sábado, fevereiro 28, 2009

THE YAKUZA PAPERS VOL. 1 - BATTLES WITHOUT HONOR & HUMANITY (Jingi Naki Tatakai / Battles without Honor and Humanity)



Quando Quentin Tarantino usou o recurso do sangue espirrando exageradamente dos membros decepados nas cenas de ação e violência em sua obra-prima KILL BILL, ele muito provavelmente fez uma homenagem aos filmes de Kinji Fukasaku, que não por acaso é explicitamente homenageado nos créditos de abertura da edição japonesa do filme. Em minha ignorância em relação ao cinema de ação oriental, provavelmente esse recurso pode não ter sido exclusividade de Fukasaku, mas com certeza vendo o filme nos dias de hoje fica difícil não associar a KILL BILL. A cine-série BATTLES WITHOUT HONOR & HUMANITY (1973) foi lançada nos Estados Unidos num box chamado THE YAKUZA PAPERS, que contém o original e suas quatro sequências. A julgar pelo primeiro filme e pelos trailers das sequências e de outros dois trabalhos de Fukasaku que vêm nos extras do DVD, posso arriscar em dizer que o diretor foi o homem a pintar o cinema japonês de vermelho. Sangue é o que não falta nesse filme, considerado por muitos como "O PODEROSO CHEFÃO japonês", já que a produção foi realizada um ano após o sucesso mundial do filme de Coppola.

A trama se passa no Japão recém-devastado pela Segunda Guerra Mundial e o filme afirma ser baseado em fatos reais, tendo a intenção de contar a história das famílias Yakuza. A série foi adaptada de uma série de artigos publicados por um jornalista e ex-yakuza, Koichi Liboshi. O filme se utiliza do recurso da imagem congelada, em especial nas sequências de morte dos jovens (e velhos) mafiosos. Uma das coisas que chegou a me impressionar foi a morte de um dos personagens mais interessantes da trama, antes da metade do filme. Assim, com o protagonista preso e um personagem importante morto, ficamos sem chão, tentando nos apegar a novos personagens. O excesso de personagens pode deixar as coisas um pouco confusas para o espectador (leia-se "eu"), mas em nenhum momento o filme fica aborrecido ou deixa de ser interessante. Se for como uma série de televisão, que depende muito do gosto adquirido e da familiaridade com os personagens, há chances de as continuações serem ainda melhores.

O principal personagem desse filme cheio de testosterona é Shozo Hirono, interpretado por Bunta Sugawara. Ele é um ex-soldado que após ter tentado vingar o amigo que teve um de seus braços decepados pela Yakuza é levado preso. Na cela, ele conhece um jovem rapaz pertencente a uma das famílias Yakuza. Os dois fazem um pacto de sangue e o yakuza tem a ideia de "simular" um harikiri, a fim de escapar da da prisão. O truque dá certo e em questão de dias Shozo tem sua estadia na prisão diminuída pela família do yakuza. Em sua vida errante e com a coragem que tem, Shozo aceita se filiar à família de mafiosos. Ele chega, inclusive, a impressionar o seu chefe, ao pagar por um erro seu cortando o próprio dedo mindinho, uma prática adotada pela instituição como forma de arrependimento e coragem. A cena do corte do dedo é um dos momentos de destaque do filme, ainda que essa cena se caracterize mais pelo humor do que pela violência gráfica.

O filme também se caracteriza pelo caos reinante, pelo uso da câmera na mão, pelo formato semi-documental e por um número incrível de assassinatos. Cada assassinato é mostrado com a imagem congelada e com a data e o nome da morte do dito cujo. A rapidez com que surge cada morte passa a sensação de que a vida daquele povo nada vale. Morrer é apenas um detalhe. Claro que o filme não se faz apenas de corajosos e sucididas, mas também de covardes e chorões, como o senhor da máfia que pede, chorando, a ajuda de Shozo para que ele execute um serviço perigoso para ele. As motivações dos personagens e suas intenções de mudar de lado nem sempre são claras, mas acho que isso se deve mesmo a uma falta de hábito da minha parte de ver filmes policiais japoneses.

Deixo os meus agradecimentos ao chapa Renato Doho, que fez a gentileza de copiar os cinco filmes do box. Tenho estoque para muita sangreira ainda.

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