terça-feira, fevereiro 28, 2006

FAÇA ISTO! (Fallo!)



Quem tinha se decepcionado com a baixa voltagem erótica de LUXÚRIA (2002), filme anterior de Tinto Brass, eis que agora poderá se esbaldar com muita sacanagem, muita mulher gostosa e muitas situações excitantes. O mestre do erotismo prova que continua em ótima forma neste novo FAÇA ISTO! (2003), que saiu em DVD no Brasil pela Paris Filmes. Infelizmente a cópia oferece apenas áudio em inglês e português. Até o título brasileiro é uma tradução do título americano ("Do It"). Mas tudo bem. Os filmes italianos feitos por realizadores da velha guarda são todos dublados mesmo. Inclusive, quem foi ver EROS no cinema deve ter estranhado um pouco a péssima dublagem em italiano do episódio do Antonioni.

FAÇA ISTO! é uma experiência de Brass em filmes de segmentos, repetindo o que ele já havia feito com P.O. BOX (1995), filme que eu não cheguei a ver. E se ele não fez uma obra de alto nível como TODAS AS MULHERES FAZEM (1992) ou O VOYEUR (1994), o quesito "sacanagem" está em alta. Cada um dos seis segmentos apresenta uma historinha bem picante de casais tentando aquecer suas vidas sexuais. O meu segmento preferido é aquele da praia, onde o sujeito pede para que sua namorada conte a ele os momentos em que ela o traiu. Para alegria do rapaz, a mulher o deixa na dúvida sobre se as histórias aconteceram realmente ou foram fruto da sua imaginação. Brass aproveita o aspecto misterioso da mulher nesse segmento.

Mas não há muito espaço para sutilezas nos filmes de Brass e ele não tem o mínimo pudor em focar sua câmera nas bundas das mulheres. Falando em closes de bundas, o segmento mais fraco do filme é justamente aquele onde um homem e uma mulher jogam tênis. Brass aproveita o já conhecido tesão que os marmanjos têm pelas belas tenistas em suas mini-saias. O problema é que as atrizes desse episódio são feias. Mas esse episódio é exceção: a grande maioria das mulheres de FAÇA ISTO! é belíssima e as situações apresentadas são elevadoras. Se é que você me entende.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

CAPOTE



Nesse fim de semana de carnaval chegou aos cinemas o último dos cinco indicados à categoria de melhor filme do Oscar 2006. CAPOTE (2005) superou as minhas expectativas. Achei que se tratasse apenas de um "filme de ator". E o que seria pior: um filme chato. Longe disso, o filme mantém o interesse até o final, além de trazer uma interpretação brilhante de Philip Seymour Hoffman, que em breve poderá ser visto como vilão em MISSÃO IMPOSSÍVEL 3, de J.J. Abrams.

CAPOTE, do estreante no cinema de fição Bennett Miller, também funciona como um filme quase didático sobre a vida de Truman Capote e, principalmente, sobre a composição de uma importante obra literária: "A Sangue Frio", livro de não-ficção narrado com a beleza das obras de ficção. O livro aborda o genocídio de quatro pessoas no Kansas. Capote se envolveu de tal maneira com o crime, que dizem até que ele se apaixonou por um dos criminosos, condenados à pena de morte. O filme nos dá o benefício da dúvida no que se refere a esse detalhe. Na verdade, CAPOTE é até bastante discreto na descrição da vida privada do escritor. Ele morava com um outro homem, mas em nenhum momento o filme mostra os dois em momento de intimidade mais física.

E isso é bom para o filme, que foca principalmente na problemática do livro e nos sentimentos contraditórios do escritor. Por um lado, ele quer que os condenados sejam logo enforcados para que ele possa terminar o seu livro; por outro, a morte daquele homem também lhe trará enorme sofrimento.

Confesso que no começo eu não estava gostando muito da interpretação de Hoffman. Sua afetação estava prejudicando até o meu acompanhamento da história. Eu não conseguia prestar atenção em outra coisa que não fossem os seus trejeitos, sua "bichice". Mas depois eu fui me acostumando. E, além do mais, dizem que o verdadeiro Capote era assim mesmo. Hoffman capricha até nos tiques nervosos no nariz. Mas o grande momento dele é mesmo na cena perto do final, na última vez que ele vai falar com o assassino. É desses momentos mágicos onde todos no cinema quase param de respirar. Um momento de suspensão do mundo real.

Pra terminar, meu ranking dos filmes do Oscar desse ano:

1. MUNIQUE, de Steven Spielberg
2. O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, de Ang Lee
3. CAPOTE, de Bennett Miller
4. BOA NOITE E BOA SORTE, de George Clooney
5. CRASH - NO LIMITE, de Paul Haggis

sábado, fevereiro 25, 2006

FLORES PARTIDAS (Broken Flowers)



"Carnaval, carnaval... Eu fico triste quando chega o carnaval." Que triste que nada. Não sou de ficar pulando carnaval, mas este não deixa de ser o melhor feriado do ano. Ao menos no que se refere à quantidade de dias de folga. Não viajei, mas não estou achando ruim ficar em casa, alugar uns vídeos, ir ao cinema, botar a leitura em dia (tantos livros, quadrinhos e revistas pra ler), ouvir música, conversar com minha família, contatar quem não foi atrás de folia nas praias.

Hoje fui conferir FLORES PARTIDAS (2005), de Jim Jarmusch, que demorou um pouco pra chegar aqui, mas que acabou chegando de maneira bastante discreta. O filme já começa muito bem ao som da belíssima canção "There is an end", do Greenhornes, enquanto os créditos nos prometem beldades de ontem e de hoje como Julie Delpy, Chloë Sevigny, Sharon Stone e Jessica Lange. Bill Murray, pra variar, aparece com aquela cara de tédio, de desânimo. Aliás, não sei se ele tem outra cara. De todo modo, ele ficou perfeito no papel de um "Don Juan" aposentado e decadente - no filme, seu nome é Don Johnston. O cara já namorou um monte de gatas no passado e hoje fica em casa vendo tv, com uma expressão apática no rosto. Sua atual namorada (Julie Delpy, linda) o está deixando. Pra completar, ele recebe uma carta de uma remetente misteriosa que diz ser uma de suas amantes do passado. A carta diz que ele tem um filho. Com a ajuda do vizinho (Jeffrey Wright), Don parte em busca da mãe de seu filho, numa lista de quatro prováveis mulheres.

A expressão anestesiada de Murray faz um contraponto bastante interessante ao gênero road movie, que geralmente é regido pela ansiedade, pela excitação diante do desconhecido. A maioria dos road movies têm pressa de chegar no destino, de conhecer o futuro. FLORES PARTIDAS, nem tanto. Tem uma ótima crítica sobre o filme, escrita por Fabiano de Souza, que saiu na revista Teorema nº 8, em que ele cita as seqüências em que Murray aparece dirigindo o carro; a câmera focaliza tanto a estrada, quanto o retrovisor. Essas cenas representariam o passado, o presente e o futuro, todos juntos num único plano. Achei bem interessante essa observação.

Voltando ao que eu dizia, FLORES PARTIDAS é um filme paradoxal. Enquanto apresenta uma trama no mínimo bastante curiosa - todo mundo quer saber quem é a mãe do filho de Don -, o personagem pouco encontra razão para celebrar a viagem, metáfora da vida. Seu olhar é de quase indiferença. Mas também pode ser de tristeza por já ter se transformado num coroa que não mais chama a atenção das meninas, como na cena do ônibus, quando as meninas falam de um rapaz bonito que está na parte de trás do ônibus. Don é completamente ignorado por elas. Se bem que pode ser de cansaço também. Ele pode ter se identificado um pouco com o rapaz do ônibus. Ele pode ter se lembrado de seu passado.

Das belas coadjuvantes que abrilhantam o filme, destaco Chloë Sevigny (sou doido por essa menina), que aparece toda insinuante, abusando do fetiche da secretária que usa mini-saia. Mas a Sharon Stone continua batendo um bolão, hein. Estou ansioso pra vê-la na seqüência de INSTINTO SELVAGEM, por mais picareta e apelativo que seja.

Na hora que FLORES PARTIDAS estava terminando, naquela cena do travelling circular em Murray, duas meninas estavam conversando um pouco alto e me incomodaram. Acabei virando o rosto justo no momento em que o filme terminou. Senti um pouco de raiva nessa hora. Quando saí do cinema, olhei pra trás e vi as duas saindo de mãos dadas, como duas namoradas. Nessa hora a raiva foi substituída por uma espécie de excitação. A figura de duas mulheres juntas é sempre provocante para os homens. Como não podia fazer nada, voltei pra casa meio anestesiado, como o Bill Murray no começo do filme.

