quinta-feira, dezembro 16, 2004

A RAINHA DIABA



Quando A RAINHA DIABA (1974) começa ao som de "Índia", na voz de Paulo Sérgio, enquanto rolam os créditos iniciais, já se percebe que não se trata de um filme qualquer. De início achei que o filme seria uma espécie de precursor da estética de Almodóvar (música brega, visual brega, uma bicha se sentindo poderosa), mas à medida que o filme vai saindo do "Q.G." da Diaba e se concentrando mais nas ruas, percebe-se que o encaminhamento do filme é outro, mais próximo dos filmes de gângsters do que de filmes gay.

A RAINHA DIABA é considerado um dos melhores filmes dos anos 70. E olha que essa década é talvez a mais fértil e produtiva do nosso cinema. Só por aí já dá pra se ter uma idéia do espetáculo que é esse filme. É o título mais famoso do diretor Antonio Carlos Fontoura. Do diretor, antes eu tinha visto apenas o assustador e erótico ESPELHO DE CARNE (1984). Aliás, costumo dizer que até hoje ESPELHO DE CARNE foi o único filme brasileiro que me assustou de verdade. A RAINHA DIABA também é assustador à sua maneira, mais realista e mais sangrenta, mas sem medo de ser pop. É um filme que dialoga com dois importantes títulos do cinema brasileiro recente: MADAME SATÃ (2002), de Karim Ainouz, e CIDADE DE DEUS (2002), de Fernando Meirelles. Inclusive, o personagem da Diaba foi inspirado no lendário Madame Satã.

Na história cheia de intrigas do filme, o Rainha Diaba (brilhantemente interpretado por Milton Gonçalves) é uma espécie de Poderoso Chefão gay do Rio de Janeiro. Ele comanda as bocas e o crime organizado da cidade. Para evitar a prisão de um de seus amigos, ele resolve criar um bode expiatório para que um outro sujeito se torne um bandido famoso e seja preso no lugar de seu amigo. Aí é que entra em cena o personagem de Stepan Nercessian, jovem ambicioso que mora com uma prostituta coroa - Odete Lara, já não tão bela quanto na época de NOITE VAZIA (1964). Ele seria a vítima da trama da Diaba. Nelson Xavier completa a trinca de personagens principais, convidando Nercessian para o seu bando e dando início a uma onda de assaltos na cidade. A cena mais impressionante dessa seqüência de roubos é aquela em que o bando de Xavier, ao assaltar um motorista de caminhão, tem de matá-lo, já que ele reage violentamente. A violência é uma constante nesse filme, que explode num trágico e amargo final.

Há muito o que elogiar no filme. Seja a bela fotografia de José Medeiros, a trilha sonora rock que pontua a trama ao lado de canções populares dos anos 70, ou o elenco espetacular. Além dos quatro atores citados - todos em estado de graça -, há ainda a presença de Wilson Grey, ele que é um dos atores mais ativos do cinema brasileiro, tendo atuado em quase duzentos filmes.

Eu vi esse filme gravado da Globo (passou no Intercine na semana passada), mas o bom é que A RAINHA DIABA foi lançado em DVD no Brasil numa edição caprichada, contendo entre outras coisas, um documentário de 80 minutos.

O que tem no DVD: Menu interativo; Seleção de cenas; Documentário; Análise crítica; Ficha técnica; Filmografia; Matéria de arquivo: Cenas inéditas (super 8), Making of (Super 8), Fotos, Cartaz e folhetos; Formato de tela: fullscreen; Áudio: Dolby Digital 2.0 (Português) ; Legendas: Inglês, Português e Espanhol.

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