segunda-feira, novembro 30, 2009

A TRILHA (A Perfect Getaway)



Já existe uma boa tradição no cinema de enganar o espectador através da trama. Os exemplos mais lembrados hoje em dia são os de dois filmes de horror mais ou menos recentes: O SEXTO SENTIDO, de M. Night Shyamalan, e OS OUTROS, de Alejandro Amenábar. Mas não foram estes dois filmes que me vieram à mente ao final de A TRILHA (2009). E sim um pouco badalado trabalho de Alfred Hitchcock chamado PAVOR NOS BASTIDORES, onde o público se revoltou pois havia ali um flashback falso. Não chega a ser exatamente o caso de A TRILHA e o fato de eu estar falando isso logo nas primeiras linhas já é um indicativo de que o texto pode conter spoilers. Até porque o âmago do filme está justamente neste pequeno e importante detalhe, a revelação final.

Independente de seu final, que ainda não sei se está sendo bem aceito pela audiência, mas que definitivamente pode conter alguns furos, um dos maiores méritos de A TRILHA é passar para o espectador o clima de paranoia. Que se instaura desde o momento em que o casal de turistas vivido por Steve Zahn e Milla Jovovich hesita em oferecer carona a um casal. Antes disso, vemos um jornal no chão informando que há um assassino à solta, que já fez vítimas de um casal de turistas no lugar, uma das paradisíacas ilhas do arquipélago do Havaí. Aliás, esse é mais um dos chamarizes do filme: poder ver aquelas paisagens lindas na telona. É mais um truque para desviar a atenção do espectador, que vai ficar na dúvida sobre quem é o casal de assassinos. Os mais prováveis suspeitos são Nick (Timothy Olyphant, o vilão de DURO DE MATAR 4.0) e Gina (Kiele Sanchez, a moça que "foi pro saco" junto com Rodrigo Santoro na terceira temporada de LOST).

A TRILHA também brinca com a própria estrutura dos filmes de suspense e terror, quando adiciona o fato de o personagem de Steve Zahn ser supostamente um roteirista de Hollywood. Há também uma discussão em torno das chamadas pistas falsas. Que em A TRILHA não poderiam faltar. Difícil vai ser é convencer a audiência do final. Que de certa forma pode até ser interessante, levando em consideração que o filme se voltaria contra o próprio espectador, que fica o tempo inteiro vendo tudo pelo ponto de vista do casal Zahn/Jovovich. Mas diferente de um O SEXTO SENTIDO, duvido muito que A TRILHA consiga se segurar numa revisão, sem que seus furos fiquem todos à mostra. O filme foi escrito e dirigido por David Twohy, o homem por trás do horrível A BATALHA DE RIDDICK (2004).

sexta-feira, novembro 27, 2009

QUARTO DE ESPERA



E a principal notícia da semana para aqueles que têm o hábito de baixar filmes foi uma má notícia. O mininova, o maior site aberto de torrents do mundo praticamente fechou as portas. E isso acaba quebrando as pernas de fóruns de torrents, como o Making Off, por exemplo, cuja grande parte dos filmes de seu acervo é direcionada para o mininova. Tudo bem que a gente sabe que quando se fala em internet, é praticamente impossível voltar atrás em algo que já avançou tanto, mas acho que vai demorar ainda um tempinho para que outros sites surjam para substituí-lo. Mas surgirão. Isto é fato.

Ontem, cansado e com dores no corpo, ao chegar da escola, não tinha condições físicas de ver um longa-metragem, por menor que fosse. A saída foi ver um curta antes de dormir. Escolhi este QUARTO DE ESPERA (2009), realizado por um grupo de estudantes da PUC do Rio Grande do Sul. Os diretores deste curta de 12 minutos são Bruno Carboni e Davi Pretto e não é a primeira parceria da dupla, como pode ser visto no site da Tokyo Filmes.

Fica difícil pra mim falar de algo que eu nem sei direito se gostei ou mesmo entendi. A principal relação que eu fiz entre o curta e um longa estrangeiro foi com O EXÉRCITO DO EXTERMÍNIO, de George Romero, mas ainda assim a semelhança está apenas no uso da máscara de gás e no clima pessimista. Uma das coisas que mais chama a atenção é a respiração ofegante, tipo Darth Vader, do jovem com a máscara. Tão incômodo quanto ver uma pessoa com crise de asma ou respirando pesado por causa de um problema cardíaco. O rapaz, quando não está em seu quarto, vai para a rua, agir com violência com as pessoas. Há outros detalhes que devem ser melhor captados numa segunda ou terceira revisão.

Aliás, esse é um dos problemas dos curtas. Em geral, devido ao pouco tempo que se tem, tudo é muito condensado. E coisas importantes que o diretor quer passar, passa pela gente num piscar de olhos. A vantagem está também na duração, pois é bem mais fácil rever um curta do que um longa. Mesmo assim, como toda obra de arte, o curta adquire vida própria quando visto pelas outras pessoas. Que podem ver algo que sequer passou pela mente de seu criador.

QUARTO DE ESPERA está tendo uma boa repercussão, tendo aberto para o longa A ESTRADA, de John Hillcoat, em algumas sessões, além de estar passando por diversos festivais nacionais e um internacional.

Agradecimentos especiais a Davi Pinheiro pela cópia.

quinta-feira, novembro 26, 2009

THE RULES OF FILM NOIR



Bom documentário da BBC que lida com um dos momentos mais empolgantes do cinema mundial, o ciclo do "film noir", termo cunhado pelos franceses para os filmes americanos produzidos nos anos 40 e 50 que se caracterizavam pelo uso de sombras e por uma atmosfera de mistério e perigo. Como Matthew Sweet, o apresentador do documentário, diz, não é preciso ver muitos filmes dessa leva para perceber suas principais marcas. E vendo o doc foi que eu percebi o quanto eu estou em débito com esse cinema que tanto me atrai e me fascina. Uma enormidade de pérolas produzidas nessa época ainda estão inéditas para mim. Dentre os filmes citados em THE RULES OF FILM NOIR (2009) que eu ainda não vi estão: FUGA DO PASSADO (1947), de Jacques Tourneur; PACTO DE SANGUE (1944), de Billy Wilder; O DESTINO BATE À SUA PORTA (1946), de Tay Garnett; ATÉ A VISTA, QUERIDA (1944), de Edward Dmytryck; OS ASSASSINOS (1946), de Robert Siodmak; CINZAS QUE QUEIMAM (1952), de Nicholas Ray; MORTALMENTE PERIGOSA (1950) e O IMPÉRIO DO CRIME (1955), ambos de Joseph H. Lewis; O HOMEM DOS OLHOS ESBUGALHADOS (1940), de Boris Ingster; e MOEDA FALSA (1947), de Anthony Mann.

Uma relação e tanto de ausências para quem se autointitula "cinéfilo". Alguns títulos, como o de Ingster, por exemplo, confesso nunca ter ouvido falar antes. E acho que esse é mesmo um dos menos lembrados. Foi incluído no doc mais pela associação fácil com o expressionismo alemão. Vários deles, já tenho cópias à minha disposição, esperando o momento certo para assistir. E espero que seja logo, já que este documentário reacendeu em mim o interesse pelo gênero. Dentre os que vi, o filme destaca: À BEIRA DO ABISMO (1946), de Howard Hawks; O FALCÃO MALTÊS (1941), de John Huston; A EMBRIAGUEZ DO SUCESSO (1957), de Alexander Mackendrick; OS CORRUPTOS (1953), de Fritz Lang; QUANDO FALA O CORAÇÃO (1945), de Alfred Hitchcock; NO SILÊNCIO DA NOITE (1950), de Nicholas Ray; CREPÚSCULO DOS DEUSES (1950), de Billy Wilder; A DAMA DE SHANGAI (1947) e A MARCA DA MALDADE (1958), ambos de Orson Welles; FORÇA DO MAL (1948), de Abraham Polonsky; GILDA (1946), de Charles Vidor; e o meu favorito de todos A MORTE NUM BEIJO (1955), de Robert Aldrich. Doze vistos, dez não vistos dentre os citados no programa.

