quinta-feira, fevereiro 12, 2009

NOSSO AMOR DE ONTEM (The Way We Were)



Um belo exemplo do cinema produzido nos Estados Unidos na década de 70, NOSSO AMOR DE ONTEM (1973) é ao mesmo tempo um história de amor e um filme político. Assuntos políticos estavam tão em voga na época que impregnavam até mesmo filmes românticos. Havia uma preocupação com esses temas, os americanos eram mais críticos ao Governo, havia uma maturidade intelectual no cinema produzido em Hollywood. Não é pra menos que os anos 70 são considerados especiais na história do cinema americano. Sydney Pollack - cujo nome apareceu nos créditos de produtor, junto com o de outro diretor também recentemente falecido, Anthony Minghella, no recente O LEITOR - vivia na época o seu auge criativo e popular e se saía bem tanto em dramas, quanto em filmes de espionagem e até em westerns. Em NOSSO AMOR DE ONTEM, ele ainda teve o mérito de conseguir fazer um par romântico entre Robert Redford e Barbra Streisend, sabendo aproveitar tanto a beleza do galã quanto a estranheza de Streisend, que vai se mostrando uma personagem surpreendentemente atraente ao longo do filme. E de mais fácil identificação com o espectador, apesar de sua extrema seriedade com que via a política e tratava desses assuntos, mesmo em ambientes mais informais e descontraídos como nas reuniões da turma de amigos do namorado.

Na trama que se inicia nos anos 30, Redford é um esportista alheio à política, o bonitão da universidade; ela é a freak, uma judia marxista que distribui panfletos contra a guerra e que fala em discurso sobre o quanto a União Soviética estava se empenhando em ajudar os espanhóis na Guerra Civil Espanhola, enquanto os Estados Unidos ficavam de braços cruzados. Ela queria mostrar que os comunistas não eram o bicho-papão que os políticos americanos queriam que o povo acreditasse que fossem. Mas isso foi antes do mccarthismo, que viria para assombrar a vida do casal nos próximos anos. O interessante do filme é que esse contexto político é mostrado com muita sutileza, sem nenhum didatismo, e até de certa maneira meio que às escondidas, como num thriller de espionagem.

Apesar de trazer cenas memoráveis, Pollack falha na costura dessas cenas. O filme me pareceu pouco coeso, mesmo levando em consideração os saltos temporais. Esse tipo de estrutura funcionaria melhor num filme de espionagem, que já tem uma característica geralmente confusa. Ainda assim, eu diria que a segunda metade de NOSSO AMOR DE ONTEM, ainda que mais problemática no aspecto narrativo, é a mais interessante do filme, quando a política e o drama sentimental/familiar passam a se fundirem com mais força. Mas ao mesmo tempo em que isso deixa o filme mais interessante no aspecto racional, o prejudica no aspecto sentimental. Ainda que Pollack nos reserve momentos de pura beleza e romantismo, como a cena que antecede o parto da personagem de Barbra Streisend, por exemplo, o aparente racionalismo diminui o impacto dramático do filme.

Lendo sobre a produção, soube o porquê desse problema estrutural do filme e isso se deve principalmente ao fato de que Pollack, ao contrário do que desejava o roteirista e criador da trama, Arthur Laurents, fez um filme em que o personagem de Redford ganhava a mesma importância que a heroína idealizada por Laurents, criada já com Barbra Streisend em mente, levando em consideração que na época ela era a judia mais famosa de Hollywood. Sua personagem foi baseada numa garota que o roteirista havia conhecido na faculdade e que deixou nele fortes lembranças. No fim das contas, o roteiro criado por Laurents foi mexido por vários roteiristas, o filme ficou cheio de buracos, e a amizade de Pollack com Redford acabou por prejudicar um pouco o resultado final. Ainda assim, mesmo com todos os problemas, NOSSO AMOR DE ONTEM tem o seu charme e resistiu bem ao tempo.

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