficiente para comprar alguma coisa para comer durante o filme.

Mas voltando ao filme em questão, o que mais poderia dizer? Será que tem algo em WOLVERINE que eu tenha gostado, além dos já citados créditos iniciais, os que mostram a participação de Logan e seu irmão em várias guerras? Talvez a atriz que faz o interesse amoroso de Logan, a bela Lynn Collins, com seus belos olhos verdes, tenha me chamado a atenção. Mas nem ela nem nenhum dos outros membros do elenco conseguiram dar credibilidade à trama. Liev Schreiber, ainda que injete energia ao personagem Victor Creed, acaba se tornando apenas mais um vilão irritante. O coitado do Dominic Monagham (o Charlie, de LOST) fica colocando as mãos na cabeça para mostrar que é alguém que tem poderes psíquicos. E na tentativa de agradar os fãs dos X-Men que acompanharam as aventuras dos mutantes nos negros anos 90, colocaram, sem muita preocupação com a ordem cronológica dos quadrinhos, o personagem Gambit, que fez muito sucesso na década passada. Mas pra que colocar tanta gente cheia de superpoderes? Isso só faz transformar o filme num sub-X-MEN, quando os produtores tinham a chance de construir um drama envolvente e perturbador sobre o passado de um dos personagens mais importantes e presentes do Universo Marvel.

Wolverine se tornou maior que os X-Men e hoje faz parte até dos Novos Vingadores, além de ter dois títulos próprios, participação esporádica nos títulos dos outros heróis e de vez em quando edições especiais, como as que a Panini despejou nas bancas no mês de abril, aproveitando o possível hype em torno do filme. Agora é esperar que em 2010 a produtora de filmes da Marvel mantenha o pique iniciado no ano passado e que HOMEM DE FERRO 2 e THOR sejam feitos com todo o cuidado e dedicação.