O documentário trata de buscar as raízes do surgimento do film noir. A resposta está principalmente em dois eventos importantes: o primeiro deles, a Segunda Guerra Mundial, que mudou o pensamento da humanidade em relação à vida; e o segundo, que tem relação estreita com o primeiro, que é a ida de vários cineastas, atores e técnicos europeus para Hollywood. Como o documentário destaca, até o músico mais importante do período, Miklós Rózsa, veio da Europa. As tramas se passavam nos Estados Unidos, mas o espírito era europeu, derivado principalmente do jogo de sombras do expressionismo alemão.

Uma das coisas mais interessantes do documentário, além do prazer de ver ou rever cenas de filmes queridos, é a brincadeira em torno das chamadas regras do film noir, tratadas com bom humor. Alguns exemplos: "Use no fiction but pulp fiction" ou "Make it any colour as long as it's black". O documentário também relembra momentos fortes de alguns filmes, como a cruel sequência do café quente em OS CORRUPTOS; a sequência de abertura de A MORTE NUM BEIJO; ou a grande caracterização de Humphrey Bogart em NO SILÊNCIO DA NOITE. Aliás, não existe outro ator que tenha combinado tão bem com o gênero quanto Bogart. Enquanto temos uma excelente galeria de femme fatales que se rivalizariam entre si, sem haver um grande destaque unânime, Bogart é o rei dos noirs. No entanto, nos filmes, as mulheres, fatais, em geral loiras, são as catalizadoras dos problemas, as que levam os protagonistas a um destino trágico. É um mundo amargo e pessimista, mas é também um mundo atraente e sofisticado.

quarta-feira, novembro 25, 2009

DESEJO E OBSESSÃO (Trouble Every Day)



Enquanto o público de São Paulo teve oportunidade de ver no cinema 35 DOSES DE RUM (2008), um dos mais recentes trabalhos de Claire Denis, só agora tive o meu primeiro contato com o cinema da diretora. E foi justamente com a sua obra mais conhecida: DESEJO E OBSESSÃO (2001). Que é um desses filmes que atraem um público mais amplo - tanto apreciadores de dramas exibidos no circuito alternativo, quanto fãs do cinema de gênero.

Denis tece uma teia interessante que envolve vários personagens, mas cujo foco principal são apenas dois: uma moça que tem um desejo incontrolável por carne humana (Béatrice Dalle) e um homem que também sofre com um desejo sexual irrefreável (Vincent Galo), um americano que passa a lua-de-mel na França. Seu principal objetivo em terras estrangeiras, no entanto, é encontrar a tal moça e o seu marido (Alex Descas), o cientista que cuida dela e que esconde os seus crimes e limpa o seu corpo, sempre banhado de sangue quando ela faz mais uma vítima.

O andamento do filme é lento, dando a impressão de que a duração não será suficiente para o desenvolvimento da trama e dos vários personagens. Na verdade, os únicos personagens mais ou menos aprofundados são os dois protagonistas citados. Ainda assim, eles são mostrados com uma aura de mistério, até pra manter o filme instigante.

Confesso que esperava mais de DESEJO E OBSESSÃO, mas o filme definitivamente tem uma das cenas de horror mais impressionantes que eu já vi. Refiro-me à cena que mostra o ataque lento e cheio de tesão da canibal, ou seja lá qual for a melhor definição para ela. (Aliás, a sequência é incrivelemnte excitante ou eu sou um psicopata em potencial?) O interessante do filme é justamente esse distanciamento dos rótulos. A título de comparação, o único filme de horror que se aproxima do trabalho de Denis em diversos aspectos é ENRAIVECIDA - NA FÚRIA DO SEXO, de David Cronenberg.

terça-feira, novembro 24, 2009

A BELA JUNIE (La Belle Personne)



Com quase um ano de diferença em relação à estreia em São Paulo, chega finalmente aos cinemas de Fortaleza A BELA JUNIE (2008), de Christophe Honoré, cineasta que eu nem dava muita bola, até ver o maravilhoso CANÇÕES DE AMOR (2007) e passar a ficar interessado por todos os seus trabalhos. Com A BELA JUNIE não se repetiu em mim o mesmo impacto emocional do citado musical, mas me deliciei com a ciranda de paixões mostrada no filme. A jovem do título nacional é uma moça que mal chega na escola e já arrebata os corações dos rapazes. E do professor também, vivido pelo ator-fetiche de Honoré, Louis Garrel. Ele é um professor de italiano que depois da paixão imediata que passa a nutrir pela jovem já rompe os relacionamentos que tem com uma aluna e com outra professora, mais velha que ele. Tudo para limpar terreno para Junie, vivida por Léa Seydoux - que esteve num papel pequeno em BASTARDOS INGLÓRIOS, como uma das filhas do fazendeiro no sensacional primeiro capítulo do filme de Tarantino.

Uma das coisas que me chamou atenção em A BELA JUNIE, mas que já transparecia um pouco nos dois longas anteriores de Honoré - EM PARIS (2006) e CANÇÕES DE AMOR - é o aspecto anacrônico. Por instantes, tive a impressão de estar vendo um filme dos anos 60. Discos de vinil, um velho aparelho de fita de áudio e a aparência de filmes da Nouvelle Vague nas ruas, nas roupas e nos cabelos contrastam com os telefones celulares. E curiosamente no colégio se aprende italiano, inglês e até russo. Será que isso é comum no sistema de ensino privado francês? Se for, deve ser um dos melhores do mundo.

Mais o que mais me chama a atenção nos franceses, principalmente desde que eu vi UM CONTO DE NATAL, de Arnaud Desplechin, é a maneira meio fria e meio trágica com que eles lidam com as paixões e as tragédias. Do mesmo modo que alguém pode se suicidar por causa de um sentimento de rejeição, outros parecem lidar com o ocorrido como se fosse apenas algo ruim que deva ser simplesmente esquecido, deixado de lado.

O filme estabelece uma ligação forte tanto com EM PARIS quanto com CANÇÕES DE AMOR, até pela utilização de uma cena musical, cantada por Grégoire Leprince-Ringuet, numa espécie de videoclipe incluído no filme, a exemplo do que também acontece na sequência final de EM PARIS. Outra característica que liga A BELA JUNIE com os outros filmes, inclusive MA MÈRE (2004), é uma abordagem livre de restrições com o amor entre pessoas do mesmo sexo. Não ocorre de maneira tão explícita quanto em CANÇÕES DE AMOR, mas há uma subtrama de personagens coadjuvantes que lidam com essa questão.

A sensação de familiaridade se instala no espectador que tem acompanhado as obras de Honoré até mesmo nas participações especiais - no caso, de Chiara Mastroianni e Clotilde Hesme. Essa sensação de familiaridade, porém, pode parecer um incômodo dèja vu para quem não aprecia os filmes do diretor. E não são poucos os que não vêem com bons olhos os seus filmes, que vêem Honoré (bem como Desplechin) como os grandes vilões do cinema francês contemporâneo. Eu sigo gostando de seus fimes, ainda que nem sempre entre neles "com os dois pés". Mas no final, acho tudo muito bonito e satisfatório. Encanto-me com a maneira dramática com que ele lida com as paixões ou a dor extrema.

A BELA JUNIE foi adaptado da mesma fonte de A CARTA, de Manoel de Oliveira. Não vi o filme português, mas no filme de Honoré a tal carta não é bem o centro da trama. O que mais importa é o amor do professor de italiano por Junie, o jeito enigmático da moça, suas atitudes inesperadas, seu medo de amar e sua beleza natural, que é símbolo do que há de mais belo e perigoso na juventude.

segunda-feira, novembro 23, 2009

NO MEU LUGAR



Essa promoção que fizeram para o cinema nacional - inteira 6 reais, meia 3 - não é muito justa. Afinal, os cinemas de shopping estão entupidos com LUA NOVA e 2012, com filas que são verdadeiras muralhas para quem deseja outra opção. E cidades como Fortaleza, por exemplo, não têm tantos filmes brasileiros sendo exibidos. Tirando NO MEU LUGAR (2009), o outro filme brasileiro disponível é BESOURO. Quer dizer, a oportunidade que eles dão para ver filmes nacionais com preço mais barato acaba valendo de verdade apenas para São Paulo e Rio de Janeiro, que ainda têm uma boa diversidade em sua programação. Mesmo assim, é bom saber que Fortaleza foi incluída no circuito da promoção. Outra boa surpresa foi o fato de o filme de Eduardo Valente ter chegado aqui com uma janela estreita de diferença em relação ao eixo Rio-São Paulo para uma cópia em película. Que pena também que o filme não deve durar mais de uma semana em cartaz. A exemplo do que aconteceu com HOTEL ATLÂNTICO, de Suzana Amaral, que só durou uma semana aqui. O legal desses dois filmes é notar que são trabalhos que não fazem concessões ao mercado. Seus autores fizeram o que quiseram e não ofereceram um produto mastigado para as plateias. Mas nem sempre isso é bom sinal, que o digam as pessoas que saíram no meio da sessão, por não estarem entendendo nada da trama cheia de idas e vindas no tempo. E realmente NO MEU LUGAR exige mais atividade mental do espectador, que aos poucos vai decifrando o quebra-cabeças espaço-temporal.

