segunda-feira, março 02, 2009

CLEÓPATRA (Cleopatra)



Depois que assisti no ano passado CLEÓPATRA, de Júlio Bressane, fui contagiado por um interesse repentino pela vida dessa que foi uma das mulheres mais importantes da História da humanidade. Até porque a obra de Bressane a coloca como detentora de vastos conhecimentos em diversas áreas, inclusive o ocultismo. Assim, resolvi ver os dois filmes mais famosos sobre a Rainha do Egito que seduziu dois grandes líderes romanos. Um dos filmes é a super-produção dos anos 60 estrelada por Elizabeth Taylor, que pretendo rever em breve; o outro é esta produção também megalomaníaca, dirigida por Cecil B. DeMille e estrelada por Claudette Colbert. CLEÓPATRA (1934), de DeMille, é mais fluido e agradável de se assistir em comparação ao longo filme de Mankiewicz, mas também tem os seus excessos. Afinal, "excessos" é uma palavra que é constantemente associada a DeMille, que já nos anos 30 era famoso pelo seu gosto pelas super-produções de época. A cena, por exemplo, de Cleópatra, entrando com sua comitiva em Roma, toda vestida em ouro hoje mais parece desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Mas como se tratava de uma cineasta com pleno domínio narrativo, DeMille hoje é respeitado por críticos e cinéfilos como um mestre de seu tempo, apesar (ou talvez por causa) dos excessos.

E falando em Cleópatra em Roma, fiquei me perguntando se a estadia da rainha na capital do Império Romano não era apenas uma "licença poética", uma forma de fazer com que a trama ficasse mais emocionante, pelo fato de ela estar presente lá quando César é assassinado. Mas quem sabe até existam incoerências dentro da própria História quanto aos detalhes do ocorrido. Precisaria estudar a respeito para saber mais sobre o que realmente aconteceu e quais as circunstâncias. No filme de Bressane, tudo parece acontecer nos aposentos de Cleópatra, no Egito mesmo, enquanto que no filme de DeMille, os principais fatos acontecem em Roma e dentro de um barco, onde Marco Antônio se encontra com a Rainha para levá-la algemada. Para fins dramáticos, talvez, o cineasta tenha preferido situar a ação em locais estratégicos, de modo que pudéssemos ver a luta de Marco Antônio contra os seus próprios colegas romanos, que o consideram um traidor por - assim como Júlio César - também se deixar seduzir por Cleópatra.

Mas por mais que se ache interessantes os personagens de César e Antônio, não há quem exerça mais fascínio no filme que Cleópatra. Que no filme não é vista com tantos conhecimentos quanto no filme de Bressane. A Cleópatra de DeMille está mais próxima das estrelas das comédias românticas americanas daquela década, com seu jeito ao mesmo tempo sedutor e brejeiro. Ter como protagonista Claudette Colbert, que no mesmo ano fez ACONTECEU NAQUELA NOITE, de Frank Capra, ajuda a criar essa impressão. O filme de DeMille traduz bem o espírito da época e se preocupa mais em contar a história de maneira clara e carregar nas tintas trágicas, de modo que a personagem da Rainha do Egito, bem como o passional Marco Antônio, conquistem a audiência por serem duas pessoas apaixonadas mas que não podem ficar juntas. O sacrifício dos dois no final, regado a um mal entendido, remete a "Romeu e Julieta", de Shakespeare.

CLEÓPATRA, de DeMille, também é carregado de sensualidade. O figurino das mulheres são bem ousados e há, inclusive, uma cena bem fetichista, que mostra um grupo de mulheres fantasiadas de leopardos, andando de quatro e recebendo chicotadas, num espetáculo com a finalidade de agradar Marco Antônio, por mais que aquilo hoje seja de gosto duvidoso. Nada mais natural toda essa sensualidade, quando se trata de uma personagem que exala sexo. Não é pra menos que Bressane resolveu fazer um filme tão erótico sobre ela. Lembro que o filme de Mankiewicz também tem o seu aspecto sensual, com cena de Elizabeth Taylor de costas nuas recebendo uma massagem, logo no início. No CLEÓPATRA de DeMille, a cena de sexo da rainha com Marco Antônio, com as escravas trazendo enormes lençóis coloridos (o filme é em preto e branco, mas impressionante como eu imagino os lençóis como coloridos) para cobrir o momento de intimidade dos dois e a câmera se afastando para mostrar os escravos batendo tambores para celebrar aquele instante é um dos grandes momentos do filme.

Algumas curiosidades: 1. O filme foi indicado a cinco Oscars: filme, assistente de direção (na época, tinha esse prêmio), edição, som e fotografia, ganhando esse último; 2. Algumas cenas da batalha de Marco Antônio com os romanos foram retiradas da primeira versão de OS DEZ MANDAMENTOS (1923) - depois dizem que são só os italianos que são picaretas. :-) 3. Claudette Colbert havia trabalhado com DeMille um ano antes em outro épico histórico, O SINAL DA CRUZ (1932).

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