sábado, setembro 26, 2026

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES (Wuthering Heights)

 
Desde que vimos a versão de Emerald Fennell (2026) de O Morro dos Ventos Uivantes, de que gostamos muito, aliás, tenho buscado ver com a Giselle outras versões de adaptações do clássico romance de Emily Brontë para o cinema. Eu já tinha visto a versão de William Wyler (1939), que gostaria de rever, e a de Andrea Arnold (2011), de que gostei, mas que tenho pouca lembrança. Vendo esta adaptação de 1992 de Peter Kosminsky, estrelada por Juliette Binoche e Ralph Finnes, só valorizamos ainda mais o trabalho ousado e bem desenvolvido de Fennell. Tanto formalmente quanto no quanto a tensão sexual e a paixão dos protagonistas parece muito mais desenvolvida.

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES de Kosminsky, ao tentar contar a história do romance incluindo a trama dos filhos de Heathcliff e Catherine numa duração inferior a duas horas, faz com que tudo pareça muito atropelado, como se tivesse jogado um monte de cenas na sala de montagem, e deixa de fora o coração da trama, que é o sentimento complexo entre os dois heróis, a paixão que não apenas transcende o plano físico, mas que, principalmente nesta versão, ganha um ar de maldição, de filme de horror. Até sei que há versões cinematográficas classificadas como terror, inclusive, que exploram muito mais os aspectos góticos e espirituais da trama do que este aqui, que eu diria que opta por enfatizar a personalidade mais sombria e perversa de Heathcliff.

Tanto Binoche quanto Fiennes são grandes atores, embora naquela época ainda não tenha mostrado o seu ápice, e por isso não diria que a falha do filme está nem mesmo na escolha deles para viver os personagens. Fiennes está melhor que Binoche, combina mais com o personagem. E na segunda parte da trama o ator é que parece segurar mais as pontas, mesmo quando parece não haver mais esperança para o filme. Uma vez que ele já assume seu aspecto vilanesco, só podemos aceitar, embora até para um vilão o resultado não é positivo, pois o personagem deveria ter mais tons de cinza.

Na trama, Catherine e Heathcliff são como dois irmãos, sendo ele uma espécie de cigano trazido ainda criança pelo patriarca para crescer com seus filhos na propriedade da família. Acontece que os jovens têm uma relação muito próxima. Nesta versão, a união dos dois não chega a ser bem trabalhada e por isso quando o filme mostra Catherine casada e Heathcliff buscando sua vingança, tudo parece muito solto, errado, frio. O sentimento deles parece inexistir, mesmo quando se usa trechos do próprio romance na boca dos personagens. Não deixa de ser interessante para quem quer ver adaptações da obra literária, mas me decepcionei mesmo sem esperar grande coisa.

+ TRÊS FILMES

MILK & SERIAL

É natural ficarmos interessados na obra de um diretor quando um de seus filmes nos chama muito a atenção. Curry Barker (junto com Kane Parsons, de BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR) é o jovem cineasta-sensação do momento, graças ao imenso sucesso de OBSESSÃO (2025). Saber que ele tem outros trabalhos, não deixa de ser empolgante, sendo que um deles é este pequeno longa de pouco mais de uma hora lançado diretamente no YouTube. Barker já vinha de uma carreira de vários curta-metragens elogiados quando fez este filme perverso sobre um grupo de amigos que têm um canal de pegadinhas bem pesadas. Acontece que um desses amigos, o Milk do título, vivido pelo próprio Barker, é um serial killer. E talvez dizer isto seja um spoiler, mas há outras tantas surpresas ao longo do filme que o tornam bem particular. Tem essa coisa da câmera sempre ligada dos personagens que é muito conveniente e que é muito comum desses found footages. Mas Barker fez um found footage de terror quando a moda já havia passado e soube fazer algo fresco, novo. Há pelo menos uns três momentos de MILK & SERIAL (2024) que são bem impactantes e cruéis e muito coerentes com o que o realizador faria em OBSESSÃO, unido terror com humor. Todos os atores, excetuando um, não são profissionais, o que barateou os custos dessa produção, filmada apenas nos fins de semana.

HOKUM – O PESADELO DA BRUXA (Hokum)

Acabei perdendo HOKUM – O PESADELO DA BRUXA (2026) por causa de outro pesadelo muito pior que o das bruxas: o das cópias dubladas. Ver em casa não é a mesma coisa, e ainda acabo vendo “em fascículos”, mas é o que tem. Além do mais, não faz muito tempo que vi o filme anterior de Damian McCarthy, ODDITY – OBJETOS OBSCUROS (2024), em casa mesmo (esse não chegou a ser lançado nos cinemas brasileiros), e gostei bastante. Inclusive, por causa de ODDITY, minha expectativa por HOKUM era maior. Diferente do anterior, que prende a atenção desde o início, com personagens também fascinantes e bem desenvolvidos numa trama bastante sinistra, o novo filme tem um protagonista tão antipático quanto sem carisma (Adam Scott), que se vê enredado numa trama envolvendo uma suposta maldição de uma bruxa que habita o quarto de hóspedes de um hotel. O filme fica interessante mesmo lá pelo final, o que já nos deixa um tanto impacientes, mas pelo menos há uma redenção no final. Falo do filme, embora isso possa ser dito sobre o protagonista também.

FAÇA ELA VOLTAR (Bring Her Back)

Acho que o cinema de horror é talvez o gênero mais esponjoso no sentido de ser capaz de apreender, ainda que indiretamente, o sentimento do mundo. Não creio que seja uma coincidência FAÇA ELA VOLTAR (2025) ser um filme tão amargo, tão desesperançado, tanto quanto outros do mesmo ano, como A MULHER NO JARDIM, de Jaume Collet-Serra, e A HORA DO MAL, de Zach Gregger. (E cá pra nós, este ano de 2025 está muito estranho e pesado.) Os irmãos Danny e Michael Philippou saem de um registro mais próximo do cômico de FALE COMIGO (2022) e partem para algo muito mais sombrio. Sem falar no quanto é um filme-porrada. Não apenas metaforicamente falando: as cenas de pancada, de violência, são tão brutais que quase sentimos em nosso corpo também. Na trama, dois irmãos ainda menores são levados, após a morte do pai, para adoção. Quem os adota é uma mulher que mantém uma criança muito estranha dentro de uma casa caótica. E essa mulher é vivida por Sally Hawkins, muito lembrada por um papel de alguém excessivamente alegre (SIMPLESMENTE FELIZ, de Mike Leigh). Quanto aos dois irmãos, a jovem é cega e o irmão mais velho é protetor e está a poucos meses de atingir a maioridade e entrar com a guarda da irmã. Mas dentro da casa da nova "mãe" o clima de perturbação é crescente e o filme mais à frente não vai economizar em cenas ainda mais brutais que as do longa anterior da dupla. Isso, aliado ao fator sobrenatural, faz de FAÇA ELA VOLTAR um dos mais impressionantes exemplares do gênero dos últimos anos. Recomendo ver o filme sabendo o menos possível. Detalhe digno de nota: a trilha sonora (de Cornel Wilczek, o mesmo de JUNTOS) dá o tom de tragédia e faz com que uma personagem tão perturbadora e a grande vilã do filme ganhe algo de humano e de queda para os infernos da alma.

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