sexta-feira, dezembro 30, 2005

O DIVERSIFICADO CINEMA EUROPEU EM TRÊS FILMES



A listinha de melhores do ano e a breve retrospectiva vão ficar pra quando o ano acabar. Como diria Lenny Kravitz: "it ain't over 'til it's over". Ainda pretendo ver filme no cinema amanhã. É bem pouco provável que a lista de melhores mude com essas estréias modestas de hoje, mas tudo é possível. Logo, hoje vai ser dia de mandar um post "três em um" e falar bem superficialmente de filmes que não me deixaram inspirado o suficiente para lhes dedicar um post exclusivo. Os três têm em comum apenas o fato de terem sido produzidos na Europa e de terem sido bastante premiados ou indicados a prêmios importantes.

TREM DA VIDA (Train de Vie)

Ganhador do prêmio de Melhor Primeiro Filme no Festival de Veneza, TREM DA VIDA (1998), do romeno Radu Mihaileanu, lembra um pouco os filmes de Emir Kusturica, como também A VIDA É BELA, de Roberto Benigni. A trama é bem curiosa: em 1941, grupo de judeus da Europa Oriental entra em pânico ao saber que os nazistas estão chegando. O louco da aldeia tem a brilhante idéia de elaborar um plano de fuga bastante criativo. A idéia é simular uma deportação com parte dos judeus se fazendo passar por nazistas e outra parte se passando por judeus presos. Eles conseguem comprar vagões até formar um trem, pintam-no de modo que pareça com trens alemães e se preparam para encarar os verdadeiros nazistas pelo caminho. Alguns momentos do filme são bem divertidos e o final é surpreendente. Mas não foi um filme que chegou a me entusiasmar.

CONTRA A PAREDE (Gegen die Wand)

Provavelmente o mais interessante dos três. CONTRA A PAREDE (2004), do turco-alemão Fatih Akin, ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim e o Goya de Melhor Filme Estrangeiro. É uma história de amor punk de tons trágicos. Na trama, jovem muçulmana internada numa clínica por tentativa de suicídio conhece um sujeito que também passa pela clínica pelas mesmas razões. Com o objetivo de se separar da família, ela pede para que o rapaz se case com ela. Seria apenas um casamento de conveniência e os dois viveriam suas vidas sexuais de modo independente. O problema é que eles começam a se apaixonar um pelo outro e uma tragédia acontece. Interessante que o filme mistura rock dos anos 80 (Depeche Mode, Sisters of Mercy) com música tradicional turca, que ajuda a criar um clima de estranheza e sofisticação à obra.

AS BICICLETAS DE BELLEVILLE (Les Triplettes de Belleville)

Impressionante como esse filme é odiado por algumas pessoas. Eu achei, no mínimo, bastante curioso, principalmente pelo fato de ser um filme quase mudo. AS BICICLETAS DE BELLEVILLE (2003) tem pouquíssimos diálogos e os traços do desenho são bem originais e estranhos. A história gira em torno do seqüestro de um garoto durante uma competição ciclística. Sua avó e o cachorro partem em sua busca e são auxiliados por três velhinhas gêmeas que têm o hábito de comer sapos. Não sei se há alguma mensagem oculta nessa história estranha. Na verdade, nem me lembro mais do final do filme. AS BICICLETAS DE BELLEVILLE foi indicado ao Oscar de melhor animação e melhor canção.

Agradecimentos à Carol que me emprestou os dois últimos filmes em DVD.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

A VIDA E MORTE DE PETER SELLERS (The Life and Death of Peter Sellers)



Uma das coisas que lamentei vendo este A VIDA E MORTE DE PETER SELLERS (2004) foi o fato de não ter visto os famosos filmes da Pantera Cor-de-Rosa. Aliás, até vi alguns quando criança, mas não lembro de quase nada. Felizmente, os mesmos podem ser conferidos agora nos DVDs lançados pela Fox há alguns meses. Isso não se constitui problema quando lembro que também só fui ver os principais filmes de Ed Wood, depois de ter assistido o maravilhoso longa de Tim Burton.

Diferente da belíssima homenagem que Burton fez ao "pior diretor da história do cinema", A VIDA E MORTE DE PETER SELLERS deixa uma impressão de que Sellers era uma pessoa um pouco desagradável de se conviver. O Peter Sellers mostrado no filme é egocêntrico, meio infantil, bastante impulsivo, facilmente manipulável e às vezes agressivo. Não deve estar muito distante do verdadeiro Sellers, mas não deixa de causar um certo mau estar no modo como Geoffrey Rush interpreta Sellers. Aliás, nunca fui muito com a cara de Rush, embora reconheça sua versatilidade. Acho que um dos principais méritos do filme foi mostrar a fragilidade e a brevidade da vida de uma pessoa. O fato de se ver a vida de um homem (com problemas cardíacos) passar em apenas duas horas só aumenta essa sensação.

Pra quem é cinéfilo, o filme é mais atraente. Só assim pude ficar sabendo: 1) da paixão que Sellers teve por Sophia Loren - interpretada no filme pela bela Sonia Aquino, quase sempre com generosos decotes -, e de quanto isso contribuiu para o fim de seu primeiro casamento com Anne Sellers (Emily Watson); 2) da maneira como Stanley Kubrick (interpretado por outro Stanley: o Tucci) o convidou para participar de seus filmes; 3) da relação de amor e ódio com Blake Edwards (John Lithgow, ótimo); 4) de como uma má interpretação dos conselhos de seu guru picareta (Stephen Fry) o levou a conhecer a sua segunda esposa (Charlize Theron); 5) do seu amor devotado à mãe, entre outras coisas. Claro que o filme pode ter deturpado um pouco do que realmente aconteceu, mas isso é natural.

No mini-documentário (12 min) presente nos extras, achei legal ver Blake Edwards ainda vivo e falando de sua relação de vinte anos com o ator. A maior parte das cenas deletadas foram de cenas mostrando Sellers interpretando pessoas a seu redor, justamente os momentos que deixam o filme um pouco cansativo. Por mim, podiam tirar todas essas cenas. Teve uma cena deletada que eu achei que deveria ter entrado no corte final, que é aquela de Sellers batendo o carro ao lado de sua terceira (ou seria quarta?) esposa.

O diretor Stephen Hopkins parece estar adquirindo algum prestígio nos últimos anos. Não custa lembrar que os melhores episódios da primeira temporada de 24 HORAS (2001) foram dirigidos por ele - se bem que a série não piorou depois que ele saiu. Porém, meu filme favorito dele continua sendo A SOMBRA E A ESCURIDÃO (1996).

quarta-feira, dezembro 28, 2005

PERSONA - QUANDO DUAS MULHERES PECAM (Persona)



Minha sede por novos filmes é tanta que não tenho o hábito de rever nem mesmo filmes de que gosto muito. Existe um mundo de obras-primas a serem descobertas, dezenas de diretores importantes cujos trabalhos eu ainda não conheço e o tempo é tão escasso. Mas aí eu tive a chance de rever PERSONA (1966) - esqueçamos esse subtítulo idiota -, numa cópia em DVD com excelente qualidade de imagem, emprestada pela minha amiga Carol, que de vez em quando consegue cada preciosidade... A primeira vez que vi PERSONA foi em fevereiro/2003 (tem até um mini-texto meio tosco sobre ele aqui no blog), mas foi numa cópia em VHS horrível da Continental. A primeira vez que vi o filme, não entendi nada. Não que muita coisa tenha mudado com a revisão. O filme ainda é um enigma pra mim. Quem sabe numa outra ocasião, eu entendo melhor.

Confesso que não sou muito fã de Ingmar Bergman. De sua obra, o único filme do qual realmente sou fã é MORANGOS SILVESTRES (1957), por causa da ligação com o romantismo do passado, o apego com a memória, o saudosismo da infância, coisas com os quais eu me identifico bastante. Os outros filmes de Bergman que vi tiveram efeito diverso em mim. Alguns eu gostei bastante, como GRITOS E SUSSURROS (1972) e FANNY E ALEXANDRE (1982); outros, nem tanto, como MONIKA E O DESEJO (1953), O SÉTIMO SELO (1957) e O OLHO DO DIABO (1960). Talvez por não tê-los visto no melhor momento. Mas o certo é que Bergman, até o momento, não é dos meus cineastas favoritos. Seus filmes, em geral, não são facilmente absorvidos pela minha memória. Mais parecem sonhos que ficam guardados no subconsciente.

Não existe nenhuma outra forma de arte que se assemelhe mais ao sonho do que o cinema. E alguns cineastas, como Bergman, souberam tirar proveito disso. Nos anos 60, principalmente, época da contra-cultura, do LSD etc., havia uma vontade maior de inovar, de experimentar, de querer fazer filmes menos lineares, menos lógicos. Havia uma vontade de querer fazer filmes para o terceiro olho, seja lá o que isso signifique. Talvez por isso que essa foi a década da decadência do cinema americano, mais ligado ao clássico narrativo. Foi a década da explosão do cinema de vanguarda na Europa e no resto do mundo.

