sexta-feira, janeiro 30, 2015

BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (Birdman)



Interessante como Alejandro González Iñárritu foi aclamado mundialmente com por sua estreia com AMORES BRUTOS (2000), mas aos poucos foi se tornando um saco de pancadas por parte da crítica internacional, até por repetir estruturas nos dois filmes seguintes, feitos em parceria com o roteirista Guillermo Arriaga. Vem conquistando novo prestígio atualmente justamente em um filme que lida com metalinguagens relativas à Hollywood e ao papel da crítica. Até há quem veja o novo trabalho como uma tentativa do diretor de se esquivar de críticas, tanto pela história de crise por que passa o personagem de Michael Keaton quanto pela presença de uma implacável crítica de teatro, vivida por Lindsay Duncan.

BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) (2014) tem algumas sacadas geniais, como a própria presença de Michael Keaton no papel de um ator decadente que um dia foi famoso pelo papel de um super-herói de revista em quadrinhos, mas que depois do terceiro filme da franquia recusou repetir o papel que o tornou famoso mundialmente. E engraçado que o filme em nenhum instante faz questão de esconder o passado de Batman de Keaton, inclusive com uma voz grave que fala com o personagem, a personificação do herói Birdman. Interessante também os supostos poderes que Riggan, seu personagem, possui.

Outro aspecto fundamental para que BIRDMAN passe a ser uma experiência cinematográfica especial é o fato de ele ser narrado todo em um único plano-sequência (ainda que falso). Isso acaba causando um pouco de vertigem, mas é interessante, bem como a trilha sonora, que em sua maioria é apenas um solo de bateria.

Além de filme de diretor, BIRDMAN é também filme de ator. Não somente por se passar, em sua maior parte, dentro de um teatro, mas porque todos os atores no filme estão ótimos. Desde Keaton, passando por Emma Stone, no papel de sua filha, Zach Galifianakis, como seu agente e advogado, Naomi Watts e Andrea Riseborough, como atrizes da peça, Amy Ryan como a ex-esposa de Riggan, e finalmente Edward Norton, como o ator cheio de ego e presença que deixa Riggan desconfortável. Porém, mesmo com tanta gente boa desempenhando tão bem seus papéis, o filme é mesmo de Keaton. Representa o avivamento de sua carreira e pode ser encarado como o papel de sua vida.

Curioso também como BIRDMAN discute a relação Hollywood como veículo escapista barato versus teatro de prestígio em Nova York, ao mesmo tempo em que também nos convida a entrar na mente perturbada de Riggan, cheio de problemas relacionados tanto à carreira quanto à sua família. Destaque para uma sequência em que a própria filha mostra desprezo pelo que ele representa, em interpretação exaltada de Emma Stone.

Aliás, todos os personagens estão acima do tom, ainda que se perceba que isso seja uma escolha deliberada do diretor, lembrando, inclusive, certos trabalhos de Cassavetes, nesse sentido (ASSIM FALOU O AMOR e UMA MULHER SOB INFLUÊNCIA, por exemplo). Essa questão do overacting também chega a ser discutida durante as cenas de ensaio da peça, inclusive. Há quem desgoste do filme justamente por esses excessos. Apesar de tudo que há de bom, falta ao filme algo que cause arrebatamento, dado tanto virtuosismo, crise existencial, gritaria e até efeitos especiais.

Ainda assim, não dá para negar a força do filme e a oportunidade única que é experienciá-lo. Iñárritu está de volta ao jogo e com um trabalho tão fresco quanto sua impactante estreia em longa-metragem. Desta vez, porém, o cineasta mexicano opta por um registro mais leve, longe dos dramas pesados, tão característicos de seus trabalhos anteriores, mostrando versatilidade e capacidade de se reinventar.

BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA) concorre ao Oscar nas categorias de melhor filme, direção, ator (Keaton), ator coadjuvante (Norton), atriz coadjuvante (Stone), roteiro original, fotografia, mixagem de som e edição de som. Depois de ter saído vencedor nas premiações do PGA (sindicado dos produtores), no SAG (sindicato dos atores) e no Globo de Ouro, sua cotação para os prêmios da Academia aumentou bastante.

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