segunda-feira, junho 15, 2009

AMOR À TARDE (L'Amour l'Après-Midi)



Ontem fui a um culto numa igreja batista onde minha irmã vai regularmente. Sempre que vou, uma das coisas que mais me incomoda é o fato de eu ficar tenso. Se era para ser um lugar onde eu me sentiria bem, relaxado, pronto para receber bênçãos, acaba causando uma tensão enorme em meus ombros. E ontem, mais do que nunca, uma série de questionamentos acerca da salvação, da culpa cristã e da natureza e repercussão do sacrifício de Jesus martelavam em minha mente, enquanto o pastor pregava sobre o assunto. Não sei se o fato de eu ter lido "Retalhos", de Craig Thompson, acentuou o que já era forte. Quer dizer, eu me sinto mais em elo com Deus quando estou sozinho, na hora de dormir, quando peço um dia ou uma semana boa e produtiva e também quando dirijo, quando peço proteção. Mas as discussões dogmáticas, especialmente as comentadas pelo apóstolo Paulo me incomodam. Chego a ver até contradições entre o discurso mais profundo e esotérico de Jesus e a ocidentalização, a domesticação de Paulo. Escolhi este espaço para despejar um pouco essas palavras sem muita base, aproveitando o gancho para falar um pouco sobre AMOR À TARDE (1972), o último dos Seis Contos Morais de Eric Rohmer.

O último filme desse ciclo que havia visto foi MINHA NOITE COM ELA (1969), que me deixou um pouco incomodado com as reações do protagonista, um rapaz católico que se mostra firme em suas convicções morais e religiosas e não se entrega à tentação de fazer sexo com uma mulher super-sensual e atraente, já que tinha colocado na cabeça que a mulher da sua vida, aquela com quem ele iria se casar, era outra. E isso me incomodou bastante, já que no lugar dele eu não teria resistido à tentação, até porque ele não tinha nenhum compromisso com a tal moça ainda. Mas a coisa muda um pouco de figura quando entra em cena o adultério. Talvez isso seja uma das razões de filmes como DOMICÍLIO CONJUGAL, de François Truffaut, e O ÚLTIMO BEIJO, de Gabriele Muccino, terem me emocionado tanto. Eu entendo o sentimento de culpa e a vontade de voltar arrependido ao seio do matrimônio dos protagonistas.

AMOR À TARDE começa com um personagem que parece saído de um filme de François Truffaut: Frédéric é um sujeito casado, mas que sente um fascínio enorme pelas mulheres estranhas que encontra nos ônibus, no trajeto até o trabalho. Por estar casado, ele se considera impossibilitado de flertar ou de ter algo mais com qualquer dessas mulheres. Ele trabalha com duas belas secretárias, que se vestem de maneira sensual, às vezes com vestidos curtos. Mas o que mexe com suas estruturas é o aparecimento de uma antiga amiga, por quem ele já sentia uma atração no passado, chamada Chloé. Ela é uma jovem de temperamento instável e isso ao mesmo tempo o afasta e o atrai. Apesar do medo que ela lhe provoca, as constantes visitas e os encontros eventuais criam um relacionamento que ameaça a sua estabilidade, o seu casamento. E é interessante que isso mais uma vez me incomodou, embora neste filme especificamente eu não tenha achado tão interessante assim a figura da esposa, havendo um pouco mais de distanciamento com o personagem.

Quanto às soluções estéticas, talvez AMOR À TARDE seja um dos trabalhos mais despojados de Rohmer. A ausência da música de fundo, a preferência pela não utilização do campo e contracampo nos diálogos, mas a câmera focalizada numa única pessoa, mesmo que essa pessoa não seja necessariamente aquele quem está falando, são escolhas bem acertadas do diretor. Aliás, na maioria das vezes, Rohmer se mostra mais interessado na reação da pessoa que está ouvindo do que na expressão daquele que está falando. É um trabalho sensível de direção, de criação de uma atmosfera intrigante e de uma tensão crescente. Rohmer vai além do óbvio. Seus personagens agem de maneira surpreendente, fugindo dos clichês dos filmes de relacionamentos amorosos extra-conjugais. É, ao lado de MINHA NOITE COM ELA, um dos trabalhos mais moralistas do diretor. Embora eu não esteja certo quanto às suas motivações. Está bem longe de ser um ATRAÇÃO FATAL da vida. O espectador pode ou não concordar com a decisão do personagem e isso gera uma liberdade de pensamento e de julgamento que poucas vezes o cinema proporciona.

O arquivo que consegui de AMOR À TARDE vem com um pequeno extra com o cineasta americano Neil LaBute falando um pouco sobre o filme e sobre Rohmer.

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