terça-feira, janeiro 27, 2015

TRÊS INDICADOS AO OSCAR DE MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA



A falta de tempo e de inspiração não me permitirá escrever com mais propriedade sobre esses três títulos indicados ao Oscar na categoria de melhor filme estrangeiro, vistos recentemente. Não que não sejam bons e não tenham o seu valor e sua representatividade, mas acabei me decepcionando com LEVIATÃ (2014), achei IDA (2013) bem bonito mas faltou algo para me conquistar totalmente, e TIMBUKTU (2014) é aquele tipo de filme que se fosse feito em um país rico seria visto como uma obra ruim até, do ponto de vista da dramaturgia, principalmente. No fim, meu favorito à categoria segue sendo RELATOS SELVAGENS.

LEVIATÃ (Leviafan)

É bom ver a Rússia dar a cara a bater quando todo mundo já bate nela nos filmes. De inimigo número um dos Estados Unidos e do bloco capitalista nos tempos da União Soviética, o país acabou sendo visto nos filmes um antro de corrupção e decadência. E é exatamente a corrupção e a decadência que Andrey Zviaguintsev se propõe a mostrar em LEVIATÃ. Mas embora o pano de fundo deixe de ser pano de fundo e se torne a própria ameaça, o filme é sobre três pessoas, em especial: o sujeito que não quer vender a sua casa por uma ninharia para o prefeito corrupto da cidade, a sua esposa que vive insatisfeita naquele lugar e o advogado amigo, que ele contrata para defender os seus interesses, mas que acaba por traí-lo de alguma maneira. O filme merece ser conferido na telona. Há muitos planos gerais, valorizando a paisagem desolada daquele litoral, que combina com a melancolia e com o sentimento de impotência que fica no espectador ao final da sessão.

IDA 

O problema de IDA é ter sido tão louvado mundo afora e chegar aos cinemas com uma expectativa que pode não ser correspondida. E é isso que muita gente tem feito: reclamado de que o filme de Pawel Pawlikowski não é tudo isso que dizem. Mas, na verdade, trata-se de um trabalho aparentemente simples mas belíssimo. O aspecto formal é tão importante quanto a história de Ida, a moça órfã que cresceu num convento e descobriu que é judia e quer saber mais sobre seus pais desaparecidos durante a Segunda Guerra Mundial. O que mais chama a atenção na fotografia em preto e branco e na proporção 1,33:1 é o modo como o diretor deixa o espaço de cima tão amplo, como se os personagens não tivessem espaço para viver na terra – várias vezes seus rostos são cortados – enquanto o céu é proporcionalmente imenso. Daria para relacionar com a ausência de Deus, como talvez fosse querer dizer a tia da moça, que é quem mostra a ela, pela primeira vez, o tentador mundo fora dos muros do convento. IDA é cheio de sequências delicadamente belas, especialmente em seus momentos finais.

TIMBUKTU

O inferno é na Terra. Dá para pensar isso quando vemos o grau de estupidez e ignorância que os fundamentalistas islâmicos tratam a vida e as pessoas. TIMBUKTU, de Abderrahmane Sissako, faz questão de mostrar coisas tão absurdas quanto ter que fazer um homem usar uma calça com a boca perto do joelho ou proibir jogar futebol ou ouvir música. Nem falo dos apedrejamentos, pois isso infelizmente é algo que ainda persiste em uma cultura que ficou parada no tempo. Mas que persiste mais pela maldade humana do que por alguma convicção religiosa. Sissako também procura mostrar a beleza em meio àquele deserto, representado principalmente pelo pastor de bois, sua esposa e sua filha, que vivem em uma tenda no deserto. A trama múltipla acaba por se afunilar nele, até chegar ao ponto em que vemos que o lado meio O SOM AO REDOR do filme, que pluraliza os personagens e traz tensão para a história, é deixado de lado diante do julgamento daquele homem. Há uma simplicidade na caracterização das cenas e o momento em que o pastor mata o pescador não parece convincente, embora seja bem fotografada. O despojamento combina com a falta de vida naquele ambiente em que a música é proibida, onde viver é proibido.

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