segunda-feira, janeiro 13, 2003
Bom, como sempre os filmes de James Bond não são extraordinariamente bons, tem uma fórmula que eu acho ser uma camisa de força. Ainda bem que dessa vez, o homem por trás da câmera era Lee Tamahori. O cara é dos bons. Quem ainda não viu O AMOR E A FÚRIA, drama pungente que ele fez ainda na Nova Zelândia, precisa ver. Continua sendo o melhor filme dele, ainda que ele tenha feito outros filmes legais quando Hollywood o fisgou (NO LIMITE, NA TEIA DA ARANHA). Mas acho que ele fez a diferença nessa nova aventura. Fez um James Bond mais humano e frágil, dentro do possível, é claro. Não dá nem pra comparar esse filme com o anterior, o horrível O MUNDO NÃO É O BASTANTE. Arghh.. Esse começa muito bem e a cena seguinte, o clipe da Madonna, mostrando fogo, gelo, escorpiões e James Bond sendo torturado, corre o risco de ser o melhor da série. Bem legal mesmo. E a canção da Madonna, que inicialmente eu não gostei, no cinema eu achei uma beleza. A ponta da Madonna no filme é que foi meio sem graça, mas tudo bem. O filme também acertou nas Bond girls - Halle Berry e Rosamund Pike são lindas, eu, preferindo essa última. Os vilões também não fazem feio ( Zao e Gustav Graves). Como sempre, me canso no final com esse tipo de filme, cheio de explosões. Mas apesar de tudo, esse saiu melhor que a encomenda.
DAMAS DE FERRO (Sa tree lex)
Esse filme eu assisti no primeiro domingo do ano. E nem quis comentar logo porque odiei o dito cujo. É a história real (!) de um time de voleibol formado por gays e travestis e que ganhou o campeonato nacional da Tailândia. Duas coisas que fizeram eu não ter gostado do filme: 1) não gosto de filmes sobre esportes e 2) não gosto de filmes mostrando bichas loucas desvairadas, e apelando pra piadas, estilo PRISCILA. Não curto os gêneros. E o que é que eu tava fazendo naquela sala? Eu mesmo me perguntava isso. A tortura durou 1h40min. E o pior é que a sala do Espaço Unibanco tava cheia. O pior veio depois quando voltei pra casa e ainda peguei o ônibus errado. Fui parar no terminal do Siqueira e demorei horas pra chegar na minha casa, sofrendo da maldita amigdalite. Arghh.. E eu que queria esquecer isso. Não riam de mim, por favor.
O SUSPEITO DA RUA ARLINGTON (Arlington Road)
Em 1999 eu fui ao cinema ver esse filme mas devido a problemas no projetor, eu só pude ver metade dele. O ruim é que eles deram um vale ingresso, mas na semana seguinte o filme já tinha saído de cartaz. Só agora no finalzinho de 2002 eu fui alugar o DVD. Gravei numa fitinha VHS e vi recentemente. Filmão esse do Mark Pellington. Da primeira a última cena, o filme empolga. Na história, Jeff Bridges começa a suspeitar que o seu vizinho, Tim Robbins, é um terrorista perigoso. A tensão cresce até o momento final, com uma conclusão bem fora do comum. E outro destaque é Joan Cusack como a esposa de Robbins. Assustadora com aquele sorriso dela. Caramba! Não sei se o filme teria sido feito hoje, depois dos ataques de 11 de setembro. Ah, e no DVD, tem o final alternativo também.
sexta-feira, janeiro 10, 2003
Como atualmente tá difícil ver filmes bons no cinema, temos que apelar para a telinha. Recentemente vi quatro westerns de boa (ou ótima) qualidade. Seguem abaixo os comentários dos mesmos:
WYATT EARP
Este épico de mais de 3 horas de duração, dirigido por Lawrence Kasdan (um de meus diretores favoritos) conta a história do lendário homem da lei Wyatt Earp (Kevin Costner) desde a sua adolescência, quando tentou fugir de casa para ir para a cidade, mas foi impedido pelo pai (Gene Hackman), até a velhice. Em se tratando de atores, WYATT EARP é o western que tem um dos melhores elencos que eu já vi. Além dos já citados Kevin Costner e Gene Hackman, o filme ainda traz Dennis Quaid, Michael Madsen, Isabella Rosselini, Bill Pullman, Jeff Fahey, Tom Sizemore, Téa Leoni, entre outros. O filme tem aquele estilo lentão característico dos filmes de Kasdan, mas com um tom mais épico, acentuado pela bela trilha de James Newton Howard. A história tem tons trágicos já do início quando Earp sofre pela perda da esposa e parte para uma vida errante. Quando se torna xerife, ele adota o desarmamento nas cidades por onde passa. Além de o filme ter um Kevin Costner no auge da carreira, um outro destaque é Dennis Quaid no papel de um tuberculoso Doc Holiday. Esse personagem é fascinante. Interessante conhecer essas lendas americanas do século XIX. Vale muito assistir esse filme, nem que seja "em fascículos", por causa da longa duração. Uma curiosidade: no IMDB constam 28 filmes com o personagem Wyatt Earp e 20 com Doc Holliday.
Um diálogo entre Earp e Holiday:
Wyatt Earp: You been a good friend to me, Doc
Doc Holliday: Shut up.
WILD BILL
Wild Bill foi outro lendário homem da lei do oeste americano. Ele foi contemporâneio do mais lendário ainda Buffalo Bill Cody, que aparece rapidamente no filme, interpretado por Keith Carradine. Quem faz o papel título é Jeff Bridges. No começo achei meio esquisito ver Bridges de cowboy, mas depois fui me acostumando. O grande drama da vida de Wild Bill é que ele tinha glaucoma. Ele sabia que iria ficar cego e sofria de dores nos olhos. O filme começa contando de fases importantes da vida de Bill até se centrar no último período de sua vida, quando ele está sofrendo com a doença e com a perseguição do garoto David Arquette. O elenco também é estelar: além dos já citados, tem as beldades Diane Lane e Christina Applegate e também Ellen Barkin e John Hurt. Esse telefilme não é dos melhores de Walter Hill, mas é bem melhor do que o último filme do homem (O IMBATÍVEL).
ONDE COMEÇA O INFERNO (Rio Bravo)
RIO BRAVO, de Howard Hawks, é um dos filmes mais festejados do gênero western. Depois de tanto ouvir falar de sua influência em obras de John Carpenter (ASSALTO À 13a D.P. e FANTASMAS DE MARTE), resolvi eu também conhecer o célebre filme. Não é dos meus westerns favoritos, ainda prefiro John Ford e Sergio Leone, mas o filme de Hawks tem um charme especial. John Wayne é um xerife de uma cidadezinha que toma conta de uma delegacia com um único preso. Os seus ajudantes são um alcóolatra (vivido por Dean Martin) e um velho aleijado. Ele, ao mesmo tempo, tem que lidar com a falta de jeito com as mulheres. Uma especialmente bela o assedia. O filme tem muito bom humor, uma cena final de tiroteio excelente e o eterno cowboy John Wayne. Não dá pra reclamar, né?
FÚRIA NO ALASKA (North to Alaska)
Por falar em John Wayne e bom humor, esse filme que passou no Corujão da Globo dias atrás me pegou de surpresa. É um filme de Henry Hathaway que se assume como comédia. E o legal é que John Wayne se sai como um ótimo comediante. A história gira em torno de Sam (Wayne) levar uma garota francesa até seu amigo, no Alaska. Como a mulher se casou, Wayne decide levar outra francesa, esta prostituta (a bela atriz Capucine - que nome, hein? heheheh). Acontece que ele se apaixona pela francesa e aí quando ele chega no Alaska as coisas se complicam. Filme bem legal e divertido.
segunda-feira, janeiro 06, 2003
"I don´t use special effect, I am the special effect..."
(Jackie Chan)
Nos últimos dias assisti a três filmes com Jackie Chan, puxados pelo mais recente filme do chinês simpático nos cinemas. Alguns comentários rápidos:
O TERNO DE 2 BILHÕES DE DÓLARES (The Tuxedo) - 2002
Talvez o mais fraco dos filmes que Chan fez em Hollywood. Tem alguns momentos bons e bem engraçados, mas o problema é a história, meio boba, envolvendo um terno super-poderoso. A melhor coisa é mesmo o próprio Chan e Jenniffer Love Hewit na cena de vestidinho azul (Meu Deus! O que é aquilo?) Engraçada a cena em que ela dá um código secreto pra ele e ele quebra a cara. Outra cena que vale o ingresso é a cena em que Chan imita o James Brown, cantando "Sex Machine". É um filme fraquinho que não explora bem o grande potencial de Jackie Chan, mas que também não chega a ser ruim.
