quinta-feira, junho 04, 2009

GARAPA



É fácil ficar incomodado com GARAPA (2009). Ver o filme é um pouco como passar de carro no sinal e ver aquelas crianças tentando ganhar uns trocados ou ver algum sujeito deficiente físico ou com uma enfermidade grave pedindo esmola na rua. Às vezes a gente tenta virar o rosto, tentar ignorar porque aquilo está atrapalhando a nossa apreciação da canção que está rolando no som do carro ou o bate-papo com os amigos na barraca de praia. Lembro que quando comecei a trabalhar, estagiando no Banco do Nordeste, eu comecei a andar pelo Centro da cidade, que na época parece que era ainda mais povoado de pedintes sentados no chão das ruas do que hoje em dia. Eu ficava olhando, um pouco chocado, para aquele povo, enquanto minha colega, que já estagiava há um ano, andava com a cabeça erguida. Achava a atitude dela forte e tentei fazer o mesmo, achando que isso era a coisa certa a fazer. Se é ou não a coisa certa, eu não sei, já que a formação cristã nos ensina a praticar a caridade e o sentimento de culpa por não ajudar de vez em quando bate. Portanto, me parece um tanto estranho eu pagar pra ver um filme que mostra uma realidade que eu evito ver nos programas policiais locais exibidos na televisão e que mostram o mundo cão da periferia de Fortaleza.

Mas o documentário de José Padilha é diferente desses programas sensacionalistas e que exploram a miséria e a violência. Tenho certeza que se o cineasta tivesse optado por uma fotografia colorida, mas sem muitos filtros, teria deixado tudo ainda mais forte. O preto e branco acaba por atenuar a dor. Tanto que o que muitos críticos reclamam do filme é da "fotografia à Sebastião Salgado" e as tentativas de parecer poético em alguns momentos. A verdade é que eu não vi nada poético no filme. Pelo menos não no sentido de poesia ligada ao belo. É a realidade nua e crua de famílias vivendo em condições sub-humanas. Claro que já aprendemos com os documentários de Eduardo Coutinho que as pessoas em frente às câmeras acabam sendo um pouco atores e atrizes. Talvez por isso Padilha tenha mostrado tanto a imagem das crianças menores, nuas, magras e barrigudas, que agem com um pouco mais de naturalidade. É dura a imagem das mães preparando mamadeiras cheias de garapa - água fervida adicionada de açúcar - e dando para as crianças, deitadas em suas redes. E as crianças as sorvem com gosto, afinal, com a fome e a pouca experiência com uma alimentação adequada, aquilo ali é bom.

Essas pessoas são tão maltradas e acostumadas com a situação de miséria que parecem conformadas e até fortes diante de tantas adversidades. Tanto que em apenas um momento do filme, uma dessas pessoas chora diante das câmeras. A figura dos homens, inúteis, em contraponto com as mulheres batalhadoras, torna-os criaturas sem dignidade e também menos dignos de pena. Alguns até são pintados como quase vilões, como o sujeito que lembra o Matheus Nachtergaele e que passa o dia bebendo, enquanto a mulher vai batalhar atrás de comida. Padilha segue essa mulher até um centro nutricional do bairro Conjunto Palmeiras, onde a assistente social tenta explicar para ela o que ela deve fazer para evitar ter mais filhos, tentando métodos anticoncepcionais ou mesmo se afastando desse homem, que ela pinta como sendo inútil, preguiçoso e perverso. No centro médico é também onde sabemos de detalhes não tão agradáveis sobre como as crianças fazem suas necessidades e da falta de higiene básica.

As famílias das regiões do interior parecem viver em situação ainda pior, já que dependem muito da agricultura para a subsistência. E como a região do sertão cearense raramente é gentil com seus habitantes nesse quesito, eles acabam sofrendo bastante. O que eles recebem do programa Fome Zero não é o suficiente para durar metade do mês. Inclusive, uma das famílias não recebe os benefícios do programa porque a mulher não tem nenhum documento de identificação. Nem mesmo uma certidão de nascimento ou RG. José Padilha, em suas poucas intervenções no filme, pede a ela que conte um pouco de sua história. E ela conta que foi criada por uma mãe alcóolatra.

É José Padilha mexendo novamente num tema quente, depois de ter feito sucesso com os também controversos ÔNIBUS 174 (2002) e TROPA DE ELITE (2007). Vez ou outra há alguém que condene algo em seus filmes. Mas o importante é que nenhum deles causa indiferença na plateia. Pode-se amar, odiar ou gostar com algumas restrições. No caso de GARAPA, talvez eu fique nessa terceira posição, afinal, por mais que o acusem de explorar a miséria para fazer arte, o filme é de fato arte. Algumas cenas ficam gravadas com força em nossa memória. Algumas delas até pelo aspecto exótico, como a do homem enchendo os barris dependurados num jumento com a água da lagoa que fica perto de sua casa. Quanto a uma possível crítica ao governo Lula, não creio que Padilha o faça, já que fica claro que sem os programas sociais implantados a situação seria muito pior e a mortalidade, bem maior. A triste verdade é que o projeto de Lula de que todo brasileiro terá direito a três refeições por dia ainda não foi completamente concretizado.

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