Aqui no Brasil, o maior herdeiro do cinema de Bergman foi Walter Hugo Khouri. Vejo muitas semelhanças entre PERSONA e filmes como AS DEUSAS e AMOR VORAZ. Esses três filmes mostram mulheres com problemas psicológicos passando uns tempos numa casa de campo. No caso de PERSONA, temos Liv Ullmann vivendo uma atriz que deixa de falar durante uma representação teatral de "Electra". Depois de ter sido internada numa clínica por uns tempos, constatou-se que ela não está doente; que apenas optara pelo silêncio. Uma jovem enfermeira (Bibi Andersson) é encarregada de tratar dela. As duas ficam isoladas numa bela ilha - o lugar era de propriedade do próprio Bergman e foi cenário de vários outros filmes do diretor. Aos poucos, a enfermeira passa a gostar de forma obsessiva da atriz.

PERSONA é tido como um obra que pode ser lida à luz da psicanálise freudiana. A personagem de Liv Ullmann, de acordo com o que li, seria parafrênica. Ou narcisista. Ela é incapaz de amar, mas vive de ser amada, depende do amor dos outros. Freud acreditava que as mulheres teriam uma maior tendência ao narcisismo do que os homens. E que a maior parte das mulheres superam esse narcisismo através da maternidade. No filme, a personagem de Liv Ullmann chega a rasgar a fotografia do filho. A personagem de Bibi Andersson é menos misteriosa, já que ela passa o tempo todo contando sobre suas neuroses, enquanto Liv Ullmann fica o tempo todo de boca fechada. A personagem de Andersson conta à atriz coisas de sua intimidade, que nunca havia contado a ninguém. Ficamos sabendo de seu sentimento de culpa por causa de um aborto no passado. Talvez por causa de sua baixa auto-estima ela tenha se ligado à personalidade forte da personagem de Liv Ullmann. Ela seria o modelo da neurose obsessiva. Ela fica tão obcecada pela atriz que quer ser ela, sacrificando a si mesma.

Tem aquela famosa cena em close que mostra a metade dos rostos de cada uma. Para essa cena, Bergman fotografou justamente as metades "feias" dos rostos das duas atrizes. Como se sabe, a maioria das pessoas têm uma metade do rosto mais fotogênica que a outra. Lembro de ter assistido uma entrevista uma vez, se eu não me engano com a Malu Mader, no programa do Jô Soares, em que ela falava sobre isso. Para o filme, esse recurso das duas metades dos rostos, além de deixar tudo muito bizarro, ajudou a explicitar o lado mais sombrio de cada personagem e de cada atriz.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

DUELO AO SOL (Duel in the Sun)


David O. Selznick foi um dos produtores mais poderosos da era de ouro de Hollywood. Só mesmo Hitchcock pra conseguir dobrar o homem e fazer os filmes do jeito que queria. Normalmente, em grandes produções, era comum haver briga entre Selznick e os diretores contratados. O caso mais notório é o de E O VENTO LEVOU (1939), que teve vários diretores além de Victor Fleming atrás das câmeras. Com DUELO AO SOL (1946) não foi muito diferente. É um filme de múltiplos diretores, embora a direção seja atribuída somente a King Vidor. Na época em que foi produzido, era o filme mais caro já realizado até então. O dinheiro que se gastou com publicidade foi quase tão alto quanto o valor gasto com a produção. Assim como E O VENTO LEVOU, DUELO AO SOL é carregado de tons épicos e possui um belo uso da fotografia em technicolor - o vermelho do céu contribui para acentuar o sentimento de paixão. Se bem que o colorido do filme funciona melhor com as paisagens do que com a cor da pele do elenco.

Na trama, Jennifer Jones é Pearl, uma jovem mestiça nascida de um homem branco e uma índia. Depois que seu pai é enforcado por ter matado a mãe e o amante em ato de adultério, ela é enviada para os familiares ricos do pai. Lá, ela é bem tratada pela senhora (interpretada pela estrela do cinema mudo Lillian Gish), mas é maltratada pelo preconceituoso Senador (Lionel Barrymoore), um poderoso barão do gado do estado do Texas. Mas quem mexe mesmo com o coração de Pearl são os dois jovens irmãos interpretados por Joseph Cotten e Gregory Peck. Cotten é o irmão bondoso, educado, que estuda para ser advogado; Peck faz o irmão malvado, indisciplinado e mestre em domar cavalos e administrar o gado. Para ele, a garota mestiça é semelhante a um cavalo a ser domado. Por isso, ele não se importa em levar alguns tabefes, se o objetivo é conquistar a jovem.

Acho que esse é apenas o segundo filme que vejo que possui um prólogo contendo apenas uma música instrumental para criar expectativa no expectador. (O primeiro havia sido SPARTACUS, de Stanley Kubrick). No caso de DUELO AO SOL, o prólogo dura mais de dez minutos. Depois, entra a voz grave de Orson Welles nos apresentando a história a ser contada, que tem o valor de uma lenda.

Curiosamente, DUELO AO SOL foi um dos primeiros filmes que Martin Scorsese assistiu quando criança. Ele ficou extremamente impressionado com a seqüência final - o tal duelo do título, nas montanhas. O amor e o ódio se misturando e se confundindo. Imagino o quanto deve ter sido prazeroso para ele ter tido a chance de trabalhar com Gregory Peck anos depois, em CABO DO MEDO.

Filme visto no DVD da ClassicLine, que está com boa qualidade de imagem.

P.S.: 30 dos melhores momentos do cinema em 2005. Nova coluna no CCR.

domingo, dezembro 25, 2005

E SE FOSSE VERDADE (Just like Heaven)



Alguns trailers, em vez de cumprir da melhor maneira possível sua tarefa de "vender o produto", acabam passando uma idéia errada do mesmo para o público. O trailer de E SE FOSSE VERDADE (2005) é um desses casos. Pra completar, os críticos também não estão ajudando: o filme está sendo tratado como um mero filminho bobo, propício para o natal, época em que as pessoas vão menos ao cinema e, quando vão, elas talvez precisem de algo mais leve, para atenuar as cargas desse período, em que a cabeça da gente anda cheia de reflexões e o coração está mais sensível. Até quem não é cristão, ou adepto das tradições natalinas, acaba fazendo esse tipo de balanço anual.

Como passei por um momento traumático recentemente, tenho encarado a vida como algo bem mais frágil e passível de extinção. Talvez por isso que eu não consiga ver o filme como uma mera comédia romântica. Aliás, o termo "comédia", nem sei se pode ser aplicado a esse filme. Na trama, Reese Whiterspoon é uma médica novata e bastante esforçada que sofre para conseguir a efetivação no hospital. No dia que consegue, ao voltar pra casa, sofre um terrível acidente, tendo seu carro atingido por um caminhão. Depois dessa seqüência, passamos a ver o filme pelo ponto de vista de Mark Ruffalo,um arquiteto deprimido que procura um apartamento para morar sozinho. Até que o destino, como que por milagre, joga literalmente na sua cara um anúncio de aluguel de apartamento. O lugar é confortável e tem uma bela visão da cidade de San Francisco. O problema é que ele vai ter que lidar com o espírito de Reese, que faz questão que ele saia de sua propriedade. Contar mais pode estragar algumas surpresas.

Algumas das situações, é verdade, nem podem ser chamadas de surpresas - são velhos clichês -, mas de vez em quando Mark Waters consegue subverter as regras do gênero. Nesse filme, é possível que ele até tenha ido ainda mais longe do que em MENINAS MALVADAS (2004), seu mais elogiado filme. O diretor é esperto o suficiente para saber aproveitar o poder carismático de seu elenco. Se nos seus filmes anteriores - o outro é SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA (2003) -, ele soube fazer bom uso da gracinha da Lindsay Lohan, nesse novo trabalho, Mark Ruffalo e Reese Whiterspoon têm seu espaço para brilhar. Reese, inclusive, está numa fase muito boa de sua carreira e pode até ser indicada ao Oscar por seu papel em JOHNNY & JUNE.

Como apreciador de música pop, alguns filmes conseguem me conquistar logo de cara, apenas pelo bom uso de uma canção marcante nos créditos de abertura. Nesse filme, tive o prazer de ouvir "Just like heaven", do The Cure, na voz de Katie Melua - nunca ouvi falar dessa moça. O bom é que quem quiser ouvir também a versão original, é só ficar até os créditos finais para matar a saudade desse clássico. Enquanto isso, você pode ficar por alguns minutos pensando nesse lance de destino, em coisas inevitáveis, em conspirações astrais...

sexta-feira, dezembro 23, 2005

O OUTRO LADO DA RAIVA (The Upside of Anger)



Acho que devo ser um dos poucos blogueiros cinéfilos atualizando o blog em plena véspera de Natal. Agora, por exemplo, eu deveria estar me preparando para ir para a festa de formatura de um grande amigo meu. Mas, infelizmente, não estou com condições físicas e psicológicas para ir a uma festa. O que eu mais tenho gostado nesses dias tristes é de meu quarto, onde posso ler meus livros, ver meus filmes. Se é pra eu estar sozinho, que esses momentos sejam prazerosos. Acho que eu tenho uma espécie de atração mórbida pela melancolia. Por isso gosto tanto de canções tristes e melodramas. Se eu pego por acaso um melodrama que me faz chorar, já sinto como se tivesse ganhado o dia.