A HORA DO RUSH (Rush Hour) - 1998
Esse já funciona melhor. Há tempos tinha guardado numa cópia do SBT. Aproveitei que ia ficar em casa no dia 1º de janeiro e, depois da posse do Lula, chamei o meu sobrinho, que adora o Jackie Chan, pra assistir comigo. Apesar de falarem mal do Chris Tucker, eu acho ele divertido. A primeira cena dele contracenando com Jackie Chan e achando que esse não falava inglês é ótima. Mas como quem quer ver filmes de Chan, quer ver as lutas bem coreografadas e divertidas, A HORA DO RUSH decepciona um pouco. Mas não deixa de ser bem divertido. A continuação manteve o bom nível e vem aí A HORA DO RUSH 3.
QUEM SOU EU? (Who Am I? / Ngo si sui) - 1998
Esse já é um puta filme de Chan. Ele é um dos diretores do filme, por isso o filme é tão bom. No filme, ele é o agente Jackie Chan (mesmo nome do ator) que cai de um avião e perde a memória. Ele é salvo pelas várias árvores que amortecem a queda e pela tribo indígena africana que trata dele. De bolar de rir a cena em que ele, já vestido de índio, vai salvar um sujeito que levou uma mordida de cobra. Depois disso o filme ainda tem muita ação e muitas situações engraçadas. É o que eu chamo de diversão nota 10 e pra toda a família. É altamente prazeroso ver um filme desses, sem pretenção alguma, mas que vale muito mais do que um monte de filme metidos a intelectuais. Talvez o melhor filme de Chan nos anos 90. Gravado da Record.
Infelizmente, apesar de bem legais, os três filmes ainda não representam o melhor da filmografia do rapaz. Ainda pretendo ver os filmes dele da década de 80 produzidos em Hong Kong. Dizem que tem coisas sensacionais nessa fase.
sexta-feira, janeiro 03, 2003
Comento a seguir três dos últimos filmes que vi no finalzinho de 2002:
O SENHOR DOS ANÉIS: AS DUAS TORRES (The Lord of the Rings: The Two Towers)
Ainda que eu prefira o primeiro, AS DUAS TORRES é uma continuação excelente do primeiro filme. O começo do filme é genial, mostrando Gandalf lutando contra o Balrog, sendo que isso aparece como sonho de Frodo, agora no caminho com Sam para destruir o Um Anel. O astro do filme é mesmo Gollum, o mostrengo que percegue os dois hobbits. O personagem teve a sua personalidade esquizofrênica bem delineada e até cogita-se do ator ser indicado ao Oscar pela ótima performance. Com a sociedade dividida, os outros dois hobbits são sequestrados pelos orcs, e Aragorn, Legolas e Gimli vão ao seu resgate. Outro destaque do filme e que acabou o deixando com um aspecto mais trash são os ents, criaturas meio homem/ meio árvore, que habitam uma floresta. Os ents é o lado mais explicitamente ecológico da obra de Tolkien. Continuo achando que quem leu os livros com certeza vai continuar se divertindo mais do que quem não leu. É ótimo esperar como determinada cena vai ser materializada no filme. Algumas situações foram modificadas, como a intervenção dos ents na torre de Saruman, o lado mais vilanesco de Faramir e a decisão por deixar a cena da Laracna para o início do próximo filme. No livro AS DUAS TORRES, o final é bem mais dramático por conta dessa cena, com Sam e Frodo numa situação complicadíssima. Por falar em Sam, continua o lance meio gay entre eles. O público não deixa passar quando Sam diz a Frodo: "Sou eu, sr. Frodo, o seu Sam." A batalha no abismo de Helm foi muito bem feita, mas faltou sangue, faltou mais realismo. A cena ficou muito limpinha por causa dos efeitos de computador. Mas isso não chega a comprometer o filme, que tem um ritmo bem mais fluido do que o primeiro, apesar da apresentação de novos personagens. Agora é esperar pelo RETORNO DO REI (Aragorn) no final de 2003.
ESTRANHO ENCONTRO
Quando eu fui na última sexta-feira pra locadora e vi que tinha um filme do Khouri que eu ainda não tinha visto eu não pensei duas vezes e peguei a fitinha. A imagem e o som não estão lá essas coisas, mas depois que a gente esquece esse detalhe, dá pra curtir o filme que é uma beleza. Esse é de 1958 e é dos tempos da Vera Cruz. Realmente a gente sente um pouco como se estivesse vendo filme americano, diferente dos filmes posteriores mais influenciados por europeus (Antonioni e Bergman). Apesar disso, ESTRANHO ENCONTRO é excelente. A gente tem uma sensação de que tá vendo cinema noir americano da década de 40. O que não é um problema. Às vezes a gente tem impressão que tá vendo um filme do Otto Preminger ou do Nicholas Ray. Na história, mulher misteriosa aborda homem na estrada. Ele a leva para a sua casa e a esconde da esposa e dos empregados da casa. Um misto de suspense e história de amor. Uma prova de que Khouri já era fodão já no início da carreira.
A CASA ASSASSINADA
Na mesma seção de filmes nacionais, essa fita de Paulo César Saraceni me chamou a atenção. Esse filme, de 1971, tá com um som de péssima qualidade. Mal dá pra ouvir o que os atores falam, sem falar na telecinagem, que às vezes mostrava só as mãos de duas pessoas falando. Outro problema é que com meia-hora de filme eu não tava entendendo nada. Aí, dei uma paradinha, entrei na internet e vi uma pequena sinopse do filme. Muito doido, por sinal. No filme, Norma Bengell é uma mulher que vai morar numa casa no interior de Minas Gerais depois de casar. Na casa, há também o irmão enciumado de seu marido, um sujeito que passa o dia trancado no quarto bebendo vinho e vestido de mulher e mais gente pirada. Êta filminho mais chato! Quando eu fui pegar a fita, a moça da locadora me falou: "é dublado". Eu falei: "ora, mas é brasileiro..." Heheheh.. O importante é que com esse filme não dá pra rotular Saraceni de diretor difícil. Tinha visto antes apenas NATAL DA PORTELA (que gostei muito), quando o FestRio veio pra Fortaleza (!!!) em 1989 (ou 1990?) e ele tem uma estrutura bem mais clássica e apolínea.
segunda-feira, dezembro 30, 2002
TOP 10: OS MELHORES FILMES DE 2002
1. CIDADE DOS SONHOS (Mulholand Dr.), de David Lynch
Uma experiência arrebatadora. Um sonho assustador. David Lynch é gênio. Silenzio.
2. FALE COM ELA (Hable con Ella), de Pedro Almodóvar
Até onde vai a criatividade desse espanhol que tem se superado a cada filme? O melhor Almodóvar. E isso não é pouco.
3. LUCÍA E O SEXO (Lucía y ele Sexo), de Julio Medem
Uma obra-prima do mesmo Julio Medem que nos brindou com "Os Amantes do Círculo Polar".
4. O INVASOR, de Beto Brant
Não precisa ser uma pessoa desbocada pra sair do cinema dizendo "putaquepariu!". O melhor filme nacional dos últimos anos.
5. O SENHOR DOS ANÉIS - A SOCIEDADE DO ANEL (The Lord of the Rings - The Fellowship of the Ring)
O SENHOR DOS ANÉIS - AS DUAS TORRES (The Lord of the Rings - The Two Towers),
de Peter Jackson
Não dá pra separar os dois filmes e dizer qual o melhor. Os dois na verdade são parte de um filme de cerca de 9 horas de duração que ainda não acabou. Peter Jackson fez um milagre ao transpor a obra de Tolkien para as telas de uma maneira tão fantástica.
6. WAKING LIFE, de Richard Linklater
Um turbilhão de pensamentos passa pela cabeça da gente ao assitir essa animação feita a partir de live action. Cinema a serviço da filosofia.
7. FANTASMAS DE MARTE (Ghosts of Mars), de John Carpenter
Carpenter mais uma vez bebe na fonte de RIO BRAVO do Hawks e faz mais uma obra-prima.
8. DIA DE TREINAMENTO (Training Day), de Anthony Fuqua
Denzel Washington ganhou o Oscar por esse trabalho espetacular na pele de um policial sem escrúpulos e Ethan Hawke sofre na mão dele.
9. MENTIRAS (Gojitmal), de Sun-Woo Jang
Uma história de amor sado-masoquista semi-explícita contada do início ao fim. Um espetáculo de filme coreano que não tem pudores.
10. OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (The Royal Tenenbaums), de Wes Anderson
Difícil não ficar desconcertado com esse filme estranho com gente esquisita. Wes Anderson tem um humor super-peculiar e conseguiu juntar o melhor elenco do ano.
LADO B: OS OUTROS 10
11. O PACTO DOS LOBOS (Les Pacte des Loups), de Christophe Gans
O grande filme de ação do ano veio da França. Imagens deslumbrantes, cenas de artes marciais, Monica Belucci embelezando com sua nudez e um monstro assustador.