P.S.: Já que citei a Teorema, aproveito pra dizer que também li a crítica de A MENINA SANTA, escrita por Eduardo Santos Mendes e Ivonette Pinto, recomendada pelo Milton. Excelente. Gostei da observação que eles fizeram sobre o filme acontecer "deitado".

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A MENINA SANTA (La Niña Santa)























Tem filmes que nos deixam sem chão, desorientados. Caso dos filmes da Lucrecia Martel. Ainda bem que eu já tinha visto O PÂNTANO (2001). Já estava razoavelmente preparado para ver um filme da diretora. Comparando os dois filmes, tenho impressão que A MENINA SANTA (2004) é superior. Principalmente por causa do humor, que dessa vez está afiadíssimo. E como o número de personagens é bem menor dessa vez, A MENINA SANTA aparentemente é um filme mais fácil de ser deglutido e entendido no plano superficial.

Assim como O PÂNTANO, A MENINA SANTA mostra uma relação de proximidade dos corpos, bem maior do que a gente está acostumado a ver no cinema. Seria um contraponto perfeito aos filmes orientais. Assim de sopetão, arriscaria dizer que A MENINA SANTA é um filme sobre a atração física, sobre o medo, sobre segredos e sussurros, sobre a dúvida, sobre o coito interrompido e sobre a fé. Uma dúvida: naquele coito interrompido do filme, a menina estava fazendo sexo anal com o namorado para preservar a virgindade? Parece que sim. E no que se refere à fé, fico sempre com dúvida se a diretora trata o catolicismo com respeito ou com ironia. Mas uma das maiores qualidades do filme são essas ambigüidades.

Há coisas bastante estranhas no hotel decadente onde se passa a história. O que é aquela camareira que fica o tempo todo perfumando o ambiente com um spray? Ela entra sem avisar nos quartos, mesmo quando os hóspedes estão. E isso não é a única coisa estranha do filme. Além de todos os personagens também serem bastante esquisitos, lembrei daquela história do rapaz que caiu pelado do andar de cima.

Fica muita coisa no ar. Parece haver uma riqueza de simbolismos muito grande. A MENINA SANTA é um filme pra ser visto e revisto, sempre se encontrando novos significados. Por enquanto, restam as muitas dúvidas. Mais delas: o que representa o ex-marido ligando para a mulher o tempo todo? O que o Doutor Jano queria da Amália? Apenas dar uma "pinadinha"? O fato é que a vida é ainda mais complicada do que os filmes, portanto, não tem porque os filmes serem sempre explicadinhos se eles querem retratar um pouco do que é a vida.

Dizem que o theremin, aquele instrumento que toca quase sem ser tocado, e que aparece várias vezes no filme, sintetiza um pouco do que o filme tem a dizer. Assim como esse instrumento, os corpos nem sempre precisam ser tocados para que se desenvolva energia sexual. Pelo visto, cada detalhe apresentado parece ter importância fundamental para o que Lucrecia Martel quer dizer. E aquele final é fantástico: "Doutor Jano, compareça ao palco".

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

GODARD EM TRÊS CURTAS



Minha relação com Jean-Luc Godard, ao menos com os poucos filmes que vi dele, é mais de respeito mesmo. Não é um cineasta que me conquistou da mesma forma que outros conterrâneos seus da Nouvelle Vague, como Truffaut, Rohmer, Rivette ou Chabrol. Mesmo assim, sempre tive vontade de conhecer mais seus filmes, estudar sua obra, procurar entender o contexto de suas brincadeiras estilísticas e políticas. Aliás, brincadeira é uma palavra que eu acho que combina com os filmes de Godard. Ao menos com os seus primeiros trabalhos, os únicos que eu conheci até o momento.

A partir desse post, inicio a minha peregrinação pelos filmes do cineasta, graças a uns DVDs contendo vários filmes dele que veio parar em minhas mãos. Já adianto que eu sou leigo em sua obra e não nego que seu hermetismo me assusta um pouco. Portanto, vou acabar falando algumas bobagens por aqui. Mas como sou cinéfilo corajoso e o cinema é um campo de batalha, como disse Samuel Fuller num dos mais famosos filmes de Godard, estou aí pra enfrentar o "bom combate", pra usar agora as palavras do apóstolo Paulo, que nada tem a ver com Godard, eu sei.

Começo, então, com três curtas-metragens do início da carreira do enfant terrible do cinema francês. Seus dois primeiros curtas são OPÉRATION BÉTON (1954) e UNE FEMME COQUETTE (1955), mas esses não passaram por minhas mãos. Assim, pulemos para os próximos três curtas, sendo que o terceiro foi co-dirigido pelo colega François Truffaut.

CHARLOTTE ET VÉRONIQUE, OU TOUS LES GARÇONS S'APPELLENT PATRICK

Bastante divertida essa comédia juvenil de 1959, envolvendo duas garotas (Anne Collette e Nicole Berger) e um rapaz (Jean-Claude Brialy). O rapaz, de nome Patrick, é do tipo galanteador. Conquista as duas meninas, que depois saem felizes por terem marcado um encontro com ele. Quando elas comentam que conheceram um rapaz chamado Patrick consideram isso apenas uma coincidência.

Parece que esse é o único filme dirigido por Godard que não foi escrito por ele. O roteiro é do nosso querido Eric Rohmer. Vai ver que é por isso que o curta é tão agradável. Anne Collette, que faz a Charlotte (nos dois curtas), não teve uma carreira muito expressiva e longa. Já Jean-Claude Brialy foi um dos protagonistas de OS PRIMOS, de Claude Chabrol, e Nicole Berger esteve depois em ATIREM NO PIANISTA, de François Truffaut. Por falar nesse filme, vi que o livro de David Goodis, no qual o filme de Truffaut é baseado, foi lançado em formato pocket pela LP&M. Alguém já leu e recomenda? Ah, tem uma cena de CHARLOTTE ET VÉRONIQUE que é bem engraçada: enquanto o rapaz está "queixando" a menina, um sujeito lê o jornal Arts, que apresenta na primeira página uma manchete sobre a decadência do cinema francês.

CHARLOTTE ET SON JULES

O segundo curta apresentando a personagem Charlotte, lançado logo após ACOSSADO (1960), não é tão divertido quanto o primeiro. Mas é bem mais a cara do Godard. Nesse curta, Jean-Paul Belmondo fala o tempo inteiro enquanto a Anne Collette fica calada olhando pra ele. O filme parece uma brincadeira feita nos intervalos de ACOSSADO. Suspeito disso por causa da presença de Belmondo.

UNE HISTOIRE D'EAU

Um filme mais complexo e com uma certa carga de experimentação. Tanto Godard quanto Truffaut assinam o roteiro e a direção de UNE HISTOIRE D'EAU (1961), mostrando a viagem de uma mulher numa região varrida por uma forte chuva. As imagens da cidade alagada são bem interessantes. É um curta que merece uma revisão. Se estivesse em casa iria revê-lo agora mesmo, até pra entender melhor. Gostei da narração, às vezes próxima de um diálogo comum, mas mantendo um certo distanciamento. O filme foi montado por Godard a partir de imagens improvisadas por Truffaut.

Agradecimentos à Carol, que me emprestou os DVDs com os vários filmes do diretor.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

LAST DAYS



Depois de ELEFANTE (2003), a carreira de Gus Van Sant passou a ser revisada até por seus antigos detratores. Na verdade, a nova fase na carreira do diretor já havia começado com o pouco visto GERRY (2002), inédito no Brasil, exceto pelas exibições no Cinemax. Hoje comparam o trabalho de Van Sant ao de cineastas de vanguarda como Tsai Ming-Liang, Abbas Kiarostami e irmãos Dardenne. Assim como os filmes desses diretores, esse últimos títulos de Van Sant exigem do público uma certa disposição para entrar na viagem.

Quando soube que o cineasta faria uma versão livre dos últimos dias da vida de Kurt Cobain num filme chamado LAST DAYS (2005) claro que fiquei ansioso pra ver. O Nirvana foi uma banda importantíssima pra mim. Infelizmente, aqui no Brasil, o filme foi exibido apenas na Mostra Internacional de São Paulo (ou do Rio, ou ambas, não lembro) e até o momento nenhuma distribuidora o trouxe. Nem mesmo em DVD. Com as maravilhas da tecnologia, que permitem baixar um filme numa noite e ver num aparelho de DVD que toca divx no dia seguinte, lá fui eu apelar para ver o filme na telinha. Paciência tem limites, né? É claro que eu prefereria ver LAST DAYS na gloriosa telona do cinema, mas fazer o que?