O longa-metragem de estreia de Eduardo Valente foi aguardado com certa ansiedade pelos vários cinéfilos que acompanharam a carreira do diretor. O sucesso de seus curtas, com direito a premiação em Cannes, foi o principal responsável. Ainda assim, a falta de um elenco de rostos conhecidos e de uma trama um pouco mais palatável acaba não atraindo um público maior, que já não é frequentador do circuito alternativo. Também senti falta, no filme, de personagens com quem a gente se importasse. Algumas das tramas são melhores que outras. A trama do casal que ficou com a casa onde aconteceu o tiroteio, por exemplo, não é nada atraente. Sempre que o filme enfocava essa parte da história, eu ficava um pouco aborrecido. Por outro lado, as cenas envolvendo o policial decadente e sua filha e a do rapaz do morro namorando a empregada doméstica são mais interessantes. Inclusive, para contribuir com a estranheza do filme, o relacionamento do policial com a filha deixa sempre espaço para uma possível relação incestuosa, a começar pelo fato de eles dormirem na mesma cama.

O prólogo do filme é o seu coração, talvez o que haja de melhor, é o momento-chave da trama, fato que já se torna evidente nos primeiros minutos do filme. E isso se mostra ainda mais explícito quando NO MEU LUGAR se aproxima do final. O filme se inicia com a chegada de dois policiais a um local de crime. A câmera, vista do lado de fora da casa, nos fornece apenas uma visão nebulosa do que está acontecendo. Sabemos apenas que há um sujeito com uma arma na mão, uma pessoa ameaçada, uma moça gritando, nervosa, e uma dupla de policiais tentando conter a ação do criminoso. Já a partir desse momento, Valente deixa claro, como um Bresson, a intenção de esconder mais do que mostrar, de deixar para o espectador a tarefa de estimular a imaginação, de raciocionar. Daí a comparação que o filme tem recebido com os trabalhos de Iñarritú e Tarantino, embora seja bem menos pop, talvez mais próximo do cinema produzido no Oriente. Mas as reais influências de NO MEU LUGAR, ainda estou para saber.

sábado, novembro 21, 2009

FEAR ITSELF - ECHOES



A semana foi bem hardcore. Muito trabalho, muita tensão e negociações mais sérias para resolver na vida extraprofissional. Foi um período em que eu também pude sentir o apoio de pessoas especiais, como de minha querida irmã Adaila, e de pessoas que estão distantes mas que demonstraram se importar comigo, ainda que através da internet. E é engraçado como justamente em momentos de crise é que muita coisa se resolve. Basta ter um pouco de senso de objetividade e botar a cabeça no lugar. E foi nesse momento tão cheio de afazeres que eu consegui resolver algo que estava me incomodando há um tempão, que era trocar o carro, que estava dando muitos problemas e despesas com mecânico quase todo mês. O post era para ter saído ontem, mas como essa sexta-feira foi o Dia D da nova aquisição, o tempo foi corrido mesmo. É mais um desses posts meio tapa-buracos, sobre um episódio de FEAR ITSELF.

O que acaba me interessando em antologias como MASTERS OF HORROR e FEAR ITSELF são os diretores. Alguns nomes são familiares, mas custo a lembrar que filme eles fizeram. Rupert Wainwright é um desses nomes. Seu maior sucesso foi STIGMATA (1999). O restante de sua filmografia é constituído de filmes desconhecidos, trabalhos para a televisão, videoclipes e de um remake muito mal recebido pela crítica e pelos fãs de A BRUMA ASSASSINA, de John Carpenter - que aqui se chamou A NÉVOA (2005). (Não confundir com o ótimo O NEVOEIRO, de Frank Darabont.)

ECHOES (2009) é mais um exemplar ruim dessa série que foi renegada pela própria emissora americana. Talvez seja o pior dos treze episódios, pois não tem nem mesmo humor, como SOMETHING WITH BITE, por exemplo. Na trama, sujeito compra apartamento e passa a ter visões. Através da hipnose, seu terapeuta faz com que ele descubra quem são essas pessoas que ele vê. E ele passa a acreditar que é a reencarnação de um sujeito violento que viveu nos anos 20. Sua atual namorada seria também a reencarnação da namorada do sujeito. É uma das histórias mais bobas que eu já vi e só um cineasta muito talentoso conseguiria fazer algo bom de uma trama tão ruim. Não é o caso de Rupert Wainwright, infelizmente.

quinta-feira, novembro 19, 2009

GUERRA AO TERROR (The Hurt Locker)



Que GUERRA AO TERROR (2008) é um dos melhores filmes de guerra dos últimos anos e o melhor filme sobre a Guerra do Iraque já produzido, disso não resta dúvida. Mas não seria exagero dizer que o trabalho de Kathryn Bigelow é um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos. É impressionante o grau de tensão que a diretora consegue imprimir em sua obra, fazendo com que a gente se sinta nos sapatos daqueles homens em situação de perigo extremo. E o perigo se confirma logo no surpreendente prólogo, onde vemos um grupo de soldados do exército americano tentando desarmar uma bomba com a ajuda de um robozinho teleguiado. Acontece que de vez em quando o robozinho não dá conta do serviço, ficando enganchado em alguma pedra e nessas horas alguém precisa ir lá pessoalmente. E vemos que a desconfortável vestimenta protetora nem sempre consegue salvar a pessoa do impacto de uma bomba.

O grande diferencial de GUERRA AO TERROR dos demais filmes abordando a guerra está no fato de que Bigelow a vê como uma droga. Não uma droga no sentido de que é ruim, mas na capacidade de viciar. Nesse sentido, o drama de guerra de Bigelow encontra paralelo com CAÇADORES DE EMOÇÃO (1991), outro trabalho seu que também abordava a busca por adrenalina como razão de viver. No caso de GUERRA AO TERROR, isso se torna incrivelmente doentio. Os homens se transformam em máquinas de guerra e gostam disso. A performance de Jeremy Renner como o sargento William James é impressionante. Ele é o sujeito enviado para substituir um militar morto em ação.

O filme também explora a disputa de métodos e de egos entre James e o outro sargento, vivido por Anthony Mackie. Em certo momento do filme, procurando por uma bomba dentro de um carro, ele se recusa a obedecer as ordens de seu líder, disposto a encontrar a bomba e desativá-la, custe o que custar. E essa é apenas uma dentre as várias sequências de tirar o fôlego que o filme apresenta. Quando se pensa que já foi mostrada a situação-limite, aparece outra, tão ou mais forte que a anterior. GUERRA AO TERROR ainda tem a vantagem de não ser um "filme-denúncia" e, portanto, sem prazo de validade.

Curiosamente, os nomes mais conhecidos do elenco aparecem em papéis pequenos. Além de Guy Pearce, vemos também Ralph Fiennes, David Morse e Evangeline Lilly (linda). Fiennes e Lilly foram duas surpresas para mim. Não esperava vê-los no filme. GUERRA AO TERROR foi filmado na Jordânia e as filmagens não foram exatamente tranquilas, havendo variados problemas, como o fato de um ônibus cheio de refugiados iraquianos ter virado; Jeremy Renner ter torcido o tornozelo durante uma cena; uma onda de calor de torrar os miolos ter surgido logo na primeira semana de filmagens; além de outros problemas envolvendo a atual política de segurança dos Estados Unidos e dos países do Oriente Médio.

