quarta-feira, novembro 30, 2005

O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL (L'Uccello dalle Piume di Cristallo / Bird with the Glass Feathers / Das Geheimnis der Schwarzen Handschuhe / The Bird with the Crystal Plumage)



O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL (1970), um dos maiores representantes dos gialli, finalmente ganha uma edição nacional que respeita o formato original em scope da obra de Dario Argento. Com esse filme, lançado pela Aurora, são três agora o número de filmes de Argento disponíveis em DVD no Brasil - os outros são SUSPIRIA (1977) e SLEEPLESS (2001). Torçamos para que outros títulos do mestre apareçam por essas bandas.

Ver filmes do Argento é sempre um prazer. Até lembro daquela citação de Hitchcock, dizendo que seus filmes eram comparáveis a bombons. O mesmo talvez se possa dizer das obras de Argento, que, aliás, é constantemente associado a Hithcock.

O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL é um autêntico giallo. Possui todas as características que definiram o filão: uma testemunha ocular de um crime, um assassino de luvas pretas, tentativa de se atingir um olho com um objeto afiado, gatos, personagens estrangeiros, mulheres indefesas.

Na trama, turista americano (Tony Musante) presencia uma tentativa de assassinato através dos vidros de uma galeria de arte. Ele tentar salvar a moça, que é esfaqueada, e fica preso entre duas paredes de vidro, enquanto o homem foge. Depois ele fica sabendo que o assassino é um serial killer que está na cidade matando vítimas. Por ser a única testemunha ocular, ele é obrigado a permanecer na Itália com sua namorada (a bela Suzy Kendall) até que o caso seja solucionado. Como ele não tem o que fazer, acaba ficando interessado em investigar a série de assassinatos.

É impressionante como já na sua estréia na direção Argento já se mostrava um virtuoso. Belíssimo aquele travelling que se dá quando ele vai à procura de sua namorada desaparecida, lá pelo final do filme. A câmera sobe os telhados e vai dar numa casa lá do outro lado da rua. A fotografia ficou a cargo do hoje premiado Vittorio Storaro.

Só o final do filme que pode deixar um pouco a desejar, tanto pela solução pouco satisfatória do caso, quanto pela rapidez com que o filme se fecha. Mas acabam sendo um charme a mais as imperfeições do filme, que envelheceu muito bem. Interessante que, como em PSICOSE, do Hitch, no final aparece um psicanalista que tenta explicar o comportamento do assassino através de psicologia, o que acaba sendo até engraçado.

Agradecimentos a Camila Vieira, que fez a gentileza de me emprestar o DVD.

P.S.: Está no ar, no CCR, a minha mais recente coluna. Dessa vez, falando sobre remakes, Hitchcock e Hawks.

terça-feira, novembro 29, 2005

MASTERS OF HORROR: H.P.LOVECRAFT'S DREAMS IN THE WITCH-HOUSE



Stuart Gordon, que eu saiba, nunca foi um diretor muito incensado, mesmo entre fãs do cinema de horror. Seus filmes, apesar de bem destacados, dificilmente receberam boas cotações dos críticos. Gordon nunca teve o mesmo prestígio de um John Carpenter ou de um George Romero, pra ficar só entre os americanos. Até numa lista de discussão sobre filmes de terror de que participo desde 2001 - a Canibal Holocausto - a turma de lá raramente comenta sobre os filmes dele. Mesmo assim, ele é um diretor de quem eu gostaria de ter visto mais filmes. De Gordon, só tinha visto RE-ANIMATOR (1985) e A FORTALEZA (1993), que eu considero um filme bastante subestimado e tenho vontade de rever.

Gordon tem o mérito de ser o principal adaptador dos contos de H.P.Lovecraft para o cinema. Só de filmes baseados em Lovecraft, ele já realizou: RE-ANIMATOR, DO ALÉM (1986), O CASTELO MALDITO (1995), DAGON (2001) e agora esse DREAMS IN THE WITCH-HOUSE, segundo filme da antologia MASTERS OF HORROR.