12. HISTÓRIA REAL (The Straight Story), de David Lynch
Um Lynch diurno, mostrando a realidade de pessoas bem intencionadas e boas, na trajetória de um senhor idoso que atravessa milhas com um cortador de grama para ver o seu irmão doente. E essa é uma história real.
13. DÍVIDA DE SANGUE (Blood Work), de Clint Eastwood
Eastwood é como um bom vinho, que melhora à medida que envelhece. Brinca com a própria velhice e nos oferece mais um trabalho de respeito.
14. CIDADE DE DEUS, de Fernando Meirelles e Kátia Lund
Um dos maiores sucessos comerciais do cinema nacional, essa obra controversa é também um filme pulsante que bebeu na fonte de Scorsese e Tarantino.
15. TERRA DE NINGUÉM (No Man´s Land), de Danis Tanovic
Uma situação tragicômica, um país destroçado pela guerra, um senso de humor ácido. Melhor roteiro em Cannes.
16. AS FERAS, de Walter Hugo Khouri
Como é bom ver um filme do Khouri no cinema. Estão lá o erotismo, as mulheres lindas, o jazz, a psicologia, os diálogos finos. Grande Khouri.
17. UM GRANDE GAROTO (About a Boy), de Chris e Paul Weitz
A melhor comédia romântica do ano, num tempo em que o gênero anda em baixa. Uma delícia de filme.
18. SINAIS (Signs), de M. Night Shyamalan
Um filme que prima pela atmosfera de suspense, pelo terror psicológico e ainda faz uma bela homenagem aos filmes de terror dos anos 50.
19. BETTY FISCHER E OUTRAS HISTÓRIAS (Betty Fischer et autres histoires), de Claude Miller
Várias histórias se entrelaçam nesse excelente exemplar do atual cinema francês balanceando bem o drama e a comédia.
20. O PODER VAI DANÇAR (Cradle Will Rock), de Tim Robbins
Um super-elenco nesse inteligente retrato dos EUA da Grande Depressão.
Filmes nota 10 fora de concorrência
APOCALIPSE NOW REDUX, de Francis Ford Coppola
OS INCOMPREENDIDOS (Les Quatre cents coups), de François Truffaut
BEIJOS ROUBADOS (Baisers volés) , de François Truffaut
DOMICÍLIO CONJUGAL (Domicile Conjugal), de François Truffaut
A COMILANÇA (La Grande Bouffe), de Marco Ferreri
Top 10 - Brasil
1. O INVASOR, de Beto Brant
2. CIDADE DE DEUS, de Fernando Meirelles e Kátia Lund
3. AS FERAS, de Walter Hugo Khouri
4. HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES, de Jorge Furtado
5. O PRÍNCIPE, de Ugo Giorgetti
6. UMA VIDA EM SEGREDO, de Susana Amaral
7. JANELA DA ALMA, de Walter Carvalho e João Jardim
8. LAVOURA ARCAICA, de Luiz Fernando Carvalho
9. ABRIL DESPEDAÇADO, de Walter Salles
10. BELINI E A ESFINGE, de Roberto Santucci
Top 5 - Piores filmes
1. 13 FANTASMAS (Thir13en Ghosts), de Steve Beck
2. HOMENS DE PRETO II (Men in Black II), de Barry Sonnefeld
3. NETTO PERDE SUA ALMA, de Tabajara Ruas e Beto Sousa
4. D-TOX, de Jim Gillespie
5. SHOWTIME, de Tom Dey
sexta-feira, dezembro 27, 2002
ACOSSADO (À Bout de Souffle)

Fiquei de comentar ACOSSADO(1960) do Godard. Como sou "novato" na obra do homem, o que eu tenho a dizer são só impressões. Os únicos filmes que tinha visto eram DESPREZO (1963), que vi em VHS há muito tempo, e PIERROT LE FOU (1965), que vi num telão/vídeo nesse ano. ACOSSADO é um filme mais palatável, com bem menos referências literárias, musicais e cinematográficas ou autocitações. Assim, talvez seja o melhor filme para se iniciar o acompanhamento da obra. Há muitas semelhanças entre ACOSSADO e PIERROT. Os dois apresentam Jean-Paul Belmondo como o protagonista, nos dois Belmondo é um sujeito que foge da polícia por ter matado um homem, nos dois filmes há um belo par romântico: em PIERROT, Anna Karina, em ACOSSADO, Jean Seberg, além de outras coisas.
Alguns falam que a obra de Godard foi se tornando chata com o tempo, que os últimos filmes são difíceis e tediosos, mas eu acredito que eu vou gostar à medida que for descobrindo. Tenho impressão que vou criar afinidades com o cinema dele. Diferente de Fellini, por exemplo, de quem eu já devo ter visto uns 10 filmes e nunca gostei de fato. Até acho os seus filmes sonolentos. Já Godard, não. Dos poucos que vi, achei fascinantes, apesar de não os ter absorvido por completo. Mas os diálogos bem sacados, as montagens rápidas, as cenas e os personagens fora do comum me encantaram.
Antes de escrever eu tive vontade de rever o filme pra poder copiar algumas das frases de efeito e dos diálogos inteligentes do filme. Como não pretendo rever o filme imediatamente procurei na internet alguns textos que se referem ao filme e que, de preferência, comentassem algumas das frases do filme. Encontrei um texto do Arthur Dapieve falando sobre o livro "Ouvir Estrelas - as melhores frases e diálogos do cinema", de Mariza Gualano. No livro, o grande astro é Woody Allen, com 22 frases ou dialogos extraídos de seus filmes. Depois vem Billy Wilder e Jean-Luc Godard. Do filme ACOSSADO, Dapieve cita a frase: "Tornar-se imortal, e depois morrer", dita por Jean-Pierre Melville depois da pergunta "Qual a sua maior ambição?", feita por Jean Seberg. Há ainda: "Duas coisas são importantes na vida: para os homens, mulheres, para as mulheres, dinheiro." Outra que o Dapieve não cita e que eu gostei muito é uma em que Jean Seberg fala para Belmondo que as pessoas não dormem juntas. Quando as pessoas dormem, há sempre a separação. Não há como dormir juntos.
O texto de Dapieve a respeito do livro está aqui:
Digno de nota também é a refilmagem americana A FORÇA DO AMOR (Breathless), dirigido por Jim McBride e com Richard Gere e uma francesinha sexy chamada Valérie Kaprisky. Sem falar que o filme americano é mais generoso nas cenas sensuais.
quinta-feira, dezembro 26, 2002
CINEMA LIGHT
Comento a seguir alguns dos filmes que vi recentemente. Coincidência ou não são todos filmes leves e despretenciosos. Nada de excepcional, mas também nenhum deles é ruim.
ESCRITO NAS ESTRELAS (Serendipity)
Esse eu vi ontem e gostei. O segredo é não criar muita expectativa. Pra quem viu o trailler já tem uma idéia do que o filme traz. Vale a pena pelo casal de protagonistas - John Cusack e a belíssima Kate Beckinsale. É um filme à moda antiga, estilo Capra, com um romantismo e ingenuidade hoje ausentes nos filmes atuais. É claro que a moça força muito a barra em acreditar no destino, mas isso funciona bem no filme. E a cena do beijo dos dois ao som de "Northern Sky" do Nick Drake é bem legal.
CASAMENTO GREGO (My Big Fat Greek Wedding)
Outro filme leve. Não dá pra entender o sucesso enorme. Talvez alguma bruxaria. Mas CASAMENTO GREGO é um filme bem simpático e a história tem um andamento certeiro, apesar de manjada: moça desengonçada apaixona-se por rapaz boa pinta. Ele, ao querer casar com ela, tem que levar a família junto. O filme tem cenas engraçadas e ainda traz um pouco dos costumes da família grega para o espectador.
O FILHO DA NOIVA (El Hijo della Novia)
Sucesso na mostra de cinema de São Paulo, O FILHO DA NOIVA é um bom filme argentino que equilibra bem o drama e a comédia. Na história, dono de restaurante estressado decide mudar de vida, depois de sofrer um infarto. Ao mesmo tempo, seu pai decide se casar com a sua mãe, que sofre do Mal de Alzheimmer. Outros personagens como o amigo de infância e a namorada completam o mosaico. E o bacana é o clima alto-astral e positivo de se amar a vida com todos os problemas que ela traz junto.
CASTELO RA-TIM-BUM
Esse eu vi na Globo junto com o meu sobrinho. Isso é que exemplo de filme infantil. Não essas porcarias que vivem querendo entupir nos cinemas com grupos de pagode e apresentadores de programa de auditório. Não precisa dizer de quem estou falando, né? O filme foi dirigido por Cao Hamburger, que já tinha feito sucesso com o curta FRANKENSTEIN PUNK. Infelizmente o filme não foi bem de bilheteria. Mas hoje mesmo o meu sobrinho pediu pra eu colocar a fita de novo pra ele assistir. Sinal de que o filme tem bom apelo infantil.
