quinta-feira, fevereiro 23, 2006

GODARD EM TRÊS CURTAS



Minha relação com Jean-Luc Godard, ao menos com os poucos filmes que vi dele, é mais de respeito mesmo. Não é um cineasta que me conquistou da mesma forma que outros conterrâneos seus da Nouvelle Vague, como Truffaut, Rohmer, Rivette ou Chabrol. Mesmo assim, sempre tive vontade de conhecer mais seus filmes, estudar sua obra, procurar entender o contexto de suas brincadeiras estilísticas e políticas. Aliás, brincadeira é uma palavra que eu acho que combina com os filmes de Godard. Ao menos com os seus primeiros trabalhos, os únicos que eu conheci até o momento.

A partir desse post, inicio a minha peregrinação pelos filmes do cineasta, graças a uns DVDs contendo vários filmes dele que veio parar em minhas mãos. Já adianto que eu sou leigo em sua obra e não nego que seu hermetismo me assusta um pouco. Portanto, vou acabar falando algumas bobagens por aqui. Mas como sou cinéfilo corajoso e o cinema é um campo de batalha, como disse Samuel Fuller num dos mais famosos filmes de Godard, estou aí pra enfrentar o "bom combate", pra usar agora as palavras do apóstolo Paulo, que nada tem a ver com Godard, eu sei.

Começo, então, com três curtas-metragens do início da carreira do enfant terrible do cinema francês. Seus dois primeiros curtas são OPÉRATION BÉTON (1954) e UNE FEMME COQUETTE (1955), mas esses não passaram por minhas mãos. Assim, pulemos para os próximos três curtas, sendo que o terceiro foi co-dirigido pelo colega François Truffaut.

CHARLOTTE ET VÉRONIQUE, OU TOUS LES GARÇONS S'APPELLENT PATRICK

Bastante divertida essa comédia juvenil de 1959, envolvendo duas garotas (Anne Collette e Nicole Berger) e um rapaz (Jean-Claude Brialy). O rapaz, de nome Patrick, é do tipo galanteador. Conquista as duas meninas, que depois saem felizes por terem marcado um encontro com ele. Quando elas comentam que conheceram um rapaz chamado Patrick consideram isso apenas uma coincidência.

Parece que esse é o único filme dirigido por Godard que não foi escrito por ele. O roteiro é do nosso querido Eric Rohmer. Vai ver que é por isso que o curta é tão agradável. Anne Collette, que faz a Charlotte (nos dois curtas), não teve uma carreira muito expressiva e longa. Já Jean-Claude Brialy foi um dos protagonistas de OS PRIMOS, de Claude Chabrol, e Nicole Berger esteve depois em ATIREM NO PIANISTA, de François Truffaut. Por falar nesse filme, vi que o livro de David Goodis, no qual o filme de Truffaut é baseado, foi lançado em formato pocket pela LP&M. Alguém já leu e recomenda? Ah, tem uma cena de CHARLOTTE ET VÉRONIQUE que é bem engraçada: enquanto o rapaz está "queixando" a menina, um sujeito lê o jornal Arts, que apresenta na primeira página uma manchete sobre a decadência do cinema francês.

CHARLOTTE ET SON JULES

O segundo curta apresentando a personagem Charlotte, lançado logo após ACOSSADO (1960), não é tão divertido quanto o primeiro. Mas é bem mais a cara do Godard. Nesse curta, Jean-Paul Belmondo fala o tempo inteiro enquanto a Anne Collette fica calada olhando pra ele. O filme parece uma brincadeira feita nos intervalos de ACOSSADO. Suspeito disso por causa da presença de Belmondo.

UNE HISTOIRE D'EAU

Um filme mais complexo e com uma certa carga de experimentação. Tanto Godard quanto Truffaut assinam o roteiro e a direção de UNE HISTOIRE D'EAU (1961), mostrando a viagem de uma mulher numa região varrida por uma forte chuva. As imagens da cidade alagada são bem interessantes. É um curta que merece uma revisão. Se estivesse em casa iria revê-lo agora mesmo, até pra entender melhor. Gostei da narração, às vezes próxima de um diálogo comum, mas mantendo um certo distanciamento. O filme foi montado por Godard a partir de imagens improvisadas por Truffaut.

Agradecimentos à Carol, que me emprestou os DVDs com os vários filmes do diretor.

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