Pra quem se decepcionou com a estréia da série, a cargo de Don Coscarelli, esse filme dirigido por Gordon dá uma bela animada e prepara o espírito para os próximos, em especial o super-elogiado JENIFER, de Dario Argento. Como DREAMS IN THE WITCH-HOUSE só tem 50 minutos, não dá pra contar muito da história sob o risco de estragar as surpresas, mas dá pra dizer que é sobre um jovem universitário que aluga um quarto barato numa casa e é assombrado por uma bruxa, um rato com feições humanas e uma difícil tarefa.

Não faltam ao filme elementos caros aos amantes do cinema de horror: bruxaria, mulher pelada, efeitos especiais gore (causa aflição a cena das unhas nas costas do protagonista), uma cena contendo algo debaixo da cama (que garante o maior susto do filme) e uma excelente construção de atmosfera. Bem legal!

segunda-feira, novembro 28, 2005

HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (Harry Potter and the Goblet of Fire)



Desde que soube que seria Mike Newell o diretor do quarto filme de Harry Potter que fiquei desanimado com a escolha. Newell, embora tenha bons filmes no currículo - adoro QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL (1994) -, também tem títulos desprezíveis, como é o caso de O SORRISO DE MONA LISA (2003). É um diretor sem uma marca autoral, além de ter uma competência duvidosa como mero "operário".

Porém, teoricamente, o fato de a direção estar nas mãos de Newell representa um passo a frente na tentativa de tornar o Harry Potter das telas tão britânico quanto o dos livros de J.K. Rowling. Foi a primeira vez que um inglês dirigiu um filme da série, que antes esteve nas mãos de um americano (Chris Columbus) e de um mexicano (Alfonso Cuarón).

Eu adorei HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (2004), dirigido por Cuarón. Pra mim, que nunca li um livro sequer de Harry Potter, o filme ficou perfeito. Envolvente, mágico, empolgante, surpreendente. Por isso, levando em consideração as ótimas críticas que HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (2005) têm recebido e com a boa lembrança do terceiro filme, fui ao cinema com boas expectativas conferir esse quarto filme da franquia. Resultado: me decepcionei bastante. Não que o filme não tenha alguns bons momentos (penso especialmente na seqüência no fundo do mar), mas é que a trama é das mais fracas de toda a série. Parece uma obra destinada às platéias que curtem videogames ou RPGs, já que a história toda se sustenta no tal "torneio tribuxo", uma competição mortal e cheia de mistérios, que o filme tenta nos convencer o tempo todo que se trata de algo altamente perigoso e que o nosso herói, Harry Potter, está correndo perigo. Mas a gente sabe que não, que ele vai se sair muito bem, apesar dos díficeis obstáculos. Sempre haverá um feitiço que o salvará dos perigos. Talvez seja essa certeza, e esse excesso de truques na manga que tenha me deixado um pouco aborrecido - além de eu também não ter gostado da fotografia, muito "européia".

Uma das melhores coisas do filme é Emma Watson, garota que está bem crescidinha. Ela está ficando cada vez mais bela e carismática, ao contrário de seus parceiros Daniel Radcliff e Rupert Grint, cada vez mais feios à medida que se aproximam da idade adulta. Também considero um ponto alto do filme as cenas do baile. Os hormônios agindo na adolescência, a chegada das paixões, o despertar da libido - ok, talvez libido seja uma palavra um tanto pesada para o filme, mas enfim...

