sábado, junho 17, 2006

NO RASTRO DA BALA (Running Scared)



Belíssima surpresa este NO RASTRO DA BALA (2006), que teve pouca repercussão de bilheteria nos EUA e foi lançado direto em vídeo no Brasil. O filme teria passado batido por mim se não fossem os comentários elogiosos do pessoal da Canibal e a resenha da SET desse mês que trazia o aval entusiasmado de Quentin Tarantino. Há até alguma semelhança desse filme com a obra do "queixada" (Leandro, peguei emprestado o apelido que você deu ao homem!) e de seu parceiro Robert Rodriguez. Se Wayne Kramer não consegue ser um Tarantino, ele dá de rasteira no Rodriguez.

NO RASTRO DA BALA acompanha o desespero de um homem (Paul Walker) envolvido com a máfia à procura da arma que matou um policial. Um garoto (Cameron Bright, de REENCARNAÇÃO) havia pegado a arma para atirar no seu padrasto. Assim, o filme acompanha a jornada desse homem num ritmo alucinante. Algo como a série 24 HORAS, só que concentrado em duas horas e com muito mais violência e palavrões por segundo. Não dá nem tempo de piscar, tal o domínio narrativo de Kramer, diretor de THE COOLER - QUEBRANDO A BANCA (2003) - disponível em DVD e já anotado para pegar numa próxima visita à videolocadora.

O curioso é que o momento que mais me empolgou no filme é justamnete aquele que não traz Paul Walker, mas Vera Farmiga, que faz a esposa dele, tentando resgatar o garoto de um casal de pedófilos! Pode-se dizer que o filme foi a primeira bola dentro de Paul Walker, que até então não havia tido a sorte de mostrar que tinha algum talento. Walker está surpreendentemente bem no filme. Mas quem merece mais aplausos é mesmo o diretor. Wayne Kramer dirigiu, roteirizou e usou muito bem vários efeitos de câmera, tendo surgido comparações até com gente como Sam Peckinpah e Walter Hill.

Se há algum senão no filme, eu diria que talvez seja aquele final, que passa uma impressão de que foi feito às pressas e com o objetivo de agradar parte da audiência. Mas nada que vá macular as qualidades desse belo thriller.

sexta-feira, junho 16, 2006

CHARLES BRONSON EM DOIS FILMES



Charles Bronson foi um dos grandes astros do cinema de ação. Isso é indiscutível. Pena que a partir da década de 80 ele ganhou má fama por fazer alguns filmes de ação vagabundos, produzidos pela Cannon Group, companhia israelense que lucrou um bocado com o filão. Foi nos anos 70 que Bronson realizou os melhores filmes, tendo trabalhado muito na Europa. Esses dois filmes são dois exemplares dessas fases distintas do nosso saudoso Charlie.

VIOLENT CITY / A FAMÍLIA (Città Violenta / Cité de la Violence / The Family)

O DVD de VIOLENT CITY (1970), eu comprei graças à dica do Heráclito. Ainda é possível encontrá-lo nos balaios de 9,99 das Americanas. A capa está meio vagabunda, mas o DVD foi feito a partir da excelente cópia da Anchor Bay. A imagem está lindíssima em widescreen 2,35:1. Só o som que eu achei um pouco baixo. A direção é de Sergio Sollima, um dos três sergios que fizeram o policial e o faroeste italianos brilharem durante as décadas de 60 e 70. Esse foi o primeiro filme que vi dirigido por ele e fiquei impressionado com sua maestria. A seqüência de perseguição que dura uns quinze minutos sem nenhum diálogo do início do filme e a cena que mostra Charles Bronson atirando num elevador panorâmico são os dois melhores exemplos da excelência da direção de Sollima. Se tem algo que pode incomodar um pouco a quem não está acostumado com o cinema italiano de gênero são as pontas soltas na história. Há uma lógica toda particular na narrativa desses filmes. Alguns deles são tão belos esteticamente que a gente nem liga se não tiver entendendo a trama. Os astros de VIOLENT CITY, além de Bronson, são Jill Ireland, a sra. Bronson fazendo um papel ambíguo, e o eterno Kojac Telly Savalas no papel do chefe da máfia. A trilha sonora de Ennio Morricone torna o filme ainda mais saboroso.

ASSASSINATO NOS ESTADOS UNIDOS (Assassination)

Esse filme marca a última parceria no cinema de Charles Bronson com sua esposa Jill Ireland. Na época, ela já estava lutando contra o câncer que poria fim a sua vida em 1990. É uma divertida aventura dirigida por Peter R. Hunt, diretor de PERSEGUIÇÃO MORTAL (1981), com Bronson e Lee Marvin. Na trama, Bronson é um agente do serviço secreto que trabalha diretamente com o Presidente da República. De volta ao trabalho depois de um afastamento que não é muito bem explicado, ele passa a trabalhar como guarda-costas da primeira dama (Jill Ireland), uma mulher que acha que pode ir para onde quiser e do jeito que quiser. Depois de várias tentativas de assassinato, ela percebe que está correndo perigo. ASSASSINATO NOS ESTADOS UNIDOS (1987) é desses filmes que deve ser assistido sem muita expectativa e nenhuma exigência. É uma diversão rasteira que funciona muito bem principalmente para quem gosta de Charles Bronson. Carisma não falta no homem. O filme lembra ROTA SUICIDA, de Clint Eastwood, que também trazia um sujeito durão ao lado da esposa. Claro que não é tão brilhante quanto o filme do Clint, mas dá pro gasto. Gravado da Globo.

quarta-feira, junho 14, 2006

O VAMPIRO (Vampyr - Der Traum des Allan Grey)



Avisaram-me, mas como sou teimoso, lá fui eu alugar o DVD de O VAMPIRO (1932), primeiro filme falado de Carl Theodor Dreyer. Realmente a cópia está horrível, mas, a julgar pelos comentários que li no IMDB, a cópia americana também está tão ruim quanto à que foi disponibilizada pela Continental. Inclusive, li reclamações até das mesmas barras pretas cobrindo boa parte da tela na hora das legendas.

Um dos melhores momentos do filme é a cena vista pelo ponto de vista do protagonista, morto dentro de um caixão, em vias de ser enterrado, assistindo ao próprio funeral. Há também interessantes efeitos especiais na cena em que o espírito de Allan Grey sai do corpo e dá um passeio. Só esses dois momentos já são suficientes para perceber que a obsessão do diretor pela morte, um de seus temas recorrentes, está fortemente presente nesse filme.

Confesso que me perdi um pouco na trama. (Na verdade, "um pouco" é eufemismo.) Isso prejudicou, junto com a precariedade da cópia, minha apreciação do filme. Mas como o que deixo aqui são só impressões, prefiro deixar registrado esse meu primeiro contato com O VAMPIRO. Quem sabe no futuro eu volto a assistí-lo numa cópia melhor.

Como o cinema falado ainda estava engatinhando, O VAMPIRO ainda se parece muito com cinema mudo. É que O VAMPIRO havia sido produzido originalmente como um filme mudo. Só depois que foram acrescentados os poucos diálogos, que aparecem no filme de uma maneira um pouco anti-natural e arrastada, contribuindo para a atmosfera horripilante pretendida. Há poucos diálogos e vários textos para preencher a história, principalmente no começo do filme.

O VAMPIRO foi baseado numa obra de Sheridan Le Fanu, escritor tão célebre quanto Bram Stoker no que se refere a livros sobre vampiros.