Talvez por conta de minha alta expectativa, talvez por ter visto o filme na telinha e ainda por cima um pouco solonento, acabei me decepcionando um pouco com LAST DAYS. Em alguns momentos, senti a impressão que Van Sant estava sendo até um pouco picareta e enrolão. Como naquela cena em que a câmera fica um longo tempo parada de frente para a casa do músico (que não se chama Cobain, mas Blake) sem que nada aconteça. Aliás, no filme nada realmente acontece. Vemos o músico tomando banho num rio, depois ficando chapado e se vestindo de mulher, recusando-se a atender o telefone que não para de tocar, tocando um pouco de guitarra, recebendo dois mórmons. Tudo de maneira extremamente lenta e desanimada. Como deve mesmo ser algo que aborde uma pessoa com depressão em alto grau.

A idéia de LAST DAYS é passar a sensação de que alguém seguiu Blake com uma câmera por 48 horas e depois editou os melhores momentos num filme de 90 minutos. Dentro dessa "proposta" há exceções, já que o filme não se concentra exclusivamente em Blake. Um dos momentos mais memoráveis do filme, inclusive, está naquela cena em que os amigos do cantor - que estão na mesma casa - ouvem "Venus in Furs", do Velvet Underground, enquanto a câmera, como um fantasma, passeia vagarosamente pelo quarto.

Dizem que o filme faz parte de uma chamada trilogia da morte, composta pelos citados GERRY e ELEFANTE. Resta saber se esse caminho que o diretor trilhou vai repercutir nos seus próximos filmes ou se o diretor vai voltar a fazer filmes mais comerciais. De todo modo, Van Sant está se especializando em trazer à tona propostas sensacionais. O seu próximo filme, THE TIME TRAVELER'S WIFE (2006), é a respeito de um homem que viaja no tempo para visitar a sua esposa em diferentes épocas. Eu, como sou fascinado com esse negócio de viagem no tempo, já fiquei ansioso pra conferir o resultado.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

UM ROMANCE MUITO PERIGOSO (Into the Night)



Foi só recentemente, depois de DEER WOMAN (2005), que eu fui me interessar pela obra de John Landis. Um cara que faz um filme daqueles não deve ter uma filmografia que mereça ser desprezada. Aí aproveitei que UM ROMANCE MUITO PERIGOSO (1985) ia passar na Globo na semana passada pra gravar e rever. Tinha visto há muito tempo, nos anos 80, na primeira vez que o filme passou no Supercine.

UM ROMANCE MUITO PERIGOSO é bem prazeroso, além de ser um dos poucos títulos onde Michelle Pfeiffer aparece pelada, o que já é motivo suficiente para os tarados de plantão não desgrudarem os olhos da tela. Desde a música de abertura - com aqueles sintetizadores típicos da época - passando pelo espírito pop, até os cabelos e a maquiagem, o filme é puro anos 80.

O filme é claramente uma obra de amigos, uma curtição. A quantidade de participações especiais não nega. David Cronenberg, David Bowie, Amy Heckerling, Vera Miles, Irene Papas, Jonathan Demme, Paul Mazursky e Richard Franklin são os principais nomes que aparecem em pontas ou pequenos papéis no filme. Interessante notar que no ano seguinte, Cronenberg trabalharia com Jeff Goldblum em A MOSCA.

Na trama, Goldblum tem problemas de insônia e o seu trabalho não é dos mais animadores. Um dia, quando ele sai do trabalho no meio do expediente para dormir um pouco em casa, flagra a mulher transando com outro sujeito. À noite, não conseguindo dormir de jeito nenhum, ele pega o carro e, sem ter pra onde ir, acaba parando no aeroporto, onde encontra uma Michelle Pfeiffer em apuros, fugindo de bandidos armados. Depois é só aventura, corre-corre, troca de carros e de tiros e coisas do tipo.

A história do filme se passa em uns três dias, mas a sensação é de que tudo acontece num só noite, como naquele filme do Martin Scorsese, DEPOIS DE HORAS, que curiosamente é do mesmo ano. Engraçado que esses filmes, meio "Alice in Wonderland", costumam me cansar lá pela metade, não sei porque. Acho que porque se assemelham a uma dose de bebida alcoólica. No começo vem a euforia, depois o enfado. E como eu sou de beber pouco...

P.S.: Tem coluna nova no ar no Cinema com Rapadura. Eu falo um pouco sobre o Oscar desse ano.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

PONTO FINAL - MATCH POINT (Match Point)



Faz mais de quinze anos que Woody Allen é um dos meus cineastas preferidos. Pessoas que se consideram um pouco neuróticas ou que têm problemas em adotar uma vida saudável e "normal" tendem a amar os filmes de Allen. Mesmo quando o diretor se repete ele agrada. Eu, por exemplo, não consigo evitar o sorriso no rosto sempre que me sento na sala escura para assistir um novo filme dele - graças a Deus, todo ano ele vem com um filme novo. A tela preta com os letreiros brancos ao som do jazz traz uma familiaridade, uma sensação de estar num ambiente seguro: o mundo de Woody Allen. Às vezes os créditos de abertura me provocam uma emoção bem maior, como foi o caso de IGUAL A TUDO NA VIDA (2003), que abriu com "Easy to Love", do Cole Porter, cantada pela Billie Holiday.

A diferença que chama a atenção logo no início de PONTO FINAL - MATCH POINT (2005) é a substituição do jazz pela ópera, dando um ar mais grave, mais solene ao filme. Mas essa não é a única coisa diferente em MATCH POINT. Woody Allen surpreende ao inovar, entrando no território do drama dostoievskiano e do suspense hitchcockiano. O mais próximo que ele havia chegado desse território fora com o amargo CRIMES E PECADOS (1989). No novo filme, o tom é ainda mais amargo, já que não tem que dividir terreno com a comédia, embora haja momentos próximos do humor, como na cena em que a esposa de Chris (Jonathan Rhys-Meyers) observa a temperatura com o objetivo de checar se está apta para engravidar.

Outra diferença evidente é a mudança na geografia. Allen deixa um pouco a sua amada Manhattan para fazer um filme em Londres. A fotografia, dessa vez a cargo de Remi Adefarasin (de UM GRANDE GAROTO), valoriza a bela paisagem londrina, seja nos mostrando os já conhecidos pontos turísticos, seja mostrando a natureza passando pelas diferentes estações do ano. Destaque para a cena da chuva, onde Chris e Nola fazem sexo.

Allen, dessa vez, preferiu trabalhar com um elenco de desconhecidos - exceção para a americana Scarlett Johansson, no papel da sexy Nola. Inclusive, Allen gostou muito da Scarlett, já que ela está no elenco do seu novo filme, SCOOP (2006). Em MATCH POINT, ela é a mulher que vira a cabeça de Chris do avesso. Ele é um rapaz que vive dividido entre a esposa (Emily Mortimer) rica e a amante pobre. Ele fica enrolando a amante e não tem coragem de deixar a vida de luxo que a família da esposa lhe dedica.

Um dos momentos chave de MATCH POINT está no diálogo entre Chris, Lola e sua vizinha, depois do crime perpetrado por ele. Para Chris, ir preso pelo crime que cometeu seria uma prova de que existe uma justiça divina. Caso escape, ele terá que carregar até o fim de sua vida essa mancha na consciência. Para Woody Allen, tudo na vida é uma questão de sorte. Como na metáfora mostrada no início, no jogo de tênis. É uma visão bastante amarga e não comunga com o que eu penso, mas alguns dos melhores artistas, sejam eles escritores, cineastas, músicos, encontraram o seu ápice criativo na amargura, na acidez, no pessimismo. Com Woody Allen não foi diferente.
JOHNNY E JUNE (Walk the Line)



O que dizer sobre JOHNNY E JUNE (2005)? O filme é bastante agradável, fala de um cantor cultuado e com uma história de vida bastante interessante - regada a muito álcool e pílulas - e foca a atenção principalmente na relação dele com a cantora June Carter. Mas é um filme apenas correto, exatamente como RAY, outra cinebiografia de um cantor famoso que chegou às nossas telas no ano passado. Assim como o filme sobre Ray Charles, JOHHNY E JUNE é também dirigido por um cineasta competente mas que não possui uma marca autoral ou uma filmografia mais regular ou consistente: James Mangold. Se bem que eu gosto pra caramba de IDENTIDADE (2003), um ótimo filme de terror/suspense. E COP LAND (1997) também é interessante.