GUERRA AO TERROR saiu direto em dvd no Brasil pela Imagem, que deve estar arrependida de não ter lançado nos cinemas, agora que o filme aparece como um dos mais cotados para o Oscar 2010.

quarta-feira, novembro 18, 2009

HOTEL ATLÂNTICO



Muito curiosa a trajetória de Suzana Amaral. Com apenas três filmes no currículo, a diretora até que tem uma obra bastante consistente e interessante. Filma como se não tivesse pressa, como se a vida fosse longa. Mas, provavelmente, se dependesse de sua vontade ela filmaria mais. Aqui no Brasil tudo é mais difícil. E levando em consideração o longo hiato entre A HORA DA ESTRELA (1985) e UMA VIDA EM SEGREDO (2001), até que ela não levou tanto tempo assim para nos apresentar o seu novo filme, HOTEL ATLÂNTICO (2009), baseado num romance de João Gilberto Noll, o mesmo autor que inspirou NUNCA FOMOS TÃO FELIZES, de Murilo Salles, e HARMADA, de Maurice Capovilla.

Foi a primeira vez que assisti um filme no cinema com legendas em inglês. É assim a cópia digital disponibilizada pela Rain, já pronta para o mercado internacional. E para quem é estudante de tradução, não deixa de ser curioso acompanhar o filme vendo as escolhas dos tradutores para os diálogos em inglês. E até que a cópia não está ruim.

HOTEL ATLÂNTICO guarda semelhança com o cinema europeu. No exterior, quando foi exibido em festivais, algumas publicações compararam o estilo e a atmofera do filme com David Lynch e Michelangelo Antonioni, mas eu senti mais influências de Pasolini e Buñuel. Nas cenas em que o protagonista se hospeda na casa do padre de uma cidadezinha é como se os dois autores se fundissem. Há o aspecto surreal e transgressor em torno da religião, que podemos ver na obra desses dois cineastas.

A morte é uma constante no filme. Julio Andrade (de CÃO SEM DONO) é o protagonista. Um ator desempregado que perambula sem rumo para diversos lugares. Não sabemos o seu nome, nem o seu rumo, nem as suas motivações. E isso é interessante. Dá ao filme um ar de pesadelo, de desorientação. Assim que ele entra no hotel do título, um corpo vítima de assassinato está sendo encaminhado para o IML. Na sequência em que ele conhece uma estrangeira no ônibus, eu estava esperando que os dois dissessem seus nomes, mas isso não ocorre.

HOTEL ATLÂNTICO é uma espécie de road movie onde, ao longo de sua trajetória, o protagonista conhece uma série de pessoas que de uma forma ou de outra trazem algo de mórbido e perturbador. Há a moça que ele conhece no ônibus (Lorena Lobato), os rapazes que lhe oferecem uma carona, o sacristão que o hospeda (Gero Camilo), a empregada doméstica que parece saída de filmes do Fellini, a filha do prefeito (Mariana Ximenes) e o enfermeiro vivido por João Miguel. Como momento mais engraçado, há as cenas em que Julio Andrade passeia pela cidade com a batina do padre morto. Já o momento mais trágico ou perturbador não dá para dizer sob risco de estragar as surpresas.

terça-feira, novembro 17, 2009

2012



Um dos segredos para se gostar de 2012 (2009), de Roland Emmerich, é encará-lo como um filme B despretensioso. Mesmo sendo uma superprodução, 2012 tem o sabor daqueles deliciosos filmes vagabundos que passavam no SBT nos anos 80. Vendo dessa forma, até dá pra relevar o final ridículo, os efeitos especiais nem sempre eficientes e que às vezes parecem bem desleixados para tanto dinheiro envolvido, os diálogos ruins e a extrema superficialidade dos personagens. Mas não dá pra esperar algo diferente de Emmerich. Principalmente levando em consideração que o seu último filme é o horrível 10.000 A.C. (2008) e que o seu melhor é O DIA DEPOIS DE AMANHÃ (2004).

Emmerich, desde antes de SOLDADO UNIVERSAL (1992) já flertava com a ficção científica, que alcançou o auge da popularidade nos anos 50, com uma explosão de disaster movies e de filmes que visualizavam um futuro negro para a humanidade com um holocausto nuclear, talvez fruto de um sentimento de culpa coletivo americano depois de eles terem bombardeado duas cidades inteiras no Japão. Hoje, as preocupações se voltaram para a questão ambiental. Mas Emmerich nem chega a explorar tanto esse filão no novo filme. Isso ele já havia explorado antes em O DIA DEPOIS DE AMANHÃ.

Desta vez, ele se aproveita de profecias maias que prevêem o fim do mundo - ou o fim do mundo como o conhecemos - para dezembro de 2012. O que importa aqui não é nem se o mundo vai ou não acabar em 2012, ainda que muita gente esteja realmente preocupada com isso; o que importa é que as pessoas gostam de ver o mundo se acabando no cinema. O que tem se mostrado em números e na prática. Não lembro de nenhum outro filme este ano que tenha atraído tantas pessoas ao cinema. Que tenha gerado filas tão grandes. O que, de certa forma, é animador para a sobrevivência do cinema em tempos de downloads de filmes e dvds piratas nos camelôs. Mesmo aqueles que não têm o hábito de ir ao cinema estão se sentindo motivados a sairem de suas casas para ver o fim do mundo sob a ótica do puro entretenimento.

E no que se refere a entreter, Emmerich se sai muito bem. Afinal, o seu filme tem duas horas e quarenta minutos de duração que passam voando. E um elenco de rostos conhecidos. O personagem mais interessante é, de longe, o de Woody Harrelson, que faz um radialista meio louco, ligado em teorias conspiratórias e que já havia descoberto o que apenas os governantes dos países mais ricos ou empresários milionários sabiam. Pode-se dizer que ele é uma espécie de alter-ego de Emmerich na sequência em que ele vê o mundo ao seu redor desabando e ele achando tudo aquilo lindo. O personagem principal, no entanto, é John Cusack, no papel de um chofer de limusine que escreveu um livro de ficção científica que praticamente ninguém leu e que é divorciado de Amanda Peet. Ele é a pessoa comum de mais fácil identificação com o público. Não é nenhum dos ricos que compraram uma vaga na nave que vai abrigar os poucos afortunados a sobreviver, nem nenhum dos cientistas ou políticos mais envolvidos com o fim iminente. E a cena em que ele foge no carro com a família enquanto as ruas vão se despedaçando é uma espécie de versão exagerada e tosca da cena de Tom Cruise e família em GUERRA DOS MUNDOS, de Steven Spielberg.

E não resta dúvida que nas mãos de um Spielberg ou de um James Cameron o filme teria resultado muito diferente. Teríamos nos preocupado com os personagens, teríamos nos emocionado com as cenas dramáticas. Do jeito que ficou, todas as cenas em que Emmerich tentou emocionar a plateia resultou em fracasso. As cenas de despedida do presidente Danny Glover com a família ou com o povo americano, por exemplo, chegam a ser ridículas em suas tentativas vãs de emocionar.

E se 2012 não tem uma cena tão antológica quanto a dos americanos procurando abrigo no México em O DIA DEPOIS DE AMANHÃ, as cenas das arcas da salvação são uma boa mostra da inventividade de Emmerich. Ainda assim, apesar de toda a expectativa e de toda a propaganda em torno, o melhor filme sobre o fim do mundo exibido no ano continua sendo o surpreendente PRESSÁGIO, de Alex Proyas.

sexta-feira, novembro 13, 2009

UMBERTO D.



Um dos filmes mais importantes da história do cinema italiano e uma das obras máximas do neorealismo, UMBERTO D. (1952) continua comovendo as plateias de todo o mundo. Dirigido por Vittorio De Sicca, que já havia mexido com as emoções de milhões com LADRÕES DE BICICLETA (1948), o filme trata da velhice, da solidão e do abandono com uma sensibilidade rara. Eu já tinha muita vontade de ver o filme e fiquei mais ainda quando vi um trecho comentado por Martin Scorsese em seu documentário sobre o cinema italiano. Na época da realização de UMBERTO D., a Itália ainda não havia se reerguido de sua desastrosa incursão na Segunda Guerra Mundial, mas estava mostrando ao mundo um cinema admirável, nascido das cinzas e cheio de beleza. E que se tornaria o melhor do mundo na década seguinte.