O OUTRO LADO DA RAIVA (2005) não chega a ser um melodrama do tipo calculado pra fazer chorar - tende mais para um realismo - mas o diretor Mike Binder conduz a trama com tal sensibilidade que eu esperava uma grande catarse no final. Não vou dizer aqui se minhas expectativas foram ou não cumpridas para não dar nenhuma pista do final do filme.

O filme já começa mostrando um funeral. Quer dizer, já sabemos de antemão que alguém morre na história. Então, o filme volta no tempo três anos. E passamos a nos familiarizar com a família de Joan Allen, formada por ela e suas quatro filhas, as gatíssimas Erika Christensen, Keri Russell, Alicia Witt e Evan Rachel Wood. O marido sumiu e a mulher acredita que ele fugiu para a Suécia com a secretária. Ela fica deprimida, mas aos poucos vai sendo consolada pelo ex-jogador de beisebol profissional, e agora DJ, Kevin Costner, que na verdade é também um ser solitário, que vê naquela casa cheia de tensão e mulheres bonitas uma espécie de abrigo.

Os problemas das vidas de cada um dos personagens são narrados sem pressa por Binder, que também faz parte do elenco. O fato de a gente saber que alguém vai morrer faz com que criemos um sentimento de apreensão, de medo de saber que qualquer doença ou acidente pode tirar a vida de uma das meninas.

Pena que o DVD do filme, lançado pela Imagem, saiu em fullscreen, o que é uma pena já que a janela correta do filme é 2,35, como pode se notar pelo trailer. Os principais extras do disco são as mini-entrevistas com o sempre simpático e belo elenco.

quinta-feira, dezembro 22, 2005

OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS (Gentlemen Prefer Blondes)



Retomei a minha peregrinação aos filmes de Howard Hawks bem antes do que imaginava. E continua a minha impressão de que OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS (1953) é o pior filme do diretor com a revisão. Melhor do que ver o filme é ler Hawks falando a respeito das filmagens no livro de entrevistas de Peter Bogdanovich. Lendo a entrevista, ficamos sabendo que a intenção de Hawks era mesmo fazer um filme com personagens vulgares e que o tom cínico era proposital.

Outro detalhe curioso era o fato de que tanto Marilyn Monroe quanto Jane Russell não eram sexy na vida real. Jane era uma pessoa solitária. Quando o marido viajava, ela batia na porta de Hawks e pedia para fazer o jantar, apenas pelo prazer da companhia. Marilyn tinha um grande complexo de inferioridade, era uma menina muito problemática que tinha dificuldade de se adaptar ao mundo do cinema e de decorar as linhas dos diálogos, de modo que era preciso tentar várias vezes para que a cena saísse boa. Enquanto isso, nas telas, elas eram dois símbolos sexuais.

OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS foi o primeiro e único musical de Hawks. Parece que ele não levou muito a sério as filmagens mas mesmo assim o filme foi um grande sucesso de bilheteria, dentro e fora dos EUA. Um dos destaques do filme é a fotografia em technicolor com as cores bem berrantes. Gosto particularmente do vermelho vivo do cenário e do vestido cor-de-rosa da Marilyn na cena em que ela canta "Diamonds are a girl's best friend". Pode até ser um pouco vulgar, mas a Marilyn estava no auge da beleza física e uma mulher bonita é sempre agradável de se olhar. Por outro lado, senti que Jane Russell já tinha passado do ponto. Seu auge havia sido dez anos antes, em O PROSCRITO (1943). Além do mais, seus traços carecem de uma maior delicadeza.

Não sei dizer se é porque eu não sou muito chegado a musicais ou se é porque o filme não é mesmo bom, mas tem outras coisas no filme que me incomodam, como a estória fraca e a ética das protagonistas. Sei lá, mas eu ainda prefiro mulheres que se apaixonam pelos homens, independente da conta bancária. Mas não quero deixar uma impressão moralista aqui.

Os próximos filmes de Hawks que devo ver serão os westerns irmãos EL DORADO (1967) e RIO LOBO (1970). Isso, se eu não encontrar por aqui O CAMINHO PARA A GLÓRIA (1936), que o Leandro disse que acabou de sair em DVD no Brasil.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

GUS VAN SANT, JONATHAN GLAZER E NEIL LABUTE



Há filmes que nos deixam um ponto de interrogação sobre suas reais intenções. Às vezes, conhecer a filmografia do diretor ajuda um pouco a entender o que ele quis dizer com determinado filme. Alguns diretores despertam o nosso interesse de tal maneira que de repente nos vemos na obrigação de conhecer toda a sua filmografia. Quem são esses três diretores? O que eles querem dizer afinal? Os três podem ser considerados autores? Seus trabalhos têm coerência, temas recorrentes? Estou aqui mais pra deixar as perguntas que dar as respostas.

ENCONTRANDO FORRESTER (Finding Forrester)

Meu interesse maior por Gus Van Sant se deu principalmente a partir de ELEFANTE (2003), obra-prima que forma uma espécie de trilogia com - os infelizmente ainda não vistos - GERRY (2002) e LAST DAYS (2005). De repente, até filmes esnobados do diretor tornam-se objetos de reavaliação. E não apenas por mim. É o caso de títulos como ENCONTRANDO FORRESTER (2000) e ATÉ AS VAQUEIRAS FICAM TRISTES (1993). ENCONTRANDO FORRESTER é filme irmão de GÊNIO INDOMÁVEL (1997). Assim como o seu antecessor, neste vemos um jovem com capacidade intelectual acima do normal (Rob Brown) e um mentor espiritual e afetivo que o guia (Sean Connery). No entanto, continuam sendo um mistério pra mim as reais intenções de Van Sant para ter que contar essa história duas vezes. Seria o diretor uma espécie de garoto prodígio quando jovem? Os dois filmes são apenas simpáticos e meio modorrentos, mas sei lá: tenho impressão que eles são bem mais do que meras histórias de professor e pupilo. Gravado do Hallmark.

SEXY BEAST

Jonathan Glazer é um caso bem recente. É um diretor de videoclipes que se tornou cineasta. Meu interesse pelo seu trabalho se deve exclusivamente a REENCARNAÇÃO (2004), uma das mais gratas surpresas desse ano. Diferente de usar um estilo rápido e excessivamente pop, como era de se esperar de um videoclipeiro, vemos um diretor de andamento lento e com gosto por planos-seqüência. Por causa disso, lá fui eu ver a sua estréia com SEXY BEAST (2000), que até lembra os filmes de Guy Ritchie, o que não é bem um elogio. É um bom filme, embora não seja lá muito memorável. É a velha história do ex-mafioso que quer cair fora, mas que ainda é assombrado por seus velhos companheiros. Destaque para a performance cruel de Ben Kingsley. Gravado da FOX.

ARTE, AMOR E ILUSÃO (The Shape of Things)

Neil LaBute entrou nesse jogo porque seus filmes pra mim ainda são um enigma. Ainda mais depois de ver este intrigante ARTE, AMOR E ILUSÃO (2003). É o tipo de filme que não dá pra contar muito sob o risco de estragar a grande surpresa final. Tenho vontade de ver seus dois primeiros e controversos filmes - NA COMPANHIA DE HOMENS (1997) e SEUS VIZINHOS, SEUS AMIGOS (1998), do tempo em que ele era acusado de apologia ao machismo. ARTE, AMOR E ILUSÃO é exatamente o oposto disso, está mais para filme sobre a crueldade feminina. Vai ver LaBute não é machista coisa nenhuma. Apenas procura em seus filmes mostrar até que ponto as pessoas vão para se sentirem donas da situação. Ou então, eu estou viajando na maionese e ele é só mais um operário de Hollywood, vide os "nada a ver" ENFERMEIRA BETTY (2000) e POSSESSÃO (2002). De todo modo, o filme já vale pela presença de duas beldades: Rachel Weisz e Gretchen Mol. É um belo filme sobre manipulação e auto-estima. Visto em DVD há alguns meses.

terça-feira, dezembro 20, 2005

KING KONG



E eis que finalmente estréia o tão aguardado KING KONG (2005), de Peter Jackson. Desde a primeira vez que vi o trailer, que pus o filme entre os mais aguardados do ano. Talvez por isso que eu tenha me decepcionado um pouco. Está havendo também uma decepção no quesito bilheteria. Apostaram muito e não é muita gente que está saindo de casa para ver o filme. Aqui no Brasil o gorilão está sendo exibido em 650 salas. Esperava-se um novo TITANIC. Não chegou nem perto.

