sábado, junho 22, 2013

CARNE TRÊMULA (Carne Trémula)



"Às vezes sinto a impressão de que o público gosta de rir comigo, mas não gosta de chorar ou de sentir um outro tipo de sentimento."
(Pedro Almodóvar)

Quando vi pela primeira vez CARNE TRÊMULA (1997) no cinema, em novembro de 1998, o que mais ficou gravado em minha memória foi a cena em que David, o personagem de Javier Bardem, paralítico, chega em casa para subir à cama de sua mulher, Elena (Francesca Neri), e ela diz para ele que não quer transar, que passou a noite trepando (com outro), que está toda dolorida. Trata-se de um dos momentos mais dolorosos que eu já vi no cinema. Interessante que na época que eu vi o filme, eu senti bem mais a dor de David, e hoje já consigo me solidarizar, diria até mais, com Elena, personagem que cresceu bem mais nesta revisão.

CARNE TRÊMULA também representa um momento em que eu me tornei um fã de Almodóvar. Já acompanhava sua carreira, tendo visto já três filmes no cinema e vários outros em vídeo, mas até então o cineasta não me pegara com tanta força, como nessa história próxima da tragédia e tão mais "séria", em comparação com o que ele costumava fazer até KIKA (1993). Mas depois eu soube que isso era apenas uma impressão minha: que tudo aquilo que eu julgava serem comédias escrachadas são também cheios de sentimentos extremamente pessoais do diretor, que aproximam os filmes de melodramas sinceros. Daí a necessidade de se rever a obra de Almodóvar, para perceber tanto sua evolução como sua coerência estética.

O que me impressionou nesta revisão foi poder compartilhar mais da solidão de Elena, muito embora CARNE TRÊMULA seja um filme mais masculino, centrado principalmente nos personagens de Bardem e Liberto Rabal (Victor). Eles são os homens da vida de Elena, ou os homens que, depois de uma noite trágica que resultaria na prisão de um jovem e na transformação de vida de um policial, que se tornaria paralítico, estariam ligados a ela de uma maneira ou de outra. No caso, pelo sentimento de culpa. Ela se sentiria na obrigação de estar com um dos dois, pelo menos, depois daquela noite.

Outra personagem feminina também se apresenta solitária e trágica, Clara, a mulher madura vivida por Ángela Molina. A mesma Ángela que mais de vinte anos atrás fora uma das mulheres sádicas que perturbavam a vida do protagonista de ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, de Luis Buñuel, com sua beleza e sensualidade. Aqui, ela aparece envelhecida e carente, e que encontra na figura do jovem Victor uma maneira de encontrar não apenas sexo, mas uma espécie de relacionamento quase maternal com o rapaz. Ela ensinaria a ele muito sobre o sexo, mas sempre que eles estão juntos fica a impressão de algo próximo de um incesto.

Essas duas mulheres ganham destaque na entrevista presente no livro Conversas com Almodóvar, de Frederic Strauss. E pensar neste grupo de personagens principais do filme faz com que eles sejam todos dignos de afeto por parte do espectador. Principalmente Elena. Talvez eu tenha me deixado levar pela beleza de Francesca Neri, ou talvez não, apenas tenha achado os personagens masculinos mais fracos, mesmo sendo eles os grandes protagonistas.

Porém, embora CARNE TRÊMULA tenha continuado a ser um ótimo filme na revisão, sinto como se ele tivesse perdido um pouco de sua força em minha memória afetiva. Mas valeu a pena demais ter ido em busca de uma cópia de qualidade, já que o cuidado com as cores tão belas e vivas da fotografia merece ser apreciado da melhor maneira possível. Como em geral ocorre com praticamente todos os Almodóvares.

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