Próximo Dreyer da fila: DIAS DE IRA (1943).

terça-feira, junho 13, 2006

LADY VINGANÇA (Chinjeolhan Geumjassi)



LADY VINGANÇA (2005), o terceiro filme da "trilogia da vingança" de Chan-wook Park, se não é tão bom quanto os dois primeiros, me passou a impressão de ser, dos três, o de maior beleza plástica. O diretor de fotografia é Jeong-hun Jeong, mesmo de OLDBOY (2003). O problema desse terceiro filme se deve mais à frieza com que a trama é tecida. E essa sensação acontece muito por causa da complexidade da narrativa, cheia de personagens, de diferentes narrações em off, de flashbacks que às vezes confundem a nossa noção de tempo. Assim, em nenhum momento nos sentimos solidários à causa da protagonista. Nem mesmo no final, quando descobrimos mais detalhes dos crimes cometidos pelo professor. Diferente de filmes como KILL BILL, THRILLER - A CRUEL PICTURE, DESEJO DE MATAR, OLDBOY ou mesmo SENHOR VINGANÇA (2002), embora esse último apresente a vingança como algo mais complexo em que todos são vítimas.

Em LADY VINGANÇA, mulher vai presa e se finge de boazinha para conseguir logo a sua liberdade condicional. Ela até participa de uma igreja evangélica. Mas é tudo fingimento. Ela na verdade está preparando uma cruel vingança ao homem responsável pela sua prisão e pelo assassinato de várias crianças. Falando assim, tudo parece muito simples, mas a narrativa deixa a situação um pouco mais complicada.

As cenas mais empolgantes são as do final, quando a tal vingança é executada. O filme pertence a essa leva de obras que causam controvérsia por causa da violência. O diretor até já foi acusado de sádico. Soube que quando da exibição desse filme numa mostra internacional, várias pessoas riram nos momentos finais, como se estivessem vendo uma demonstração de sadismo. Eu não vejo dessa maneira. Pra mim, o filme é narrado com bastante seriedade. A bela música barroca de Antonio Vivaldi contribui para isso. Lembrando que em OLDBOY, Park havia usado trechos de "As Quatro Estações", de Vivaldi.

Quero ver outros filmes de Park, longe dessa temática da vingança para ver se o seu estilo muda. Parece que ZONA DE RISCO (2000), lançado recentemente em DVD no Brasil, é bem diferente. Ouvi dizer que o filme lembra até John Woo.

Filme visto em divx. A qualidade da cópia está tão boa (dois arquivos de cerca de 700 Mb) que eu não acredito que o DVD nacional - se um dia vier - será tão bom.

P.S.: Tem Coluna nova no Cinema com Rapadura. Dessa vez, eu roubei um pouco a idéia do Milton e falei sobre minha experiência com o VHS. Valeu, Milton! :)

segunda-feira, junho 12, 2006

TOP 20 ANOS 70


1. DOMICÍLIO CONJUGAL (François Truffaut)
2. MANHATTAN (Woody Allen)
3. O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS (Don Siegel)
4. BARRY LYNDON (Stanley Kubrick)




5. O PODEROSO CHEFÃO (Francis Ford Coppola)
6. O CASAMENTO DE MARIA BRAUN (Rainer Werner Fassbinder)
7. TRISTANA (Luis Buñuel)
8. A VIDA DE BRIAN (Terry Jones)



9. SONHOS DE UM SEDUTOR (Herbert Ross)
10. O JOELHO DE CLAIRE (Eric Rohmer)
11. A MORTE NÃO MANDA RECADO (Sam Peckinpah)
12. FRENESI (Alfred Hitchcock)


13. UM DIA DE CÃO (Sidney Lumet)
14. A RAINHA DIABA (Antonio Carlos da Fontoura)
15. SUSPIRIA (Dario Argento)
16. UM DIA MUITO ESPECIAL (Ettore Scola)


17. SALÒ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA (Pier Paolo Pasolini)
18. OS 5 VENENOS DE SHAOLIN (Chang Cheh)
19. ROMA DE FELLINI(Federico Fellini)
20. CHINATOWN (Roman Polanski)

Quase entraram: O PASSAGEIRO - PROFISSÃO REPÓRTER, ÂNSIA DE AMAR, CAMINHOS PERIGOSOS, O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II, ESSE OBSCURO OBJETO DO DESEJO, TRAMA MACABRA, O QUARTO VERDE, A NOITE AMERICANA, APOCALYPSE NOW, IRMÃS DIABÓLICAS, SOLARIS.

Queria ter tido tempo de rever O PODEROSO CHEFÃO e O PODEROSO CHEFÃO - PARTE II para saber se eles continuam sendo tão bons quanto parecem na minha memória. O mesmo valendo para MANHATTAN, UM DIA DE CÃO ou O CASAMENTO DE MARIA BRAUM. Mas como não posso rever todos eles por enquanto, já vou adiantando o meu ranking da década de 70, uma das mais férteis do cinema em todo o mundo.

Continua valendo a regra das outras listas que fiz, isto é, não pode entrar dois filmes do mesmo diretor. Se bem que eu acabei trapaceando, já que coloquei dois filmes de Woody Allen entre os vinte - apesar de ter sido dirigido por Herbert Ross, SONHOS DE UM SEDUTOR é um autêntico filme de Woody Allen. Se eu pudesse colocar mais de um filme por diretor, o nome de Francis Ford Coppola e Luis Buñuel poderiam aparecer mais vezes. O maior cineasta da Espanha aparece na lista com o genial TRISTANA, com a musa Catherine Deneuve.

O único exemplar do cinema brasileiro foi A RAINHA DIABA. Uma pena eu não ter visto muitos filmes brasileiros dessa década, que, acredito eu, deve ter sido das melhores do nosso cinema. Há também um exemplar do cinema chinês, o excelente OS 5 VENENOS DE SHAOLIN, que conheci recentemente graças à influência de Quentin Tarantino. Outro filme que só fui conhecer dia desses foi o maravilhoso O JOELHO DE CLAIRE, de Eric Rohmer.

O filme que se apresenta no topo da lista, DOMICÍLIO CONJUGAL, de François Truffaut, aparece por razões estritamente pessoais. Inclusive, ele é considerado por muitos o mais fraco da pentalogia de Antoine Doinel. Mas pra mim, trata-se de um filme muito, mas muito, especial.

O genial Stanley Kubrick comparece com BARRY LYNDON, sua obra mais emocional. Quem diria que Kubrick, um cineasta tão cerebral, me faria um dia chorar. Outro filme de causar catarse é a obra-prima O ESTRANHO QUE NÓS AMAMOS, de Don Siegel, que traz uma performance excepcional de Clint Eastwood.

Alfred Hitchcock, nos anos 70, já estava muito velhinho e em fim de carreira, mas o cara ainda mandava muito bem. Sua ausência no cinema ainda hoje é bastante sentida. Dos seus dois filmes da década, optei por FRENESI por ser melhor resolvido e mais redondo, mas também gosto muito de TRAMA MACABRA.

Falando em filmes violentos, um dos grandes mestres da violência, Sam Peckinpah, comparece com um de seus filmes mais líricos e românticos, A MORTE NÃO MANDA RECADO. Por outro lado, a overdose de violência e escatologia de SALÒ, OU OS 120 DIAS DE SODOMA fica na memória da gente forte demais para ser ignorado. Ironicamente, um cineasta que eu nem gosto tanto aparece com uma obra que me deixou impressionado: Federico Fellini e seu ROMA. Ver filme no cinema é outra coisa, hein. Aliás, dos vinte filmes da lista, apenas três eu vi no cinema, graças a exibições especiais.

A lista foi feita por ocasião das votações para melhores das décadas na Liga dos Blogues Cinematográficos.

sábado, junho 10, 2006

A PROFECIA (The Omen / The Omen 666)



Quando um filme é xingado a torto e a direito, a tendência que a gente tem é mesmo ir ao cinema achando que vai ver um lixo. Às vezes essa expectativa negativa acaba funcionando como vantagem para o filme. É o caso de A PROFECIA (2006), de John Moore, remake do hoje clássico de Richard Dooner. Quando o filme começou, eu confesso que estava com um pouco de má vontade. Aquela criança no começo não me convenceu de jeito nenhum como o anticristo e a trama me pareceu bastante forçada. Mas chega uma hora que o filme se ergue e os sustos aparecem. O drama do pai que tem que matar o próprio filho para livrar o mundo do demônio acabou por me deixar bastante envolvido. Diria que mais até do que o filme original. Claro que o fato de eu ter visto o original apenas em DVD contribui muito. Quanto ao garotinho, lá perto do final ele se torna mesmo assustador. E tem aquele cachorro preto que fica dentro da casa, que é de arrepiar tudo quanto é cabelo.

