sexta-feira, dezembro 09, 2005

CONTRA CORRENTE (Undertow)



David Gordon Green, ainda que - por enquanto - pouco popular, é um dos mais incensados diretores da nova geração do cinema americano. Também pudera: o "padrinho" do homem é ninguém menos que Terrence Malick, que em CONTRA CORRENTE (2004) faz as vezes de produtor. Green é considerado o maior seguidor de Malick, um cinema do olhar, um cinema que não julga. CONTRA CORRENTE também guarda muita semelhança com TERRA DE NINGUÉM (1973), tanto geograficamente quanto em termos de narrativa e temática.

No filme de Green, a natureza é elemento fundamental. Como se nosso espírito estivesse ligado diretamente ao nosso corpo, à natureza. Não há separação entre corpo e espírito. Na verdade, é como se não existisse espírito. Apenas o mundo dos sentidos. Numa das primeiras cenas do filme, o jovem Jamie Bell (o garoto bailarino de BILLY ELLIOT) pula em cima de um prego que lhe atravessa o pé. Mais tarde, quando ele diz para o pai (Dermot Mulroney) que seu pé está doendo, este lhe diz que são coisas como essa que nos fazem seguir vivendo. Como se a dor fosse importante para nos lembrar de que estamos vivos.

Os cinco sentidos são enfatizados para passar essa noção de que o homem é quase um animal. O garotinho mais novo (Devon Alan) tem dificuldade de se alimentar; geralmente vomita o que come. Mas ele costuma sempre experimentar o sabor de tudo que vê pela frente, até de tinta. Numa cena, ele tem a idéia de separar os livros pelo cheiro que eles têm. Em outra, ele gostaria de enfiar o dedo no buraco no pé do irmão para pode sentí-lo. Ele é o personagem que evidencia no filme de Green os três sentidos pouco explorados pelo cinema: o paladar, o olfato e o tato. Os outros dois sentidos mais comuns ao cinema, a visão e a audição, estão mais presentes no personagem do adolescente, garoto esperto que consegue fugir, sempre que ouve ou vê algo suspeito, como acontece na cena da luta entre o seu pai e o tio, ou na seqüência na casa do casal de negros que os abriga. Nas seqüências mais violentas, a partir do aparecimento do tio dos meninos (Josh Lucas), o sentido de estar sobrevivendo, de estar vivo, é potencializado.

CONTRA CORRENTE é apenas o terceiro filme de David Gordon Green. Ele estreou com o aclamado GEORGE WASHINGTON (2000, ainda inédito no Brasil). Em seguida, fez o belo drama sentimental PROVA DE AMOR (2003). Se em PROVA DE AMOR, seu estilo era mais discreto, em CONTRA CORRENTE ele ousa experimentar mais: congelamento da imagem, repetição de planos e um eventual preto e branco estão entre os experimentos do diretor. Em alguns momentos, isso me pareceu meio vazio de sentido, mas até que dá um ar mais sofisticado à obra. Outra coisa comum em sua obra é o fato de as histórias se ambientarem no sul dos EUA, lugar onde ele nasceu.

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