Uma das principais características dos primeiros filmes neorealistas era a utilização de um elenco não-profissional. Carlo Battisti, o protagonista de UMBERTO D., fez o seu primeiro e único trabalho como ator neste filme de efeito devastador. Ele interpreta um senhor aposentado morando em Roma com seu cãozinho num quarto alugado de pensão. Quando o filme começa, ele já se encontra numa situação financeira crítica, com vários meses de aluguel atrasados e com a dona do imóvel ameaçando-o de despejo. O escasso benefício que recebe não é suficiente para pagar as suas contas e ele segue vendendo coisas de que ele gosta muito, como o relógio que guardava como uma relíquia. Sua melhor amiga é a empregada de sua senhoria, que se encontra grávida de um soldado americano e que teme ser demitida assim que a patroa descobrir.

O filme segue o ancião em sua triste luta. Os momentos mais dilaceradores são a cena em que Umberto tenta deixar o seu cãozinho com outra pessoa e aquela em que ele simula viver como um mendigo. Se o filme não me fez chorar como LADRÕES DE BICICLETA talvez seja por não ter nenhuma cena tão melodramática quanto a da atitude desesperada do pai do menino perto do final. Trata-se, porém, de um filme de uma sofisticação maior, um tanto mais contido e contando com um cuidado técnico mais apurado. Afinal, com o sucesso internacional obtido com LADRÕES..., De Sicca pôde realizar um filme com mais recursos, mas com seu estilo e ética intactos. E como não se emocionar com aquele final? Se o mundo é um lugar tão difícil de viver e as pessoas e as instituições desrespeitam os idosos, o amor, ainda que seja por um cãozinho, acaba sendo suficiente para manter a vontade de continuar a luta que é viver sem dinheiro, sem família e sem amigos.

P.S.: O site Pipoca Moderna apresenta hoje uma seleção de 13 filmes de horror lançados recentemente em DVD no Brasil para ver na sexta-feira 13. Eu participo com algumas minirresenhas.

quinta-feira, novembro 12, 2009

FIM-DE-SEMANA MORTAL (Death Weekend / The House by the Lake)



Da lista "Os 20 melhores filmes de terror que você nunca viu", uma interessante pauta do site Total Film, consegui este FIM-DE-SEMANA MORTAL (1976), que curiosamente foi ripado de um velho vhs da FJ Lucas, já vindo, portanto, com as legendas em português. E para um lançamento em vhs antigo, até que a cópia está muito boa. Não está no formato .avi, mas dá pra transformar em dvd pelo ConvertXtoDvd e ver na tv como se fosse uma fita selada recém-alugada.

FIM-DE-SEMANA MORTAL é uma dessas produções baratas que acertam em cheio na construção de uma atmosfera de suspense e na capacidade de deixar o espectador grudado na poltrona até o final. O filme não perde muito tempo e, depois de apresentar o casal de protagonistas - um playboy e uma modelo - dirigindo um carro luxuoso e rumo a uma mansão perto de um lago, vemos os dois sendo incomodados por um grupo de deliquentes noutro carro. Começa a disputa de velocidade entre os dois carros. A moça, dirigindo o veículo em alta velocidade, consegue driblar os caras e no final eles ainda caem na lama. Os sujeitos, completamente putos pela humilhação, saem à procura dos dois a fim de se vingar e fazer da vida deles um inferno.

Um detalhe interessante no filme é o aspecto moral. O que é uma tendência nos filmes de horror e suspense, que costumam punir os indivíduos de mau caráter. Ou de caráter duvidoso, pelo menos. É mais ou menos como a esposa do protagonista de PACTO SINISTRO, de Hitchcock. Como ela agiu de maneira odiosa com o marido e ainda ficou flertando com uns três rapazes num parque de diversão, as pessoas passam a se importar menos com sua morte. Quase torcendo pelo assassino, nesse caso. Não chega a ser justamente o caso de FIM-DE-SEMANA MORTAL. O sujeito convida a modelo para a sua casa no lago, afastada de tudo e com direito a um espelho falso, onde ele pode ver a moça tomando banho ou tirando a roupa no outro quarto. Isso mostra um lado dele que é facilmente julgado como negativo pela audiência. Talvez inconscientemente o público simpatize com os deliquentes que invadem a mansão, por mais absurdo que isso possa parecer. O mais fácil mesmo é torcer pela moça.

Li no IMDB que o roteiro do filme já estava pronto há muito tempo, mas que as filmagens foram adiadas por causa da semelhança do enredo com o de SOB O DOMÍNIO DO MEDO, de Sam Peckinpah. Há semelhança também na temática com ANIVERSÁRIO MACABRO, de Wes Craven. O grande trunfo desses thrillers com pessoas perversas e praticando atos de violência é que são muito mais fáceis para a audiência de comprarem a história e, consequentemente, de se envolverem. É um terror bem mais próximo do que monstros ou fantasmas.

Agradecimentos ao amigo Renato Doho pela informação sobre os links.

quarta-feira, novembro 11, 2009

SCANNERS - SUA MENTE PODE DESTRUIR (Scanners)



Com a revisão de SCANNERS - SUA MENTE PODE DESTRUIR (1981), o filme cresceu. Até porque, quando estamos acompanhando mais atentamente a obra de um cineasta, tendemos a procurar os seus signos, suas tendências e obsessões. E para um verdadeiro autor como David Cronenberg isso chega a ser fascinante. Mesmo assim, posso dizer que SCANNERS continua sendo um dos filmes que menos gosto do diretor. Em certas horas me parece até um pouco infantil esse negócio de fazer a cabeça do outro explodir com o poder da mente, mas Cronenberg trata o tema com tanta sofisticação que o filme ganha um ar solene, sério.

Saber as circunstâncias em que o filme foi realizado é muito importante e é uma pena que a edição nacional do dvd, encontrado nos balaios dos grandes magazines, seja tão pobrinha. Não só esse, mas praticamente todos os filmes de Cronenberg mereciam edições especiais. Parece que, por enquanto, apenas A MOSCA (1986) e MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) ganharam edições com extras. Felizmente, como estou de posse do livro "Cronenberg on Cronenberg", estou tendo acesso a informações muito interessantes sobre os bastidores das filmagens.

Um fato inédito até então para Cronenberg foi ter, pela primeira vez, um produtor aceitando o seu projeto logo de cara, sem haver nem mesmo um roteiro pronto, só uma ideia. O que dá uma dimensão do prestígio que o cineasta tinha alcançado com seus filmes dos anos 70. Outro detalhe interessante na produção do filme é o fato de que eles tiveram que fazer muita coisa em estúdio, como salas de conferência e salas de computadores, já que tudo aquilo teria que ser destruído. Também curiosas as histórias envolvendo Jennifer O'Neill, que foi convidada para fazer o filme, mas os realizadores enviaram para ela um roteiro sem as cenas de violência. Resultado: quando ela viu o verdadeiro roteiro, começou a chorar no trêiler, perturbada, dizendo que não queria fazer parte do filme. Cronenberg já tem sorte de encontrar essas atrizes problemáticas. Em CALAFRIOS (1975) foi aquela louca que pedia pra que ele batesse nela, para ela poder chorar; e em GÊMEOS - MÓRBIDA SEMELHANÇA (1988), Geneviève Bujold também fez restrições quando soube das cenas ginecológicas. No caso de Jennifer O'Neill, felizmente, ela acabou aceitando participar do filme.

Comparando com THE BROOD - OS FILHOS DO MEDO (1979), que trazia um tom bem pessimista e ainda tinha uma cena em que Cronenberg mostrava todo o seu ódio para com sua ex-esposa, SCANNERS é bem mais otimista. O sujeito que criou os efeitos especiais de explosão das cabeças foi Chris Walas, o mesmo que ganharia o Oscar de maquiagem por A MOSCA e que faria as criaturas de MISTÉRIOS E PAIXÕES (1991). O sucesso comercial de SCANNERS geraria duas sequências caça-níqueis, não dirigidas por Cronenberg, e mais alguns filmes com temática semelhante, como SCANNER COP e sua continuação.

Agradecimentos ao amigo Zezão, que me emprestou o dvd.

terça-feira, novembro 10, 2009

TITÃS - A VIDA ATÉ PARECE UMA FESTA



Minha história com os Titãs foi um pouco tardia, já que na década de 80, que foi o período mais criativo da história da banda, não me dediquei muito a ouvir rock, embora eu tenha ficado bastante impressionado com a performance da banda, quando os vi num especial na Rede Globo. Os anos 80 foram um período em que os meus interesses estavam mais nos estudos, nos quadrinhos e na Bíblia. Inclusive, por causa de minhas raízes protestantes, ao ouvir "Igreja", do álbum CABEÇA DINOSSAURO (1986), eu fiquei bem incomodado. Não só por ter gostado muito da faixa, mas porque a melodia das guitarras ficou dias em minha cabeça, o que me deixava com umas neuras, achando que estava sendo atacado por forças diabólicas ou algo do tipo.