Interessante que normalmente eu me sinto incomodado com filmes que trazem profecias sobre o Apocalipse. Alguns são extremamente ridículos. O caso mais gritante seria o de FIM DOS DIAS, aquele lixo que trazia o Schwarzenegger enfrentando o capeta e que se aproveitava do fim do milênio. Dessa vez, eu até achei interessante o roteirista ter comparado eventos atuais como a queda das torres gêmeas e o tsunami na Ásia com trechos do Apocalipse. Se bem que eu sei que essas interpretações devem ter sido copiadas das idéias de alguma igreja evangélica.

Quem substitui Gregory Peck e Lee Remick nesse remake são Liev Schrieber e Julia Stiles. Julia aparece um pouco mais gordinha, mas gostei muito da entrega dela à personagem. Deu pra ver que ela estava levando a sério o filme na cena em que ela chora com medo do próprio filho. Ela não sabe que o menino não é seu filho biológico, mas sabe que ele possui uma natureza maligna. (Suspeito que uma mãe que planeja adotar uma criança, deve desistir da idéia depois de ver o filme.)

Um dos maiores problema desse novo A PROFECIA é mesmo o excesso de reverência à obra original. Muito pouco foi mudado, mas algumas coisas foram mudadas para melhor. Por exemplo, a seqüência da tempestade que vai por fim à vida do padre vivido por Pete Postlethwaite é um primor de construção atmosférica. Chamarem Mia Farrow para interpretar a babá também foi uma boa sacada, já que depois de dar à luz o filho do capeta em O BEBÊ DE ROSEMARY, nada mais natural do que ajudar na criação do Anticristo. Claro que muita coisa poderia ser melhorada ou acrescentada no filme, mas acredito que John Moore fez um bom trabalho. Engraçado que eu fui um dos poucos que gostaram de um filme anterior do diretor, ATRÁS DAS LINHAS INIMIGAS (2001). Pela lógica, acho que vou gostar de O VÔO DA FÊNIX (2004) também.

sexta-feira, junho 09, 2006

UMA VIDA ILUMINADA (Everything Is Iluminated)



E hoje começa a Copa do Mundo 2006. Será que o blog vai diminuir o ritmo por causa disso? Ainda não sei. É possível. Devo substituir alguns filmes vistos em casa por alguns jogos. Costumo sempre dizer que eu só gosto de futebol de quatro em quatro anos. Se eu não assistir nem nessa época é melhor eu me mudar logo de país.

Hoje estava pretendendo mandar um post com o ranking dos 70's, mas não fui trabalhar e o meu arquivo contendo os códigos para os mini-cartazes dos filmes está lá na empresa. Então, para não ficar sem atualizar, o filme de hoje vai ser UMA VIDA ILUMINADA (2005).

A estréia na direção de Liev Schrieber é um caso típico de filme dividido. A primeira parte tenta ser uma comédia e a segunda, um drama sério sobre encontros com a verdade e com o passado distante. A primeira parte do filme é bem chatinha e deu para perceber nas cenas deletadas que vêm no DVD que a decisão de diminuir a comédia foi acertada.

Na trama, Elijah Wood é um jovem que tem a mania obsessiva de guardar coisas. Ele tem uma parede cheia de coisas de seus familiares, como uma forma de se fazer um registro histórico de sua família. Seu avô morre e tudo que ele tem dele é uma pequena jóia e uma foto dele com uma mulher que o escondeu dos nazistas. Levando a sério esse seu "hobbie", ele parte para a Ucrânia em busca dessa mulher para agradecê-la e aprender mais sobre o seu avô. Chegando na Ucrânia, ele é recebido por um jovem fã da cultura pop americana e por um velho que se finge de cego e anda com um cão-guia.

O filme me deixou com uma leve curiosidade para saber o que levou o diretor (Liev Schrieber) a adaptar algo que parece ser tão pessoal. Soube que Schrieber era muito próximo de seu avô, que era um imigrante ucraniano, e a morte dele o levou a escrever um livro sobre suas memórias. No meio do caminho, ele leu um trecho do romance de Jonathan Safran Foer e se identificou bastante. Ele achou tão bom o material de Foer que ele desistiu de escrever o seu próprio livro e resolveu adaptar para o cinema o romance.

Um dos destaques do filme é a fotografia, que valoriza a bela paisagem. Que não é da Ucrânia, mas da República Tcheca. O amarelo das flores é o que mais fica na memória.

quinta-feira, junho 08, 2006

A DAMA E O VAGABUNDO (Lady and the Tramp)



A estória de A DAMA E O VAGABUNDO, eu já conhecia desde criança. Lembro que eu tinha a quadrinização do filme. Mas nunca havia visto o longa-metragem e não sabia de sua real importância para a história da animação. O filme foi o primeiro desenho animado realizado em CinemaScope. Felizmente, a Edição Especial em DVD respeita o formato original do filme. Como muitos cinemas da época ainda não possuíam equipamentos para rodar o filme nesse formato, foram produzidas duas versões, sendo que a outra, no formato tradicional (1,33:1?). Na época o cinema estava prevendo um desaparecimento provocado pela chegada da televisão. Felizmente isso não aconteceu.

A DAMA E O VAGABUNDO foi muito importante para Walt Disney pois foi inspirado em Marceline, Missouri, uma cidadezinha do interior onde Walt passou boa parte de sua infância. Ele costumava dizer que os melhores anos de sua vida foram nessa pequena cidade. A rotina de vida pacata é mostrada com extrema sensibilidade nesse filme visto pelo ponto de vista de uma cachorrinha, a Lili, uma bela cocker spaniel tratada muito bem por seus donos. A cena da chegada de Lili num caixinha e a tentativa dela de dormir no mesmo quarto dos seus donos é um dos momentos de maior ternura que eu já vi. A jovem cachorrinha irá ainda ter sua rotina mudada com a chegada do bebê do casal, da sogra e de seus dois gatos e, principalmente, com o aparecimento de um viralata por quem ela se apaixona. A cena mais clássica do filme é a dos dois cães comendo espaguete ao som da canção "Bella Notte", momento dos mais belos e românticos da história do cinema. Os personagens de Joca e Fiel, os cães amigos de Lili são também bastante carismáticos.

Impressionante como A DAMA E O VAGABUNDO ainda consegue agradar (e muito) nos dias de hoje, tão carregados de cinismo e violência. Nesse sentido, A DAMA E O VAGABUNDO está em situação de vantagem em relação a filmes de contos de fadas como CINDERELA, A BELA ADORMECIDA ou BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES, embora esses estejam no imaginário popular de maneira mais profunda. O filme foi um dos primeiros clássicos a trazer uma estória nova e não adaptada de clássicos da literatura universal.

Procurando por Walt Disney na internet li sobre uma lenda urbana que dizia que ele havia sido congelado numa câmera criogênica para que no futuro, com os avanços da medicina e da tecnologia, ele pudesse ser reavivado. Mas a verdade é que ele faleceu em 1966 e seu corpo foi cremado.

O DVD de A DAMA E O VAGABUNDO vem com um excelente documentário de mais de quarenta minutos sobre a realização do filme. Vale a pena conferir.

