sexta-feira, março 06, 2009

CAOS CALMO



Nanni Moretti é um sujeito que imprime simpatia. Mais acostumados a vermos o ator estrelando seus próprios filmes, em CAOS CALMO (2008) temos a oportunidade de vê-lo protagonizando um trabalho de outro diretor, Antonello Grimaldi. E ele não interpreta de maneira muito diferente do que a gente está acostumado. Moretti tem uma persona forte e não prima por ser exatamente versátil. Mesmo em trabalhos mais dramáticos, como O QUARTO DO FILHO e este filme, há uma sutil veia cômica por parte do ator. E ambos os filmes compartilham algo em comum, além da presença de Moretti: eles lidam com o tema da perda e do luto. CAOS CALMO, no entanto, é um pouco mais leve e abre espaço para o riso. Afinal, é da própria natureza do filme tratar as dificuldades da vida com leveza, ainda que haja uma tênue linha separando a ordem aparente do desespero.

Em CAOS CALMO, Moretti está com o irmão jogando frescobol numa praia quando vê duas mulheres prestes a morrerem afogadas, levadas por ondas violentas. Ele salva a vida de uma mulher, mas por ironia do destino, ao voltar para casa, se depara com o corpo estendido de sua esposa no chão. Ela tinha subido numa árvore, caiu e morreu. Depois da morte da esposa e para se fazer de forte para não traumatizar a filha pequena, ele retoma a rotina da vida, mas faz uma drástica alteração: ele deixa a filha todos os dias na escola e passa o dia esperando por ela do lado de fora, sentado no banco de uma praça. Ele passa a se desprender de seu trabalho e se torna uma celebridade na praça, a ponto de ser notícia de jornais. Na praça, ele conhece, ainda que de vista, alguns habitantes com quem ele se relaciona com distanciamento, mas com simpatia, como é o caso do garoto com síndrome de Down e da bela moça que passeia todos os dias com o seu cachorro.

O que destaca o filme e surpreende é uma cena de sexo numa casa de praia. A cena é forte, sensual e inesperada, levando em consideração o andamento narrativo até essa sequência. Muita gente, inclusive, saiu do cinema questionando essa cena, como se ela fosse apenas um "enfeite", um acessório desnecessário para a trama. Eu, que não sou de reclamar de cenas de sexo, mesmo as ditas "gratuitas", acho que o diretor, que muito provavelmente retirou a cena do livro no qual o filme é adaptado, deve ter uma boa razão para tê-la incluído, além das razões mais comerciais. Essa cena em particular acaba por tornar CAOS CALMO pouco apropriado para toda a família. Como se Grimaldi percebesse que seu filme estava com uma aparência excessiva de drama para todas as idades e quisesse explicitar o fato de que seu filme é adulto, trata de assuntos adultos, citando, inclusive, a psicologia freudiana para descrever o estado de mudança brusca no comportamento do protagonista. Eu saí do cinema sem saber se tinha gostado do filme, mas não dá pra ficar alheio ao agradável andamento narrativo, à personalidade simpática de Moretti e às soluções controversas do diretor para fazer com que seu filme fuja do lugar comum. Ah, e no final do filme temos a participação especial de um famoso diretor.

CAOS CALMO foi eleito um dos vinte melhores filmes do ano pela equipe da Revista Zingu!

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