Felizmente a bela seqüência final acena para um quinto filme muito melhor: mais sombrio e maduro. É esperar pra ver.

domingo, novembro 27, 2005

HOWARD HAWKS VERSUS BILLY WILDER



É até covardia fazer uma disputa dessas entre dois gigantes do cinema mundial. Cinema não é competição, mas se você tivesse que escolher entre Howard Hawks e Billy Wilder, quem você escolheria? Qual dos dois era mais genial? Olha, que Deus (Billy) não nos ouça, mas eu prefiro o Hawks. Bom, ao menos, levando em consideração essas duas adaptações da mesma peça de Ben Hecht e Charles MacArthur, o velho Hawks saiu-se bem melhor, ainda que a obra de Wilder seja mais cinematográfica, menos teatral. Essa peça - "The Front Page" - já foi filmada diversas vezes. A primeira foi em 1931, por Lewis Milestone; a segunda por Hawks; nos anos 40 ela foi levada à televisão por três vezes, sendo que numa dessas vezes, virou uma série de tv, uma sitcom. Em 1970, novamente adaptada para a tv. Até que em 1974, Billy Wilder, por alguma razão quis levar às telas novamente a história dos dois jornalistas que fazem a cobertura da execução de um homem. Abaixo, os dois brilhantes filmes.

JEJUM DE AMOR (His Girl Friday)

Depois de LEVADA DA BRECA (1938) e PARAÍSO INFERNAL (1939), Hawks conta novamente com a excelente performance de Cary Grant. Esse grande astro era capaz de fazer cenas cômicas como ninguém, além de também fazer papéis mais sombrios e dramáticos de maneira fenomenal. E o cara ainda tinha um charme que conquistava toda a mulherada. E olha que ele era gay! JEJUM DE AMOR (1940) é outro marco das screwball comedies. A impressão que se tem é que nos anos 30 tudo era mais rápido. Mais até do que nos dias de hoje. Eram tempos loucos. A principal modificação que Hawks fez na peça original foi substituir o personagem Hildy por uma mulher, a ótima Rosalind Russell. Assim o diretor pôde centrar mais a trama no relacionamento homem-mulher que tanto lhe é característico. Em seus filmes, os homens são impiedosos e cruéis e as mulheres são fortes e partem pra cima. Adoro isso.

Os diálogos foram um marco para a época. Hawks utilizou muita sobreposição de diálogos. Que nesse filme são extremamente rápidos. Acho que eu me perderia totalmente se tentasse ver o filme sem legendas. Quanto ao humor, o filme tem muitos momentos engraçadíssimos, especialmente sempre que Grant tenta passar a perna no noivo de Rosalind Russell.

Vi numa cópia em DVD da Columbia, mas JEJUM DE AMOR também pode ser encontrado em cópias da London e da Continental, mas acredito que sejam de qualidade inferior.

A PRIMEIRA PÁGINA (The Front Page)

Não sei se porque eu vi o filme de Wilder depois de ter visto o Hawks, mas o fato é que achei A PRIMEIRA PÁGINA (1974) inferior à comédia hawksiana. Porém, a seu favor, a obra de Wilder é mais cinematográfica. Não se passa totalmente em ambientes fechados e utiliza cenas de ação onde na peça existiam apenas relatos do que houve. O filme de Wilder dá maior importância ao drama do homem que vai ser executado, já que não há uma guerra dos sexos pesando sobre a trama. Destaque para a participação de Susan Sarandon, bem jovem e bonita. Ela faz o papel da noiva de Jack Lemmon, o jornalista que pretende abandonar a vida dura dos jornais para se casar e morar em outra cidade. Walter Matthau é o inescrupuloso chefe e parceiro de Lemmon, que tenta de tudo para manter o amigo na redação e acabar com o seu casamento. Pra variar, a química entre Lemmon e Matthau é excelente. Acho que eles eram mesmo grandes amigos na vida real. Gravado da Globo.

sábado, novembro 26, 2005

MASTERS OF HORROR: INCIDENT ON AND OFF A MOUNTAIN ROAD



Desde que soube dessa série que fiquei com água na boca. Mas se fosse esperar pra que isso chegasse aqui no Brasil, teria que esperar sentado. Por isso, tive que apelar para os benditos torrents. Até legendas em português a turma está disponibilizando na internet. Uma beleza.

