quinta-feira, dezembro 09, 2004

NINA



Difícil não se sentir atraído pelo visual caprichado do cartaz de NINA (2004), filme de estréia de Heitor Dhalia. Esses cineastas que vêm da publicidade têm essa manha de chamar a atenção do público, que espera às vezes ver algo até moderno. Pena que o resultado, na maioria das vezes, é vazio e sem substância. É o que acontece com esse NINA. E com essa história de dizerem que o filme é uma adaptação livre de "Crime e Castigo", de Dostoiévski, dando um ar chique à coisa, a decepção ainda é maior.

NINA é um filme que até começa bem. Tem um visual bonito e fotografia em scope, que inicialmente é bem agradável de se ver. Mas com o tempo se torna um dos filmes mais irritantes que eu vi esse ano. A começar pela personagem da Dona Eulália (Myriam Muniz), a velha que é fácil, fácil, de ser odiada. Na história do filme, Nina (Guta Stresser) é uma moça pobre que se acha especial. Ela vive numa pensão de uma velha chata, repugnante e avarenta, e está com o aluguel atrasado. Pra completar, fica sem emprego depois de surtar trabalhando como atendente de lanchonete. No primeiro momento que a velha aparece colocando a dentadura num copo d'água, a vontade que dá é que a Nina mate logo a desgraçada. E de preferência, se mate também, já que essa menina também é um porre.

Outra coisa irritante é a vontade que Dhalia tem de ser o David Lynch de CIDADE DOS SONHOS. Não precisa dizer que Lynch é inimitável. Onde Lynch é assustador e mágico, Dhalia é chato e superficial.

Uma das cenas mais memoráveis do filme - o que não quer dizer que seja boa - é a cena em que Nina, sem querer ir pra casa, vai até a casa de um cego que encontra na rua (interpretado por Wagner Moura). É na casa do cego que acontece uma cena de striptease extremamente broxante. A cena até poderia ser excitante se a atriz fosse outra com o mínimo de sex appeal.

A melhor coisa do filme são os desenhos que aparecem sempre em momentos de ira da personagem, contrapondo realidade e fantasia em sua mente perturbada. Os desenhos foram feitos por Lourenço Mutarelli, autor de história em quadrinhos cujo título mais conhecido é a graphic novel "Transubstanciação", relativamente fácil de encontrar em bancas e sebos de gibis.

Mas há que se parabenizar o diretor pela coragem e a ousadia da produção. É o caso de se prestar atenção no que ele pode dirigir em seguida. Apoio ele tem, vide as inúmeras participações especiais no filme de rostos conhecidos como Lázaro Ramos, Ailton Graça, Selton Mello, Matheus Nachtergaele e Renata Sorrah.

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