Para os fãs de Johnny Cash, JOHNNY E JUNE é obrigatório, apesar de alguns pequenos problemas. A relação com o pai (Robert Patrick), por exemplo, não é muito convincente. O velho é sempre mostrado da mesma maneira, tratando mal Johnny e preferindo sempre o filho mais velho, que morre no início do filme. O pai de Johnny é quase o oposto do pai de 2 FILHOS DE FRANCISCO, uma cinebiografia de artistas que eu considero bem melhor resolvida que as citadas produções gringas. O trauma da morte do irmão de Cash é um dos pontos fortes do filme, assim como os contatos com os astros de rock da época (Elvis Presley, Jerry Lee Lewis).

Mas o grande momento de JOHNNY E JUNE é mesmo o show que ele faz na prisão Folsom. Tanto que, depois que o filme começa, mostrando Cash na prisão, momentos antes do show para os presidiários, e depois volta no tempo para a infância do cantor, eu fiquei logo impaciente. Queria ver logo a cena da prisão. Desde que ouvi o disco "Johnny Cash at Folsom Prison" que eu fiquei curioso pra saber mais sobre aquele dia, ver com meus próprios olhos a reação dos detentos à música de Cash, que tratava de pessoas marginalizadas. O disco, gravado ao vivo em 1968, é um dos mais populares do cantor.

JOHNNY E JUNE também pode ser visto como um filme de ator (Joaquin Phoenix) e de atriz (Reese Witherspoon). Phoenix e Reese são dois jovens talentos no auge de suas carreiras. Reese está adorável no papel de June, e Phoenix, quando solta a voz, parece até que o espírito de Johnny Cash baixa nele. Este é mais um exemplo de filme onde forças sobrenaturais parecem atuar na performance dos atores. O mesmo havia acontecido antes com James Foxx em RAY e com Val Kilmer em THE DOORS. Mas acreditar nisso seria duvidar da capacidade dos grandes atores que o cinema americano possui.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

MASTERS OF HORROR: HAECKEL'S TALE



E chega ao fim a primeira temporada de MASTERS OF HORROR, essa maravilhosa antologia que trouxe algumas obras-primas e outros filmes menores mas ainda assim bastante agradáveis aos olhos dos fãs do horror. Alguns desses títulos acabaram se firmando como pontos altos nas filmografias de seus diretores. Infelizmente, ficou pendente o censurado IMPRINT, de Takashi Miike, aguardando que seja lançado em DVD e, posteriormente, compartilhado na rede.

HAECKEL'S TALE (2006), de John McNaughton, encerrou muito bem a primeira temporada da série. Acabei me surpreendendo positivamente. McNaughton não é bem um mestre do horror. Sua única contribuição de verdade para o gênero havia sido o ótimo HENRY - RETRATO DE UM ASSASSINO (1986), o filme que alavancou sua carreira. Depois desse filme, ele dirigiu um misto de comédia com ficção científica, o pouco visto AMEAÇA DO ESPAÇO (1991). Posteriormente, McNaughton acabou trilhando caminhos diversos.

HAECKEL'S TALE é um filme que se passa nos EUA do século XIX. No começo, o filme lembra bastante "Frankenstein", por conta da obsessão do personagem principal (Haeckel) em tentar reviver os mortos. Suas tentativas foram frustradas e ele fica sabendo de um necromancer, um velho que é capaz de reviver os mortos através da magia. Como um homem de ciência que é, Haeckel, por curiosidade, vai ver uma das exibições do tal velho, que reanima um cachorro morto. Ainda duvidando do feitiço do velho, Haeckel depois fica sabendo que seu pai está muito doente. No caminho para a casa do pai, enquanto procura se abrigar da chuva, ele recebe o convite de um homem para ficar em sua casa até o amanhecer. É a partir daí que o filme vai deixar de parecer com "Frankenstein" e lembrar os filmes de zumbis de George Romero, acrescidos de cenas de sexo.

O filme é bastante instigante e prende a atenção até o final, que até pode decepcionar um pouco, por conta da mudança de tom. HAECKEL'S TALE é contado num tom sério o tempo todo, para no final ficar parecendo um dos segmentos de CREEPSHOW, de George Romero. O nosso querido Romero, inclusive, aparece nos créditos como produtor executivo. Originalmente, ele seria o diretor de HAECKEL'S TALE, mas caiu fora e o filme passou para as mãos de McNaughton. Roger Corman também havia sido cotado para a direção. O filme é baseado num conto de Clive Barker, adaptado por Mick Garris.

Quanto aos possíveis diretores para a segunda temporada da série - já confirmada para o segundo semestre de 2006 -, gostaria de ver filmes assinados por George Romero, David Cronenberg, David Lynch, Michele Soavi, Wes Craven, Rob Zombie, William Lustig, Alexandre Aja, Hideo Nakata, Pang Brothers, Kiyoshi Kurosawa, Dan O'Bannon, Robert Rodriguez, Roger Corman, Guillermo Del Toro, Sam Raimi, Peter Jackson... Pelo visto, opções é que não faltam!

Pra encerrar, meu ranking final:

1. DEER WOMAN, de John Landis
2. PICK ME UP, de Larry Cohen
3. HOMECOMING, de Joe Dante
4. JENIFER, de Dario Argento
5. DREAMS IN THE WITCH HOUSE, de Stuart Gordon
6. CIGARETTE BURNS, de John Carpenter
7. HAECKEL'S TALE, de John McNaughton
8. SICK GIRL, de Lucky McKee
9. INCIDENT ON AND OFF A MOUNTAIN ROAD, de Don Coscarelli
10. CHOCOLATE, de Mick Garris
11. FAIR HAIRED CHILD, de William Malone
12. DANCE OF THE DEAD, de Tobe Hooper

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

SYRIANA - A INDÚSTRIA DO PETRÓLEO (Syriana)



Alfred Hitchcock costumava dizer que era essencial que a platéia soubesse o que estava acontecendo no filme. Só assim o suspense poderia se instalar. SYRIANA (2005) não é bem um filme de suspense, embora haja momentos de apreensão e expectativa característicos do gênero. Mas não pude deixar de pensar em Hitchcock quando eu me vi completamente perdido na trama. Cheguei a ler algumas críticas que diziam que a intenção do filme era mesmo causar uma sensação de desorientação e confusão para mostrar a complexidade da política internacional, do comércio exterior, da cultura e religião no Oriente Médio. Se a intenção de Stephen Gaghan foi mesmo essa, só tenho que lhe dar os meus parabéns.

Mesmo assim, acredito que quem tem um conhecimento maior sobre política exterior, negociações com petróleo etc. deve se sair bem melhor do que eu na tarefa de entender toda essa confusão que o filme nos apresenta. Assim como TRAFFIC (2000), filme roteirizado por Stephen Gaghan, SYRIANA se apresenta em blocos de histórias. Temos a história de George Clooney, que trabalha para a CIA como espião e tem que lidar com decepções e com a violência desse mundo, tendo, inclusive, que sofrer torturas e ameaças de morte; a história de Matt Damon, onde ele é um consultor de empresas ligadas ao mundo do petróleo que lida com uma tragédia na família; a história intrincada de Jeffrey Wright, onde ele é um advogado que encara um dilema; e finalmente, a história de Mazhar Munir, um jovem paquistanês que acaba sendo convencido que pode fazer muito mais por sua família tornando-se um homem-bomba.

Das quatro tramas do filme, as mais fáceis de entender, ainda que também bastante complexas, são as tramas de Matt Damon e de Mazhar Munir. As de Clooney e Wright me deixaram completamente perdido. Fiquei me perguntando se porque eu sou muito burro (ou muito ingênuo) para esse tipo de filme ou se o diretor errou em não saber tornar o filme um pouco mais palatável. Talvez uma montagem melhor ou uma abordagem um pouco mais didática não fosse mais interessante, até para nos ensinar. Sei que didatismo no cinema não é algo muito bem visto, mas nesse filme, confesso que senti falta disso. Foi nessa hora que eu vi que deveria mudar de hábito, deixar de ir direto para o caderno de cultura dos jornais e procurar me inteirar mais sobre política internacional, por mais chato que isso possa ser. Porém, como fã de Hitchcock que sou, culpo o diretor.

SYRIANA foi o segundo longa-metragem dirigido por Stephen Gaghan e foi indicado para os Oscars de ator coadjuvante (George Clooney) e roteiro original (do próprio diretor). O diretor de fotografia, Robert Elswit, foi indicado ao Oscar também, mas pelo filme BOA NOITE E BOA SORTE. O primeiro filme de Gaghan foi SEM PISTAS (2002), thriller com a Katie Holmes, que não cheguei a ver. Não chegou a passar nos cinemas daqui e nem foi bem recebido pela crítica.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

O FIM E O PRINCÍPIO



Já faz algumas semanas que eu vi essa maravilha de Eduardo Coutinho e se demorar a escrever a respeito, corro o risco de me esquecer do filme e das impressões que tive quando o vi.