Produzido pelo canal por assinatura americano Showtime, MASTERS OF HORROR (2005) é uma série de 13 filmes de cerca de 50 minutos dirigidos por treze dos maiores cineastas do gênero no mundo - ficou faltando craques como Romero e Cronenberg, mas tudo bem. Assim, temos filmes assinados por Don Coscarelli, Stuart Gordon, Tobe Hooper, Dario Argento, Mick Garris, Joe Dante, John Landis, John Carpenter, William Malone, Larry Cohen, John McNaughton, Takashi Miike e Lucky McKee.

Estava pensando em só escrever sobre MASTERS OF HORROR por aqui quando eu terminasse de ver todos os treze filmes, mas depois eu percebi que dá pra ver os filmes individualmente. Além do mais, eu esqueceria facilmente dos primeiros vistos. Então, comecemos pelo primeiro deles.

INCIDENT ON AND OFF A MOUNTAIN ROAD é dirigido por Don Coscarelli, cineasta cujo trabalho conheço muito pouco. Só cheguei a ver NOITE MACABRA/FANTASMA (1979), que é ótimo e o título mais conhecido do diretor. A série PHANTASM teve três continuações dirigidas por ele mesmo. O primeiro filme alcançou grande sucesso de público e crítica. Recentemente, Coscarelli voltou a ser notícia graças ao sucesso no circuito underground de BUBBA HO-TEP (2002), filme que mistura múmias com Elvis Presley, que eu cheguei a baixar da internet, mas ainda não cheguei a ver.

O filme de Coscarelli para a série MASTERS OF HORROR, se não é tão empolgante - há quem diga é decepcionante -, ao menos consegue prender a atenção do começo ao fim. Não consegui desgrudar os olhos da telinha do computador o tempo todo, coisa que geralmente só acontece quando eu assisto LOST. O filme é inspirado em clássicos do horror setentista como O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA e QUADRILHA DE SÁDICOS.

Na trama, moça sofre um acidente de carro na estrada e, ao tentar procurar ajuda, se vê diante de um maníaco - na verdade uma criatura monstruosa, mais feio que o careca de QUADRILHA DE SÁDICOS - que tem o hábito de levar suas vítimas para uma cabana para furar seus olhos com uma furadeira elétrica e matá-las. Ao mesmo tempo, flashbacks de seu relacionamento com o namorado passam pela tela. O namorado insistia que ela fosse forte, que treinasse regras de sobrevivência para o dia que precisasse. Os flashbacks são justamente os momentos mais fracos e menos convincetes do filme. Já a luta pela sobrevivência da moça tem momentos memoráveis, como, por exemplo, aquele em que ela tira a calcinha para usar como ferramenta para pegar o maníaco. Bem sexy. O filme é cheio de cenas gore que agradarão aos fãs do gênero e o final é surpreendente.

O próximo projeto de Coscarelli se chama BUBBA NOSFERATU, prequel de BUBBA HO-TEP.

Dos amigos blogueiros, quem anda comentando os filmes também é o Thomaz e o André ZP, que andam mais adiantados do que eu.

sexta-feira, novembro 25, 2005

LESTE-OESTE - UM AMOR NO EXÍLIO (Est-Ouest)



Quarto e último filme que vi no Festival Varilux de Cinema Francês desse ano. Queria ter visto AGENTES SECRETOS, mas infelizmente não deu. Fica pra quando entrar no circuito comercial no ano que vem. Esse foi o ano que eu mais vi filmes nesse festival. Ontem foi a vez de eu ver LESTE-OESTE - UM AMOR NO EXÍLIO (1999). Minha intenção era ver também AMORES PARISIENSES, do Alain Resnais, mas recebi uma ligação lá de casa e tive que chegar mais cedo para levar meu sobrinho pro hospital. Ele estava com suspeita de dengue, mas acho que está bem agora. De todo modo, o filme de Wargnier já tinha me deixado um pouco cansado. Ainda mais pela demora em começar. E quando começou, os caras do cinema ainda botaram o filme errado. Se ninguém fosse lá reclamar, eu teria visto o filme do Resnais. Mais de meia hora de atraso é uma puta falta de respeito. O pessoal do UCI Iguatemi parece que só respeita o horário quando é pra exibir blockbuster. Bom, vamos ao filme.

