quinta-feira, outubro 16, 2014

SOBRE ONTEM À NOITE... (About Last Night…)



De vez em quando eu sinto vontade de ver um filme da fase oitentista de Demi Moore. Tenho uma admiração por sua beleza angelical desde a minha fase pré-cinéfila. E, se eu não me engano, vi este SOBRE ONTEM À NOITE... (1986) na televisão, antes de ser um cinemeiro de carteirinha. O que mais lembrava do filme era de uma cena em que Demi aparecia pelada em pé, de costas, na cozinha da casa em que morava, junto com o personagem de Rob Lowe.

Naquela época, essa imagem foi tão marcante para a minha cabeça de adolescente cheio de hormônios que o impacto diminuiu um pouco na revisão. Por outro lado, acho que os meus anos de experiência sentimental acabaram fazendo com que o filme tivesse uma importância maior no que se refere aos problemas conjugais. Ou quase conjugais, já que os dois não chegam exatamente a casar. Sem falar que o final é emocionante, compensando o aspecto frio que chega a incomodar na narrativa.

Edward Zwick, o diretor, faria uma obra melhor em tempos recentes, AMOR & OUTRAS DROGAS (2010). Mas SOBRE ONTEM À NOITE...tem um mérito: é baseado em uma peça de David Mamet, o que o torna sofisticado em seus diálogos, que se passam, em sua maior parte, em interiores. Embora James Belushi roube a cena algumas vezes, o que há de melhor no filme são mesmo os diálogos entre o casal. Não tem nada de diálogo cabeça. É tudo muito simples e natural.

Não só pela beleza e graciosidade de Demi Moore, mas é muito mais fácil você ficar do lado dela, já que os roteiristas fizeram do personagem de Lowe um bobão, ainda que um bobão cheio de charme. Na época, o ator era quase tão popular quanto Tom Cruise, entre os jovens astros galãs. O que acaba trazendo redenção ao personagem é o seu sofrimento, depois que os dois se separam. Afinal, não é todo dia que se ganha uma mulher como a Demi, que além de tudo faz uma personagem carinhosa e atenciosa, e depois perde por pura babaquice.

Daí o final ser tão bonito, aproximando finalmente o filme de um belo melodrama amoroso, que não é bem o estilo do cerebral Mamet. Muito provavelmente por isso o filme é tão racional na apresentação da situação complicada que é viver junto e ter que lidar com as mudanças que uma vida a dois traz.

SOBRE ONTEM À NOITE... também serve hoje como um interessante registro da época. E registro também de uma maior permissividade nas relações afetivas nos filmes americanos, apesar de a AIDS já ter surgido (a relação dos dois, por exemplo, começa logo com sexo no primeiro encontro). Muito legal ver a moda da época, com as roupas extremamente folgadas que Demi usa quase o tempo inteiro. Senti falta de um tema musical forte, mas o filme compensa isso com boas atuações e um final emocionante sem exagerar na sacarose. No fim, acabei me surpreendendo positivamente.

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