segunda-feira, maio 04, 2009

JOHN ADAMS



Acho difícil ver neste ano algo tão bom, seja no cinema, seja na televisão, quanto JOHN ADAMS (2008), a premiada minissérie da HBO. É mais um exemplo de excelência da emissora, que ainda tem o mérito da regularidade – o mesmo diretor e o mesmo roteirista estão presentes em todos os sete capítulos, dando uma uniformidade que falta a outros trabalhos para a televisão. Trata-se de um grande épico familiar ambientado nos Estados Unidos da época da independência e seus primeiros cinquenta anos pelo ponto de vista de John Adams, o segundo Presidente americano e um dos menos lembrados pelos livros de História. Claro que o espectador que decidir se aventurar por essa produção vai ter que estar disposto a assistir vários debates políticos, mas em nenhum momento esses debates deixam de ser minimamente interessantes. São na verdade bastante empolgantes, principalmente para quem tem interesse nesse momento histórico. JOHN ADAMS é também uma grande aula de História. Aprendi nesses últimos dias sobre o assunto mais do que nos livros didáticos. Claro que a verdade histórica sempre pode ser questionada, ainda mais em filmes ou produções televisivas, mas a minissérie passa tanta credibilidade que não dá pra imaginar que o que está ali na tela seja uma mentira. E eu diria também que o que eu chorei ontem deve ter esgotado o meu estoque de lágrimas para o ano inteiro.

Sim, JOHN ADAMS, além de tudo, é muito emocionante. Muito por causa das performances espetaculares de Paul Giamatti e Laura Linney. Os dois astros interpretam John e Abigail Adams. O primeiro episódio começa num momento em que já havia em Massachusetts uma grande movimentação em torno de uma independência das treze colônias das mãos dos britânicos. Brigas nas ruas entre soldados da coroa com americanos já eram rotina. O Congresso ficava em Filadélfia e John Adams, mostrando justiça e imparcialidade depois de se mostrar um grande advogado defendendo justamente alguns soldados britânicos, foi convidado a fazer parte da elite política do embrião do novo país. E segundo o que vimos na minissérie, a Independência dos Estados Unidos não teria surgido se não fossem homens como Adams, Thomas Jefferson e o General George Washington (David Morse), responsável pela liderança do exército rebelde durante a sangrenta guerra pela Independência. Quem não sai bem na fita é Benjamin Franklin (outra performance brilhante de Tom Wilkinson), que é visto como um sujeito que ganhou fama e glória por feitos de seus colegas, passando o fim de sua vida na corte da França, vivendo de luxo. E é muito legal ver com antecedência a lista dos presidentes americanos e ver que os três primeiros estão ali naquela turminha, no Congresso. Thomas Jefferson, em especial, é um personagem fascinante. Ele é o principal redator da Declaração de Independência e de uma nobreza admirável. Nas vezes que ele aparece, interpretado por Stephen Dillan (de PECADOS INOCENTES), ganha imediatamente a simpatia e o respeito do espectador. Adoro quando Adams fala com ele sobre o quanto suas ideias são revolucionárias e pergunta-lhe porque ele não as manifesta no Congresso. Ele responde que porque não tem o dom da retórica. O gesto de aceitação do cargo de George Washington e sua hombridade e humildade também me deixaram emocionado. E olha que nem chegamos a ver Washington em ação, combatendo os britânicos, já que o ponto de vista é de Adams.

É na família de John Adams e no contexto histórico que os cerca que a minissérie firma seus alicerces. Assim, na vida de Adams, vemos passar eventos importantes como a luta pela independência, a busca pelo auxílio da França, John Adams sendo eleito como embaixador dos Estados Unidos na Inglaterra e seu encontro com o Rei (louco) George III, a emocionante cerimônia de posse de George Washington, a Revolução Francesa, a ascensão de Napoleão Bonaparte, entre outros momentos importantes. E o excelente trabalho de reconstituição de época, junto com a magnífica interpretação do casal de protagonistas e do elenco de apoio, mais um capricho nos demais detalhes, tudo isso junto faz de JOHN ADAMS uma obra-prima, que só não encontra espaço no cinema porque o cinema deixou de ser tão bom e adulto como foi no passado. E porque é uma história muito longa para a telona. Mas é muito curta para quem a acompanha. Quando se chora de emoção com o final da minissérie, chora-se também pelo fato de ela estar acabando. Como não se comover com o momento da despedida de John e Abigail, já velhinhos; ele chamando-a de "minha amiga"? Ela, que foi tudo pra ele: esposa, conselheira, amiga. E puxa, como Laura Linney é um gigante em cena. Cada momento dela na tela é carregado de fortes emoções. Maravilhosa, essa mulher.

O diretor de todos os episódios de JOHN ADAMS chama-se Tom Hooper e ele está a cargo da nova adaptação do clássico "A Leste do Éden", de John Steinbeck, que deu origem a VIDAS AMARGAS, de Elia Kazan, com James Dean no papel principal. É pra ficar de olho.

Agradecimentos ao chapa Renato Doho. Se não fosse por ele, que tanto elogiou essa produção, eu não teria tomado a iniciativa de baixar os episódios e vê-los com interesse.

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