Uma decisão acertada de Peter Jackson foi agir como o Spielberg em JURASSIC PARK, fazendo um pouco de suspense. Só é mostrado a Ilha da Caveira, os monstros e Kong depois de uma hora e meia de filme. O primeiro - e maior - ato do filme mostra uma excelente reconstituição dos EUA da Grande Depressão. Em destaque, um diretor de cinema picareta e obstinado (Jack Black), uma atriz de teatro desempregada e faminta (Naomi Watts) e um dramaturgo respeitado (Adrien Brody). Os coadjuvantes que vão servir de almoço para os dinos são apresentados ao chegarmos ao barco. O segundo ato é o mais movimentado dos três. Um desfile de dinossauros, insetos gigantes e outras criaturas horripilantes. Difícil não vibrar quando Kong salva a loira das garras de um dino gigante. Do terceiro ato, o que eu mais gostei foram os aviões da década de trinta parecidos com os do filme original.

Quanto aos efeitos especiais, achei-os também aquém do esperado. Pareceu muito falso nas cenas que misturavam dinossauros e homens, chegando a ser inferior a JURASSIC PARK (1993), realizado há mais de dez anos. Pelo menos, as cenas envolvendo o King Kong alcançaram um realismo maior, graças ao trabalho com o ator Andy Serkins. O peso e a violência de Kong chegam a impressionar, especialmente nas primeiras vezes em que ele aparece, antes de se apaixonar por Naomi Watts. A atriz é, com certeza, uma das melhores coisas do filme. Não consigo imaginar outra para o papel.

Mesmo assim, não fiquei nenhum pouco comovido com a história de amor entre a bela e a fera. Não chegou perto do impacto que teve em mim o clássico de 1933, mesmo com toda a distância entre as tecnologias. Acho que o problema está mesmo na sensibilidade de Peter Jackson em filmar estórias de amor. Basta lembrar de ALMAS GÊMEAS (1994), que é um filme brilhante, mas que trata o amor como algo bizarro, tornando difícil a identificação com o espectador comum. Até mesmo o amor de Sam para com seu mestre Frodo em O SENHOR DOS ANÉIS não chega a ser tão comovente quanto no livro de Tolkien. Vai ver isso é uma marca do diretor e isso ainda seja levado em consideração em futuros estudos sobre sua obra.

P.S.: O trailer de MISSÃO IMPOSSÍVEL 3, dessa vez sob os cuidados de J.J.Abrams, está empolgante!

domingo, dezembro 18, 2005

TOP 20 - ANOS 90



1. ANTES DO AMANHECER (Richard Linklater)
2. A ESTRADA PERDIDA (David Lynch)
3. OS BONS COMPANHEIROS (Martin Scorsese)
4. OS AMANTES DO CÍRCULO POLAR (Julio Meden)
5. A BELA INTRIGANTE (Jacques Rivette)



6. O GOSTO DE CEREJA (Abbas Kiarostami)
7. PULP FICTION (Quentin Tarantino)
8. UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA (Frédéric Fonteyne)
9. ED WOOD (Tim Burton)
10. O PAGAMENTO FINAL (Brian De Palma)



11. UM MUNDO PERFEITO (Clint Eastwood)
12. DE OLHOS BEM FECHADOS (Stanley Kubrick)
13. TODAS AS MULHERES FAZEM (Tinto Brass)
14. ONDAS DO DESTINO (Lars Von Trier)
15. A BRUXA DE BLAIR (Daniel Myrick e Eduardo Sánchez)



16. DESCONSTRUINDO HARRY (Woody Allen)
17. O SEXTO SENTIDO (M. Night Shyamalan)
18. O VINGADOR DO FUTURO (Paul Verhoeven)
19. OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM (Tim Robbins)
20. PELO AMOR E PELA MORTE (Michele Soavi)

Chico Fireman, organizador da Liga dos Blogues Cinematográficos, está publicando o resultado final da votação dos membros da Liga para os melhores filmes da década de 90. Resolvi publicar a minha listinha também, embora sempre que eu olhe pra ela eu veja os filmes que ficaram faltando. Como dei preferência a um filme por realizador, ficaram de fora obras queridas como TWIN PEAKS - OS ÚLTIMOS DIAS DE LAURA PALMER, TROPAS ESTELARES, INSTINTO SELVAGEM, MARIDOS E ESPOSAS e O VOYEUR. Também passou pela minha cabeça o belo FEITIÇO DO TEMPO, de Harold Ramis, além de BOOGIE NIGHTS, de P. T. Anderson, mas eles acabaram não entrando na listagem final. Também pensei em homenagear algum filme pornô marcante da década, como FRESH MEAT, de John Leslie, mas achei que o voto seria meio que desperdiçado diante dos demais. De todo modo, a "cabeça de baixo" ainda elegeu TODAS AS MULHERES FAZEM do mestre do erotismo Tinto Brass, que considero um ótimo representante do cinema libidinoso.

O filme que encabeçou minha lista - ANTES DO AMANHECER - foi um voto do coração. Como me considero uma pessoa mais emocional que racional, levei isso em consideração. Claro que dependendo do dia, os filmes de Lynch e Scorsese poderiam tomar facilmente o lugar do filme do Linklater, até porque eles são cineastas de porte muito maior. A presença de UMA RELAÇÃO PORNOGRÁFICA é uma decisão estritamente pessoal. É o filme que simboliza o fim de uma relação afetiva das mais importantes da minha vida. Assistir esse filme, que aborda o começo, o meio e o fim de uma relação, num momento extremamente delicado de um relacionamento foi algo para ficar pra sempre em minha mente. Lamentei a ausência de um filme brasileiro na minha relação, mas no ranking dos anos 80 com certeza haverá.

sábado, dezembro 17, 2005

REINADO DE TERROR (Terror in a Texas Town)



Primeiro filme de Joseph H. Lewis que tive a oportunidade de assistir, REINADO DE TERROR (1958) já começa surpreendendo. Afinal, que outro filme se inicia com um duelo entre um homem com um arpão desses de pegar baleia e um homem armado com um revólver?

Depois dessa cena, REINADO DE TERROR volta um pouco no tempo. Sabemos que a cidadezinha texana do título original está nas mãos de um homem perverso que domina o xerife da região e planeja tomar as terras dos humildes camponeses. Isso porque ele descobriu que a terra é rica em petróleo. Para isso, ele contrata um assassino profissional para matar os camponeses que resistirem às suas ordens. Esse assassino, aliás, é um dos personagens mais fascinantes do filme. Ele perdeu uma mão e usa uma prótese de ferro no lugar. Ele tem ódio do homem que o contratou, apesar de trabalhar com ele. Mas o herói do filme é mesmo o personagem de Sterling Hayden, um dos atores favoritos de Stanley Kubrick, tendo trabalhado com ele em O GRANDE GOLPE (1956) e DR. FANTÁSTICO (1964).

REINADO DE TERROR foi o último filme dirigido por Joseph H. Lewis para o cinema. Ele fez o filme em apenas 10 dias e um ano depois de ter sofrido um ataque cardíaco. Depois desse filme, ele continuou dirigindo apenas produções para a tv. Outra dificuldade durante as filmagens vem do fato de Lewis ter trabalhado com um roteirista que estava na lista negra de Hollywood. Eis o diálogo entre o roteirista não-creditado Nedrick Young e Lewis, retirado do livro "Afinal, Quem Faz os Filmes":

YOUNG: Joe, você está arriscando o seu pescoço, porque alguém pode aparecer e cortá-lo, e você nunca mais irá trabalhar novamente - você está disposto a assumir esse risco?
LEWIS: Quando é que um homem se torna um homem?

Peter Bogdanovich escreveu que Lewis era um dos cineastas mais idealistas que ele já conheceu. E esse idealismo aparece muito fortemente em REINADO DE TERROR. Alguns de seus filmes mais famosos são MORTALMENTE PERIGOSA (1949), IMPÉRIO DO CRIME (1955) e SATÃ PASSEIA À NOITE (1946). Que eu saiba, todos inéditos em vídeo no Brasil.

Agradecimentos ao amigão Renato Doho que me enviou a cópia do filme, gravado do Telecine Classic.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

TESS - UMA LIÇÃO DE VIDA (Tess)



Problema de saúde é sempre algo que deixa a gente deprimido, ainda mais quando ficamos arrasados fisicamente. Ontem pela manhã tive uma convulsão violenta no trabalho e acordei em pleno IJF, o principal hospital de emergência da cidade. Isso nunca tinha acontecido comigo, exceto por uma vez em menor escala, quando eu era criança. Vai ver é algum defeito de fabricação, mas acho que meus neurônios devem ter ficado cansados de minhas noites mal dormidas. Notava que eu sempre me sentia meio estranho quando dormia pouco. Dessa vez havia chegado em casa de madrugada e ainda perdi o sono, que só chegou perto das quatro da manhã. O resultado é que agora estou com os músculos do corpo totalmente doloridos por causa dos espasmos. Espero estar bem até domingo, para tentar ao menos assistir KING KONG.