Recentemente eu vi também ACOSSADO (À bout de Souffle) do Godard, mas esse não se enquadraria no quesito "cinema light" e tem muito do que se comentar. Fica pra próxima.
segunda-feira, dezembro 23, 2002
LAPUTA: O CASTELO NOS CÉUS (Tenku No Shiro Rapyuta)

Nesse fim de semana conturbado eu tive o prazer de assistir LAPUTA: O CASTELO NOS CÉUS (1986), de Hayao Miyazaki. Esse japonês é diretor do aclamado e premiado A VIAGEM DE CHIHIRO, que eu já estou esperando ansiosamente que estree no circuito comercial. Certo dia, com a revista SET nas mãos no curso de inglês, um colega do curso me pediu pra dar uma olhada, fez um comentário sobre o que ele chamou de "o grande Miyazaki" e eu perguntei se ele não teria algum filme dele em casa pra me emprestar. Com a resposta alternativa, não resisti e pedi emprestado a fita. LAPUTA (pronuncia-se Láputa) é um filme fascinante, perfeito. Eu diria que é o melhor filme japonês que eu já vi. Logo eu, que nunca fui fã de Akira Kurosawa e odeio os filmes de Takeshi Kitano, fui gostar dessa preciosidade. É claro que eu vou querer mais, vou oferecer alguma coisa pra emprestar pro rapaz pra poder conhecer mais dessas maravilhas da cultura nipônica. Já sei que MEU VIZINHO TOTORO é do mesmo diretor e esse foi lançado em vídeo no Brasil. Agora é ir atrás. LAPUTA não foi lançado em vídeo no Brasil e essa cópia é destinada exclusivamente a mostras de animes.
LAPUTA: O CASTELO NOS CÉUS conta a história (intrincada) de Sheeta, uma garota que possui uma pedra de levitação bem valiosa. Ela vive num dirigível nos céus, presa por um grupo de homens que usam óculos escuros e planejam, com a ajuda da garota, encontrar a lendária Laputa, a cidade suspensa nas nuvens. A pedra é também perseguida por um grupo de piratas liderado por uma velha. A primeira cena do filme é espetacular, com os piratas atacando o dirigível e Sheeta caindo dos céus ao som de uma das mais belas músicas que eu já ouvi. Sheeta, como está com a pedra de levitação, flutua no céu até cair num vilarejo e encontrar um garoto chamado Pazu. Isso é só o começo dessa história de duas horas de duração. O desenho é perfeito em seus detalhes, a animação dá de dez no manjado padrão Disney e a história é intricada e não subestima a inteligência do espectador. Eu, inclusive, tive de rever o filme quase todo pra perceber coisas que tinha deixado passar na primeira vez. Filmaço. E espero que seja apenas o primeiro dos vários filmes que pretendo descobrir dessa preciosa safra.
quinta-feira, dezembro 19, 2002
TÚMULO SINISTRO (The Tomb of Ligeia)

O último filme do ciclo Roger Corman-Poe-Vincent Price que o Fab Rib gravou pra mim. Bom, eu precisaria rever o filme com mais calma. Sei que eu estava muito disperso, o filme não conseguiu prender a minha atenção. Fazendo um balanço dos cinco filmes da fita, em ordem de preferência, um top 5:
1. O CASTELO ASSOMBRADO (The Haunted Palace)
2. MURALHAS DO PAVOR (Tales of Terror)
3. TUMULO SINISTRO (The Tomb of Ligeia)
4. ORGIA DA MORTE (The Mask of the Red Death)
5. O CORVO (The Raven)
TUMULO SINISTRO é baseado no conto "Ligeia" de Edgar Allan Poe. Esse é um dos contos de Poe que eu mais gosto. E pelo que eu pude notar, o mais autobiográfico dos contos dele. Abaixo, transcrevo um trecho da minha monografia de final de curso que tenta traçar um paralelo entre a vida e a obra do escritor maldito. Com relação ao filme, eu gostei do começo, mostrando o enterro de Ligeia, a música tema enquanto aparecem os créditos também é belíssima e o tom sério do filme é bom, mas funcionaria melhor se Vincent Price não fosse tão canastrão. Por isso não dá pra levar tão a sério. (Ah, por falar em Vincent Price, hoje no canal Mundo tem #Biografia - Vincent Price# às 21 hs. Quero gravar.) Outra coisa que me encheu o saco foi aquele gato que aparecia a todo momento tentando assustar. O bom é que do meio pro final o filme melhora, ganha ritmo. Um dos bons filmes do homem, mas o meu preferido dele continua sendo FRANKENSTEIN UNBOUND, filme que eu tive o prazer de assistir no cinema e até hoje é o melhor filme de Frankenstein que eu já vi.
Abaixo, trecho da monografia comentando as semelhanças entre o conto e o que acontecera com sua esposa Virginia, acometida por uma grave doença:
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Em "Ligeia", o narrador tenta se lembrar de quando conheceu sua amada esposa; acha que a causa desse esquecimento vem de uma memória fraca de tanto sofrimento. Na passagem abaixo podemos identificar a pessoa de Poe, já exausto por causa dos sofrimentos que o destino lhe reservara, se entregando à pessoa do personagem:
I cannot for my soul, remember how, when, or even precisely where, I first became acquainted with the Lady Ligeia. Long years have since elapsed, and my memory is feeble through much sufferring.
Poe perdera sua esposa, Virginia, em janeiro de 1847. "Ligeia" trata da perda de uma esposa amada, tendo o narrador demonstrado, logo no início do conto, o quanto sente sua falta, numa narrativa de tom extremamente melancólico, como podemos ver a seguir :
Buried in studies of a nature more than all else adapted to deaden impressions of the outward world, it is by that sweet word alone - by Ligeia - that I bring before mine eyes in fancy the image of her who is no more.
Apesar de todo o talento de Poe para o grotesco e o horroroso, não há em toda a sua obra uma única passagem que tenha explorado a luxúria ou mesmo as indulgências sensuais. Seus retratos de mulheres são aureolados; brilham de maneira sobrenatural e são pintados à maneira de um adorador. Em "Ligeia", a descrição da personagem-título confirma essa idolatria. Ligéia parece mais uma criatura divina do que uma pessoa de carne e osso. No entanto, o padrão de beleza perfeita para Poe tinha como detalhe físico uma pele pálida. Vejamos abaixo um techo da descrição de Ligéia:
I examined the contour of the lofty and pale forehead - it was faultless - how cold indeed that word when applied to a majesty so divine! - the skin rivalling the purest ivory, the commanding extent and then the raven-black, the glossy, the luxuriant and naturally-curling tresses...
A mais espantosa semelhança com a vida de Poe em "Ligeia" está nas coincidências entre um trecho encontrado em uma de suas cartas e o momento do clímax do conto. Sabe-se que, perto do final do conto, o narrador presencia sua segunda esposa, Lady Rowena, já estendida, morta em sua cama de ébano, recuperar o rubor em seu rosto e, também, voltar a respirar levemente. Ele presencia esse reviver e morrer alternados durante várias horas da noite. Comparemos essa parte do conto com o trecho de uma carta que Poe escreveu a George W. Eveleth, em janeiro de 1848:
Seis anos atrás, uma esposa, a quem amei como nenhum homem jamais amou, rompeu um vaso sangüíneo durante o canto. Sua vida foi dada como perdida. Me despedi dela para sempre e passei por todas as agonias de sua morte. Ela se recuperou parcialmente e de novo tive esperança. Ao final de um ano o vaso partiu-se novamente - passei exatamente pelo mesmo drama. Novamente cerca de uma ano depois. Então de novo - de novo - de novo e ainda mais uma vez a intervalos variados. Todas as vezes eu sentia todas as agonias de sua morte - e a cada acesso do distúrbio a amava com maior ternura e me aferrava à sua vida com mais desesperada pertinácia. (...) Tinha realmente quase abandonado qualquer esperança de uma cura permanente quando encontrei uma na morte de minha esposa. Isto posso e de fato suporto como cabe a um homem - era a interminável e terrível oscilação entre esperança e desespero que eu não conseguia mais suportar sem a perda total da razão. Na morte do que era minha vida, então, recebi um novo golpe - ó Deus! como é triste uma existência.
Ao ler carta tão trágica, e ao perceber a espantosa coincidência que ela traz em relação ao conto, parece impossível não ligar a vida à obra de Edgar Allan Poe. Começando como um "copiador" do estilo de alguns escritores ingleses e alemães, Poe se tornou um autêntico romântico, tendo sua vida trágica estampada nas páginas de seus contos, ensaios, cartas e poemas.