Grandes Clássicos Disney:
BRANCA DE NEVE E OS SETE ANÕES (1937)
PINÓQUIO (1940)
FANTASIA (1940)
DUMBO (1941)
BAMBI (1942)
ALÔ AMIGOS (1942)
VOCÊ JÁ FOI À BAHIA? (1945)
COMO É BOM SE DIVERTIR (1947)
AS AVENTURAS DE ICHABOD E SR. SAPO (1949)
CINDERELLA (1950)
ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (1951)
PETER PAN (1953)
A DAMA E O VAGABUNDO (1955)
A BELA ADORMECIDA (1959)
A ESPADA ERA A LEI (1963)
MOWGLI - O MENINO LOBO (1967)

quarta-feira, junho 07, 2006

ALIAS: CODINOME PERIGO - SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Alias - The Complete Second Season)



Na falta de LOST, eu acabo pegando uns episódios de ALIAS para ver. Devargarinho consegui terminar de ver a segunda temporada (2002/2003) em DVD. Até estava cogitando parar por aqui e não ver mais nenhum episódio, já que dizem que a série cai bastante a partir do terceiro ano, mas depois do gancho do final dessa temporada eu não sei se vou conseguir me segurar.

O que me incomodava na primeira temporada era justamente a repetição. Não via muita graça naquelas missões que todo mundo sabia que ia ser fichinha para a heroína. Mas a série conseguiu usar a repetição a seu favor, quando resolve na primeira metade da segunda temporada jogar quase tudo para cima com o fim da SD-6, a companhia de espionagem que Sydney Briston (Jennifer Garner) pretende destruir. No entanto, o grande vilão da série, Arvin Sloane (Ron Rifkin) continua trabalhando por fora. E o tal mistério envolvendo Rambaldi continua sendo alimentado, ainda que só de vez em quando. Outra atitude corajosa dessa temporada foi finalmente botar os dois agentes - Sydney e Michael Vaughn (Michael Vartan) - para namorar e acabar logo com aquela síndrome de ARQUIVO X.

Sobre Jennifer Garner, ela é o tipo de garota que não combina no papel de mulher fatal. Ela acaba ficando ridícula quando põe uma peruca de outra cor e anda de maneira vulgar. Acho isso um dos pontos fracos da série. Tenho certeza que outra atriz desempenharia até melhor essa função. Mas por outro lado, é inegável a simpatia que Jennifer passa quando está em trajes mais comuns, além da extrema competência nas cenas de luta. Um dos personagens que eu mais gosto da série é Will Tippin (Bradley Cooper), que faz o amigo da Sydney que descobre que ela é na verdade uma agente supertreinada da CIA. Tanto que chego a ficar triste quando ele leva uma facada e corre o risco de morrer no final da temporada. A idéia do clone foi uma boa sacada. Uma das marcas dessa segunda temporada é a participação ativa de Lena Olin, no papel da suspeitíssima Irina Derevko, mãe de Sydney e provável traidora dos Estados Unidos. Aliás, posso até desagradar os fãs de Sydney, mas acho Lena Olin mais sexy que Jennifer Garner. Talvez porque, pra mim, Lena vai ser sempre a Sabina de A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER.

Impressionante como o final do último episódio se parece com KILL BILL - VOL. 1. Suspeito que Quentin Tarantino, como fã da série, tenha se inspirado na luta de Sydney e Francie (Merrin Dungey) para fazer a luta de Uma Thurman com Vivica A. Fox. Claro que Tarantino teve resultados muito melhores, mas comparar os dois também é covardia. Até porque um seriado de tv tem prazos para cumprir e menos dinheiro envolvido. Mesmo assim, dá para se dizer que J.J.Abrams é um ótimo diretor. Engraçado que só agora que eu notei o quanto ALIAS bebeu na fonte de MISSÃO IMPOSSÍVEL, sejam os longas ou a série original. Por isso, nada mais justo que J.J. tenha sido escolhido para dirigir o terceiro filme da franquia.

Agora, com relação ao gancho do final da temporada: que coisa, hein. Foi a primeira vez que eu me senti realmente instigado com a série, coisa que só tinha acontecido com LOST. J.J. fala no making of que vem no disco 6 da caixa que sua série favorita é ALÉM DA IMAGINAÇÃO. E achei muito legal ele colocar esse clima de mistério dentro de uma série de espionagem, que lida mais com o raciocínio lógico e com a adrenalina.

segunda-feira, junho 05, 2006

A GRANDE TESTEMUNHA (Au Hasard Balthazar)



Quem acompanha o blog já percebeu que os cineastas cujos filmes eu mais tenho falado recentemente são Jean-Luc Godard, Carl T. Dreyer e Robert Bresson. Dos três, o meu favorito por enquanto é Bresson, e acho uma pena ser ele, dos três, o que tem a filmografia menor - apenas treze longas. Algumas das premissas de seus filmes são por si mesmas interessantes. É o caso de A GRANDE TESTEMUNHA (1966), visto pelo ponto de vista de um jumento.

Bresson tem uma simpatia por mártires, como pode-se notar em filmes como DIÁRIO DE UM PADRE (1950) e O PROCESSO DE JOANA D'ARC (1962). O mártir dessa vez é um jumento, animal que carrega consigo uma história de participação no nascimento de Jesus e é também um símbolo de humildade e resistência, valores da era de peixes, da era cristã. Valores esses que estão sendo substituídos por outros nos dias de hoje.

Tive dificuldades de assimilar as intenções do diretor e de alguns personagens do filme. Há um tom geral de pessimismo em relação à raça humana. O único puro do filme é o Balthazar, o pobre jumento que passa por vários donos, a começar pela jovem Marie, que demonstra em algumas cenas amar o jumento mais do que a todos a seu redor. Depois que ela passa por um processo de sofrimento e sadomasoquismo nas mãos do malvado Gérard, a moça começa a se distanciar mais do animal. Gérard chega a tocar fogo no rabo de Balthazar para que ele saia do lugar.

O filme se passa ao longo de muitos anos, cobrindo do nascimento à morte de Balthazar. Aliás, não sei quantos anos dura em média um jumento. Na verdade, nem mesmo sei se Balthazar é um jumento. Qual a diferença entre burro, mula e jumento? Excetuando a cena do circo, soube que o animal não chegou a ser realmente treinado para o filme.

A GRANDE TESTEMUNHA é um filme que deve ser visto mais de uma vez para ser melhor assimilado. Os saltos no tempo, a mudança na vida dos personagens e a aparição de novos me deixou um pouco perdido. Se em UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU (1956) ouvimos Mozart, em A GRANDE TESTEMUNHA na trilha sonora se tem Schubert.

Próximo Bresson da fila: MOUCHETTE, A VIRGEM POSSUÍDA (1967)

domingo, junho 04, 2006

TODO MUNDO EM PÂNICO 4 (Scary Movie 4)



Uma das piores coisas em se assistir a uma comédia ruim é que você fica com a impressão de que está de mau humor. Mas aí é que está: uma comédia realmente boa é capaz de tirar o mau humor do pior dos ranzinzas. Por mais que eu goste do trabalho do trio ZAZ nos anos 80, não aprovei a entrada de David Zucker na série TODO MUNDO EM PÂNICO na terceira edição da franquia (2003). Uma das maiores qualidades (ou defeitos, se preferir) dos dois primeiros filmes era a ênfase na escatologia e nas piadas de mau gosto. Isso se perdeu um pouco no terceiro filme, mas é recuperado em TODO MUNDO EM PÂNICO 4 (2006). Ainda que a direção continue sendo de David Zucker, não faltam nesse novo filme cenas de flatulências, melecas no nariz e babas escorrendo.

Os "homenageados" da vez são A VILA, GUERRA DOS MUNDOS, O GRITO e JOGOS MORTAIS. Mas há também brincadeiras em cima de MENINA DE OURO e O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN. Aliás, uma das melhores piadas do filme é a dos dois negões dentro da barraca. O filme também não perde a chance de curtir com a cara de Tom Cruise, fazendo uma sátira da histórica participação dele no programa da Oprah Winfrey. "Michael Jackson", como fez sucesso no terceiro filme, reaparece nesse quarto.