Pra não deixar o blog parado, falemos de TESS (1979), de Roman Polanski, que aqui ganhou esse subtítulo ridículo na edição em DVD que saiu nas bancas. A boa notícia é que, além de a imagem estar bonita e vir em scope, há ainda um documentário de mais de uma hora dirigido pelo expert Laurent Bouzereau. Não achei tão gostoso de ver quanto os docs que vêm nos DVDs do Hitchcock, mas deve ser porque o filme de Polanski não é tão especial assim. Ainda assim, há momentos bastante interessantes no making of. Como se trata de um filme de época, tem os detalhes de a equipe precisar tirar antenas para as filmagens ou mesmo de cobrir com areia as estradas asfaltadas. A alemã Nastassja Kinski inicialmente não foi muito bem aceita para interpretar o papel de inglesa, mas ela se saiu tão bem que depois ninguém teve coragem de reclamar. Antes de TESS, ela havia trabalhado em filmes de Wim Wenders e Alberto Lattuada.

No geral, achei o filme um pouco cansativo. São quase três horas narradas de maneira bem lenta. Nada contra esse tipo de filme, mas Polanski não alcançou um grau de emoção necessário para tornar o filme especial. Ficou parecendo um sub-David Lean. Recentemente, Polanski dirigiu OLIVER TWIST (2005) em homenagem a seu filho, fã do romance de Charles Dickens. TESS foi dedicado a sua falecida esposa Sharon Tate, que apreciava o livro de Thomas Hardy.

Na trama, Tess é uma jovem que é enviada para a mansão de uma família rica a fim de reclamar a herança que seu pai preguiçoso acha que lhe é devido. Ela não é levada a sério, mas é aceita como empregada da fazenda, trabalhando na agricultura. Devido à sua beleza, Tess é seduzida por um dos fidalgos, mas acaba deixando o lugar depois de se descobrir grávida. O filme melhora na meia-hora final, ganhando mais ritmo com uma série de acontecimentos importantes na vida da moça. Um detalhe interessante é que TESS é um filme essencialmente de cores mortas e a cena do vestido vermelho no final acaba se destacando muito das demais.

P.S.: Chegou aqui em casa o meu exemplar da revista Paisà!! Gostei muito!

quarta-feira, dezembro 14, 2005

IRMÃOS (Son Frère)



Acho difícil imaginar que IRMÃOS (2003) tenha sido dirigido pelo mesmo Patrice Chéreau do arrepiante e sangrento A RAINHA MARGOT (1994). Vai ver A RAINHA MARGOT é exceção em sua obra e seu estilo é mesmo mais intimista. Não sei. Por isso, é melhor eu esquecer um pouco a beleza alva da Isabelle Adjani e a sangrenta noite de São Bartolomeu e me concentrar apenas no filme dos dois irmãos.

Na trama, Bruno Todeschini e Eric Caravaca são dois irmãos que vivem distantes um do outro. Até que um deles, sofrendo de uma doença grave no sangue, reaparece. Sem ter a quem recorrer, ele reata sua relação com o irmão homossexual, que é quem fica com ele em seus momentos mais difíceis.

IRMÃOS apresenta algumas cenas de intimidade bastante ousadas. A estrutura narrativa é cheia de idas e vindas no tempo. Ora estamos no hospital, ora na praia, com o irmão doente em estado altamente debilitado. Uma das cenas mais curiosas do filme é aquela que mostra uma enfermeira retirando os pêlos do corpo do doente para prepará-lo para uma cirurgia de retirada do baço. A cena é relativamente longa e bastante incômoda. Chéreau optou pela não utilização de música no filme. Assim, IRMÃOS adquire um caráter semi-documental, com uma câmera quase sempre muito perto, lembrando um pouco o cinema dos irmãos Dardenne. A única canção que aparece é a interpretada por Marianne Faithfull.

Pena eu ter visto o filme em estado sonolento. Provavelmente eu teria gostado mais se estivesse mais alerta e disposto. O sono é um dos maiores inimigos da apreciação dos filmes.

P.S.: Finalmente estou de posse do meu exemplar de "O Prazer dos Olhos", de François Truffaut. Uma delícia, os seus escritos.

terça-feira, dezembro 13, 2005

MASTERS OF HORROR: JENIFER



Sabe a mulher "raimunda"? Feia de cara e boa de... pois bem, Jenifer é uma dessas mulheres. Só que seria um elogio chamá-la de feia. Ela é horrível, assustadora, mais parece um demônio saído das profundezas do inferno porque nem o capeta queria mais ela por lá. JENIFER, de Dario Argento, é um dos melhores filmes da série MASTERS OF HORROR. Tudo bem que eu me decepcionei um pouco, mas isso aconteceu porque minhas expectativas eram altas. Por enquanto, o meu filme favorito da série ainda é o do Stuart Gordon.

JENIFER é baseado numa história em quadrinhos escrita por Bruce Jones. A não ser que haja outro roteirista com o mesmo nome, acredito se tratar do mesmo autor responsável por uma das melhores fases do Hulk nos quadrinhos. A estória é redondinha e tem cara de curta-metragem. Mesmo assim, Argento ainda deixa umas pontas soltas na trama, como se ele tivesse cortado várias cenas do filme para se adequar ao formato de uma hora. Talvez as cenas excluídas possam ser aproveitadas numa versão estendida. O que acontece com a família do protagonista, por exemplo, fica meio no ar.

Na trama, policial pega no flagra um homem tentando matar uma jovem usando uma machadinha. A garota está de costas e com as mãos amarradas. O policial sem ter outra opção, atira e mata o homem, que balbucia algumas coisas a respeito da tal garota de nome Jenifer. O rosto dela assusta o policial, mas mesmo assim ele tenta confortá-la. Ela aparentemente não fala. Parece ser mentalmente incapaz. Depois do tal incidente, o perturbado homem não tira Jenifer da cabeça e faz a loucura de tirá-la do hospício onde ela estava internada, levando-a para sua casa, para desespero de sua esposa. Seus problemas apenas começaram.

Em certos aspectos, como o desenvolvimento da estória por exemplo, JENIFER é superior a SLEEPLES (2001), um dos mais recentes filmes do Argento e o último que eu vi até agora. Mas falta algo nessa produção para a tv, que é o virtuosismo do diretor. A impressão que se tem é que Argento se preocupou em apenas contar a história. A vantagem é que o diretor não faz concessões e entrega um filme cheio de horror, sangue e tripas. Uma das coisas que mais denunciam que o filme é do Argento é a trilha sonora de Claudio Simonetti, colaborador habitual do cineasta desde PRELÚDIO PARA MATAR (1975).

Agora, a minha maior expectativa está nos filmes dirigidos por Joe Dante e John Carpenter. O próprio Argento disse que esses dois sãos seus favoritos da antologia. E dizem que Carpenter presta várias homenagens ao maestro em seu pequeno filme. Vamos aguardar.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

MASTERS OF HORROR: DANCE OF THE DEAD



Há tempos Tobe Hooper nos deve um filme de respeito, que faça jus ao seu passado glorioso de filmes como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (1974) e FORÇA SINISTRA (1985). Infelizmente não é dessa vez que isso acontece. DANCE OF THE DEAD (2005), sua contribuição para a série MASTERS OF HORROR, é até o momento o que eu menos gostei da antologia.

A trama do filme se passa num futuro apocalíptico onde existem poucas cidades que sobreviveram a uma espécie de holocausto não muito bem explicado. Pelo menos, o filme tem uma cena de flashback bem interessante, mostrando a fumaça de uma bomba enchendo os céus de negro e causando mancha na pele das pessoas. A dança dos mortos do título se refere a uma apresentação de zumbis. Robert Englund (o eterno Freddy Krueger) é o apresentador do show. E é ele quem compra cadáveres para usar em seu espetáculo bizarro. Aos poucos vamos sabendo da relação entre o tal show e a protagonista, a bela Jessica Lowndes.

O filme utiliza de vez em quando imagens distorcidas e tremidas, o que gera um pouco de incômodo, já que elas não tem razão de existirem. Nas cenas em flashback, para mostrar um passado melhor e mais inocente, há a utilização de filtros, deixando a imagem mais reluzente. Um dos outros problemas do filme é a demora para a trama se desenrolar. Há um excesso de informações fragmentadas no começo, o que acabou me aborrecendo um pouco. Para um filme de uma hora e meia é até aceitável, mas pra um de menos de uma hora, não é uma boa idéia.