No fim da década de 80, quando tinha entrado como estagiário do Banco do Nordeste, uma colega do banco ia para todos os shows que aconteciam no Ginásio Paulo Sarasate, me convidava e eu dizia sempre não. O rock brasileiro estava bombando e, naquela época, se eu fosse um pouquinho mais esperto não teria desperdiçado a chance de ver ao vivo a Legião Urbana, o Raul Seixas e o Ultrage a Rigor. Infelizmente isso não aconteceu. Só na época que eu entrei na faculdade, já nos anos 90, foi quando comecei a ir para shows de rock. O primeiro show dos Titãs foi inesquecível. Foi no dia do meu aniversário do ano de 1996. Eles estavam na turnê do álbum DOMINGO (1995), o retorno da banda a uma veia mais pop, depois de ter flertado com o rock mais pesado nos álbuns anteriores. Mas o show foi bem porrada. E muito, muito bom. E essa foi a primeira das diversas vezes que ainda veria a banda nas outras visitas que eles fariam à cidade, principalmente depois do sucesso massivo do disco ACÚSTICO MTV (1997) e uma cada vez maior aproximação com o público. O que teve os seus prós e contras.

O documentário TITÃS - A VIDA ATÉ PARECE UMA FESTA (2009) tem um sabor especial para quem gosta da banda. E talvez não interesse e nem funcione para quem não a conhece. Trata-se de uma colagem de imagens de arquivo de filmagens feitas por Branco Mello, mostrando a intimidade da banda, misturada com reportagens e participações em diversos programas de televisão. Destaque para o momento em que eles foram para o programa do Silvio Santos e o público feminino do programa pediu para eles tocarem "Bichos Escrotos". Fico imaginando o impacto que aquilo deve ter sido dentro de um programa tão careta e num período de recente abertura política. O próprio Silvio Santos se negou a pronunciar o título da música. Deve ter ficado arrepiado com o "vão se foder" da letra.

O filme opta por não seguir um registro tradicional. Não há depoimentos feitos para o próprio filme, nem narrações didáticas explicando a história da banda. Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves, os diretores, preferiram apostar na fama dos Titãs. A força das imagens e a montagem valem por si só. Quem é fã ou acompanhou o que aconteceu durante todos esses anos vai gostar e muitas vezes se emocionar. Algumas imagens são preciosas, como a cena da escolha das músicas para o disco A MELHOR BANDA DE TODOS OS TEMPOS DA ÚLTIMA SEMANA (2001), quando vemos a cara de descontentamento de Nando Reis, quando a maioria de suas composições foi indeferida pelo grupo, através de votação. Naquela época, já se sentia que ele estava mesmo pronto para tomar outros rumos. E depois da morte de Marcelo Fromer, a saída de Nando acabou por transformar a banda num quinteto.

O legal do documentário é poder ver os oito juntos nos momentos de auge. Os oito aparecem nos créditos iniciais, ao som de "Diversão". E, apesar das diferenças que tenham ocorrido ao longo do tempo, nota-se que havia ali um senso de companheirismo e respeito muito bonito. De certa maneira, eles talvez fossem a melhor banda do Brasil, não só pelo número de integrantes, mas pela quantidade de pessoas talentosas no grupo. E nesses tempos de decadência criativa da banda, um documentário como este ajuda a nos lembrar da grandeza dos Titãs. E de como a força do rock é capaz de trazer de volta aqueles momentos empolgantes.

segunda-feira, novembro 09, 2009

OS FANTASMAS DE SCROOGE (A Christmas Carol)



Robert Zemeckis parece estar mesmo obcecado pela técnica de captura de performance, que utilizou em O EXPRESSO POLAR (2004) e em BEOWULF (2007) - seu último trabalho convencional foi NÁUFRAGO (2000). E a cada nova incursão pelo terreno dessa nova maneira de fazer animação, o recurso vai ficando cada vez mais sofisticado e realista. OS FANTASMAS DE SCROOGE (2009) é um exemplo claro disso. Muita gente pode até não gostar do filme, mas não há como não perceber o quanto a técnica evoluiu, agora pegando carona no 3D.

O próprio Zemeckis teve a pretensão de dizer que a sua versão para "Um Conto de Natal", de Charles Dickens, seria a versão definitiva da famosa novela do escritor inglês. Se o filme parece simplista e moralista, isso talvez seja culpa da fidelidade à obra original, que tem mesmo esse tom infantil e cartunesco de contar uma história com uma moral, sobre um velho ranzinza e avarento que terá de aprender uma lição através da intervenção de fantasmas.

É uma história conhecidíssima, que já foi contada das mais diversas maneiras. Inclusive, uma delas foi bem recente, na comédia romântica MINHAS ADORÁVEIS EX-NAMORADAS. E talvez esse seja um dos principais fatores que depõem contra o filme. Por isso, a novidade em contá-la através de uma animação em 3D e utilizando tecnologia de ponta conte pontos. Mas é preciso bem mais do que técnicas avançadas para fazer um grande filme. A criatividade e a capacidade de criar uma atmosfera de magia está acima de tudo.

Ainda assim, OS FANTASMAS DE SCROOGE tem os seus méritos. Entre eles, a participação quase onipresente de Jim Carrey, que faz não apenas o velho Scrooge, mas também os vários fantasmas e as várias vezes em que aparece mais jovem. Nesse sentido, o recurso de captura de performance cai como uma luva, brincando com o rosto do ator conforme a necessidade. Outro ponto positivo é o respeito à obra de Dickens, cujas primeiras palavras são citadas logo no início do filme, enquanto vemos um livro sendo aberto. Pena que o resultado final, mesmo com tanto luxo, seja frio como o inverno apresentado no filme. Ao menos, sob as lentes dos óculos 3D, essa frieza pode ser sentida pela neve que parece cair constantemente em nossos olhos.

P.S.: Antes do filme de Zemeckis, pude ver em 3D o trailer de AVATAR, de James Cameron. E com legendas. Será que teremos cópias legendadas do filme? Seria uma boa. Isto é, se não causar efeitos nocivos à nossa visão. Ainda me sinto uma cobaia sempre que entro numa sala 3D.

domingo, novembro 08, 2009

A NOITE DOS DESESPERADOS (They Shoot Horses, Don't They?)



Aproveitando esta quente e tediosa tarde de domingo em casa para atualizar o blog. Acabei de ver A NOITE DOS DESESPERADOS (1969), um dos trabalhos mais elogiados de Sydney Pollack. Na época da morte do cineasta, em maio do ano passado, peguei para ver alguns filmes dele. Mas de lá pra cá acabei vendo apenas dois – NOSSO AMOR DE ONTEM (1973) e TRÊS DIAS DO CONDOR (1975), ambos com Robert Redford. O tempo acaba não me permitindo ver os filmes que eu gostaria. A não ser que eu os priorize, seja mais disciplinado do que já sou. Mas aí aparecem outros interesses, filmes que furam a fila das prioridades. E é até bom que seja assim, com o fator acaso contribuindo para a descoberta e até a revisão de filmes.

Acabei me decepcionando um pouco com A NOITE DOS DESESPERADOS. Não que o filme não tenha a carga de pessimismo que pretende e que não seja memorável. Mas um dos problemas dos filmes de Pollack é a frieza com que ele trata seus personagens. Pode até ser que ele goste deles, mas do lado de cá da tela, não sinto isso. Por isso que a conclusão do filme até causou em mim certa indiferença. Depois de ver um monte de gente se matando para ganhar um prêmio numa maratona maluca de dança a gente fica cansado também.

Na trama, que se passa nos Estados Unidos da época da Grande Depressão, um grupo de pessoas participa de um concurso de dança, que na verdade é uma prova de resistência, onde o casal vencedor, o que aguentar ficar em pé até o final, ganhará um prêmio de 1.500 dólares. A obstinação dos competidores torna tudo muito dramático, já que passam-se dias e eles, privados de sono e com os pés inchados, teimam em ficar até o fim para ganhar o prêmio. Entre os nomes mais conhecidos do filme estão os de Jane Fonda e Susannah York.