Anna Faris continua sendo a musa da franquia. Não dá pra perder uma pessoa como ela, que não tem medo de parecer ridícula nem de ficar estigmatizada no papel de loura burra. A gostosíssima Carmen Electra reaparece satirizando a cega de A VILA. E, como não poderia deixar de ser, ela não precisou ficar o tempo todo com aquelas roupas do século XVI. Dois atores fundamentais para a historia da comédia besteirol dos anos 80 aparecem em participações especiais: Charlie Sheen, que surge num dos melhores momentos do filme - na piada do Viagra -, e o grande Leslie Nielsen no papel do Presidente da República que, enquanto o mundo está sendo atacado por alienígenas, ele faz questão de terminar de ouvir a historinha do pato numa escola para crianças. A última seqüência de gags com Nielsen também é boa. Lembra os bons tempos de CORRA QUE A POLÍCIA VEM AÍ. Pode-se dizer que eles conseguiram melhorar nesse quarto filme. Só não dá para esperar uma grande comédia.

P.S.: Reparei que no ingresso do North Shopping - que agora está custando exorbitantes R$ 6,70 (meia!) - tem especificado: valor da entrada 6,53; direito autoral 0,17; valor do ingresso 6,70. Só assim pra eu ficar sabendo quanto de cada sessão vai para os autores.

P.P.S: Quem ainda não viu, não deixe de conferir o Tom Cruise recebendo uma pegadinha. No bom sentido, quero dizer.

sábado, junho 03, 2006

O MUNDO DE JACK & ROSE (The Ballad of Jack & Rose)



Os últimos dias não têm sido fáceis. Ando meio nervoso e com dificuldade de controlar a ansiedade. Ontem quase não agüentei a pressão lá no trabalho. Hoje, tirando o curso de espanhol pela manhã e a ida à locadora e à comic shop, passei o resto do dia trancafiado em casa. A fim de acalmar o aperto no peito, uma injeção de rock and roll (The Doors, Smashing Pumpkins, U2, Nirvana) com o volume alto trouxe certo alívio. Não tive coragem, ânimo ou disposição de ir ao Cine Ceará. Além de não ter me animado nada com esse novo formato - ibero-americano -, o festival não deixa de ser um evento social. E imagina só: eu, ansioso do jeito que estou, me sentar para ver documentário peruano ou equatoriano! E eu fico com medo de não me sentir bem estando sozinho num evento social, em que é de praxe contar com o atraso na exibição dos filmes. Dói mais sentir-se solitário no meio da multidão. Acho que estou passando pelo chamado inferno astral, período que antecede o mês do meu aniversário. Enquanto isso, vou me agüentando por aqui. A leitura de "A Semente de Mostarda" tem ajudado.

Entre os filmes que aluguei está O MUNDO DE JACK & ROSE (2005), belo trabalho de Rebecca Miller, filha do dramaturgo Arthur Miller e um dos principais nomes do cinema independente americano na atualidade. Esse é o seu terceiro filme na direção. Os primeiros - ÂNGELA - NAS ASAS DA IMAGINAÇÃO (1995) e O TEMPO DE CADA UM (2002) - vi em vídeo e no cinema, respectivamente. A diretora está mostrando uma evolução a cada trabalho. Os belos travellings introdutórios ao som de "I put a spell on you" não me deixam mentir. A canção aparece tanto na versão do Creedence Clearwater Revival quanto na de Nina Simone. Nesse terceiro longa, Miller conta ainda com a excepcional interpretação de Daniel Day Lewis, com a beleza jovem e inocente de Camilla Belle (que está ainda mais bela em QUANDO UM ESTRANHO CHAMA) e o talento de Catherine Keener.

Na trama, pai (Day Lewis) e filha (Camilla), isolados numa ilha que nos anos 60 fora uma comuna, têm a sua rotina mudada quando uma mulher (Keener) e seus dois filhos são convidados a viver juntos na mesma casa. Day Lewis faz um homem com problemas no coração e que sabe que não vai ter muito tempo de vida. A filha ama tanto o pai que costuma dizer que no dia em que o pai morrer, ela morrerá junto. Há uma sexualidade reprimida na relação entre pai e filha.

Acho interessante essa idéia de comuna. Talvez por influência dos livros do Osho. Embora muitas tentativas de se criarem comunas tenham ido por água abaixo, creio que a idéia não deveria ser posta de lado, apesar de todas as dificuldades e embargos impostos pela sociedade capitalista e pelos governantes.

Quanto ao filme - e resumindo - apesar das qualidades, ainda falta um pouco para que a diretora apresente um filme de fato excelente. Pena que o DVD está em tela cheia. Ao menos a qualidade da imagem está boa, fazendo jus a belíssima fotografia. Outro problema do DVD (da Imagem Filmes) é que a gente é obrigado a assistir os trailers para só então podermos acessar o menu.

sexta-feira, junho 02, 2006

ENSINA-ME A VIVER (Harold and Maude)



Meu interesse por esse filme se deve mais à sua importância dentro da década de 70 do que propriamente a uma atração pelo tema ou pela obra do diretor Hal Ashby. Aliás, Ashby, assim como Bob Rafelson, pertencem àquela categoria de cineastas que me dão sono, tirando uma ou outra exceção. Não vi AMARGO REGRESSO (1978), mas achei A ÚLTIMA MISSÃO (1973) e MUITO ALÉM DO JARDIM (1979) um pouco chatos. Além de não me dizerem nada. Vale mais pela boa performance de seus astros.

ENSINA-ME VIVER (1971) foi um dos títulos destacados no documentário A DÉCADA QUE MUDOU O CINEMA do qual eu falei recentemente aqui no blog. Se eu não achei o filme nenhuma obra-prima, não há dúvidas de que se trata de um autêntico produto da década. A filosofia hippie, a valorização da natureza, a atitude rebelde, isso é muito a cara dos anos 70.

Na trama, jovem rapaz - cuja principal diversão é ir a funerais e simular suicídios para assustar a própria mãe - conhece uma senhora alegre de oitenta anos que lhe mostra uma nova forma de encarar a vida. A história dos dois é contada ao som de muito Cat Stevens, autor da trilha sonora. Aliás, está aí uma outra característica que define o filme como produto setentista. Não chega a causar o mesmo prazer que foi ouvir Leonard Cohen em QUANDO OS HOMENS SÃO HOMENS, de Robert Altman, mas as canções acústicas de Stevens, sem dúvida, tornam o filme mais charmoso.

Gravado da Band.

P.S.: Engraçado esse cartaz da direita que quer vender o filme como uma comédia rasgada. Propaganda enganosa para arrebanhar outro tipo de público.

quinta-feira, junho 01, 2006

O JOELHO DE CLAIRE (Le Genou de Claire)



Não tinha contato com os filmes de Eric Rohmer desde 2004, quando tive o prazer de assistir no cinema a cinco filmes do diretor: os quatro "Contos das Estações" e A INGLESA E O DUQUE (2001). Por causa dessa maravilhosa experiência anterior na sala escura, acreditava que seus filmes perderiam muito se vistos em vídeo. E, de fato, perdem, mas nem tanto. Mesmo assim, fico imaginando como deve ser bom poder ver no cinema a cena-chave de O JOELHO DE CLAIRE (1970) - a tempestade, a tensão, as lágrimas, o joelho.

O JOELHO DE CLAIRE se assemelha um pouco com LIGAÇÕES PERIGOSAS em suas diversas versões. Como no romance de Laclos, os personagens de Jean-Claude Brialy (de UMA MULHER É UMA MULHER, de Godard) e Aurora Cornu são amigos que se divertem brincando com a vida e com os sentimentos dos mais jovens. Aurora propõe ao amigo que se envolva com a adolescente mais nova, Laura, para depois lhe contar o que rolou, a fim de que isso sirva como material para o seu romance - ela é escritora. A principal diferença entre os personagens rohmerianos e os maquiavélicos Visconde de Valmont e Marquesa de Merteuil é que os protagonistas do filme de Rohmer são mais humanos, menos autoconfiantes. O personagem de Brialy, inclusive, é tímido e nunca teve a sorte de desejar uma mulher e obter o seu objeto do desejo. Ele nunca teve a coragem de abordar uma mulher, sem ter certeza de que ela está interessada por ele. Por isso, acabei me identificando com ele, facilitando, assim, o meu envolvimento com o filme. O fato de Claire, a adolescente do título, ser bonita e ter belas pernas também ajuda ao espectador - principalmente se ele for homem - a se envolver e a se colocar um pouco no lugar do protagonista.