(Texto escrito durante o segundo semestre de 1998)
segunda-feira, dezembro 16, 2002
SCHRADER E PENN

TEMPORADA DE CAÇA (Affliction)
UNIDOS PELO SANGUE (The Indian Runner)
No fim de semana dois filmes que abordam temas, ao mesmo tempo, universais e bem americanos foram o destaque. Os dois filmes têm várias coisas em comum.
O primeiro, TEMPORADA DE CAÇA (1997), é um filme de Paul Schrader, grande diretor e celebrado roteirista. Traz um elenco de peso - Nick Nolte, Sissy Spacek, Willem Dafoe e James Coburn em estado de graça. O papel deu um Oscar de ator coadjuvante para Coburn, morto há poucos dias. Ele é o pai agressivo de Nick Nolte e que se torna uma lenda na cidade, graças às maldades que ele fizera com os filhos. Nick Nolte é um dos filhos traumatizados do velho. Ele está cheio de problemas. Está separado da mulher, sua filha, que ele tanto quer ter a guarda, não gosta dele, ele está sofrendo de uma terrível dor de dente e não é respeitado como policial por quase ninguém da cidadezinha. A cidade é gélida como a de O DOCE AMANHÃ, outro filme baseado em romance de Russel Banks. Eu diria que foi com esse filme que Nolte interpretou o seu melhor papel. É tocante vê-lo incompreendido, sem conseguir fugir do estigma de burro e violento. E o final é sensacional.
UNIDOS PELO SANGUE (1991) é o primeiro filme dirigido por Sean Penn. A cidade do filme também é pequena, ainda que não seja gelada. O elenco também é de peso e a direção de Penn também é super-segura. O elenco traz David Morse, Viggo Mortensen (hoje conhecido pelo seu papel de Aragorn em Senhor dos Anéis), Valeria Golino, Patricia Arquette, Charles Bronson e Dennis Hopper. As primeiras imagens do filme já denunciam o filmão que estaremos prestes a ver. A primeira cena mostra um índio caçando um cervo e poucos antes da morte do animal, ele aspira o resto de seu sopro de vida. O filme foi baseado numa canção de Bruce Springsteen. Canção belíssima. Aliás, música boa é que não falta no filme. Na trilha, além de Springsteen, tem "Summertime" com Janis Joplin, tem Jefferson Airplane, the Band, Creedence. Taí um filme com grandes qualidades. Na história, David Morse é um policial correto de uma cidadezinha americana. Viggo Mortensen é o seu irmão errado, torto, que gosta de brigar, ir preso e não consegue se adaptar à rotina de uma pessoa normal. Charles Bronson, num belo e digno papel, é o pai dos dois.
Assim como no filme de Schrader, UNIDOS PELO SANGUE mostra o drama de pessoas que não conseguem fugir de si mesmas. O drama de Nick Nolte é parecido com o drama de Mortessen. No filme há dois pais, vividos por atores veteranos, fazendo papéis pequenos. (Curiosamente os dois, Bronson e Coburn, estiveram no filme SETE HOMENS E UM DESTINO) Os dois filmes retratam a vida em cidades pequenas e bem americanas. E os dois filmes são de uma beleza que só vendo.
quarta-feira, dezembro 11, 2002
TRÊS FILMES

MATA-ME DE PRAZER (Killing Me Softly)
Tinha tudo pra ser um puta filme: Heather Graham pelada em filme erótico dirigido pelo craque chinês Chen Kaige (ou Kaige Chen?), diretor dos ótimos ADEUS, MINHA CONCUBINA e A VIDA POR UM FIO. Mas Hollywood não fez bem pra ele e é melhor mesmo ele voltar pra sua terra. Também, depois dessa vergonha. Uma das piores coisas do filme é Joseph Fiennes. Esse sujeito não desperta a simpatia dos marmanjos. A história parece daqueles filmes que passam no Cine Privê da Band: moça se apaixona por estranho com passado misterioso e atitudes violentas e, depois que se casa, começa a desconfiar dele. É ruim, mas gostei de uma cena de sadomasoquismo em que Heather é quase estrangulada. Legal foi ouvir os comentários do pessoal no cinema: "depois daqui eu vou pro Chalex (motel tradicionalmente vagabundo do centro da cidade).
HI, MOM!
Graças ao amigão Renato Doho, pude conferir esse que é um dos primeiros filmes de Brian DePalma. HI, MOM! (1970) é um filme engraçado. Tem um senso de humor estranho e como eu nunca tinha visto uma comédia do DePalma, ainda não sei se gostei ou não do filme. Aqui vê-se citações explícitas à JANELA INDISCRETA, do Hithcock, uma certa adoração à câmera e a vontade de experimentar. O DePalma virtuoso com o uso da câmera chegou ao máximo em OLHOS DE SERPENTE, mas aqui ele ainda quer só experimentar. Pelo que eu pude entender há duas linhas na história: há a comédia, com Robert DeNiro cheio de manhas pra conseguir uma garota, e a há a parte da contra-cultura, com câmera tremida, meio documental e com a imagem no formato de televisão dos 60´s e aquele espírito rebelde que aqueles anos exalavam. Bom filme.
LATITUDE ZERO
Taí outro filme que me deixou indeciso se gostei ou não. Mas, assim como o filme do DePalma, esse vale a conferida. O começo do filme lembra LAVOURA ARCAICA. Só que em vez de um rapaz se masturbando, aqui temos uma mulher grávida. Assim como Lavoura, depois da cena da masturbação, ouve-se alguém batendo a porta. A mulher é Debora Duboc e quem está batendo a porta é Cláudio Jaborandy. Eles são os únicos atores do filme. Até o minuto final a gente vai ver apenas eles no filme. Ela mora num lugar no fim do mundo, na região norte do Brasil, mais quente que o Piauí. Ele é um policial perseguido que está se escondendo. O relacionamento entre os dois vai se estreitando. Boa a cena de tesão entre os dois, as tomadas do sol se pondo, a interpretação deles, o ótimo roteiro (tenho impressão que nos créditos no cinema vi o nome de Fernando Bonassi, mas no IMDB não consta). Acho que o meu problema com o filme foi o fato de me deixar muito desconfortável. Odeio choro de criança, grito de mulher histérica e bêbado chato.
terça-feira, dezembro 03, 2002
TRÊS FILMES
Terceiro longa de Brad Silberling e que mantém em comum com os anteriores (GASPARZINHO e CIDADE DOS ANJOS) o tema da morte. Nesse filme, Jake Gyllenhaal (o perturbado de POR UM SENTIDO NA VIDA) é o rapaz que passa a morar com os pais de sua namorada depois que ela é assassinada. Silberling tenta não tornar o filme piegas, mas eu não sei se isso é vantagem, já que o filme ficou muito frio. Os pais da moça são interpretados por Dustin Hoffman e Susan Sarandon, dois atores consagrados. No elenco de conhecidos também tem Holly Hunter como a advogada. Apesar de ser o mais pessoal dos filmes de Silberling (ele também teve a namorada assassinada), o filme não é tão inspirado. Melhor rever GASPARZINHO.
O IMBATÍVEL (Undisputed)
Pra mim o filme foi uma tremenda decepção. Eu também estava curioso em saber porque a crítica não tinha se pronunciado em relação ao filme de Walter Hill, quando de sua estréia. Parece que a razão foi mesmo aquilo que o Renato disse: quiseram esconder da crítica pra evitar as más línguas. O filme não chega a lugar nenhum. A "história" é mais ou menos assim: campeão mundial de boxe (Ving Rhames) é preso por estupro (alguém lembrou de Mike Tyson?). Chegando na prisão, ele vai enfrentar o campeão de boxe de lá: Wesley Snipes. A trama é bem simples, não tem reviravolta nenhuma, as cenas de luta são das piores que eu vi (melhor rever os filmes da série ROCKY) e os personagens não chamam a gente pra torcer por nenhum. Parece que Walter Hill continua em decadência. Infelizmente. Estou com um filme dele gravado lá em casa ainda pra ver - WILD BILL, western de 1995 com um elenco de primeira (Jeff Bridges, Ellen Barkin, John Hurt, Diane Lane, Keith Carradine, David Arquette, Christina Applegate..ufa!). Alguém já viu esse? É bom?
Depois desse filme lembrei de outros filmes de boxe e coloco aqui um top 5:
TOURO INDOMÁVEL, de Martin Scorsese
HURRICANE, de Norman Jewison
ROCKY, O LUTADOR, de John G. Avildsen
ROCKY II , de Sylvester Stallone
ROCKY III, de Sylvester Stallone
NUNCA TE AMEI (The Browning Version)
Filme legal de Mike Figgis trazendo Albert Finney como um professor carrasco de Grego e Latim que é maltratado pela esposa, que o chifra, e pelos alunos e colegas de escola, que o chamam de Hitler. Ao se preparar para deixar a escola, ele se comove ao ganhar uma versão rara de um aluno simpatizante. É comovente já que quando não recebemos o carinho que achamos que merecemos e de repente alguém nos é gentil, ficamos realmente sensibilizados. Belo filme de Figgis. No elenco ainda: Gretta Scacchi, Matthew Modine e Julian Sands.