O início de O FIM E O PRINCÍPIO (2005) tem sabor de road movie. Refiro-me àquela sensação de ansiedade, de quase euforia de se estar chegando a um lugar desconhecido e sem ter a menor idéia do que se irá fazer ou encontrar. Eduardo Coutinho viajou para o sertão da Paraíba à procura de histórias para o seu novo documentário. Ele agiu instintivamente, usando mais a intuição do que a inteligência. Assim, ele foi parar no município de São João do Rio do Peixe, mais especificamente no Sítio Araçás, uma comunidade onde viviam 86 famílias. Desse modo, seu cinema, que já é marcado pela força do acaso levou essa característica às últimas conseqüências.

Esse é talvez o filme de Coutinho em que ele aparece mais na frente das câmeras. Chegando no tal sítio, ele foi auxiliado por Rosa, uma jovem professora que traçou um mapa do lugar com as principais famílias. Assim, eles partiram para conversar com o povo. Aos poucos, Coutinho foi vendo que o seu maior interesse estava nas histórias e na visão de mundo dos idosos da região. Assim, O FIM E O PRINCÍPIO foi adquirindo esse tom amargo da expectativa da morte, da finitude da vida. Interessante que um dos entrevistados falou dos anos de vida do homem - aproximadamente 80 anos, hoje em dia - em comparação com os anos de vida de um cão ou de um cavalo. Ele contou uma história engraçada a respeito que eu não saberia relatar aqui.

Uma das maiores virtudes dos filmes de Coutinho está em valorizar o que cada um tem a dizer, por mais humilde ou analfabeto que essa pessoa seja. Cada pessoa tem um visão de mundo, uma filosofia de vida para nos ensinar. É até possível que o diretor - assim como o espectador - tenha algum julgamento sobre as crenças de alguns dos entrevistados, mas ele guarda para si. Ele diz não saber de nada, quando alguém lhe pergunta se ele acredita em Deus ou quando se fala sobre o Juízo Final. Não sabe para onde vamos quando morremos, nem em que devemos acreditar.

Dos entrevistados, o que mais me emocionou foi aquele velhinho surdo que só conseguiu se comunicar porque Rosa escreveu as perguntas num pedaço de papel. Ele falou que se sentiu tão feliz ao poder conversar com alguém naquela hora, mesmo estando com a vista ruim. A passagem de Coutinho por aquele lugar, só por esse momento, pra mim já se justificou. O velho passava o dia olhando para o horizonte, sentado numa cadeira debaixo de uma árvore, sentindo-se muito sozinho. O que será que passa(va) pela mente dele?

Quando se despediu daqueles moradores, Coutinho prometeu voltar um ano depois para apresentar o filme. O fato de o próprio diretor também ter mais de setenta anos e de ter passado por um problema de saúde no meio das filmagens talvez o tenha tornado mais sábio no que se refere a nortear melhor o seu filme e dar-lhe essa dimensão mais filosófica. Como era de se esperar, quando Coutinho retornou para exibir o seu filme na cidade, algumas dessas pessoas já haviam morrido.

P.S.: Recebi a nova Paisà. A revista está excelente, hein!

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

MASTERS OF HORROR: PICK ME UP



Estou com um monte de filmes vistos e ainda não resenhados aqui no blog. Uma dúzia, pra ser exato. Portanto, material suficiente para duas semanas, tendo inclusive os filmes "do Oscar". Mas não posso deixar de lado a antologia MASTERS OF HORROR, que se aproxima da reta final e já deixa saudade. (Ainda bem que estão falando numa segunda temporada!) E quando eu pensava que os grandes filmes já haviam acabado, eis que vejo essa maravilha dirigida por Larry Cohen.

PICK ME UP (2006) é um puta filme, um dos melhores filmes de psicopata que eu já tive o prazer de assistir. Coisa de mestre mesmo. Larry Cohen é um dos diretores mais subestimados do cinema. Até pouco tempo, por mim também. Lembro de ter assistido NASCE UM MONSTRO (1974), o seu filme mais conhecido, e não ter gostado muito. Lembro também que uma das primeiras pessoas que eu vi elogiando o trabalho de Cohen foi o Carlos Reichenbach em suas colunas. Eu só comecei a prestar atenção na genialidade de Cohen recentemente, quando vi TÃO BOM QUANTO A MORTE (1995), estrelado pela ex-porn star Traci Lords. Bom, antes tarde do que nunca.

Quanto ao novo filme, a frase da capinha do DVD poderia conter: "se um psicopata já assusta, imagine dois!". Mas o que existe de tão genial em PICK ME UP? Não é nem pelo fato de ter cenas violentas e gore - na verdade, são poucas -, mas a maestria com que Cohen orquestra o seu balé sinistro lidando com uma série de personagens que vão morrendo aos poucos à medida que encontram dois psicopatas. Tudo começa com um ônibus que quebra no meio da estrada. Um grupo aceita a carona de um caminhoneiro (Michael Moriarty); o outro grupo, não confiando no caminhoneiro, prefere ficar esperando no ônibus, com o motorista. Fairuza Balk é a jovem que prefere procurar um motel e ir a pé, não confiando em ninguém.

PICK ME UP é a quinta colaboração de Michael Moriarty nos filmes de Cohen. Ele trabalhou com o diretor em Q (1982), A COISA (1985), A ILHA DO MONSTRO (1987) e O RETORNO A SALEM'S LOT (1987). Hoje ele é mais conhecido pelo seriado LAW & ORDER. Ele dá um show como o caminhoneiro psicopata, que dá carona para suas vítimas, eclipsando o outro psicopata, o caroneiro.

Curiosamente, lendo algumas resenhas na internet, PICK ME UP, assim como o maravilhoso filme de John Landis, DEER WOMAN, não foi muito bem recebido. Assim como DEER WOMAN, o filme de Cohen é recheado de humor negro. Há até referências aos filmes anteriores de Cohen, como na cena em que Moriarty chega a dizer que já viu bebês monstro, uma referência a A ILHA DO MONSTRO. Há uma citação também ao filme A MADRASTA (1987), mas essa eu não percebi, já que não vi esse filme.

PICK ME UP é, sem dúvida, um dos melhores e mais prazeirosos filmes da série. Pra quem não costuma baixar coisas da internet, a boa notícia é que a Paris Filmes pretende trazer para o Brasil os filmes da série em DVD, já com o título MESTRES DO TERROR. Os primeiros a chegar serão PESADELO MORTAL (Cigarette Burns), de John Carpenter, e DANÇA DOS MORTOS (Dance of the Dead), de Tobe Hooper. A previsão para chegada desses títulos é para o mês de abril.

sábado, fevereiro 11, 2006

ORGULHO E PRECONCEITO (Pride and Prejudice)



Estou aqui numa lan house, no intervalo entre as sessões de ORGULHO E PRECONCEITO (2005) e JOHNNY E JUNE. Como ainda tenho uma hora, e como meu computador deu pau, vou tentar arriscar um texto meio rasteiro sobre ORGULHO E PRECONCEITO, esse belo filme que me deixou constrangido quando as luzes do cinema se acenderam, mal dando tempo de eu enxugar as lágrimas. Tive uma reação semelhante a quando eu assisti RAZÃO E SENSIBILIDADE, de Ang Lee, alguns anos atrás. Se tivesse que comparar os dois filmes, teria dificuldade de dizer qual dos dois eu gostei mais.

Joe Wright, o diretor, deu impressão de ser um veterano, tal a segurança que eu senti durante o filme inteiro. No entanto, este é o seu primeiro longa-metragem para cinema. Antes, ele havia trabalhado apenas em mini-séries para a televisão inglesa. Eu me encantei especialmente com as cenas no baile, com aqueles travelings maravilhosos, com a música e com a dança, tão alegre que dá vontade de viver na Inglaterra vitoriana. Muito divertido ver as mulheres desesperadas para arranjar marido. O universo de Jane Austen lida com pessoas cheias de paixão, mas que têm que lidar com convenções sociais e com suas próprias dúvidas. Engraçado, eu achava que Keira Knightley era americana. Mas não. Ela é inglesa. E ela caiu como uma luva para a personagem Elizabeth Bennet, mais velha das cinco filhas da família Bennet. A fotografia do filme destaca muito bem sua beleza. Em especial, naquela cena perto do final, quando o dia está amanhecendo.