A estrutura de O JOELHO DE CLAIRE é bem peculiar, como se fosse dividido em capítulos bem curtos, sendo que cada capítulo é um dia das férias de Brialy. Como em CONTO DE OUTONO (1998), o gosto pela natureza é acentuado nas cenas em que os personagens colhem frutas e as saboreiam. Poucos filmes passam um prazer de viver tão grande quanto as obras de Rohmer. Uma coisa que me passou pela cabeça como uma possível falha do filme talvez esteja no fato de a personagem Laura, a adolescente mais nova, aparentar ser muito madura para sua idade. Mas como sei que as mulheres amadurecem de maneira precoce, melhor não subestimá-las. Talvez o que tenha me incomodado um pouco seja o fato de os personagens serem muito conscientes de suas falhas e desejos. Laura, por exemplo, diz que acredita que o seu interesse por homens mais velhos se deve ao fato de ela ter uma carência paterna. Mas esse "problema" é o de menos, e eu adoro esses filmes que trabalham com a psicologia dos personagens, vide os maravilhosos ANTES DO AMANHECER e ANTES DO PÔR-DO-SOL, do melhor dos herdeiros de Rohmer, Richard Linklater.

O JOELHO DE CLAIRE é o quinto filme da série de seis "Contos Morais". Os filmes dessa série mostram pessoas passando por crises morais e sofrendo as tentações da infidelidade. Os outros filmes da série são A PADEIRA DO BAIRRO (1962), A CARREIRA DE SUZANNE (1963), A COLECIONADORA (1967), MINHA NOITE COM ELA (1969) e AMOR À TARDE (1972). Espero ainda viver bastante para conferir essas pérolas.

Agradecimentos ao amigão Renato Doho, que fez a gentileza de me gravar esse filme, quando da exibição no canal TV5.

quarta-feira, maio 31, 2006

TRÊS ENTERROS (The Three Burials of Melquiades Estrada)



Que bela estréia a de Tommy Lee Jones na direção (em cinema). TRÊS ENTERROS (2005) é um dos melhores filmes do ano. Tem o sabor dos melhores westerns. Compararam com Clint Eastwood, mas talvez seu filme tenha mais a ver com os westerns noir de Anthony Mann. Há também semelhanças com os filmes de Sam Peckinpah. Independente do que possa parecer, o filme de Lee Jones é um primor narrativo e visual que equilibra muito bem a sensibilidade e a aspereza. Vai ver o cineasta/ator é como Eastwood ou Ford: uma pessoa aparentemente rude mas de coração mole.

TRÊS ENTERROS conta a história de um homem que leva o cadáver do seu amigo e o seu assassino para fazer um enterro justo e para cumprir uma promessa que ele havia feito para o amigo morto. O primeiro ato do filme se parece muito com os trabalhos de Alejandro González Iñárritu, muito por causa do roteiro escrito por Guillermo Arriaga, já conhecido por fazer histórias fragmentadas e não-lineares. Não tenho nada contra esse tipo de abordagem - até gosto dos filmes do Iñarritu -, mas o filme cresce muito mais quando passa a utilizar uma narrativa linear.

Barry Pepper tem a melhor performance de sua carreira como o guarda da fronteira inexperiente que mata por acidente o vaqueiro mexicano. Sua viagem forçada, ao lado do cadáver e do justiceiro, funciona como uma forma de expurgar os seus pecados. Ele come o pão que o diabo amassou nessa travessia. Confesso que nunca tinha prestado atenção na performance de Pepper nos outros filmes. Nem lembro direito dele em A ÚLTIMA NOITE, de Spike Lee. Acredito que agora, depois desse filme, ele vai ganhar maior projeção. Pepper está no elenco do novo Eastwood, FLAGS OF OUR FATHERS, mas não sei se o seu papel é de destaque.

Os coadjuvantes também têm seus momentos de brilhar. Especialmente as duas mulheres: a garçonete que chifra o marido para fugir do tédio da pequena cidade e a esposa do personagem de Pepper. Não sei se é influência de O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, mas eu senti uma leve conotação homo nos flashbacks que mostram a relação de amizade entre o personagem título e Tommy Lee Jones.

Pena que a sala onde eu vi o filme (Sala 1 do Espaço Unibanco Dragão do Mar) não estava com uma qualidade boa de projeção. Mas como era o único lugar possível para se assistir ao filme na cidade, não posso reclamar muito.

terça-feira, maio 30, 2006

O DESPREZO (Le Mépris / Il Disprezzo)



Escrever sobre filmes do Godard é sempre um problema para quem - como eu - não tem um conhecimento mais aprofundado do contexto histórico dos filmes, das referências utilizadas pelo diretor e de suas intenções. Por isso, acho que esses meus textos feitos apressadamente para o blog não funcionam muito bem quando se trata de Godard. Mas vamos seguindo adiante e aprendendo com os poucos textos que eu leio na internet e com os livros que tenho. Ler sobre Godard, assim como escrever, ajuda muito na compreensão de seus filmes, tornando-os mais fáceis de serem apreciados. Gostaria muito de ter um livro escrito em português sobre Godard. Será que existe algum publicado no Brasil? O único livro que eu tenho que tem algo dele é "Grandes Diretores de Cinema", de Laurent Tirard, que contém pequenas entrevistas de vários diretores famosos.

Levando adiante minha peregrinação pela obra godardiana, cheguei em O DESPREZO (1963), um de seus filmes mais famosos e importantes. Eu havia visto o filme no início de minha cinefilia em uma cópia muito ruim em VHS. Dessa vez, com a cópia em divx ripada do DVD da Criterion, pude ver o quanto as cores do filme são bonitas e como é importante assistí-lo na sua janela correta, em scope. Por exemplo, tem uma cena em que Michel Piccoli fica no cantinho da tela, enquanto todo o resto do espaço é completado pelas pedras e pelo mar da paradisíaca Ilha de Capri, enfatizando a solidão e o sentimento de abandono do personagem. Numa cópia em "tela cheia", só ia dar pra ver o mar e as pedras.

O DESPREZO é, como o título já sugere, um filme sobre um homem desprezado pela mulher, depois que ela percebe que não ama mais o marido. Há quem diga que o filme foi inspirado na intimidade de Godard e Anna Karina. Principalmente pelo fato de Godard ter colocado, em determinada cena, uma peruca preta em Brigitte Bardot, de modo que ela ficou parecida com Karina em VIVER A VIDA (1962).

Além da participação sensual, com direito a nudez, de Brigitte Bardot, boa parte da fama do filme se deve à presença de Fritz Lang no papel de Fritz Lang. Ele é o diretor contratado pelo produtor americano Jeremy Prokosch (Jack Palance, que parece estar se divertindo bastante no papel do produtor tirano) para fazer uma adaptação da Odisséia de Homero. Michel Piccoli é o roteirista, um homem de teatro que se vê pouco à vontade no mundo do cinema. Bardot é sua esposa.

Em entrevista a Peter Bogdanovich, Lang declarou que Godard improvisava bastante. Inclusive, o próprio final do filme, Godard não tinha a menor idéia de como fazê-lo e perguntou a Lang: "Fritz, você tem alguma idéia sobre como deveríamos terminar esse filme?". E Godard acabou aceitando uma das sugestões do cineasta alemão.

O tema da morte do cinema, anteriormente apenas sugerido em VIVER A VIDA, dessa vez é citado explicitamente. O desgate no relacionamento de um casal também já havia sido mostrado em UMA MULHER É UMA MULHER (1961), mas de maneira bem mais leve. Dessa vez, Godard perde aquela leveza do início da carreira e se mostra bem mais sério e solene. Essa gravidade se torna ainda mais evidente com a música de Georges Delerue, que chega a ser invasiva e angustiante.