P.S.: Nova coluna no CCR. Dessa vez, eu faço um balanço sobre o cinema nacional em 2005.

sábado, dezembro 10, 2005

O INVENTOR DA MOCIDADE (Monkey Business)



E segue minha mini-peregrinação pela obra de Howard Hawks, cineasta que foi para o rol dos favoritos da casa depois de eu ter me deliciado com as obras-primas RIO VERMELHO (1948) e HATARI! (1962). Infelizmente, nem tudo que eu gostaria de ver do diretor vai ser possível, mas ainda há tempo de as distribuidoras lançarem mais títulos dele por aqui. Dentro do pacote de filmes com a Marilyn Monroe lançados pela Fox está O INVENTOR DA MOCIDADE (1952), com uma participação pequena da famosa loira. Ela ainda não havia estourado de verdade, o que aconteceria de verdade já no ano seguinte, com o musical OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS (1953), também de Hawks. Pelo visto, ele gostou da menina.

Realmente, ela rouba a cena sempre que aparece. Sua primeira aparição em O INVENTOR DA MOCIDADE é memorável. Ela levanta a perna para mostrar para Cary Grant sua meia-calça. Difícil não ficar babando. É por causa dela, inclusive, que estou pensando em rever o musical do Hawks. Na época que vi não gostei muito. É possível que eu veja em breve, antes de partir para a revisão dos westerns do diretor.

O problema de O INVENTOR DA MOCIDADE, segundo o próprio Hawks, em entrevista a Peter Bogdanovich, foi que a premissa não era realmente crível. Na trama, Cary Grant é um químico que estuda uma poção para o rejuvenescimento. Mas quem acaba fazendo acidentalmente a poção é um chipanzé, que faz a mistura e coloca dentro do bebedouro do laboratório. Cary Grant bebe da água depois de experimentar uma de suas misturas e começa a agir como um adolescente, além de se livrar temporariamente de sua miopia. A partir daí se desenrola uma série de situações engraçadas - algumas nem tanto, é verdade.

Lendo a entrevista de Hawks, a gente percebe que nem sempre há um rigor da parte do diretor na construção das cenas. Hawks não era como Hitchcock que já tinha o filme todo na cabeça antes de filmá-lo. Soube que a idéia de Ginger Rogers também experimentar a poção do rejuvenescimento partiu dela mesmo. Hawks, na verdade, não queria que ela tomasse e só aceitou por insistência da atriz. Realmente as cenas de Ginger agindo como criança não são das melhores. Ela perde feio para Grant, que é um comediante espetacular. Destaque para a cena dele brincando de índio com as crianças. Já Ginger, tem uma cena boa também, que é a cena do táxi, quando ela diz que a criança é seu marido.

O INVENTOR DA MOCIDADE é um dos filmes menores de Hawks. Uma das marcas dele, que é o gosto pelos animais, está no filme graças aos chipanzés. Aliás, aquele que faz a poção é uma graça, fazendo aquelas caretas com a boca. Divertido, mas pouco para um cineasta do porte de Howard Hawks.

sexta-feira, dezembro 09, 2005

CONTRA CORRENTE (Undertow)



David Gordon Green, ainda que - por enquanto - pouco popular, é um dos mais incensados diretores da nova geração do cinema americano. Também pudera: o "padrinho" do homem é ninguém menos que Terrence Malick, que em CONTRA CORRENTE (2004) faz as vezes de produtor. Green é considerado o maior seguidor de Malick, um cinema do olhar, um cinema que não julga. CONTRA CORRENTE também guarda muita semelhança com TERRA DE NINGUÉM (1973), tanto geograficamente quanto em termos de narrativa e temática.

No filme de Green, a natureza é elemento fundamental. Como se nosso espírito estivesse ligado diretamente ao nosso corpo, à natureza. Não há separação entre corpo e espírito. Na verdade, é como se não existisse espírito. Apenas o mundo dos sentidos. Numa das primeiras cenas do filme, o jovem Jamie Bell (o garoto bailarino de BILLY ELLIOT) pula em cima de um prego que lhe atravessa o pé. Mais tarde, quando ele diz para o pai (Dermot Mulroney) que seu pé está doendo, este lhe diz que são coisas como essa que nos fazem seguir vivendo. Como se a dor fosse importante para nos lembrar de que estamos vivos.

Os cinco sentidos são enfatizados para passar essa noção de que o homem é quase um animal. O garotinho mais novo (Devon Alan) tem dificuldade de se alimentar; geralmente vomita o que come. Mas ele costuma sempre experimentar o sabor de tudo que vê pela frente, até de tinta. Numa cena, ele tem a idéia de separar os livros pelo cheiro que eles têm. Em outra, ele gostaria de enfiar o dedo no buraco no pé do irmão para pode sentí-lo. Ele é o personagem que evidencia no filme de Green os três sentidos pouco explorados pelo cinema: o paladar, o olfato e o tato. Os outros dois sentidos mais comuns ao cinema, a visão e a audição, estão mais presentes no personagem do adolescente, garoto esperto que consegue fugir, sempre que ouve ou vê algo suspeito, como acontece na cena da luta entre o seu pai e o tio, ou na seqüência na casa do casal de negros que os abriga. Nas seqüências mais violentas, a partir do aparecimento do tio dos meninos (Josh Lucas), o sentido de estar sobrevivendo, de estar vivo, é potencializado.

CONTRA CORRENTE é apenas o terceiro filme de David Gordon Green. Ele estreou com o aclamado GEORGE WASHINGTON (2000, ainda inédito no Brasil). Em seguida, fez o belo drama sentimental PROVA DE AMOR (2003). Se em PROVA DE AMOR, seu estilo era mais discreto, em CONTRA CORRENTE ele ousa experimentar mais: congelamento da imagem, repetição de planos e um eventual preto e branco estão entre os experimentos do diretor. Em alguns momentos, isso me pareceu meio vazio de sentido, mas até que dá um ar mais sofisticado à obra. Outra coisa comum em sua obra é o fato de as histórias se ambientarem no sul dos EUA, lugar onde ele nasceu.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

O GRITO (Il Grido)



As cerca de meia dúzia de filmes que eu assisti de Michelangelo Antonioni não me transformaram num fã do cineasta. Não o tenho com o mesmo afeto que tenho com Tarkovski, Truffaut ou Buñuel, para citar apenas cineastas europeus. É um diretor cujas obras eu preciso conhecer mais, me aprofundar mais. Aliás, um problema de eu ser um cinéfilo eclético (ô palavrinha pra eu não gostar) é que acabo não me especializando em nada, a nenhum gênero específico, e deixo de conhecer muitas cinematografias importantes. Acabei conferindo O GRITO (1957) meio que por acaso. A Carol tinha me emprestado o DVD e o fato de o filme constar no grupo dos 60 notáveis do Carlão me deu um empurrãozinho a mais para eu assistir logo.

O GRITO é o filme que consolidou o estilo de Antonioni, que chegaria ao auge nos anos 60. Antes, Antonioni era um cineasta neo-realista, assim como Visconti também foi. O GRITO é o filme mais belo plasticamente que eu já vi do diretor. A fotografia do filme, as árvores sem folhas e as paisagens desertas lembram O DESERTO VERMELHO (1964), com a diferença principal de que em O GRITO a fotografia é em preto e branco. Um dos preto e brancos mais belos que eu já vi. As imagens são tão lindas que talvez até atrapalhem uma possível identificação do espectador com o protagonista, o angustiado e apaixonado Aldo, interpretado pelo americano Steve Cochran.

Aldo é um homem que sofre com o abandono da mulher (Alida Valli). Ela deixou de amá-lo. Depois de tentar em vão - inclusive através de meios violentos - trazer a mulher de volta, ele acaba por deixar o povoado onde mora, com a filha, a fim de mudar de vida e aliviar a dor. Desse modo, ele acaba encontrando pelo caminho algumas mulheres carentes com quem ele se relaciona. De uma delas, inclusive, eu gostei bastante: a Virginia (Dorian Gray), do posto de gasolina. Porém, a memória que ele guarda da ex-esposa permanece o impedindo de ser feliz.

Alida Valli é a bela protagonista de AGONIA DE AMOR (1947), do mestre Hitchcock. Na época de O GRITO, ela já não estava mais tão linda quanto no filme de Hitch. Ela já tinha desistido de Hollywood. Apesar de não ter dado certo no cinema americano, ela chegou a participar de memoráveis filmes europeus. Valli trabalhou com feras como Dario Argento, Mario Bava, Luchino Visconti, Bernardo Bertolucci e Georges Franju.

Interessantes algumas elipses utilizadas no filme, como aquela que mostra Virginia no quarto com Aldo, causando uma certa surpresa no espectador. O problema é que, como eu adoro ver cenas de intimidade e de primeiro beijo, senti-me um pouco "roubado" com esse recurso. A trágica seqüência final não me agradou muito, não me abalou, mas não é nada que chegue a estragar a beleza do filme. O sentimento que O GRITO mais me provocou foi o de compaixão pelos personagens, o que já foi um grande salto em se tratando de filmes do Antonioni, que quase sempre me deixavam um pouco apático em relação aos personagens.