Matthew Macfadyen, até então desconhecido, pode ser que alcance o estrelato com esse papel. Ele faz o par romântico de Keira, Mr. Darcy, um sujeito aparentemente antipático - e no começo ele é mesmo - que esconde sua verdadeira persona. ORGULHO E PRECONCEITO é um filme sobre personas, isto é, um filme sobre máscaras, sobre o que aparenta ser. Jane (Rosamund Pike), a irmã de Elizabeth, parece não estar apaixonada por Mr. Bingley. Assim como todo mundo achava que Elizabeth não amava Mr. Darcy. Só a Judi Dench é que não engana ninguém e seu jeito antipático ficou perfeito para a personagem.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

GAROTAS DO ABC (AURÉLIA SCHWARZENEGA)



Tive a oportunidade de ler o roteiro de AURÉLIA SCHWARZENEGA - na época, o filme ainda não havia sido rebatizado de GAROTAS DO ABC (2003) - por intermédio das colunas que Carlos Reichebach escrevia para o site Cineclick. Imprimi imediatamente o roteiro - feito pelo próprio Carlão em parceria com Fernando Bonassi -, mandei encadernar, e li com prazer, já imaginando como ficaria o filme depois de pronto. Já imaginava na minha cabeça como seria o striptease às avessas de Michelle Valle e a performance de Selton Mello, como o neonazista Salesiano de Carvalho. Eis que o filme estréia em São Paulo, passa pouco tempo em cartaz, recebe algumas críticas negativas, outras positivas, mas nada de chegar em Fortaleza. Foi mais fácil o próprio Reichenbach vir pessoalmente a Fortaleza por ocasião do Cine Ceará do que o filme chegar às telas cearenses. Se não tivesse sido lançado em DVD, nem sei como teria conseguido ver.

O bom de tudo isso é que o DVD lançado pela Europa está maravilhoso. Poder ver o filme com o comentário em áudio do Carlão é algo que não tem preço. É como se a gente estivesse vendo o filme ao lado dele, com o cineasta nos explicando detalhes da produção: as homenagens a alguns de seus diretores preferidos (Fritz Lang, Lucio Fulci, Sam Peckinpah, Yasujiro Ozu); as pontas de colegas de listas de discussão, como Eduardo Aguilar e André Kapel, que trabalharam como assistente de direção e maquiador de efeitos especiais, respectivamente; as músicas que influenciaram Nélson Ayres para a composição da trilha sonora; outros detalhes, como a timidez de Michelle Valle nas cenas de sexo, a garrafa importada para não machucar a cabeça dos atores nas cenas de briga, a primeira tomada do filme etc. Vendo o making of de quase meia-hora presente no DVD é possível ver a trabalheira que foi fazer as cenas que se passam no Clube Democrático. Tanta gente envolvida, tanto figurante, tanto personagem, e a câmera dá conta de tudo isso com uma fluidez espetacular. Coisa de mestre aquela cena dos vários personagens se revezando pela lente da câmera.

GAROTAS DO ABC não é um filme redondo, é verdade, mas que se fodam os filmes redondos. O filme do Carlão respira amor pelo cinema em toda a sua metragem. O fato de o filme ter alguns problemas, de ser um pouco "cinema imperfeito", faz parte do seu charme. Os maiores problemas do filme se devem principalmente ao elenco jovem e pouco experiente. Não gostei, por exemplo, do Fernando Pavão, o ator que faz o namorado da Aurélia. Os atores jovens nem sempre conseguem ser tão bons quanto veteranos como Adriano Stuart, Ênio Gonçalves, Antônio Pitanga e Vera Mancini. Essa última, aliás, está excelente. Sua personagem, a Sofia, a velha bêbada, é maravilhosa. Rouba a cena cada vez que aparece. Sorte do elenco masculino, que tinha ela ali de lado nas cenas do bilhar. As cenas em que Vera contracena com Selton Mello, um xingando o outro, são de dar boas gargalhadas.

Falando no elenco masculino, lembrei agora das cenas nas pedreiras, daquele espetacular travelling circular, daquele M em homenagem à obra-prima de Fritz Lang, que se transforma na letra grega "sigma". Posso ter sido um dos muitos que não entenderam o significado do "sigma", que o Carlão, muito gentilmente, trata de explicar nos comentários em áudio. Mesmo sem eu ter entendido, mesmo sendo um pouco ignorante na história política brasileira, senti um grande prazer estético nessa cena assim mesmo. Afinal, sou fã de Buñuel, de Lynch, de 2001 do Kubrick! Não preciso entender racionalmente os filmes para gostar deles.

Quanto às garotas do ABC, minha preferida é a Luciele di Camargo, que faz o papel da Suzana, a menina que vive se machucando nas máquinas da fábrica. Se eu fosse escolher uma delas para um segundo filme, seria a Luciele. Gostei desse aspecto do sacrifício dela, do amor pelo patrão, de não deixar ninguém tocar-lhe os seios. Imagina isso num filme. Já imagino a cena de alguém lhe tocando os seios, de como isso seria especial. Mas, ao que parece, o mais provável é que seja feito primeiro um filme sobre a "Lucineide Falsa Loira", interpretada pela Fernanda Carvalho Leite, que, aliás, esteve muito bem no filme seguinte do Carlão, BENS CONFISCADOS (2004).

Um detalhe que eu senti em GAROTAS DO ABC foi uma certa sensação de que ele se passa nos anos 70, embora, se eu não me engano, ele seja contemporâneo. Ficam no ar algumas coisas um pouco antigas como os boleros no Clube Democrático, a black music setentista, o fusca amarelo do jornalista, o papo político em mesa de bar (comunismo, anarquismo). Deixa no ar um sensação de anacronismo, sensação semelhante a que eu tive quando vi PULP FICTION, do Tarantino.

Uma beleza também é o curta-metragem EQUILÍBRIO E GRAÇA (2002), que vem nos extras do DVD. O curta foi realizado graças a um projeto da Petrobrás. O filme, de 10 minutos, é uma pequena mostra da maestria do diretor de fotografia Jacob Solitrenick em trabalhar com a luz. Acredito que seja um filme que mereça ser visto mais de duas vezes para ser melhor apreciado. O curta fala de equilíbrio espiritual, mostrando o encontro entre o pensador católico Thomas Merton e o introdutor do zen budismo no ocidente T.D. Suzuki. A bailarina nua que aparece nesse curta é Luciana Brittes. Foi ela quem trabalhou com Michelle Valle na cena do striptease ao contrário de GAROTAS DO ABC, a fim de dar maior graciosidade à dança de Aurélia.

No livro "Carlos Reichenbach", da Coleção Aplauso, Marcelo Lyra nos fala um pouco sobre alguns dos próximos projetos do diretor. Além de LUCINEIDE FALSA LOIRA, é possível que O SOL VAI EXPLODIR ainda aconteça. Em seu blog , ele pouco tem falado dos seus projetos. Não sei se eles estão sendo encaminhados. Os outros dois projetos dele se chamam ORIENTE e O AMIGO CATÓLICO, que, pelo título, bem que poderia ser estrelado pelo Aguilar.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

LA BÊTE



Na última sexta-feira morreu o diretor polonês Walerian Borowczyk, famoso por seus filmes eróticos, em especial CONTOS IMORAIS (1974) e LA BÊTE (1975). Antes de se tornar famoso por esses filmes, Borowczyk havia feito algumas experimentações com o cinema de animação. Depois que a Polônia passou a adotar uma ditadura comunista, o diretor partiu para a França e foi lá que ele se tornou o mundialmente famoso mestre do erotismo no cinema. Seu erotismo se aproximava da pornografia, mas era dotado de um original senso de humor e um gosto pela música clássica. Não cheguei a ver CONTOS IMORAIS, dizem, o seu filme mais próximo do sexo explícito, mas pude rever nessa semana LA BÊTE, depois de saber da morte de Borowczyk.

Havia visto o filme há mais de dez anos numa antiga cópia em VHS lançada pela Sagres. Dessa vez, pude revê-lo numa cópia em divx em bem melhor estado, em widescreen, graças ao amigo Davi Pinheiro. (Esse DVD com vários filmes que ele me mandou ainda vai render muito.) Lembro que quase na mesma época eu vi SEDUZIDA PELO HORROR (1990), de Charles Band, com a Sherilyn Fenn no auge da beleza - mesmo ano de TWIN PEAKS. Ambos os filmes são uma espécie de atualização erótica de "A Bela e a Fera".