A personagem de Bardot, depois que perde o respeito que sentia pelo marido, diz a certa altura: "você não é um homem". Isso doeu até em mim. De tão desesperado que estava com a dissolução do casamento, o humilhado Piccoli já não se importa mais com o seu emprego, joga tudo para cima, dizendo que está nessa de cinema apenas pelo dinheiro, que gosta mesmo é de teatro. Para ele, não interessa mais se os produtores não mais o contratarão no futuro. Para ele, não há nada mais importante do que aquela mulher. Outra cena incômoda acontece quando Piccoli pergunta para Bardot se ela não quer fazer amor com ele, e ela, no sofá, despe-se e diz algo como: "ok, mas seja rápido". Um negócio desses, além de ser altamente brochante, faz com que o homem se sinta um verme. Nada mais doloroso do que ser rejeitado pelo mulher que você ama e com quem já teve momentos íntimos dos mais prazerosos. O filme me pareceu bastante forte para uma adaptação de uma obra de terceiros, no caso, Alberto Moravia. Passa a impressão de algo bastante pessoal para o diretor

Próximo Godard da fila: BAND À PART (1964).

segunda-feira, maio 29, 2006

X-MEN - O CONFRONTO FINAL (X-Men: The Last Stand)



Pra quem achava que X-MEN - O CONFRONTO FINAL (2006) seria tão fraco quanto os trailers antecipavam, até que eu me surpreendi bastante com suas qualidades. Sob a direção de Brett Ratner, o terceiro filme deve ficar na memória dos expectadores mais até do que os dois dirigidos por Bryan Singer. Eu, pelo menos, pouco me lembro de X-MEN (2000) e X-MEN 2 (2003), embora eu lembre de ter gostado mais do segundo.

O prólogo do novo filme chegou a me empolgar. Ele se passa alguns anos no passado e mostra o Professor Xavier e Magneto (ambos rejuvenescidos com maquiagem e retoques de computação gráfica) indo falar com os pais da adolescente Jean Grey, pois foi detectado que o poder da menina é incalculável e deve ser controlado. Depois vemos um pouco da infância traumática de Warren Worthington III, o Anjo. Em seguida, entram os créditos de abertura com uma música bacana. Depois desso prólogo, eu até me sentei mais apoiadamente na cadeira para ver o filme com mais boa vontade. A trama desse terceiro filme gira em torno de uma fórmula que "cura" os mutantes, transformando-os em pessoas normais.

Pode-se acusar o filme de muita coisa menos de não ser ousado. Os roteiristas, ignorando a possível reclamação dos fãs dos quadrinhos, não se importaram em matar logo de cara um dos heróis mais importantes da equipe. Sobrando espaço, assim, para que o Wolverine (Hugh Jackman) e a Tempestade (Halle Berry) pudessem brilhar mais. A Tempestade, nos filmes anteriores, havia sido relegada a segundo plano. Curiosamente, o Noturno desapareceu desse novo filme sem maiores explicações e o Colossus apareceu da mesma maneira. Porém, a participação do Colossus foi ridícula, servindo apenas como mero "lançador de Wolverine".

O Wolverine de Hugh Jackman está cada vez mais diferente do que eu conheci nos quadrinhos. No cinema, ele tem pinta de galã e tem até bons modos com as mulheres. Nos quadrinhos ele é um sujeito baixinho, enfezado e selvagem. Mas tudo bem. Eu gostei bastante da interpretação do Jackman e o fator de cura dele e a aplicação das garras foi bem melhor utilizada nesse filme. Claro que para um filme de censura 12 anos o sangue não é mostrado. Quanto à Tempestade, tirando o péssimo uso de cabos nas cenas de vôo, enfim deram o devido valor para sua personagem. Já Famke Janssen, a atriz pegou um papel ingrato, tendo apenas que se fazer de malvada o tempo todo na pele da Fênix Negra. Inclusive, achava que o filme iria beber mais da fonte da Saga da Fênix Negra, mas resolveram fazer um roteiro mais original, o que não deixa de ser um ponto a favor. Torna as coisas mais surpreendentes.

Felizmente um dos maiores problemas dos dois primeiros filmes foi solucionada, ao menos em parte, nesse terceiro. Refiro-me às seqüências de ação. O Wolverine bota suas garras para funcionar, o Fera mandou muito bem nas lutas, há um belo timing justamente num momento que qualquer diretor poderia se perder. Também gostei da menina que fez a Kitty Pryde (Ellen Page). Além de a atriz ser uma gracinha, a cena dela com o Fanático também ficou muito legal. A saída de cena do Ciclope só fez com que o filme melhorasse. James Marsden tem aquela cara de babacão que irrita.

Teria que rever o segundo filme para fazer uma comparação melhor, mas suspeito que Brett Ratner, o homem que deve ser respeitado ao menos por ter produzido PRISON BREAK, fez o melhor filme da trilogia. Não chega a ser excelente, mas já tá bom demais.

P.S.: Tem coluna nova no CCR. O assunto da vez: "Os novos mestres do terror".

sábado, maio 27, 2006

LOST - A SEGUNDA TEMPORADA COMPLETA (Lost - The Complete Second Season)



O final da segunda temporada de LOST (2005/2006) conseguiu ser ainda mais intrigante do que o final da temporada anterior, embora a média dos episódios, de acordo com a medição feita pelo meu empolgatrom, seja inferior à primeira. Os melhores episódios seriam os primeiros e os últimos. O especial duplo final conseguiu resgatar o mistério que estava quase sendo perdido nos episódios do meio, mais centrados no drama dos personagens e cada vez se assemelhando a uma novela. Antes de seguir adiante, recomendo a quem esteja assistindo LOST pelo AXN, ou que só tenha visto a primeira temporada em DVD, que não leia o texto a partir de agora.

A segunda temporada de LOST ficou marcada pelo misterioso botão da escotilha, encontrada no final da primeira temporada. O botão deve ser apertado a cada 108 minutos, seguido dos mesmos números que Hurley havia jogado na loteria antes de o avião cair na ilha. Caso o botão não seja apertado, o planeta inteiro sofrerá as conseqüências. Sejam lá quais forem. Na segunda temporada, "os outros" aparecem mais vezes e a gente sabe um pouco mais sobre eles. Ainda muito pouco, mas o suficiente para desmistificá-los. (Lembro que na temporada passada eu cheguei a ficar com medo do Ethan.)

Outra coisa marcante é o encontro do grupo formado por Jack, Kate e cia com as pessoas que estavam mais próximas da cauda do avião, e que foram arremessadas para o outro lado da ilha. Assim, entram para a formação oficial os personagens Ana Lucia, Libby, Ecko e Bernard. Dos quatro, Ana Lucia e Ecko foram mais importantes dentro da trama. O triângulo amoroso formado por Jack, Kate e Sawyer esquentou muito pouco. Mas até que eu acho isso interessante. Lembra a relação entre Mulder e Scully em ARQUIVO X. A mudança de tom no personagem de Locke também foi sensivelmente sentida. Ele perde a fé depois da morte de Boone e começa a fazer bobagens.

Meu top 5 da segundona, em ordem cronológica:

"Man of Science, Man of Faith" (2.01)

A segunda temporada começou arrebentando com um episódio de ação non-stop. Começa exatamente onde parou a primeira, depois que Locke arrebenta com dinamite a porta da escotilha. É quando conhecemos, ainda que vagamente, Desmond, o "homem do botão". A fim de não dispersar a trama, não vemos os outros personagens da ilha. A não ser pelos tripulantes do barco, Michael e Sawyer, que ficam apavorados depois que os outros seqüestram Walt e que Jin desaparece no oceano.

"Adrift" (2.02)

Um dos baratos desse episódio é que é a ação é praticamente a mesma do primeiro, só que vista por um outro prisma. Voltam os flashbacks. Dessa vez, de Michael. Mas a ação na escotilha continua a ser a coisa mais importante.