Mas a melhor coisa do final de semana mesmo foi rever VELUDO AZUL gravado da edição especial em DVD com som de primeira e widescreen glorioso. È um filme que dá imenso prazer em rever. Ainda vi o excelente documentário Mysteries of Love e as cenas deletadas mostradas em alguns fotogramas recuperados e sem som. Maravilhoso.
terça-feira, novembro 26, 2002
TRÊS FILMES
NETTO PERDE SUA ALMA
Esse me decepcionou bastante. Estava esperando um filme vigoroso e com boas cenas de batalha. Que nada. O diretor evita mostrar cenas de batalha (só tem uma), por causa das limitações de direção e orçamento, e apresenta um filme tedioso. Achei pretensioso o uso da separação por capítulos, dos flashbacks que vêm e vai e que só servem pra esconder os defeitos do filme. Perdi a conta de quantas vezes olhei pro relógio. E percebi que na sala eu não era o único. Quanto à parte político-histórica da narrativa, achei mais interessante o drama dos negros (eternos excluídos e prejudicados) do que dos brancos separatistas. E por mais que digam que o filme não seja uma ode à separação do Rio Grande do Sul do Brasil, aquelas cenas pretensamente épicas de batalha ao som de música sacra dá a entender isso muito bem.
O VIOLINO VERMELHO (Le Violon Rouge/The Red Violin)
Filme ousado do canadense François Girard sobre um violino que passa de mão em mão desde o século XVII. O filme é falado em várias línguas (inglês, italiano, alemão, francês e até chinês). Interessante as várias histórias em torno do violino, as diferentes culturas mostradas, a maldição que o violino traz a quem o carrega. No elenco tem gente de todo o mundo. Os mais conhecidos são os americanos Samuel L. Jackson e Greta Scacchi. Filme bacana do mesmo diretor de GLENN GOULD EM 32 CURTAS. Gravado do SBT.
DUAS MULHERES (La Ciociara)
Filme emocionante de Vittorio De Sica e que deu o oscar histórico de melhor atriz para Sophia Loren nos anos 60. O filme mostra Sofia como uma viúva comerciante que vive com a filha na Roma da 2a Guerra Mundial. Por causa dos bombardeios, ela viaja com a filha para um vilarejo distante onde conhece pessoas, entre elas o personagem de Jean-Paul Belmondo, um intelectual no meio de gente simples. O filme mostra a difícil situação naquele período, com pessoas lutando pra conseguir pão e água. Porém, a cena mais forte é reservada para o final. Excelente. Gravado da Globo.
Sábado finalmente fui conferir DRAGÃO VERMELHO, de Brett Ratner. É a tal história: quando um monte de gente malha o filme, o que a gente vê e gosta já é lucro. Mas deixa eu contar o que houve antes da exibição do filme. Era a sessão de 18h20 e na hora que vai passar aquela propaganda de segurança contra incêndio, anterior aos traillers, falta energia. Foi um blecaute em todo o estado. E todas as salas do North Shopping ficam na mais completa escuridão. Na sala onde passava Harry Potter, a molecada gritava histérica. Gente corria de sala em sala. Um caos. Foi uma hora de espera. E eu ficava pensando se valia a pena esperar tanto. Na hora que eu já tinha decidido ir embora, chega a luz. E na tal propaganda do Grupo Severiano (que eles copiaram do UCI) dizia: "em caso de falta de energia elétrica, luzes de emergência acendem-se automaticamente". Mentira! Um monte de gente grita: "onde é que tem isso?". Propaganda enganosa.
Bom, o filme começa e eu gostei da primeira cena com o Edward Norton e o Anthony Hopkins se pegando. Bom prelúdio pro filme. O elenco é a melhor coisa, ainda que todos estejam mal aproveitados. Ralph Fiennes, o tal dragão vermelho do título, está bem, e já serve como prévia para seu papel em SPIDER, do Cronenberg. Emily Watson é que parece estar no filme errado. Hollywood está fazendo mal pra moça. (Adoro ela em ONDAS DO DESTINO, HILARY & JACKY e O PODER VAI DANÇAR).
Gostei do final com aquele gancho para O SILÊNCIO DOS INOCENTES. Tem isso na versão do Michael Mann? Porém, em se tratando de suspense, aí a coisa fica ruim. O suspense é quase inexistente. Não dá pra torcer pra ninguém. Pelo menos o filme entretém - olhei pouco para o relógio. Diferente do filme que eu iria ver no domingo: NETTO PERDE SUA ALMA. Chato perde.
segunda-feira, novembro 25, 2002
LUCIA E O SEXO (Lucía y el Sexo)

Esse ano de 2002 está uma beleza em se tratando de cinema. No sábado fui ver o sensacional LUCÍA E O SEXO, do Julio Medem e fiquei babando. Depois de ter visto FALE COM ELA, do Almodóvar, mais um filme espanhol vem causar boa impressão por aqui. Aliás, os dois filmes têm mais algo em comum: Paz Veiga é a garota do filme mudo dentro do filme do Almodóvar e Javier Cámara, o Benigno de FALE COM ELA é coadjuvante de LUCIA.... Além disso os dois filmes têm em comum o fato de serem perfeitos.
Uma das coisas legais do filme é que ele também é narrado do ponto de vista de Lorenzo, o homem que Lucía ama. Sendo assim, imagine só você estar num bar quando chega uma mulher como a Paz Veiga e diz que o ama e quer viver com você. Aí você aceita (não é tão idiota) e sai com ela, vai a uma danceteria, toma umas e depois tome sexo em casa. Uhhh!! Um sonho. Inclusive, o próprio Lorenzo em certa parte do filme fala que ele achava que mulheres como Lucía não eram pra caras como ele.
A história é bem mais complexa do que se imagina, mais personagens aparecem no decorrer do filme, flashbacks entrecortam a narrativa presente, outras possibilidades surgem no final. Nesse sentido, o filme é bastante parecido com OS AMANTES DO CÍRCULO POLAR, outra obra-prima de Medem, de 1998. Só que esse é ainda melhor. E não apenas por ter cenas de sexo, ainda que elas sejam fundamentais para o filme, mas por ser mais intenso, em todos os sentidos.
Uma cena, entre várias, me chamou a atenção: Lucía está na ilha e a câmera desce e mostra uma tomada dela com a lua ao fundo (a lua é uma constante no filme e personagem da história). Sublime.
LUCÍA E O SEXO mexe com a cabeça, com o pau, com os poros e com o coração. É um turbilhão de sentimentos e sensações que intoxica o corpo e nos faz querer estar vivos.
Quem ainda não viu, não deixe de ver por nada. A não ser que você conheça alguma Lucía pelo caminho. Aí tá perdoado.
segunda-feira, novembro 18, 2002
TRUFFAUT ETC.

Apesar de ter sido um final de semana um pouco mais prolongado, não tive muito tempo ou disposição pra ver filmes em casa. Só no cinema. No feriado, fiz algo diferente: churrasco com cerveja, volêi na piscina e até futebol. Imagina, logo eu, tão perna de pau. Mas foi legal, diferente. O ruim é a dor de cabeça da cerveja depois, mas faz parte.
DOMICÍLIO CONJUGAL (Domicile Conjugal)
O final de semana ficou histórico no sábado pela manhã, quando fui conferir DOMICÍLIO CONJUGAL, de François Truffaut. O filme é o quarto do ciclo de filmes da saga de Antoine Doinel. Antes de entrar, dei uma lida num texto do Hugo Suckman (é esse o nome?) do jornal O Globo que gostou bastante do filme e comentou que este é considerado o mais fraco dos filmes "Antoine Doinel". Qual não é minha surpresa quando me deparo com não apenas o melhor filme do ciclo, mas o melhor do Truffaut, so far. Claro que pra mim, né? Caramba. Até então, o meu preferido era JULES ET JIM, e não OS INCOMPREENDIDOS, que também amo. Mas DOMICÍLIO CONJUGAL me fez chorar. Tá, eu sei que não é novidade eu chorar no cinema, mas dessa vez, o meu lado cerebral também está fascinado pela obra.
Em DOMICÍLIO CONJUGAL (1970), Antoine (o clone de Truffaut, Jean-Piérre Léaud) já está casado com Christine (a bela Claude Jade). Só de olhar pras pernas de Claude Jade dá uma inveja de Antoine... O começo do filme é cinema puro e o retrato do cotidiano da vizinhança remete aos filmes de Jacques Tati e a JANELA INDISCRETA, do Hitch. Truffaut parece ter um carinho imenso por todos os personagens, até os de papel pequeno. O clima inicial é de rotina, mas uma rotina gostosa, com o casal lendo livros antes de dormir, Antoine trocando de empregos (como em BEIJOS ROUBADOS), jantar com os pais de Christine etc. Por falar na cena do jantar, quem não viu BEIJOS ROUBADOS não vai poder curtir tanto a cena em que o belo casal vai buscar uma garrafa de vinho e se beijam, lembrando os tempos de namorados.
