segunda-feira, dezembro 20, 2004

A DOCE VIDA (La Dolce Vita)



Finalmente, graças a um empurrãozinho de José Lino Grünewald ("Um filme é um filme"), pude ver o famoso A DOCE VIDA (1960), de Federico Fellini. A DOCE VIDA é um desses filmes fundamentais. Quase tão citado ou homenageado quanto PSICOSE, de Hitchcock, que curiosamente é do mesmo ano. Filmes como NÓS QUE NOS AMÁVAMOS TANTO (1974), de Ettore Scola, e os mais recentes CELEBRIDADES (1998), de Woody Allen, e SOB O SOL DE TOSCANA (2003), de Audrey Wells, são alguns dos títulos que prestam tributo ao clássico. Apesar de certa resistência que tenho a Fellini (alguns de seus filmes me fazem dormir), todo esse bombardear de citações não me deixou escolha a não ser conferir essa obra obrigatória. Difícil falar desse filme sem citar algumas das cenas mais antológicas.

A cena mais famosa do filme é a do banho de Anita Ekberg na Fontana de Trevi, acentuando aquele busto enorme (Fellini adorava mulher de peitão), homenagem à americana Jayne Mansfield. Mas há cenas melhores e tão memoráveis quanto essa. As minhas preferidas são:

1) o encontro de Marcello (Marcello Mastroianni) com Madallena (Anouk Aimée) no bar, quando eles vão parar na casa de uma prostituta pobre.

2) a cena do "milagre", onde Marcello vai fazer uma reportagem sobre duas crianças que afirmam ter visto a Virgem Maria. Há uma enorme movimentação de câmeras e multidão e depois tem a cena da chuva e do tumulto e do sentimento de rejeição da namorada de Marcello. Todo esse turbilhão de emoções é muito forte. (Fellini iria fazer algo parecido, envolvendo câmeras, chuva e multidão, numa cena de ROMA (1972), o meu filme favorito do diretor.)

3) a cena da festa/reunião na casa do produtor cinematográfico. É principalmente com essa cena que temos uma idéia maior da revolução de comportamento que estava acontecendo naquele início dos anos 60. A cena do strip-tease de Nadia (Nadia Grey), seguida da cena em que Marcello monta em cima de uma mulher, como se ela fosse uma égua, batendo em seu traseiro e a cobrindo de penas, aquilo ali é inesquecível, não importando a dificuldade de se compreender de fato o que pode significar, se formos parar para uma reflexão.

Além dessa excepcional seqüência, mais dois episódios levam a gente a refletir. A cena do suicídio de Steiner (Alain Cuny) só aumenta a sensação de falta de sentido na vida, pois justamente o que aparentava ser um modelo perfeito de vida para Marcello, escondia algo aterrorizante por trás. A seqüência final também me deixou na dúvida. O que significaria a dificuldade de comunicação de Marcello com a garotinha de perfil angelical? Seria apenas ocasionado pelo estado anestesiado de Marcello? Ou teria algo a ver com o abismo existente entre as gerações ou as pessoas em geral?

Como o filme é montado em 14 episódios ou seqüências quase que independentes, tem-se a sensação de algo solto, sem uma coesão convencional. O que de certa forma liga os episódios é a namorada de Marcello, Emma (Yvonne Furneaux), que participa de quatro dos quartoze episódios, e o seu amigo Steiner, que "aparece" em três. Se não fosse por isso, esses episódios até poderiam ser dispostos em ordem aleatória, que não se perderia o sentido. Mas a ordem escolhida por Fellini foi genial.

Filme visto em vhs, copiado do DVD de banca, que infelizmente não está em scope, mas pelo menos também não está em tela cheia. Dizem que a cópia lançada pela Versátil está linda. O filme merece, hein. Estou começando a criar gosto por Fellini. O próximo que quero ver dele é HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS (1968), ainda que não seja só dele. E eu tenha outra grande razão pra ver esse filme, já que sou fã de Edgar Allan Poe.

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