Pelo pouco que conhecia do cinema de Régis Wargnier - apenas INDOCHINA (1992) -, minha impressão não era das melhores. Trata-se de um cinema bastante acadêmico e com pouca inventividade. Parece cinema feito para madames. Segue a cartilha do cinemão clássico-narrativo, mas sem o aspecto lúdico da coisa. Em outras palavras: chato que dói.

Felizmente LESTE-OESTE - UM AMOR NO EXÍLIO é melhor que o filme de 92, ganhador do Oscar de filme estrangeiro. Mas não tão bom assim, já que eu devo ter olhado para o relógio umas dez vezes durante a projeção. Pelo menos o filme vai melhorando à medida que se aproxima do final.

A história é até interessante. Em 1946, um casal (Sandrine Bonnaire e Oleg Menchikov), ela francesa, ele russo, deixam a França para ir à União Soviética com o objetivo de de se estabelecerem por lá e começarem nova vida. Na época, Josef Stalin estava aceitando estrangeiros para trabalhar no país. Quando eles chegam lá, percebem que estão numa verdadeira prisão. A ditadura soviética era uma das mais cruéis, principalmente para os estrangeiros, tratados como se fossem espiões.

As cenas mais intensas do filme são justamente aqueles que nos causam indignação. No filme, a França é vista sempre como uma espécie de paraíso, a terra da liberdade, em oposição ao inferno na terra que era a principal nação comunista do mundo na época. Também, do jeito que são mostradas as condições de vida na Rússia, qualquer lugar do mundo parece melhor. Os russos são mostrados de maneira muito estereotipada, sempre malvados demais para parecerem reais. E isso depões muito contra o filme.

LESTE-OESTE - UM AMOR NO EXÍLIO conta com a participação especial de Catherine Deneuve e foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro.

quinta-feira, novembro 24, 2005

A DAMA DE HONRA (La Demoiselle D'Honneur)



Primeira vez que vejo um Claude Chabrol no cinema. De sua obra, só havia visto, na tela pequena, os ótimos CIÚME - O INFERNO DO AMOR POSSESSIVO (1994) e MULHERES DIABÓLICAS (1995), filmes que me deixaram com uma ótima impressão do trabalho do diretor. Infelizmente, de seus mais de 50 filmes, poucos estão disponíveis em vídeo no Brasil para que possamos fazer uma peregrinação por sua obra.

A DAMA DE HONRA (2004), o mais recente filme do incansável Chabrol, parece uma mistura de Alfred Hitchcock com Dostoievski: um misto de PACTO SINISTRO com o romance "Crime e Castigo". Na trama, rapaz conhece uma intrigante jovem na festa de casamento de sua irmã. Os dois se apaixonam um pelo outro, mas a moça vai se revelando cada vez mais estranha. Ela acredita que matar alguém é uma forma de demonstração de amor e que também é uma maneira de se mostrar superior diante do restante dos mortais, sujeitos a regras de moral e a complexos de culpa.

Li uma entrevista de Chabrol em que ele diz que até gosta quando o comparam com Hitchcock, mas ele se acha mais próximo de Luis Buñuel. A comparação com o mestre do surrealismo se dá menos pela trama de crime e mais pelo viés da anarquia. Assassinar alguém para demonstrar o amor seria uma maneira de se rebelar. Eu, pessoalmente, devido talvez ao meu sentimento de culpa cristão, acho tudo isso absurdo. Mas adoro quando algum diretor procura passar as suas idéias e consegue fugir do moralismo dominante.

Chabrol tem idéias bem pouco tradicionais. Segundo ele, em entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, "a família é uma das maiores fraudes que existem. A idéia tradicional da família é abominável e a da árvore familiar é uma invenção monstruosa. A família torna-se atroz quando se transforma em uma estrutura social obrigatória."