Mas todo essa rotina desaba quando Antoine conhece uma japonesa e começa a trair Christine. Aí o filme adquire outros tons, mais dramáticos. A cena que me fez verter lágrimas foi uma em que Antoine e Christine estão esperando um táxi. Não vou comentar mais sobre isso pra não estragar quem for ver o filme. (Não sei como, já que ele não está disponível em VHS/DVD no Brasil.) Mas, pôrra, quem já teve um namoro que acabou e foi doloroso vai igualmente se sentir tocado pelo filme.
E lembrei até de uma vez quando comentei na outra lista que não tinha gostado de APRILE e o Aguilar respondeu falando da paixão que tem pelo filme do Nanni Moretti, principalmente por ter sentido a mesma emoção pelo nascimento do filho. Mas o que eu não senti no filme de Moretti, eu senti com a cena do nascimento do filho de Antoine. E olha que eu nunca fui nem sei se vou ser pai um dia.
Eu teria mais um monte de coisas pra comentar sobre esse filme que faz o dia da gente valer a pena, mas vou ficar por aqui, esperando alguém se manifestar ou tomar iniciativa e ir conferir o ciclo Antoine Doinel, onde Truffaut faz mais cinema voltado para a vida. Aliás, nesse ele faz até uma auto-crítica: Christine, ao saber que Doinel está fazendo um livro de memórias, falando mal dos pais, fala que arte não é prestação de contas. Será que Truffaut acredita mesmo nisso? hehehe.
POR UM SENTIDO NA VIDA (The Good Girl)
É até covardia ver um filme que exalta a vida como DOMICÍLIO CONJUGAL e ver outro que trata de personagens miseráveis, que não tem o mínimo prazer em viver. Esse filme com a Jennifer Aniston é interessante, mas poderia ter sido um pouco mais realista. Os personagens são caricatos. Até lembra um pouco o ótimo OS EXCÊNTRICOS TENEBAUMS, do Wes Anderson, só que menos inteligente e inspirado. No filme, Aniston é uma mulher que trabalha numa loja e acha a vida um saco. O marido é John C. Reiley, pintor de paredes que gosta de fumar uns baseados depois do trabalho. As coisas mudam quando ela conhece uma cara esquisito que lê O APANHADOR NO CAMPO de centeio e toma para si o nome do protagonista do livro. Vale a conferida.
MADAME SATÃ
- E o cú? Já deu hoje?
- Não. Mas dei ontem.
Acharam de mal gosto ou engraçado esse diálogo? Ele faz parte de MADAME SATÃ, do cearense Karim Ainouz. Eu fiquei um pouco decepcionado já que esperava algo tão bom quanto CIDADE DE DEUS. No fim das contas, nem a história de João Francisco dos Santos, o cara corajoso, homossexual e negro do Rio de Janeiro dos anos 30, é tão grande assim. As apresentações dele lembram um pouco o Ney Matogrosso. Só que mais bizarro. E as cenas de sexo entre homens nem chegam perto da ousadia de A LEI DO DESEJO, do Almodóvar. Legal, por ser mais um filme de destaque na cada vez mais rica cinematografia brasileira, mas pra mim, decepcionante.
terça-feira, novembro 12, 2002
DÍVIDA DE SANGUE E OUTROS FILMES

DÍVIDA DE SANGUE (Blood Work)
Clint Eastwood parece vinho bom. Quanto mais velho, melhor. Nos últimos filmes ele já estava brincando com o fato de estar velho (OS IMPERDOÁVEIS, COWBOYS DO ESPAÇO e NA LINHA DE FOGO, esse não dirigido por ele). Mas com esse ele levou a situação ainda mais longe. Ele é um detetive aposentado que sofreu um enfarte e fez transplante de coração. A irmã da moça que morreu, e de quem Clint recebeu o coração, pede a ele para voltar à ativa e pegar o safado que matou a irmã dela. É uma pena que pouca gente está indo prestigiar essa maravilha. O filme é uma delícia de assistir. É um prazer ver Clint pegando um trabuco e chutando bundas. Mesmo estando velhão. Tem uma cena belíssima que é quando a moça mexicana fala pra ele não esconder a marca da cirurgia, e os dois transam e tal. Muito bom. Só o final que eu matei (ou pelo menos suspeitei) logo na segunda vez que aparece o personagem. Ainda assim imperdível.
O ARTICULADOR (People I Know)
Se Al Pacino não está tão velho quando Clint, ele parece bem mais cansado. Mas isso é porque no filme ele é um cara que tá fudido da saúde, se enche de drogas pra dormir ou acordar. Isso porque sua profissão o escraviza. Ele é um assessor de eventos. Em sua profissão ele tem que contatar pessoas importantes para vários eventos políticos ou artísticos. Numa noite, ele conhece a personagem de Téa Leoni, uma junkie que o leva para lugares onde ricaços usam ópio. Pena que ela aparece pouco. Outra que aparece pouco é Kim Basinger, a personificação da salvação para Pacino. O final me fez lembrar a obra-prima O PAGAMENTO FINAL, do DePalma. O problema do filme é ser um pouco cansativo, mas vale a pena dar uma conferida. Principalmente por ele ser bem perturbador.
FUGA PARA A VITÓRIA (Victory / Escape to Victory)
Filme curioso de John Huston. A curiosidade vem do fato de o filme ter no elenco Pelé e Sylvester Stallone jogando futebol. Engraçado que quando eu era criança ouvia falar muito desse filme, pela turma que curtia futebol. Aí ele foi exibido em junho desse ano no canal Mundo e só agora eu vim assistir. Não é lá um grande filme (John Huston fez outros beeem melhores), mas mantém o interesse até o fim. Principalmente porque a trama envolve fuga de prisioneiros de um campo de concetração. E eu normalmente gosto de "filmes de prisão". No filme, Michael Caine é o treinador do time dos aliados que vai competir com os nazistas num jogo de futebol. Pelé está ridículo no filme. E cada vez que ele aparece e fala alguma coisa, dá vontade de rir. Heheheh.. Mas Stallone está bem. Outro destaque do filme é o final surpresa.
PALÁCIO DOS ANJOS
E finalmente o melhor filme do fim de semana: PALÁCIO DOS ANJOS (1970), do grande Walter Hugo Khouri. O Aguilar quando gravou a fita pra mim falou que considera esse o melhor filme de Khouri. Eu acho que concordo com ele, mas quando penso em NOITE VAZIA(1964) e EROS - O DEUS DO AMOR(1981), fico em dúvida. Mas esse é realmente um filme especialíssimo. Se Khouri já capricha no elenco feminino naturalmente, nesse filme, então, é uma coisa de louco. A atriz principal, linda, é a francesa Geneviève Grad. Fiquei fã dela. (Alguém sabe de algum outro filme fácil de achar em que ela participa?) Mas o elenco ainda tem as beldades Adriana Prieto e Rossana Ghessa. Elas são as amigas de Geneviéve (no filme, Bárbara), que é demitida depois de ser assediada pelo patrão e, com as amigas, começam a ganhar dinheiro fazendo "programas". Esse é o melhor filme que eu vi que trata do assunto da prostituição. Mostra desde o começo: a idéia, as dificuldades, o negócio. E tem sempre aquela coisa bem autoral do Khouri - jazz, closes olhando para o vazio indicando flashback, delicadeza em compor os personagens e diálogos e, é claro, sexo. Obra-prima. Grande Khouri. E valeu, Aguilar!!!
segunda-feira, novembro 11, 2002
O PRÍNCIPE
Começarei a comentar os filmes do fim de semana. Muita coisa boa. Pra começar, o novo filme de Ugo Giorgetti, O PRÍNCIPE. Êta filmezinho amargo. Mas como eu também aprecio uísque, apesar do amargor, porque não apreciaria esse filme?
Na história, Gustavo (Eduardo Tornaghi) é o homem que volta ao Brasil depois de um auto-exílio de 20 anos. Ao chegar, ele encontra o país em decadência e vê que o destino de seus amigos foi bem cruel. Um deles, um professor de história, ficou doido ao tentar mudar os livros de história. Ele queria uma história de glória para o Brasil, nem que fosse na base da mentira. Outro, o personagem de Ewerton de Castro, trabalha com marketing, e vê as coisas com olhos estranhamente otimistas. O pior é o amigo que está paralítico depois de um acidente. Memorável a cena em que ele olha para a pele e as "penugens" das mulheres no bar e diz que o que sente mais falta na vida dele é o pau. Pra completar, tem a personagem de Bruna Lombardi, o amor da vida de Gustavo, que diz que lamenta ter "feito tudo errado" na vida. Isso tudo contado num Brasil cheio de assaltos, crimes, miséria e em plena era do apagão.