Vendo o filme, me lembrei das provas de resistência de edições passadas do Big Brother. Provas que geralmente duram menos de 24 horas e já garantem uma boa repercussão na audiência. Assim como os espectadores do reality show - no qual eu não me excluo - tanto no filme como na vida, as pessoas precisam ver o sofrimento alheio para perceberem que estão em situação melhor, ou pelo menos, mais confortável.

sexta-feira, novembro 06, 2009

SEINFELD - 7ª TEMPORADA (Seinfeld - Season 7)



O ano de 2009 vai entrar para a história da televisão por ter nos presenteado com a reunião do quarteto de SEINFELD na série CURB YOUR ENTHUSIASM, de Larry David. Eu, que nunca tinha visto a série, apesar de suas semelhanças óbvias com a melhor sitcom de todos os tempos, passei a acompanhá-la a partir desta atual temporada. E devo dizer que estou me deliciando. O episódio "The Reunion" foi marcante. Emocionante rever Jerry Seinfeld, Jason Alexander, Julia Louis-Dreyfus e Michael Richards novamente, depois de dez anos do fim da série que marcou suas vidas. E as nossas também. Nem eu imaginava o quanto gostava não apenas dos personagens, mas dos astros que interpretaram o quarteto. Mas deixemos para falar de CURB YOUR ENTHUSIASM quando a temporada chegar ao fim. A minha missão hoje é escrever um pouco sobre a excelente sétima temporada de SEINFELD (1995-1996), que marcou a despedida de Larry David da série.

Inclusive, no box da temporada vem um minidocumentário sobre a saída de David. E de como ele teve sentimentos de arrependimento quando viu a estreia da oitava temporada e viu que a turma estava se virando muito bem sem ele. Mas não dá pra negar a genialidade de David, do quanto ele foi fundamental para a série, que sem ele não existiria. David não é apenas o sujeito que escrevia grandes roteiros e o cara que inspirou a criação de George Constanza. Ele estava sempre por trás nas tomadas de decisões de episódios não escritos por ele também. David foi responsável por alguns dos melhores momentos dessa sétima temporada, mesmo tendo escrito apenas cinco episódios, sendo um deles duplo, "The Cadillac", cujo destaque é a obsessão de George por Marisa Tomei. Outro extra imperdível da temporada é uma homenagem a Elaine Benes/Julia Louis-Dreyfus, do quanto Julia é especial dentro de um gênero predominantemente masculino, do quanto ela consegue ser bonita e palhaça ao mesmo tempo.

Na semana passada, diante de momentos bem ruins de minha vida pessoal, senti um alívio tremendo ao chegar em casa e dar boas gargalhadas sozinho, vendo os últimos e geniais episódios dessa temporada. E eu não tinha visto ainda "The Invitations", o famoso episódio da morte de Susan! Que é sensacional! Como é que eu tinha perdido esse, quando acompanhava a série pela Sony, hein? De todo modo, é sempre bom ver que em cada temporada que eu pego pra ver sempre tem ainda vários inéditos para mim.

Entre os não-inéditos, "The Engagement" ficou durante muito tempo como o meu favorito da história da série. É aquele em que Jerry e George se sentam no café e fazem uma reflexão sobre suas vidas bobas, sobre o quanto eles deveriam mudar. Ambos saem do café dispostos a pedirem suas respectivas namoradas em casamento. George fica noivo de Susan; já Jerry, depois de uma antológica conversa com Kramer, logo muda de ideia, para desgosto do amigo, que agora ficou amarrado a uma relação que ele nem gosta. E o noivado de George foi uma das principais marcas da temporada, que lidaria diversas vezes com o seu desgosto com seu relacionamento e suas tentativas de adiar e de até pôr fim à relação. De se engasgar de rir o momento em que ele finge que fuma para ver se a noiva desiste dele. Isso em "The Invitations".

No entanto, o episódio mais memorável da temporada e eleito por muitos como o melhor da série é o clássico "The Soup Nazi", que causou uma verdadeira febre nos Estados Unidos na semana de sua exibição, com todo mundo comentando. A frase "No soup for you!" ficou na boca do povo. Mas "The Soup Nazi" nem está entre os meus favoritos. Quer dizer, eu gosto muito do episódio, acho ótimo e tudo, mas na sétima temporada tem outros de minha preferência. Abaixo, meu top 5 da temporada. E é um top bem ingrato, pois ficam de fora pérolas como "The Secret Code", "The Seven", "The Doll", "The Rye", o próprio "The Soup Nazi"... Puxa, são tantos!

1. "The Engagement". Não tem jeito. Apesar da subtrama da Elaine e do cachorrinho não ser o forte do episódio, ver os olhares de tristeza de George sempre que Jerry o chama para sair e ele não pode continua me fazendo rir muito;

2. "The Gum". Esse episódio é tão bom que eu fiz questão de apresentar à minha irmã, que não costuma ver a série. É aquele onde Kramer traz um amigo que passou uma temporada no hospício e ele pede para que todo mundo o trate como uma pessoa normal. Destaque para Elaine e o botão no cinema;

3. "The Invitations". O episódio já começa engraçadíssimo, na cena de George e Susan encomendando os convites para o casamento. Mas nada como a cara de "tô nem aí" dos três amigos na cena final, no hospital. Quanta humanidade. :)

4. "The Wait Out". O destaque do episódio está no humor físico de Kramer, quando ele começa a usar jeans. E compra um tão justo, que não consegue nem se sentar.

5. "The Wink". George fica o tempo todo piscando, depois que algo respinga em seu olho. E isso o leva a várias situações bem engraçadas.

quinta-feira, novembro 05, 2009

CARAMELO (Sukkar Banat / Caramel)



Continuando a falar de mulher bonita e tentando ser mais objetivo, já que o tempo está escasso, vamos a este delicioso CARAMELO (2007), filme de estreia na direção da libanesa Nadine Labaki. Ela dirige e estrela esse belo filme sobre o cotidiano e os problemas amorosos de um grupo de mulheres que trabalham num salão de beleza. Vendo a filmografia de Nadine como atriz, vi que ela está no elenco de BOSTA. Cá pra nós, acho que não combina com ela ficar trabalhando em filmes de títulos tão vulgares. :)

CARAMELO é uma espécie de versão "atualizada e melhorada" de UMA CANÇÃO DE AMOR, de outra diretora do Oriente Médio, a israelense Karin Albou. Na verdade, a proposta dos dois filmes é bem distinta, mas em ambos vemos o ponto de vista feminino de mulheres vivendo numa sociedade extremamente machista e cheia de regras sociais e religiosas. Há nos dois filmes a ênfase na depilação. Mas é só trocar a Tunísia da Segunda Guerra Mundial pelo Líbano contemporâneo que já sentimos um grande alívio. Além do mais, o filme não mostra uma sociedade islamita, mas católica. Mesmo assim, há muita pressão em cima das mulheres, que não têm liberdade para frequentar motéis ou hotéis, a não ser que sejam casadas, e que causam grande escândalo na família se casarem já tendo perdido a virgindade. Uma das personagens, inclusive, vai parar numa clínica para fazer um "retoque" e deixá-la virgem de novo para o noivo.

É nesse cenário de beleza e pressão que seguimos a protagonista vivida por Nadine Labaki encontrando-se às escondidas com um homem casado. Homem esse que não vemos em momento algum do filme. Mas ver o que nos é mostrado pela perspectiva dela faz com que nos solidarizemos com sua situação. Em especial na cena em que ela arranja, com muito esforço, um quarto para receber o namorado proibido no dia do aniversário dele. Para um filme chamado CARAMELO até que o amargo está bem presente. Como na subtrama da senhora idosa, que tem a chance de encontrar finalmente o homem de sua vida, mas tem que lidar com a irmã louca.

Apesar do sabor agridoce, o filme de Labaki tenta não deixar a tristeza no ar e me fez sair da sessão com o espírito elevado. Satisfeito, ao ver um trabalho feito com capricho e elegância, com mulheres encantadoras na tela, em um enredo simples. E Nadine Labaki já está no meu top de musas do cinema em 2009.