O filme de Borowczyk já começa mostrando dois cavalos copulando. A câmera mostra closes do gigantesco pênis do animal ejaculando e da genitália da égua latejando. E ejaculação é o que não falta no filme nas cenas de sonho da protagonista, a jovem americana interpretada pela bela dinamarquesa Lisbeth Hummel. Nesse sonho, ela vê uma ancestral da família (Sirpa Lane) fazendo sexo com uma criatura parecida com um macaco e dotada de um pênis enorme. O tal monstrengo deve ter gozado umas dez vezes. Tanto que acaba morrendo por causa de seu insaciável apetite sexual. As cenas são engraçadas, principalmente por causa do monstro, meio tosco e com um sorriso meio bobo no rosto. O melhor do erotismo no filme se deve aos momentos em que Lisbeth Hummel aparece de vestido transparente, antecipando a já famosa cena de masturbação com uma rosa.

Na trama, ela se muda para a França com a finalidade de se casar com o desengonçado Mathurin (Pierre Benedetti). Eles haviam ficado noivos por correspondência e o casamento tinha como objetivo o soerguimento da família de Mathurin, que estava com sérios problemas financeiros. O pai de Mathurin tenta a todo custo conseguir que o filho seja batizado. Por alguma razão, só conhecida no final do filme, ele não havia sido batizado quando criança.

Dizem que depois de LA BÊTE Borowczyk não fez mais filmes tão bons. Talvez pela falta de qualidade, seus trabalhos da década de 80 acabaram se tornando mais obscuros do que os dos anos 70, exceto talvez EMMANUELLE V (1987), projeto cuja direção foi dividida com outros cineastas.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (Memoirs of a Geisha)



Quando soube que a direção de MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA (2005) estava a cargo de Rob Marshall, diretor do repugnante CHICAGO (2002), eu logo imaginei que o filme seria mais uma experiência desagradável. Infelizmente, minhas suspeitas estavam corretas e MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA é um dos filmes que mais me fizeram olhar para o relógio e torcer para que essa novelona de quinta categoria acabasse logo - 145 minutos é fogo. De primeira categoria tem o elenco e a parte técnica (fotografia, direção de arte, figurino, trilha sonora de John Williams etc), mas não é isso que faz um grande filme.

Hollywood mostra que para os americanos, da mesma forma que eles confundem a Argentina com o Brasil, pra eles japonês e chinês é tudo igual. Se bem que eu também não sei direito reconhecer de cara a diferença entre as duas nacionalidades, mas acredito que isso deva irritar um pouco o povo oriental. MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA traz no mesmo barco os astros orientais mais famosos da atualidade: Zhang Ziyi, Gong Li, Michelle Yeoh e Ken Watanabe, duas chinesas, uma malásia (Yeoh) e um japonês.

O filme acompanha a vida de Sayuri desde a infância. Ela é vendida pelos pais a uma casa de gueixas e quando cresce (já interpretada por Zhang Ziyi) ela se torna a mulher mais desejada de Kyoto. As coisas mudam quando explode a guerra no Japão e o país se vê destruído e tendo que aceitar a ajuda dos seus inimigos, os americanos. A história de amor, entre Zhang Ziyi e Watanabe, como não poderia ser diferente, também é muito boba. Eis um forte candidato a pior filme do ano.

MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA recebeu seis indicações ao Oscar, todas técnicas: fotografia, direção de arte, figurino, trilha sonora, som e edição de som.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

WOLF CREEK - VIAGEM AO INFERNO (Wolf Creek)



WOLF CREEK (2005), de Greg McLean, é filme que se assiste com o coração na boca, batendo forte entre os dentes. O filme me fez pensar sobre o quanto o terror e o suspense conseguem mexer com a gente de uma maneira mais física do que qualquer outro gênero. Há grandes chances que esse seja o grande filme de terror do ano. E o legal é que WOLF CREEK foi feito de uma maneira bem simples e econômica, fortemente influenciado pelo horror setentista de filmes como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA e QUADRILHA DE SÁDICOS. Impressionante como tem surgido títulos inspirados nesse terror rural. E quem achava que os caipiras americanos eram esquisitos, precisa conhecer os australianos.

O filme é claramente dividido em duas partes, separadas por uma relativamente demorada tela preta. A primeira parte parece um documentário, com a imagem meio granulada, "documentando" a viagem de carro que um rapaz e duas moças fazem para Wolf Creek, o lugar que possui a maior cratera produzida por um meteorito no mundo. Desde o início, por mais que haja alguns momentos de alívio, causados pelo próprio subgênero road movie, o clima é de tensão. Afinal, sabemos que que aquela viagem vai acabar em tragédia. O que mais passava pela minha cabeça era a pergunta: qual dos três vai morrer primeiro? Os três atores são muito bons, lembrando o elenco de A BRUXA DE BLAIR, e o caipira australiano que oferece carona aos três consegue ser mesmo odioso.

O ideal é ver WOLF CREEK sem saber nada da história. Claro que quem não aprecia o gênero corre o risco de odiar o filme, mas, em geral, os fãs do cinema de horror têm adorado. Apesar das semelhanças com os filmes americanos citados, WOLF CREEK tem um diferencial e traz algumas surpresas até o final. É um filme bastante cruel para com seus personagens e a história é baseada num fato real. O filme já começa com uma estimativa do número de pessoas desaparecidas na Austrália. Várias delas nunca são encontradas. Acho que no dia que eu for pra Austrália, não vou sair de Sydney.

P.S.1: Coluna nova no Cinema com Rapadura. Dessa vez, aproveitando o hype em torno de O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, listei dez filmes que abordam a problemática homossexual. Eu juro que a idéia de colocar foto de homem pelado não foi minha, mas da direção do site. Não que haja algo de errado com isso.

P.S.2: Vale a pena dar uma conferida no belo trabalho que o Chico anda fazendo na Liga dos Blogues Cinematográficos. Ontem foi o dia do anúncio dos indicados ao Alfred. Eu fui um dos cinco convidados para escrever um breve texto sobre os indicados a melhor filme do ano.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

BOA NOITE E BOA SORTE (Good Night, and Good Luck.)



Acho que nessa semana houve um recorde de estréias em Fortaleza. Foram nove filmes estreando além de mais duas pré-estréias, fato que fez com que eu chegasse a ver cinco filmes no cinema num único fim de semana. Alguns desses são os indicados ao Oscar que costumam pipocar nos meses de fevereiro. E esse ano até que eles estão chegando mais cedo. Dos cinco indicados à categoria principal, fica faltando chegar apenas CAPOTE. CRASH já passou no ano passado, mas acredito que ele deva voltar a ser exibido nos cinemas. Não que eu faça questão de rever. Falemos de BOA NOITE E BOA SORTE (2005), segundo longa-metragem dirigido por George Clooney.

O filme é entretenimento reflexivo e crítico para adultos que tenham um mínimo de conhecimento sobre o que foi o macarthismo. De início, o filme me deixou um pouco desorientado e até um pouco impaciente, querendo que tudo acabasse logo, mas depois eu comecei a me interessar mais pelo tema e pelo drama dos personagens. As imagens documentadas de Joseph McCarthy e sua caça às bruxas combinaram muito bem com a belíssima fotografia em preto e branco de Robert Elswit, que desde já é um rival à altura para Janusz Kaminski (MUNIQUE). Clooney foi muito feliz ao fazer esse mix das imagens reais dos inquéritos aterrorizantes do senador McCarthy com a dramatização da rotina estressante dos jornalistas da CBS, que ousaram peitar e questionar os métodos do senador.

Quanto ao elenco, a grande revelação é David Strathairn, que interpreta Edward R. Murrow, o âncora do programa "See It Now". Murrow e os homens por trás do "See It Now" foram essenciais para a queda de McCarthy. Ele sempre terminava o programa com um cigarro na mão, e com os dizeres "Good night. And good luck.", deixando no ar um clima de pesar. Por falar em cigarro, impressionante como se fumava naquela época. Além de o apresentador dos programas aparecerem com um cigarro na mão, alguns ainda faziam propaganda de marcas de cigarro.