A atriz que faz a personagem de Senta, a jovem maluca, é Laura Smet, filha da famosa Nathalie Baye. Ela tem um quê de Ornella Mutti, só que muito mais fatal. Aliás, a mulher fatal parece ser uma constante na obra de Chabrol. Seu cinema, além de ser comparado com Hitchcock, também é devedor do cinema de Fritz Lang. Tanto que Chabrol chegou a fazer um filme chamado DOUTOR MABUSE E SEU DESTINO (1990), uma homenagem explícita à obra languiana. Aproximando-se de Hitchcock, Chabrol chegou a trabalhar com Anthony Perkins, o eterno Norman Bates, em DEZ DIAS FANTÁSTICOS (1972).

quarta-feira, novembro 23, 2005

NIP/TUCK - NINGUÉM É PERFEITO - 2ª TEMPORADA (Nip/Tuck - The Complete Second Season)



Quando assisti a primeira temporada de NIP/TUCK (2003), não acreditava tanto na série. Mas resolvi dar uma chance assim mesmo: vi todos os 13 episódios no ano passado e gostei. Mas nada me preparava para a maravilha que seria essa segunda temporada (2004). Ryan Murphy, o criador da série, e diretor de alguns episódios, botou muito mais sexo, violência e casos escabrosos na vida dos cirurgiões plásticos Sean McNamara (Dylan Walsh) e Christian Troy (Julian McMahon). Diferente de algumas séries que enrolam o espectador até o último momento, Ryan Murphy não tem medo de fazer verdadeiras revoluções nas vidas de seus personagens. E eu fiquei tão ligado a eles que cheguei a chorar no penúltimo episódio, no qual Christian suspeita que pode ter contraído AIDS por causa de sua vida sexual promíscua.

No final da primeira temporada, ficamos sabendo que Matt (John Hensley) é, na verdade, filho de Christian. Logo, sabe-se da possibilidade, nessa segunda temporada, de Sean descobrir que sua mulher o traiu com o melhor amigo no passado. Não sei bem porque, mas filmes (ou séries) que mostram famílias se esfacelando e relacionamentos se rompendo de alguma forma mexem comigo. Por isso, acho que um dos melhores episódios dessa temporada foi aquele em que Sean fica sabendo de tudo e esse evento vira pelo avesso a vida de todo mundo da série.

A principal estrela a brilhar nessa temporada é Ava, interpretada pela supersexy Famke Jansen. A mulher é um espetáculo. Ela aparece na vida da turma como uma espécie de terapeuta da vida (life coach, no inglês). Nos episódios em que ela está presente, a temperatura da tv entra em ebulição. Ela é o grande trunfo da série e o último episódio da temporada é justamente centrado nela, trazendo uma revelação bombástica.

Alguns dos casos mais interessantes da série: uma mulher teve o clítoris arrancado quando criança e deseja fazer uma cirurgia corretiva; uma moça aparece na clínica com suspeita do fenômeno "stigmata"; uma cega deseja trocar o globo ocular de modo a não parecer cega; uma modelo é desfigurada por um serial killer; duas irmãs siamesas tentam se separar por causa de um câncer; mulher com os lábios desfigurados utiliza os lábios vaginais para transplante; e por aí vai.

Uma das grandes vantagens das séries em relação aos filmes é que nelas há uma possibilidade maior de aprofundar os personagens, de torná-los mais reais e mais mutáveis. Há um tempo maior para cuidar disso. Por isso, é muito legal ver a série de mudanças que acontece na vida de Sean, que depois da separação tem a chance de ter outras experiências na vida amorosa e de sair um pouco do estilo careta; e na vida de Christian também, que experimenta o amor da paternidade, mesmo sabendo que o filho não é seu biologicamente, além de a mãe do menino ser uma viciada em sexo. Matt - também conhecido como "Michael Jackson Jr" - acaba se envolvendo com Ava, uma mulher bem mais velha do que ele, e que, ainda por cima, tem um filho problemático da sua idade. Quanto à Julia, ela acaba sofrendo muito com a separação e questiona sobre quem realmente é o homem de sua vida.