O resultado foi que O GRITO ficou entre os meus favoritos do diretor, ao lado de BLOW-UP (1966), PROFISSÃO: REPÓRTER (1975) e ALÉM DAS NUVENS (1995).

Agradecimentos à Carol Vieira, que me emprestou o DVD.

quarta-feira, dezembro 07, 2005

O CINEMA IRANIANO EM DOIS FILMES



Hoje em dia é comum alguns filmes iranianos serem alvos de chacota, especialmente os que mostram criancinhas pobres em situações difíceis. FILHOS DO PARAÍSO (1997) é talvez o maior exemplo disso. Muita gente usa-o como referencial, afinal esse é o famoso filme do garotinho pobre que perde o sapato da irmã. Mas o culpado disso tudo deve ter sido Abbas Kiarostami, com o seu ONDE FICA A CASA DE MEU AMIGO? (1987), que mostra um garotinho numa jornada para entregar o caderno do seu colega de escola. Ambos os filmes são herdeiros diretos do neo-realismo italiano, especialmente do clássico LADRÕES DE BICICLETA (1948), de Vittorio De Sica, que mostrava pai e filho na busca por uma bicicleta roubada, meio de transporte fundamental para a sobrevivência da família. Falemos mais um pouco desses dois belos filmes que merecem todo nosso respeito.

ONDE FICA A CASA DE MEU AMIGO? (Khaneh-ye dust kojast?)


Abbas Kiarostami é um dos mais importantes cineastas em atividade no mundo. ONDE FICA A CASA DE MEU AMIGO? foi o primeiro filme do diretor que alcançou repercussão mundial, ainda que a popularidade dos filmes iranianos só começasse mesmo no início dos anos 90. O filme é uma beleza. Kiarostami nos apresenta um mundo onde os adultos agem com violência com as crianças, apenas para mostrar quem é que manda. Os adultos não procuram entender os problemas e as necessidades das crianças. Chega a ser incômoda a cena em que Ahmad tenta explicar para a mãe que ele precisa entregar o caderno de seu colega Nematzadeh que ele pegou por engano. Caso ele não faça isso, seu colega pode ser expulso da escola. Ele fala com sua mãe e nada dela lhe escutar. Ao contrário, ele sempre é chamado de preguiçoso, vagabundo, enrolão. O que faz de ONDE FICA A CASA DE MEU AMIGO? uma obra-prima, entre outras coisas, é uma certa estranheza que fica no ar durante o trajeto de Ahmad na busca pela casa do amigo, passando por um vilarejo estranho, tendo primeiro que atravessar uma trilha em zigue-zague, parecida com a de ATRAVÉS DAS OLIVEIRAS (1994). Em alguns momentos, quando escurece, o filme até parece ter herdado algo do expressionismo alemão, por causa das sombras e dos becos escuros por onde o garoto passa. Ao mesmo tempo, o filme prenuncia um estilo semi-documental que se tornaria mais evidente na obra de Kiarostami a partir de CLOSE-UP (1990). Um dos momentos mais belos do filme aparece no final, quando surge uma ventania violenta e a mãe de Ahmad está tirando as roupas do varal. Momentos como esse são de pura magia e gostaria de tentar expressar em palavras o que senti vendo (e ouvindo) aquilo.

Visto em VHS selado da Cult Filmes.

FILHOS DO PARAÍSO (Bacheha-Ye Aseman)

Seguindo a lição de Kiarostami, mesmo sem ter o mesmo brilhantismo e genialidade, Majid Majidi, diretor de O JARRO (1992), faz um filme tocante sobre duas crianças que têm de dividir o mesmo par de sapatos. Isto é, tocante para quem não se incomodar com os clichês do melodrama. Na trama, um menino perde o único par de sapatos recém-concertados da irmã mais nova e tem medo de contar aos pais o que aconteceu, já que é clara a dificuldade financeira da família. Sua solução, pelo menos até conseguir de volta os tais sapatos, é deixar a irmã ir para a escola com os sapatos dele pela manhã e asssim que ela chegar da aula seria a vez dele. O problema é que o intervalo entre o fim da aula da menina e o início da aula dele é muito curto, o que resulta sempre em atrasos e reclamações vindas da escola, além de outros contratempos desagradáveis, como na cena em que a menina deixa cair o sapato (um pouco folgado para seu pé) na correnteza. FILHOS DO PARAÍSO é o tipo de filme que pode ser visto por toda a família, tem uma carga de inocência que encanta e eu acho que seria um filme ideal para ser passado em escolas, para crianças, tanto as ricas quanto as pobres. O filme mostra o quanto certas coisas que não têm valor nenhum para certas pessoas são de importância vital para outras. Impressionante a performance das duas crianças e emocionante a conclusão do filme. Pra se assistir com um lenço nas mãos.

Gravado da Globo.

terça-feira, dezembro 06, 2005

O EXORCISMO DE EMILY ROSE (The Exorcism of Emily Rose)



Uma coisa que sempre costuma me incomodar nesses filmes de terror que lidam com o diabo ou o apocalipse é a forma como a Igreja Católica é mostrada como detentora dos segredos e das verdades. E o curioso é que isso acontece em filmes produzidos nos EUA, um país predominantemente protestante. Isso talvez aconteça porque o Catolicismo tem uma riqueza de simbolismos que o Protestantismo não tem. Quanto ao exorcismo, hoje em dia ele é mais praticado pelas religiões (ou seitas) evangélicas do que pela Igreja Católica, que cada vez mais tem se tornado uma instituição mais cultural que religiosa. Se os exorcismos exibidos nas redes de televisão são verdadeiros ou não, aí já é outra história. Só sei que evito assistir quando estou zapeando pela tv à noite e vejo por alguns segundos um pastor empurrando a cabeça de uma pessoa e gritando "sai demônio!". Talvez porque eu já tenha assistido isso pessoalmente, no tempo que era freqüentador assíduo de igreja evangélica. Mas cansei desse tipo de espetáculo.

Já no cinema, a coisa já toma outra forma. O espetáculo de gritos e barulho do filme de Scott Derrickson realmente me deixou assustado. E não acredito que o filme se resuma apenas a barulho. O EXORCISMO DE EMILY ROSE (2005), além de ser curioso por misturar drama de tribunal com filme de terror, é o título mais assustador que eu vi no cinema esse ano. Senão vejamos: quais os melhores filmes de horror de 2005? Eu colocaria na lista, em ordem de lançamento: O GRITO, O FILHO DE CHUCKY, JOGOS MORTAIS, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, O AMIGO OCULTO, O CHAMADO 2, VISÕES, GUERRA DOS MUNDOS e TERRA DOS MORTOS. Tirando os filmes do Spielberg e do Romero, nenhum dos outros entraria num top 20 de 2005. Os dois obviamente são superiores a O EXORCISMO DE EMILY ROSE, mas nenhum dos dois me deixou com calafrios, nem com uma sensação de medo como o filme de Derrickson.

Fiquei arrepiado quando citaram no filme que o horário de três horas da madrugada é a hora dos demônios. Aí me lembrei que em O AMIGO OCULTO, sempre que acontecia alguma coisa sinistra era nesse horário também. Lembrei-me também que é nessa hora que eu costumo sempre acordar no meio da noite. Eu acredito que existem pessoas com uma maior sensibilidade para ver ou sentir espíritos que outras, estando, portanto, mais abertas para a entrada de entidades de fora de nossa dimensão.

O filme já começa com a personagem de Emily morta. O padre que realizou o exorcismo está preso e haverá um julgamento para decidir sua culpa na morte da moça. Será que a menina estava mesmo possuída pelo demônio? Ou seria algum distúrbio mental, uma espécie de psicose ou algo do gênero? O filme trafega por essa dúvida, mas fica claro que ele toma partido, afinal, até a personagem de Laura Linney é assombrada por forças demoníacas.

Desse modo, o filme não nos dá trégua. Até no momento presente, quando escurece, somos atormentados pelo mal, através da personagem de Laura Linney, a advogada de defesa do padre. Porém, as cenas mais perturbadoras acontecem mesmo nos flashbacks. Especialmente na tal cena da fita cassete, quando o padre (Tom Wilkinson) conta detalhes de uma das sessões de exorcismo. Inclusive, principalmente por causa dessa cena, vale ver o filme na melhor sala de cinema de sua cidade, para melhor aproveitar os efeitos sonoros.

No aspecto técnico, um dos méritos do filme é não se apoiar em efeitos especiais. Jennifer Carpenter, a jovem que faz a Emily se esforçou muito para entrar na personagem. Ela se contorce de verdade, não tem nada parecido com aquele efeito de virar o pescoço de O EXORCISTA, do Friedkin. E mesmo nos momentos em que são utilizados efeitos visuais, como na cena das alucinações(?) de Emily, os efeitos são tão bem utilizados que contribuem para assustar ainda mais.

