domingo, outubro 12, 2014

AOS VENTOS QUE VIRÃO



Na manhã deste sábado, tivemos a oportunidade de ver uma sessão de AOS VENTOS QUE VIRÃO (2013) seguido de debate com seu realizador. O Cinema de Arte não faz isso desde MÃE E FILHA, de Petrus Cariry, que felizmente foi exibido numa época em que o UCI Iguatemi ainda não estava com suas máquinas de projeção sucateadas e fazendo vergonha a seus realizadores. Infelizmente, o que tem se visto atualmente é péssima qualidade de imagem tanto em projeções em película quanto em projeções digitais. Hermano Penna, diretor de AOS VENTOS QUE VIRÃO, ficou extremamente triste como o modo como a bela fotografia de seu filme foi totalmente deturpada durante a sessão.

Ele até culpou a distribuidora, mas quem frequenta os cinemas do Iguatemi atualmente sabe que o problema não é esse. No sábado anterior, eu havia visto o drama AMOR FORA DA LEI numa projeção tão escura que mal dava para perceber o rosto dos atores. Por enquanto só tem se salvado a sala IMAX, que é nova e exibe em imagem cristalina, de dar gosto. As demais, todas deixam a desejar. O que é uma pena para o multiplex de maior número de salas do circuito comercial da cidade.

Quanto ao filme de Hermano Penna, apesar da falta de mais força em sua dramaticidade, diria que é um belo trabalho. E que ainda tem o mérito de nos apresentar a Zé Olímpio, um dos últimos sobreviventes da época dos cangaceiros e que viveu na cidade de Poço Redondo, em Sergipe. O local foi palco da morte de Virgulino Ferreira, o Lampião, e, consequentemente, é representativa do ocaso da era do cangaço.

Em um momento em que a polícia e a política era cercada de sujeira, um bando de foras-da-lei acabaram ganhando as graças de boa parte da população rural nordestina e se tornou símbolo de resistência até hoje. Ao mesmo tempo, eles eram também símbolos de uma personalidade irracional do nordestino, em comparação com a personalidade supostamente mais racional dos sudestinos. Isso é descrito muito bem em uma cena em que Marat Descartes apresenta uma aula para um grupo de homens que fariam parte das obras de um edifício em São Paulo.

Essa cena e, ao mesmo tempo, este atual momento em que os nordestinos voltam a ser atacados por alguns preconceituosos de outras partes do país  (cismaram até com o sotaque da Miss Ceará que ganhou o prêmio Miss Brasil este ano, sem falar nos eleitores da Dilma) faz lembrar outro filme muito interessante que aborda o tema de maneira mais enfática, O HOMEM QUE VIROU SUCO, de João Batista de Andrade. No filme de Penna, porém, o protagonista prefere deixar São Paulo para defender as terras de seu pai, em sua cidade natal.

O cineasta se utiliza de muitos simbolismos típicos do sertão do Nordeste para ilustrar o seu trabalho, como o mamulengo, o forró tradicional, a memória dos cangaceiros, a própria imagem triste da caatinga. Poderia ficar mais bonito, mais atraente. Mas enfeitar demais talvez não fosse uma decisão sábia. Preferindo a simplicidade, AOS VENTOS QUE VIRÃO é um filme que poderia alcançar públicos maiores se tivesse oportunidade para tal. A história de Zé Olímpio seria mais conhecida.

Mas se o filme de Penna não teve a repercussão desejada (como, aliás, não tem, a grande maioria dos filmes brasileiros sem o apoio da Globo Filmes), ao menos ele está vivo e pronto para ser reconhecido futuramente por novas gerações, não só como a história de um homem, mas como um recorte de cerca de 30 anos da História do Nordeste.

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