BOA NOITE E BOA SORTE é mais um filme a engrossar as fileiras dos opositores ao governo de George W. Bush. A semelhança existente entre as mentiras e o terror de Joseph McCarthy e Bush são evidentes e propositais.

sábado, fevereiro 04, 2006

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (Brokeback Mountain)



Algumas das melhores histórias de amor são aquelas que mostram um casal sofrendo pela impossibilidade de estarem juntos. Além dos casos clássicos, tipo Romeu e Julieta, temos no cinema um exemplo bastante curioso, que é o de O FEITIÇO DE ÁQUILA, filme que mostrava duas pessoas que se amam, mas que nunca podiam estar juntas. Pelo menos, não da maneira que gostariam. Em O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN (2005), os amantes ao menos podiam se ver algumas vezes no ano. É pouco pra quem se ama, que quer estar junto todos os dias e até que a morte os separe, mas já é alguma coisa. Mesmo assim, eu ficava me perguntando o tempo todo: por que diabos eles não vão morar em San Francisco? Afinal, a história se passa nos anos 1960-70 e já havia algumas cidades americanas que aceitavam melhor os homossexuais. Mas as coisas não são tão fáceis assim. O que ajuda a diminuir um pouco o clima de sofrimento talvez seja a bela paisagem das montanhas do oeste americano. Quase dá pra respirar aquele ar puro. Destaque para a cena do amanhecer, depois da noite de amor dos dois rapazes na barraca.

Não foi a primeira vez que Ang Lee dirigiu um filme abordando o problema dos homossexuais na sociedade. Ele já havia realizado BANQUETE DE CASAMENTO (1993), que mostrava um rapaz gay que arranjava um casamento de conveniência apenas para agradar/enganar sua família. Em BANQUETE DE CASAMENTO, Lee preferiu fazer uma comédia. Em O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, o tom agora é outro: o filme é um melodrama. Mas não um melodrama carregado nas tintas, como os mais convencionais. Os sentimentos dos personagens são, obviamente, arrebatadores, mas Ang Lee faz um cinema mais sutil. Não é um filme para se ir com um pacote de lenços no bolso, embora eu ache a cena final bastante tocante. Ainda por cima, auxiliada pela belíssima música do argentino Gustavo Santaolalla, de 21 GRAMAS. Curiosamente, o diretor de fotografia do filme, o mexicano Rodrigo Prieto, também foi o responsável pela fotografia de 21 GRAMAS.

Heath Ledger e Jake Gyllenhaal estão, muito provavelmente, no melhor papel de suas vidas. Principalmente Ledger, que não havia feito nenhum papel tão importante antes. O mesmo pode-se dizer de Michelle Williams, jovem que despontou na série DAWSON'S CREEK, e que, na vida real, é noiva de Ledger. Os dois têm, juntos, uma filha.

O que é motivo de comemoração é que nesse ano o Oscar está mais adulto, mais político e discutindo temas polêmicos. Os cinco candidatos ao prêmio principal têm essa característica. O espectador só tem a ganhar com isso. E O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN é mais um passo rumo ao fim do preconceito contra os homossexuais. E o mais curioso é que isso esteja acontecendo em plena era Bush.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

PULSE (Kaïro)



Difícil falar de um filme que me deixou tão confuso que tenho dificuldade até de elaborar perguntas. Mas, ao mesmo tempo, também é difícil não ficar fascinado com PULSE (2001), de Kiyoshi Kurosawa. Especialmente quando se é fã de David Lynch. A semelhança com o cinema de Lynch surge desde o começo, quando vemos uma das protagonistas entrar em estado de desespero porque seu colega de trabalho, de posse de um disquete, ainda não havia chegado. O medo do desconhecido, a sensação de que algo terrível está acontecendo, a atmosfera surrealista no ar, isso remete a filmes como RABBITS e CIDADE DOS SONHOS. Já as cenas que mostram as fábricas abandonadas lembram ERASERHEAD. Mas Kurosawa tem um estilo próprio e, apesar de também guardar semelhanças com cineastas mais populares como Hideo Nakata e Takashi Shimizu, seja pela ligação com a tecnologia, seja pela aparição de fantasmas, seu filme transcende o gênero horror.

O tema central de PULSE é a solidão nas grandes cidades no mundo contemporâneo, nesses tempos de internet, em que as pessoas ficam cada vez mais dentro de suas próprias casas, conversando mais com os amigos virtuais. O filme, desde o início, traz um perturbador clima de melancolia, que só aumenta com a triste música tema. Filme de terror que aborda solidão, a gente pôde ver recentemente ÁGUA NEGRA, do Walter Salles. Nesse quesito, o filme de Kurosawa dá de dez no do Waltinho.

Na trama, um jovem que havia saído com um disquete contendo um software é encontrado morto em sua casa. Sua morte repercute na vida de seus colegas de maneira assustadora. Ao mesmo tempo, outro rapaz conecta-se à internet e seu computador liga-se sozinho a um "Quarto Proibido", website onde se vêem pessoas sozinhas e se comportando de maneira estranha. O rapaz fica perturbado, principalmente quando vê na tela de seu computador a pergunta "gostaria de conhecer um fantasma?". Ele pede auxílio a uma moça, que parece bem interessada no caso. Enquanto isso, aos poucos, a população de Tóquio vai desaparecendo, virando literalmente poeira.

Durante vários momentos, eu fiquei me perguntando o que diabos estaria acontecendo. Fiquei na dúvida entre me deixar levar pelo filme sem me preocupar com o roteiro ou procurar entender racionalmente a lógica do filme. Alguns momentos de PULSE encantam. Como aquele do casal de amigos tentando fugir da cidade e vendo-se completamente sozinhos no metrô. Ou aquele em que vemos uma mulher saltando de cima de um prédio a fim de se suicidar. Ou quando aparece um avião caindo do céu, provavelmente porque o piloto teria desaparecido.

À medida que PULSE se aproxima do final, ele vai adquirindo um clima cada vez mais onírico e complicado de se entender. Meu consolo é que eu posso não ter entendido direito o filme, mas algumas de suas imagens certamente vão ficar em minha mente durante muito tempo. E também vou, a partir de agora, olhar de forma diferente para manchas pretas em paredes.

Agradecimentos a Davi Pinheiro, que foi quem me forneceu a cópia em divx do filme e a apreciadores do cinema de Kurosawa, como Eduardo Aguilar e Leandro Caraça, que me instigaram a ver os filmes do homem.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

MASTERS OF HORROR: SICK GIRL



Como um dos dois filmes que eu pretendia comentar hoje necessitariam de um pouco mais de leitura da minha parte, vou tentar ser objetivo e não passar o dia sem escrever nada para o blog. Falarei, então, de mais um título da antologia MASTERS OF HORROR. Ontem assisti SICK GIRL (2006), de Lucky McKee, cineasta novato que aqui no Brasil teve o seu filme de estréia MAY - OBSESSÃO ASSASSINA (2002) lançado diretamente em vídeo. MAY, inclusive, foi um dos primeiros filmes que eu vi na telinha do meu computador. Por isso que a relação que eu tenho com o cinema de McKee está bem ligada a essa nova onda de baixar filmes da internet. Tanto é que o segundo filme que eu vejo dele, SICK GIRL, também foi via computador. Assim como o filme de estréia de McKee, SICK GIRL é protagonizado por sua musa Angela Bettis, presente também - ainda que só com a voz - no novo longa-metragem de McKee, THE WOODS (2006).

Em SICK GIRL, Angela também é um pouco freak. Não dessas com potencial de psicopata como em MAY, mas uma moça que adora insetos - estuda e coleciona vários - e também tem preferência sexual por mulheres. Inclusive, esse segundo detalhe é animador, já que o filme apresenta cenas de mulheres se beijando, o que sempre é algo agradável e excitante de se ver. Em SICK GIRL, Angela Bettis é uma cientista que recebe um pacote vindo do Brasil contendo um estranho inseto, grande e bastante agressivo. Ao mesmo tempo, ela começa a paquerar uma bela menina (Misty Mundae) e as duas acabam se envolvendo sexualmente.

Curioso como sou, fui pesquisar no IMDB a filmografia dessa garota. Apesar da idade, ela tem um currículo bastante extenso de filmes de terror B. Aparentemente ela é cultuada no circuito underground, já que existem filmes com os nomes THE EROTIC DIARY OF MISTY MUNDAY (2004) e THE SEDUCTION OF MISTY MUNDAY (2004). Ter o próprio nome em títulos de filmes é pra quem já tem uma certa fama. Essa menina chega a eclipsar Angela Bettis. Gostei dela e gostaria de ver uns desses filmes baratos de vampiros, múmias e mulher pelada que ela tanto fez.

Mas voltando a SICK GIRL, é o tipo de filme que muita gente vai dizer que é trash, por não se levar a sério e por não ser exatamente caprichado nos efeitos especiais. Os efeitos são mesmo bem toscos, na verdade. Mas como o senso de humor do filme é uma de suas maiores qualidades - o final é muito legal - nem os efeitos toscos tiram SICK GIRL do saldo positivo.

P.S.: Quem ficou interessado na Misty Munday, tem um site oficial com galeria de fotos da moça.