P.S.: Tem um texto meu publicado na sessão Blogosferas da revista Imagine, que no mês de outubro abordou o assunto blogs de cinema. O meu texto está logo abaixo do de Renato Thibes. Confiram a página em pdf.

quarta-feira, novembro 04, 2009

AVERE VENT'ANNI



"O desfecho chocante de AVERE VENT´ANNI cai como uma luva em cima do tal episódio da garota de mini-saia. Reprime-se a alegria de viver e a ousadia do prazer com porrada e crueldade. A caretice grassou no país com a peste do politicamente correto, da geração saúde e do poder que anda investindo oportunisticamente na profilaxia. É o fascismo revisitado com a chancela de Democrata."
Carlos Reichenbach


As palavras de Carlão, acima, que tomei emprestadas da caixa de comentários de seu blog, me sensibilizaram e provocaram uma reflexão sobre o recente incidente da garota da Uniban. A natureza bestial do homem continua surpreendendo. E provavelmente é a mesma da época da realização de AVERE VENT'ANNI (1978), filme que para mim foi uma das mais gratas descobertas do ano.

Na trama, duas lindas garotas se conhecem numa praia e botam o pé na estrada sem nenhum dinheiro no bolso e muita vontade de viver. De preferência, encontrando prazer na vida. Elas vão parar numa espécie de comuna, onde supostamente encontrariam pessoas que estariam vivendo longe do capitalismo e no esquema hippie de paz e amor. O filme de Fernando Di Leo capta o espírito da época, do fim das utopias e do total desencanto. Mas não sem antes vermos nossas heroínas em busca de amor e sexo. E isso é muito gostoso de ver. Principalmente porque a dupla de protagonistas é um colírio para os olhos, tanto a loira (Gloria Guida) quanto a morena (Lili Carati). As duas são apaixonantes, mas eu me amarrei mesmo foi em Gloria Guida, com sua doçura sem igual.

Sua parceira é mais ativa, ninfomaníaca até. Ela já chega na comuna procurando algum homem do seu agrado para fazer sexo. E um dos momentos mais belos é quando elas, não saciadas com o sexo rápido conseguido com dois homens, resolvem se satisfazer entre si. Uma visão do paraíso ver essas duas deusas se beijando. Tanto Gloria Guida quanto Lili Carati fizeram bastante sucesso nos anos 70 e 80. Estão entre as musas do cinema italiano da época. Muito justo. Eu, pelo menos, depois de ter visto esse filme com Gloria Guida, já quero ver outro. Quanto a Lili Carati, ela é conhecida de quem já viu L'ALCOVA, de Joe D'Amato, que, aliás, já está na minha lista de filmes a conseguir.

AVERE VENT'ANNI é também um libelo à juventude, começando com uma bela frase de Paul Nizan, que afirma que não há mais bela fase da vida do que quando se tem vinte anos. Essa afirmação não é nenhuma unanimidade - muitos que já passaram para a casa dos trinta dizem se sentir muito mais tranquilos, melhores e mais confiantes -, mas eu confesso que sinto saudade dessa época. Acho que desde os dezesseis anos que a rápida passagem do tempo me angustia, embora hoje bem menos. E não sei se isso é um bom sinal.

Agradecimentos a Carlão Reichenbach por ter me apresentado a essa pérola. Ultimamente ele tem feito um serviço de utilidade pública, disponibilizando links de pérolas raras em seu blog.

terça-feira, novembro 03, 2009

BESOURO



É sempre bom ver um filme brasileiro de gênero estreando em várias salas do país e com um bom apelo popular. Desde que vi o trailer de BESOURO (2009), fiquei na torcida pelo sucesso do filme. Não apenas comercial, mas artístico também, embora esse segundo quesito seja mais difícil de mensurar. No aspecto técnico, o filme de João Daniel Tikhomiroff é melhor do que eu esperava. Tem uma fotografia bem cuidada, efeitos especiais surpreendentes, cenas de luta bem coreografadas e uma edição que não compromete o andamento narrativo. O problema está principalmente na direção de atores, que ainda parece bem amadora.

Apresentar a história de um herói negro que luta contra o preconceito racial na Bahia da década de 1920 é uma boa ideia, bem como explorar a riqueza da cultura afrobrasileira, com os orixás. Inclusive, pode-se dizer que o personagem do Exu é um dos mais interessantes do filme. Talvez seja o único que é pintado em tons de cinza, sendo um espírito que pode ser tanto maligno quanto protetor. No mais, os negros são mostrados como vítimas ou heróis e os coronéis são vilões bem caricatos, especialmente o capataz do coronel, que é o que mais demonstra o seu ódio aos negros e à capoeira.

E assim como BEZERRA DE MENEZES - O DIÁRIO DE UM ESPÍRITO fez bastante sucesso entre o público espírita e interessados no assunto, vários praticantes e simpatizantes da capoeira têm comparecido às salas de cinema, podendo render também uma boa repercussão internacional, já que o esporte/dança/luta é cultuado em várias partes do mundo.

Na trama, Aílton Carmo é Besouro, discípulo de Mestre Alípio, um homem bastante amado e respeitado pelos negros de Salvador. Mestre Alípio é o grande mentor da capoeira e tem ideias que podem ser bem perigosas para os coronéis, que mesmo depois de passados quase cinquenta anos da Lei Áurea, ainda continuam a tratar os negros como escravos. Besouro é um personagem histórico pouco conhecido dos livros de história, mas que é cantado nas rodas de capoeira. O filme nos dá a oportunidade de entrarmos em contato com sua história. Ou lenda, no caso, já que o filme é cheio de elementos fantásticos. BESOURO representa a chance de o cinema brasileiro lidar com a ação e a fantasia, como nos filmes chineses de kung fu.

segunda-feira, novembro 02, 2009

MATADORES DE VAMPIRAS LÉSBICAS (Lesbian Vampire Killers)



E o que parecia uma grande diversão se revelou uma grande bobagem. MATADORES DE VAMPIRAS LÉSBICAS (2009) mostrou-se uma bela jogada de marketing. O título era atraente e o trailer, divertido, mesmo revelando o apelo trash da obra. Tanto que muita gente, como eu, preferiu conferir o filme de qualquer jeito, mesmo já tendo lido algumas críticas bem negativas. Afinal, é preciso ver com os próprios olhos.

A fórmula "comédia mais filme de vampiro" já rendeu alguns bons frutos. Basta lembrar de A HORA DO ESPANTO e sua continuação. Mas Hollywood sabe lidar melhor com esse tipo de diversão mais pop. Sem falar que nesses dois filmes os criadores souberam explorar também o aspecto terror, ainda que de maneira bem descontraída. MATADORES DE VAMPIRAS LÉSBICAS, no entanto, por mais que tenha alguns seios à mostra, na tradição dos filmes de vampiras de Jess Franco e Jean Rollin, é tão "inocente" em seu humor que chega a incomodar, parecendo um filme feito para pré-adolescentes, que talvez seja mesmo o público-alvo.

Se eu já não sou fã do humor de TODO MUNDO QUASE MORTO, de Edgar Wright, que é, em tese, um bom exemplar do gênero, com direito a cenas gore tão boas e pesadas quanto às dos filmes de zumbis mais sérios, começo a suspeitar que o problema está na falta de habilidade dos britânicos para esse tipo de comédia. Logo eles que trazem no currículo o Monty Python e a Hammer Films. Mas os tempos são outros e a comédia sexual, a pornochanchada (termo fora de moda), praticamente não existe mais. Mas ainda que a intenção do filme fosse ser mais comportado, até para conseguir um público maior, isso não é desculpa para que o resultado final saísse tão pífio.

Para começar, os dois nerds que resolvem viajar para um lugar qualquer da Inglaterra a fim de esquecerem o fato de terem sido chutados pela namorada e pelo emprego não têm a menor graça. São dois sujeitos com cara de idiotas sem o menor carisma e os criadores do filme não sabem criar um momento engraçado sequer. Unzinho, para garantir uma gargalhada tímida que seja. Nada. Quer dizer, me senti enganado. Assim como praticamente todo o público presente na sala. De bom, apenas a beleza das amigas da protagonista, melhor explorada numa cena em câmera lenta, com um som de guitarras ao fundo. Mas mesmo isso se dissipa rapidinho. Quer dizer, nem tão rápido assim, pois filme ruim tem uma capacidade incrível de parecer mais longo.