quarta-feira, fevereiro 18, 2009

O LUTADOR (The Wrestler)



Lembro que, nos anos 80, eu costumava assistir aqueles programas de luta livre que passavam não me recordo em que canal. Achava aquilo muito divertido. Sabia que era tudo combinado mas sabia que fazia parte do show de entretenimento. Onde estão aqueles lutadores malucos daquele show hoje? Daqueles lutadores, o que se tornou mais famoso foi Hulk Hogan, que até fez alguns filmes para cinema e TV. A grande maioria deve ter ficado como o Randy "The Ham" Robinson, o personagem incorporado com sinceridade e identificação por um inspirado Mickey Rourke em O LUTADOR (2008), o melhor trabalho de Darren Aronofsky. O próprio Rourke, que nos anos 80 era um astro de primeira grandeza de Hollywood, entrou de cara em sua paixão antiga pelo boxe, deixando o cinema um pouco de lado. E o cinema acabou por deixá-lo de lado também, tornando-o coadjuvante de filmes B. A decadência parecia ter chegado definitivamente para o agora desfigurado Mickey Rourke, que nem mesmo com participações mais recentes em filmes classe A como ERA UMA VEZ NO MÉXICO, CHAMAS DA VINGANÇA, SIN CITY e DOMINO, conseguiu sair da aura de decadente.

Sua história até daria para traçar alguma comparação com a de Sylvester Stallone, até pela volta de Sly à boa forma com o seu personagem mais querido, o lutador de boxe Rocky, mas há mais diferenças do que semelhanças entre os dois, até porque Stallone quase sempre foi protagonista de seus filmes, mesmo os mais vagabundos. O que estava faltando para Rourke era mesmo um papel como esse, feito como uma luva para ele. Sua caracterização como o lutador que ganha com dificuldade alguns trocados participando de campeonatos para seus velhos fãs saudosistas é o ponto alto de sua carreira. E saudosismo é palavra-chave em O LUTADOR, que ainda se beneficia dos velhos hard rocks que tanto sucesso fizeram na década de 80. Não é para menos que um dos grandes momentos do filme é a cena de Rourke entrando no ringue perto do final do filme ao som de "Sweet Child o'Mine", do Guns N’Roses, a mais bem sucedida banda de hard rock, ao lado do Bon Jovi, que não comparece na trilha do filme.

O diálogo entre Rourke e Marisa Tomei num bar, lembrando os "bons anos 80" e de como o Nirvana chegou para acabar com a festa e tornar os anos 90 um pesadelo para eles, mesmo não concordando com os dois, me fez simpatizar e compreender o sentimento, já que tenho sentido algo parecido em relação aos 90 e os 2000. No caso de Marisa Tomei, ela está no filme no papel de uma dançarina de boate de strip-tease, que tem como cliente o lutador, que com o tempo torna-se um amigo também. Ambos representam personagens decadentes tentando sobreviver num mundo que não trata bem aqueles que se utilizam do corpo como ganha-pão. Afinal, nada mais efêmero do que a juventude e nada mais cruel do que o tempo. E é nesse clima um tanto quanto baixo astral que se passa a trama de O LUTADOR.

Outro destaque do filme é a linda Evan Rachel Wood no papel da filha do lutador que não quer mais saber do pai, pois ele abandonou a família para se dedicar às lutas e, consequentemente, às farras da época. O momento mais tocante do filme talvez seja o diálogo do pai tentando fazer as pazes com a relutante filha. A decadência e o mal estar são também mostrados na quantidade de pílulas que o personagem de Rourke ingere para ficar "bombado" e no quanto isso repercute para a definição da tragédia do herói. Com uma performance tão intensa e bonita quanto a de O LUTADOR, esperamos que Rourke retorne com força às telas, de preferência com uma estatueta dourada nas mãos. Enquanto isso, Aronofsky se recupera do fracasso do pretensioso FONTE DA VIDA (2006), colecionando prêmios com o novo filme e se preparando para encarar uma reinvenção de ROBOCOP, que me parece uma barca furada, mas o cinema tem das suas surpresas.

O LUTADOR concorre ao Oscar nas categorias de melhor ator e melhor atriz coadjuvante (Marisa Tomei). Estou na torcida pelos dois.

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