terça-feira, junho 23, 2009

A MANSÃO DO INFERNO (Inferno)



A primeira vez que vi A MANSÃO DO INFERNO (1980) foi em 2003, num VHS enviado pelo sumido amigo Fábio Ribeiro, junto com outros dois títulos de Dario Argento. O blog já existia e eu até comentei os três filmes de maneira muito rasteira na época. A cópia era de um dvd americano, sem legendas. Como tenho um ouvido muito ruim, perdi muita coisa do áudio em inglês, mas isso acabou por tornar o filme ainda mais misterioso pra mim, já que eu me concentrei mais na força das imagens, que são espetaculares. A cena em que Irene Miracle desce para pegar uma chave numa espécie de poço localizado num porão tem uma força imagética tão grande que parece saída dos próprios sonhos. E há todo um cuidado com o som - o silêncio, o som da água e a trilha sonora de Keith Emerson combinados alcançam a perfeição nessa sequência.

Rever o filme agora legendado, em português (quem diria?), graças às maravilhas dos fóruns de compartilhamento, era ao mesmo tempo uma obrigação e um previlégio. Não só por eu ser fã do filme, mas também como um preparativo para ver O RETORNO DA MALDIÇÃO - A MÃE DAS LÁGRIMAS (2007), terceira parte da trilogia das mães iniciada com SUSPIRIA (1977). Senti que precisava rever A MANSÃO DO INFERNO para então poder conferir o aparentemente mal recebido final da trilogia. O filme é puro delírio visual. Não adianta procurar muito sentido, pois na verdade não há. O segredo é deixar-se levar pela atmosfera onírica e pelo clima de mistério que pontua a trama, que tem como centro Nova York, mas que também tem uma sequência em Roma. Aliás, eu diria que, depois do filme, não vou ouvir mais "Va'pensiero", terceira parte de "Nabucco", de Giuseppe Verdi, da mesma maneira. Eu já tenho um carinho especial por essa música, pois atribuo a ela um gosto pela melancolia que se deve principalmente à inteligente sacada de Renato Russo de encerrar o seu álbum de canções italianas com ela ao som de uma tempestade.

A trama do filme gira em torno de um livro lido pela personagem de Irene Miracle que fala sobre três mães bruxas: Mater Suspiriorum, Mater Tenebrarum e Mater Lacrimarum e dos locais que elas ocupam. O livro foi comprado de um antiquário e o prédio onde ela vive é uma construção antiga. Estranhamente, as paredes dos interiores são pintadas de vermelho, o que é bem conveniente para a utilização da paleta de cores de Argento, discípulo do mestre Mario Bava também na construção de ambientes. Aliás, não tem como não apreciar o cinema do diretor se não se levar em conta a direção de arte. Pois bem, a tal jovem italiana residente nos Estados Unidos, prevendo que está passando por uma situação de perigo e num ambiente de horror, envia uma carta para o irmão, estudante de música em Roma. O irmão, seguindo uma mulher misteriosa que aparece com um gato durante a aula, deixa a carta com a colega de classe, que acaba ficando obcecada e interessada pelo livro das três mães. E sofre as consequências por isso. E falando em gato, quem gosta dos bichos de andar elegante e olhar misterioso pode ficar um pouco desconfortável com a cena do velho do antiquário com um saco de gatos, pronto para matar os bichos afogados. E essa cena, e o modo como ela termina, só confirma o formato de filme em esquetes de A MANSÃO DO INFERNO. Pois, aparentemente, não há nenhuma relação entre o assassino do velho e a trama envolvendo o prédio e as bruxas. Mas de vez em quando é bom jogarmos fora a lógica e nos deixarmos levar pelo fluxo da narrativa, assim como as personagens adentram lugares secretos em edifícios. E com a vantagem de não termos o mesmo fim trágico delas.

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