quinta-feira, fevereiro 02, 2006

PULSE (Kaïro)



Difícil falar de um filme que me deixou tão confuso que tenho dificuldade até de elaborar perguntas. Mas, ao mesmo tempo, também é difícil não ficar fascinado com PULSE (2001), de Kiyoshi Kurosawa. Especialmente quando se é fã de David Lynch. A semelhança com o cinema de Lynch surge desde o começo, quando vemos uma das protagonistas entrar em estado de desespero porque seu colega de trabalho, de posse de um disquete, ainda não havia chegado. O medo do desconhecido, a sensação de que algo terrível está acontecendo, a atmosfera surrealista no ar, isso remete a filmes como RABBITS e CIDADE DOS SONHOS. Já as cenas que mostram as fábricas abandonadas lembram ERASERHEAD. Mas Kurosawa tem um estilo próprio e, apesar de também guardar semelhanças com cineastas mais populares como Hideo Nakata e Takashi Shimizu, seja pela ligação com a tecnologia, seja pela aparição de fantasmas, seu filme transcende o gênero horror.

O tema central de PULSE é a solidão nas grandes cidades no mundo contemporâneo, nesses tempos de internet, em que as pessoas ficam cada vez mais dentro de suas próprias casas, conversando mais com os amigos virtuais. O filme, desde o início, traz um perturbador clima de melancolia, que só aumenta com a triste música tema. Filme de terror que aborda solidão, a gente pôde ver recentemente ÁGUA NEGRA, do Walter Salles. Nesse quesito, o filme de Kurosawa dá de dez no do Waltinho.

Na trama, um jovem que havia saído com um disquete contendo um software é encontrado morto em sua casa. Sua morte repercute na vida de seus colegas de maneira assustadora. Ao mesmo tempo, outro rapaz conecta-se à internet e seu computador liga-se sozinho a um "Quarto Proibido", website onde se vêem pessoas sozinhas e se comportando de maneira estranha. O rapaz fica perturbado, principalmente quando vê na tela de seu computador a pergunta "gostaria de conhecer um fantasma?". Ele pede auxílio a uma moça, que parece bem interessada no caso. Enquanto isso, aos poucos, a população de Tóquio vai desaparecendo, virando literalmente poeira.

Durante vários momentos, eu fiquei me perguntando o que diabos estaria acontecendo. Fiquei na dúvida entre me deixar levar pelo filme sem me preocupar com o roteiro ou procurar entender racionalmente a lógica do filme. Alguns momentos de PULSE encantam. Como aquele do casal de amigos tentando fugir da cidade e vendo-se completamente sozinhos no metrô. Ou aquele em que vemos uma mulher saltando de cima de um prédio a fim de se suicidar. Ou quando aparece um avião caindo do céu, provavelmente porque o piloto teria desaparecido.

À medida que PULSE se aproxima do final, ele vai adquirindo um clima cada vez mais onírico e complicado de se entender. Meu consolo é que eu posso não ter entendido direito o filme, mas algumas de suas imagens certamente vão ficar em minha mente durante muito tempo. E também vou, a partir de agora, olhar de forma diferente para manchas pretas em paredes.

Agradecimentos a Davi Pinheiro, que foi quem me forneceu a cópia em divx do filme e a apreciadores do cinema de Kurosawa, como Eduardo Aguilar e Leandro Caraça, que me instigaram a ver os filmes do homem.

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