Como eu sou sempre curioso pra conhecer a filmografia dos diretores, fui pesquisar sobre Scott Derrickson. Ele é novato e não era, até então, um nome conhecido em Hollywood. Seu filme mais famoso era HELLRAISER: INFERNO (2000). Acho que essas continuações de HELLRAISER hoje em dia só são vistas pelos fãs de Pinhead e cia. Mas agora deu vontade de ver esse e o dirigido por Anthony Hickox (HELLRAISER III: INFERNO NA TERRA) também. O fato de ter realizado O EXORCISMO DE EMILY ROSE com atores do porte de uma Laura Linney e um Tom Wilkinson e, ainda por cima, fazer um enorme sucesso nas bilheterias americanas, deve tê-lo levado para o primeiro time. E o homem tem estilo. A cena que mostra Emily saindo na rua à noite lembra a seqüência inicial de SUSPIRIA, do Argento, dando até pra sentir o mal à espreita, escondido na escuridão.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

O CASAMENTO



Entre os menos de dez títulos da filmografia de Arnaldo Jabor, os que mais se destacam são aqueles inspirados na obra de Nelson Rodrigues. Antes de O CASAMENTO (1975), o diretor havia realizado o superior TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA (1973), também baseado na obra rodriguiana. Entre os filmes de Jabor - e saindo um pouco de Nelson Rodrigues -, também gosto bastante de EU TE AMO (1981), mas acho que é mais pela presença de cena de duas das mais brilhantes estrelas de nosso cinema, Sonia Braga e Vera Fischer, em momentos de alta voltagem erótica.

O CASAMENTO, como é de praxe em filmes inspirados em Rodrigues, é uma crítica à família burguesa brasileira, suas regras de moral e sua hipocrisia. Na trama, Paulo Porto é o Dr. Sabino, homem rico e de família tradicional que se prepara ansiosamente para o casamento de sua filha Glorinha (Adriana Prieto). O casamento da filha perturba o seu espírito, que nas 48 horas que antecedem o evento, chega a confessar a uma mulher com quem faz sexo que ele chegou a ter desejos homossexuais na adolescência. Além do mais, durante o sexo com a secretária, ele grita o nome da filha, por quem tem um desejo intenso. Pra completar, o noivo de Glorinha é gay. Outros personagens interessantes dessa novelona são: Xavier (Nelson Dantas), homem que se apaixona pela secretária do Dr. Sabino, mas que é casado com uma mulher leprosa; e Antonio Carlos (Érico Vidal), suicida em potencial que é apaixonado por Glorinha. Uma das seqüências mais memoráveis de O CASAMENTO é a da conversa no carro entre Glorinha e o pai, com a filha lhe perguntando se ele a ama.

Na verdade, como eu vi o filme há muito tempo, acabei esquecendo de muita coisa. O que eu mais lembro é do tom operístico, exagerado, meio como um circo de horrores. Eu diria que bem mais grotesco até do que outros filmes baseados em Nelson Rodrigues, como OS 7 GATINHOS e BONITINHA, MAS ORDINÁRIA, pra citar dois exemplos bem gritantes. Ainda assim, apesar de todo esse clima de tragédia e de perversões sexuais, o filme não é impactante o suficiente e nem tem boas cenas de sexo.

Esse foi o último trabalho de Adriana Prieto. Depois desse filme, ela morreu num acidente de carro. Seu fusca bateu num carro da polícia. Ela tinha apenas 25 anos.

Gravado da Globo.

domingo, dezembro 04, 2005

EM SEU LUGAR (In Her Shoes)



Conversando ontem com duas amigas (durante uma festa à fantasia), falávamos sobre a importância da auto-estima. Aí eu falei que as duas principais coisas necessárias para se ter auto-estima seriam dinheiro e sexo. Mas vendo EM SEU LUGAR (2005), de Curtis Hanson, eu vi que tem uma coisa que também é muito importante, algo mais relacionado ao intelecto e ao respeito que as outras pessoas têm com você. Cameron Diaz interpreta uma loira burra - mas linda e gostosa - que tem dificuldade de leitura e é um fracasso na vida profissional. Porém, ela é um sucesso com os homens. Exatamente o oposto de sua irmã (Toni Collette), que não é bonita, não tem sorte com os homens, mas é bem sucedida financeiramente, trabalha numa firma de advocacia e tem coleções de sapatos caros. Elas são dois opostos complementares. No que uma tem de sobra, a outra tem em falta. Dificilmente se pode ter tudo, não?

O filme de Curtis Hanson me pegou de surpresa. Não estava esperando mais que um bom filme, mas acabei me emocionando bastante com esse belo drama familiar, que ainda por cima ainda conta com o talento da veterana Shirley MacLaine, no papel da avó das meninas. Pelo menos Shirley fez um bom filme para compensar o fraco A FEITICEIRA, do qual ela participou também esse ano.

Os papéis, tanto de Cameron Diaz, quanto de Toni Collette, caíram como uma luva para as atrizes. Cameron já tem fama de ser baladeira, de cair na farra e tomar todas, enquanto que Toni já havia feito um papel parecido no belo e triste O CASAMENTO DE MURIEL, em que ela fazia o papel de uma gordinha fã de Abba e doida pra se casar, mas que só levava fora dos homens. A personagem de Toni nesse filme parece uma versão mais madura de Muriel. Além de também ser uma oportunidade para a atriz mostrar o seu grande talento e, quem sabe, ser até indicada ao Oscar por esse filme.

Entre os filmes de Hanson, EM SEU LUGAR é primo de GAROTOS INCRÍVEIS (2000), drama de andamento lento e bem conduzido que, embora tenha os seus momentos clichê (quem vive sem eles?), não segue a cartilha dos filmes mais convencionais do gênero.

Na verdade, o filme já me conquistou desde o começo, ao colocar nos créditos iniciais "Stupid Girl", do Garbage. Adoro essa canção e ouví-la no cinema foi muito bom. Por falar em Garbage, sabiam que eu só soube ontem que a banda já acabou faz dois meses? Uma pena. Uma das minhas favoritas dos anos 90.

quinta-feira, dezembro 01, 2005

O HOMEM ELEFANTE (The Elephant Man)



Maravilhoso. Esse foi o adjetivo que primeiro me veio à mente ao final de O HOMEM ELEFANTE (1980), enquanto lágrimas rolavam. Tive o imenso prazer de rever essa obra-prima do genial David Lynch, dessa vez em seu formato correto, em glorioso scope. Desse modo, foi como se eu tivesse visto o filme pela primeira vez. Não sai da minha cabeça a imagem das estrelas no final, cena que seria também utilizada belíssimamente em HISTÓRIA REAL (1999). Outra cena comum em outros filmes de Lynch, como VELUDO AZUL (1986) e CIDADE DOS SONHOS (2001), e que também aparece em O HOMEM ELEFANTE, é a da câmera adentrando a escuridão. Ainda que se note muito de Lynch no filme, O HOMEM ELEFANTE é um de seus trabalhos mais diferentes e que deve agradar até mesmo quem não embarca facilmente na obra do mestre.

Acho que depois que li "Do Inferno", de Alan Moore, fiquei mais fascinado pela Inglaterra vitoriana. Inclusive, na graphic novel de Moore, John Merrick, o "Homem-Elefante" chega a aparecer também. E Lynch faz um retrato deslumbrante da Inglaterra, utilizando uma fotografia preto e branco que lembra o expressionismo alemão, com muito jogo de luz e sombras.

O filme nos pega aos poucos, ainda que seja o tipo de obra que já agrada desde o início. Primeiro somos atraídos pela curiosidade, já que não nos é mostrado inicialmente as feições de Merrick (no filme, interpretado por John Hurt). Mal sabia eu que, assim como Anthony Hopkins, na primeira vez que chega ao circo para ver a maior das aberrações anunciadas, também eu estaria chorando meia hora mais tarde. Mas isso acontece quando descobrimos que Merrick não só fala como também é extremamente inteligente. Como bem disse Lynch sobre o filme, O HOMEM ELEFANTE é sobre uma alma linda presa num corpo horrendo.

Como não ficar comovido com a cena em que Merrick é levado para conhecer a esposa do personagem de Hopkins? Me emociono só de lembrar. Na minha vida, assisti poucos filmes assim tão cheios de humanidade quanto esse. O personagem de Hopkins é de uma extrema nobreza, principalmente quando questiona suas reais intenções em relação a Merrick. Seria ele igual ao homem que maltrava o pobre coitado, o exibindo como atração de circo, preso numa jaula? A diferença talvez estivesse na gentileza e nos bons tratos que ele prestava a um homem que nem mesmo dormir deitado podia. Vendo o filme, nos questionamos a respeito de nossos atos: o que faríamos se nos encontrássemos com alguém como Merrick? Provavelmente agiríamos com horror e repulsa. Infelizmente.

O DVD de O HOMEM ELEFANTE está disponível nas bancas e é ítem obrigatório na coleção de qualquer cinéfilo que se preze.