"The Other 48 Days" (2.07)

Episódio bastante interessante mostrando o que aconteceu com os outros tripulantes do vôo. São 48 dias em 42 minutos. É um dos episódios mais diferentes e dinâmicos da série.

"What Kate Did" (2.09)

É o episódio da Kate, minha personagem favorita da série. E, por acaso, a mais linda e gostosa também. Adoro a seqüência em que ela foge na moto, enquanto a casa do seu padrasto pega fogo. Não lembro se é esse episódio que mostra ela saindo do banho só de toalha e toda cheirosinha - passou até xampu.

"Live Together, Die Alone" (2.23/24)

Depois do episódio da Kate, pouca coisa empolgante aconteceu. A ação começa a ficar impactante novamente no episódio 21, com o retorno de Michael e a morte de Ana Lucia e Libby. "Live Together, Die Alone" ajuda a recuperar a fé na série. Ajuda a lembrar que LOST é um marco na história da televisão. O flashback desse episódio é o de Desmond, um dos mais interessantes até agora. Sua história é angustiante. Imagina só: estar apaixonado por uma mulher e ficar preso sem poder vê-la, seja na cadeia, seja na ilha, é de deixar qualquer um desesperado. Esse episódio também nos dá algumas respostas, como o porquê do avião ter caído na ilha, mas consegue deixar o espectador ainda mais perdido no final. A última cena me deixou sem chão. E pela primeira vez, assistimos a uma ação acontecendo fora da ilha sem que seja um flashback. Será que isso será uma constante na próxima temporada, se a namorada de Desmond entrar mesmo para o elenco fixo? Como ela sabia que uma descarga eletromagnética seria uma evidência da presença do namorado? Quais as conseqüências na ilha e no planeta da destruição do computador? Qual será o destino de Michael e Walt naquele barco? E mais um monte de perguntas que ficaram no ar e que só poderão ser respondidas (ou não) a partir de setembro, quando a série voltará.

sexta-feira, maio 26, 2006

CURVA DO DESTINO (Detour)



Perguntado por Peter Bogdanovich sobre quais dos seus filmes são seus prediletos, Edgar G. Ulmer respondeu: O GATO PRETO (1934), CURVA DO DESTINO (1945) e MADRUGADA DA TRAIÇÃO (1955). A julgar por CURVA DO DESTINO, o único filme do diretor que tive a chance de ver, esses outros também devem ser preciosos.

Terminei de ler a entrevista que Ulmer deu a Bogdanovich, publicada no livro "Afinal, Quem Faz os Filmes". Infelizmente, não foi possível cobrir toda a filmografia do cineasta na entrevista, pois Ulmer morreu vítima de um derrame cerebral em 1972. Quando Bogdanovich falou com ele, ele já havia sofrido um derrame, mas estava bem recuperado. Diferente de Leo McCarey, que nem falar podia mais na entrevista, de tão doente que estava. Já Ulmer falou bastante, contando histórias interessantes sobre filmes obscuros de sua filmografia, como os filmes ídiches; um pouco de sua relação com Murnau, Fritz Lang e Lubitsch; e dos milagres que fazia com pouco ou nenhum dinheiro. Ulmer costumava fazer filmes inteiros em apenas seis dias. Havia exceções, como da vez que ele fez um peplum na Itália - ANÍBAL, O CONQUISTADOR (1960, disponível em DVD pela ClassicLine). Achei bonito a entrevista terminar com uma frase em que Ulmer diz: "procuro absolvição por todas as coisas que tive de fazer por causa do dinheiro."

CURVA DO DESTINO é um filme de menos de menos de 70 minutos de duração que flui que é uma beleza. É um dos melhores film noir já produzidos. Como é característica do gênero, há a figura do homem que entra numa fria, uma mulher que se apresenta como catalizadora dos problemas do sujeito e um ou mais cadáveres no caminho, potencializando a tragédia. Se bem que eu li um artigo que dizia que CURVA DO DESTINO é um exemplo de uma subcategoria do film noir, o chamado film gris (filme cinza). O filme de Ulmer não apresentaria o glamour geralmente encontrado nos noirs, além do fato de o protagonista ser um loser bem mais parecido com uma pessoa comum. Acho essa teoria até coerente, já que estamos falando de um filme B. Inclusive, até dizem que o film noir surgiu da falta de dinheiro dos pequenos estúdios para investir em iluminação e melhores câmeras. Interessante que o culpado do destino trágico do protagonista é justamente a falta de dinheiro, a busca por melhores condições de vida numa sociedade tão capitalista quanto a americana. O papel do dinheiro no filme é de fundamental importância.

Uma das curiosidades (mórbidas) relacionadas a CURVA DO DESTINO é que o protagonista (Tom Neal) foi preso por ter matado a própria esposa com um tiro na cabeça. Ele ainda escapou da câmara de gás e acabou pegando dez anos de cadeia por homicídio involuntário.

quinta-feira, maio 25, 2006

REJEITADOS PELO DIABO (The Devil's Rejects)



Que filmaço que é REJEITADOS PELO DIABO (2005), a segunda incursão na direção do rock star Rob Zombie. Utilizando os mesmos personagens de seu filme de estréia, A CASA DOS 1000 CORPOS (2003), ele mostrou evolução técnica e sensibilidade impressionantes para alguém que está ainda começando. Eu fiquei realmente surpreso. Não imaginei que esse filme fosse tão bom. Achava que era só hype dos fãs de horror. Em vez disso, dei de cara com um filme mais parecido com policial do que com terror e um diretor com um carinho especial por seus personagens. algo que não via desde KILL BILL, de Quentin Tarantino. Zombie ama e romantiza seus anti-heróis, não importando que eles sejam psicopatas perversos, dignos do pior castigo. Esse amor do diretor por sua criação já até gerou muita controvérsia. Muitos acham que Zombie fez uma glorificação da violência. Mas já haviam dito algo parecido quando Coppola fez o seu O PODEROSO CHEFÃO ou Peckinpah fez MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA.

REJEITADOS PELO DIABO começa mostrando vários carros de polícia cercando a casa da família de psicopatas. Durante o cerco, um membro deles é baleado e a matriarca é presa. Foge o casal de irmãos, que contatam por telefone o pai, o Capitão Spaulding, um sujeito que se pinta de palhaço. Na casa, álbuns de fotografia das vítimas são encontrados. O xerife encarregado das investigações leva para o lado pessoal a busca pelos bandidos, já que eles chegaram a matar o seu pai. Enquanto isso, a família, mais unida do que nunca, procura um lugar para escapar da polícia e imprimir um pouco mais de horror e matança pelo caminho.

Alguns comentários soltos sobre o filme:

1) Sheri Moon Zombie continua linda, gostosa e malvada, com aqueles jeans rasgados. 2) A trilha sonora é maravilhosa, repleta de rock sulista dos anos 70 (Lynyrd Skynyrd, Allman Brothers, entre outros). 3) A utilização da trilha ao longo do filme é excepcional, especialmente em duas cenas do terceiro ato, quando os tiros e os gritos são substituídos pela música, pela câmera lenta e pelo congelamento da imagem. 4) Há, no filme, a participação de Michael Berryman, o psicopata monstrengo do clássico QUADRILHA DE SÁDICOS, e de Ken Foree, de O DESPERTAR DOS MORTOS. 5) Tem um personagem interessante no filme: um sujeito que é fã de Grouxo Marx e de cinema em geral. Sua participação é meio bizarra dentro da trama. Interessante a discussão dele com o xerife, fã ardoroso de Elvis Presley. 6) O filme até que evita mostrar cenas de violência gráfica para uma produção do gênero. 7) Uma pena que esse filme não tenha sido lançado nos cinemas brasileiros e ido direto para o mercado de vídeo. 8) Com REJEITADOS PELO DIABO, Rob Zombie entra para a seleta lista de mestres do cinema de horror. E com louvor.