Alguns acusaram Giorgetti de exagerar no pessimismo, mas outro dia eu me peguei vendo o mundo bem ruim. Eu fiquei sabendo que uma menina por quem eu era apaixonado aos 18 anos está agora com 3 filhos de pais diferentes. E uma das crianças é paralítica. Quando eu soube disso eu fiquei arrasado. Principalmente quando eu me lembrava da glória dos seus 15 anos, quando ela era a garota mais bela e desejada do bairro. E lembro do longo beijo em frente ao portão. E de repente, vê-la assim, tão maltratada pela vida é de doer.
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Música amarga para o momento:
"You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes you just might find
You just might find
You get what you need "
Rolling Stones
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terça-feira, novembro 05, 2002
A COMILANÇA E OUTROS FILMES
O final de semana foi marcante graças principalmente ao filme novo do Almodóvar, que já comentei por aqui, mas parece que ninguém viu ou teve a mesma experiência chapante que eu tive. Só sei que esse filme eclipsou outros filmes ótimos que eu também vi. Pra vocês terem uma idéia eu me peguei pensando o quanto é bom estar vivo pra ver essa obra de arte e me perguntando se no paraíso tem cinema. Heheheh.
Bom, deixando um pouco o Almodóvar de lado, mas sem esquecer tão cedo da emoção de sábado, eis os comentários dos ótimos filmes eclipsados pelo filme espanhol:
A COMILANÇA (La Grande Bouffe)
Filme de 1973 de Marco Ferreri sobre quatro caras que vão pra uma casa comer até morrer. Literalmente. Do Ferreri eu já tinha visto A CARNE, de 1991, filme que nos brinda com a voluptuosidade de Francesca Dellera. Esse, se não tem uma mulher tão bonita, tem um encontro de quatro dos maiores atores do cinema italiano e francês: Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Phillippe Noiret e Ugo Tognazzi. Os quatro se entregaram tão bem ao papel que emprestaram até os nomes próprios (Marcello, Michel, Phillippe e Ugo). Inclusive, até a própria atriz principal, a gordinha Andréa, também é o primeiro nome de Andréa Ferreol. O filme causou furor na época, e realmente em alguns momentos ver aquele povo empurrar comida goela abaixo é meio desagradável. Interessante que os personagens do filme são bem delineados:
- Marcello é o garanhão, o cara que não aguenta passar os dias na casa sem sexo. Por isso contratam prostitutas.
- Michel é o mais "sensível", usa camiseta colante cor-de-rosa, pratica ballet, e sofre de prisão de ventre.
- Philippe é um sujeito que tem uma relação doentia com a ama-seca. É meio estranho ver uma velha masturbando um marmanjo.
- Ugo é o cozinheiro e brincalhão. Legal vê-lo imitando Don Corleone. O PODEROSO CHEFÃO deve ter feito um sucesso enorme na Itália.
- Andrea é a professora gulosa fundamental para a história. Mais rodada do que as prostitutas. Heheheh..
Quando termina o filme, a primeira coisa que me veio à cabeça foi aquela frase de William Blake: "O caminho dos excessos leva à sabedoria."
PEQUENOS ESPIÕES 2: A ILHA DOS SONHOS PERDIDOS (Spy Kids 2: Island of Lost Dreams)
Arrisquei ver esse filme na única sala que não dizia se o filme era dublado ou legendado. Como o shopping ficava perto da locadora onde aluguei os filmes, foi lá mesmo que eu fui ver o novo filme de Robert Rodriguez. Pra minha raiva, o filme também era dublado. Grrr.. Passada a raiva, restou apenas tentar curtir o filme como se estivesse vendo uma sessão da tarde. (O que na verdade era mesmo.=) O filme é legal, a garota (Alexa Vega) está mais crescidinha. Está uma gracinha. Imagina daqui a dois anos, quando ela tiver 16. Hehehe. O filme é diversão pra criançada, mas os adultos também curtem. Vale ver e levar a molecada. Ah, e é melhor esperar até o fim dos créditos. Tem uma surpresinha.
SCARFACE - A VERGONHA DE UMA NAÇÃO (Scarface)
Já tinha visto o ótimo SCARFACE, do DePalma, de 1983. Essa primeira versão do filme (1932) talvez até seja melhor que a mais nova. Foi dirigido por Howard Hawks, sujeito que transitou com sucesso por vários gêneros: western, musical, filme de gangster, comédia. O cinema falado mal tinha começado e nota-se que naquele tempo os filmes não tinham muita música. Se eu não me engano, a partir dos anos 40 foi que os filmes noir começaram a se utilizar constantemente de trilha sonora. Corrijam-me se eu estiver errado. Enquanto estava vendo o filme, achei o personagem de Tony Camonte bem parecido com o Joey da série Friends. Tem um jeitão meio boboca. E haja tiroteio, metralhadoras detonando casas e bares. Mas o forte do filme são os personagens - Tony Camonte, a irmã, a amante, o chefe de Camonte. Teria que ver o filme do DePalma novamente pra ver até que ponto ele mudou na sua versão. Sei que ele mudou Chicago pra Miami. O resto não lembro.
O ENIGMA DE OUTRO MUNDO (The Thing)
Filmaço de John Carpenter que eu nunca tinha visto. Infelizmente vi gravado do SBT, mas no futuro verei na glória de um DVD e com som original e de qualidade. Mas deu pra perceber o brilhantismo dos efeitos especiais fora de série e da direção segura do homem. Música característica dos filmes dele. Ouvindo aquela música lembramos na hora de HALLOWEEN e de ASSAULT ON THE 13TH PRECINCT. Muito legal. Dos filmes mais importantes dele ainda falta eu ver THE FOG. Mas eu chego lá.
Na mesma fita da gravação do SBT gravei na carona dois episódios de Night Visions. Um deles, dirigido por Tobe Hopper. O episódio chama-se O LABIRINTO(The Maze) e tem a Thora Birch como uma garota arredia e que encontra um outro mundo ao atravessar um labirinto. Mas o legal mesmo foi o outro episódio - HARMONIA (Harmony), sobre um forasteiro que chega numa cidade, onde se é proibido ouvir música. Bizarro. E o final surpreendente.
No site http://www.tvtome.com/tvtome/servlet/EpisodeGuideSummary/showid-39/ tem o guia de episódios da série.
segunda-feira, novembro 04, 2002
FALE COM ELA (Hable con Ella)
"El cerebro de las mujeres es um misterio, y en este estado más..."
(Benigno)
Caros amigos, como acabei de ver um dos filmes mais belos da minha história de cinéfilo, preciso compartilhar essa experiência com alguém. Antes de tudo: FALE COM ELA é o melhor filme de Pedro Almodóvar. Olha que eu já tinha babado pelos dois anteriores (CARNE TRÊMULA e TUDO SOBRE MINHA MÃE), mas esse é ainda melhor. Portanto, antes de eu falar qualquer coisa sobre o filme, sugiro vocês irem correndo conferir esse belo trabalho.
Interessante que geralmente antes de ver um filme eu leio as criticas. Às vezes, diversas críticas para um mesmo filme. Dessa vez eu só li algumas linhas de algumas delas. É até melhor mesmo você ir ver o filme sem saber de muito da história. E essa história é contada com uma delicadeza e um carinho tão grandes que a gente acompanha esse ballet com os olhos bem abertos. E em alguns momentos bem úmidos. Os personagens principais, o enfermeiro e o escritor de livros de viagem, formam uma amizade muito bonita. E filme que trata sobre a amizade e amor do jeito que FALE COM ELA trata é artigo raro.
A comparação com o ballet que eu mencionei é feita pelo próprio Almodóvar durante o filme. A primeira cena do filme se passa num teatro, durante a exibição de um espetáculo de ballet. E a última cena também. Aliás, nessa última cena, quando eu vi estampado na tela os nomes de dois personagens da história, eu pensei que o filme iria continuar, eu queria mais, eu queria compartilhar mais da vida dessas criaturas do Almodóvar, que parece que ganham vida própria. Parecem reais. E não seria uma má idéia o diretor retomar a história dos sobreviventes do filme.
E por falar em compartilhar, essa é a palavra chave do filme. Quantas vezes a gente não vê algo que nos deixa tão impressionado ou emocionado que a gente quer mostrar isso pra mais alguém? É por isso que eu estou aqui escrevendo isso pra vocês. É por isso que os personagens do filme, que pra mim são quase reais, sentem fortemente essa vontade de compartilhar os momentos mágicos com alguém que ama.
Longa vida a Pedro Almodóvar!!!!!!!!
Ah, e a cena do Caetano Veloso também é linda!!!!!
