sexta-feira, outubro 10, 2014

SEIS CURTAS EXIBIDOS NO CINE CAOLHO



A 11a edição do Cine Caolho segue mostrando a variedade das produções cearenses. De experimentações formais a formatos mais clássicos, da arte pela arte a convites a reflexões em torno de temáticas sociais, o cinema de uma nova geração, que normalmente se inicia em curtas-metragens, tem ganhado cada vez mais visibilidade em festivais nacionais e internacionais e outras exibições públicas.

JUS

JUS (2012), de Marcelo Dídimo, destaca a importância do jumento na sociedade nordestina através de uma linguagem lúdica e afetuosa. Porém, trata-se mais de um filme sobre a cada vez maior falta de espaço do animal em uma sociedade que se moderniza. Dídimo aponta a desumanidade do homem frente a um animal que tanto fez em todos esses séculos. Dos jumentos recolhidos pelo Detran-CE a uma nada confiável fazenda em Santa Quitéria à rememoração da história de Damião do Jegue, que queria levar o seu estimado animal até o Papa, no Vaticano, além do apresentador que funciona como uma espécie de consciência da humanidade, JUS é um filme que deixa no ar um sentimento terno mas também amargo sobre a situação atual e futura desses doces animais.

TEMPO BRANCO

TEMPO BRANCO (2013), de Sabina Colares e David Aguiar, como um misto de documentário e ficção, se estrutura através de imagens fortes e representativas do sertão nordestino, como uma rede balançando ao vento, nuvens carregadas passeando por um céu azul que, por sua vez, contrasta com a enxada batendo no chão duro e cheio de raízes. O primeiro close-up humano demora um pouco a acontecer. Os diretores convidam primeiro o espectador a educar o olhar, de modo a entrar em uma espécie de transe movido a poesia falada e às imagens das nuvens, que podem assumir diferentes formas a partir da imaginação do espectador. Há ainda um espaço filosófico para o pensar a própria arte, os sonhos e a realidade.

FLUXOS/LINHAS E ESPIRAIS

A animação está bem representada por FLUXOS (2014) e LINHAS E ESPIRAIS (2009), dois trabalhos de animação hipnotizantes de Diego Akel. FLUXOS lida com formas de relevo mais próximas do palpável, dando para perceber, inclusive, as marcas dos dedos do realizador como rastro do árduo processo de animação em stop motion. Já LINHAS E ESPIRAIS trabalha com tinta e brinca com formas em que sucessivas imagens vão se moldando e sendo transformadas em outras imagens. Ambos os filmes lidam com processos de transformação e sugerem simbolismos associados à vida e às relações
humanas.

MONTE PEDRAL

MONTE PEDRAL (2012, foto), de Marcley de Aquino, traz a poesia do cotidiano do sertão cearense para o cinema em uma atitude de reverência com aquilo que é mostrado, quer sejam as figuras do homem e dos animais, quer sejam da natureza. Não à toa os nomes homenageados ao final do filme são de escritores e cineastas que trouxeram a poesia do homem do campo para a arte. As primeiras imagens e sons já mexem com os sentidos: o nascer do sol, o canto dos pássaros, as vacas surgindo ao som de sinos. Monte Pedral é uma homenagem de seu autor aos seus tempos de criança e é possível imaginar cada plano como sendo uma memória de seu arquivo pessoal.

DAMAS DA LIBERDADE

O exemplar mais clássico da noite é o documentário DAMAS DA LIBERDADE (2012), de Célia Gurgel e Joe Pimentel, que faz parte do projeto "Marcas da Memória". O filme trata do importante papel das mulheres na luta pela anistia dos presos políticos nos anos de chumbo. Nos depoimentos, somos apresentados a mulheres que militaram nesses anos difíceis, muitas por convicções políticas, mas, boa parte delas por amor a seus filhos, irmãos, maridos. A costura dos depoimentos das militantes é entrecortada ou ilustrada por imagens de arquivo de grande força histórica e dramática.

Podemos dizer que por mais que certos filmes sejam bem diferentes uns dos outros no aspecto formal, há um denominador comum entre eles: o humanismo. Ele está presente nas questões sociais que envolvem JUS e DAMAS DA LIBERDADE, nos documentários híbridos TEMPO BRANCO e MONTE PEDRAL e até mesmo nas animações FLUXOS e LINHAS E ESPIRAIS, de Diego Akel, em que esse humanismo é menos explicitado, mas que é também percebido.

Esse humanismo pode se configurar na voz triste das mães, irmãs e esposas que perderam seus familiares durante o regime ditatorial do período de 1964-1985; no tom de lamento pelos maus tratos de uma sociedade a um animal que já foi até homenageado por um cineasta sensível ao sofrimento alheio, como Robert Bresson (em A GRANDE TESTEMUNHA, 1966); no tom de saudade da infância, ao exibir uma série de imagens do sertão cearense em sua pureza; e no pensar sobre a própria criação artística, que traz, junto com seu criador, a sua incompletude, sua imperfeição, que, afinal, é o que faz dele um ser humano.

Texto originalmente publicado no site oficial do projeto Cine Caolho.

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