O último episódio dessa temporada foi exibido ontem pela FOX, que vai reprisar a temporada completa a partir da próxima terça. Portanto, quem perdeu, sugiro que dê uma espiada. Nos EUA, a série está nos episódios finais da terceira temporada, que, a julgar pelos top episodes do site www.tv.com, parece ser ainda melhor do que a segunda! Soube que, por causa das inúmeras reclamações de um grupo conservador, a Toyota cancelou seus anúncios nos intervalos da série por causa das cenas de sexo e violência. Pelo visto, a televisão americana está mais ousada que os filmes hollywoodianos.

terça-feira, novembro 22, 2005

A GRANDE VIAGEM (Le Grand Voyage)



O subgênero road movie já garante um certo interesse para o espectador. Isso porque uma viagem por si só é algo bastante excitante: encarar a estrada, o desconhecido, curtir o meio até chegar ao fim, quase que uma metáfora da vida. Filmes como E SUA MÃE TAMBÉM, de Alfonso Cuarón, DIÁRIOS DE MOTOCICLETA, de Walter Salles, ou mesmo uma comédia besteirol como CAINDO NA ESTRADA, sempre nos despertam um certo espírito viajante e uma empolgação inicial pela viagem. Se o resultado final vai ser satisfatório ou não, aí já é outra história.

A GRANDE VIAGEM (2004), do cineasta marroquino Ismaël Ferroukhi, pertence a essa leva de filmes. Na verdade, o caminho percorrido pelos dois protagonistas é ainda mais interessante do que qualquer um dos filmes citados acima. Saindo da França, passamos por países como Itália, Sérvia, Bulgária, Turquia, Síria, Jordânia, até chegar ao destino final, que é Meca, a cidade sagrada dos mulçumanos. Os dois protagoistas são um jovem adolescente e seu pai. O velho acredita que não tem muito tempo de vida e, como um islamita fiel, precisa fazer a sua peregrinação até a cidade sagrada.

O filme, inclusive, foi a primeira obra de ficção a receber autorização do governo árabe para filmar a cidade. Não deixa de ser um pouco decepcionante o final da jornada dos dois, já que o final do filme carece de um maior impacto e de uma emoção que deveria ter sido crescente. Os minutos finais de A GRANDE VIAGEM acabam tornando o filme chato e cansativo. Mas enquanto o final não chega o negócio é curtir a viagem.

E há muitos momentos interessantes durante a jornada desses dois sujeitos totalmente diferentes. O jovem, Réda, não tem nada em comum com o pai. Ele representa os jovens que se desprendem de suas raízes, se tornam mais ligados à modernidade da cultura ocidental. Ele é forçado a fazer essa viagem com o pai porque é o único da família que pode dirigir e o pai não quer fazer a viagem de avião - seria confortável demais para uma peregrinação religiosa, que requer um certo sacrifício. Já o pai, prefere se desprender da cultura francesa, preferindo falar em árabe com o filho, com o objetivo de fazer com que ele se insera mais no espírito da viagem. Em momento algum o filme julga qualquer um dos dois: cada um se comporta de acordo com sua motivação. A viagem é um aprendizado para ambos. Os dois apresentam-se com seus defeitos e suas qualidades.

Entre os momentos memoráveis do filme estão aqueles que apresentam duas pessoas que cruzam o caminho dos dois: a velha, que mais parece um fantasma, e Mustafá, o homem que se oferece para viajar com os dois, uma prova de que nem todo mulçumuno é radical.

Ismaël Ferroukhi, o diretor, disse que a inspiração para a realização desse filme veio porque seu pai fez uma viagem dessas quando ele era criança e ele sempre sonhava com algo semelhante. Daí resolver materializar isso num filme. E pra isso, ele evita uma característica mais comtemplativa, típica dos road movies, e prefere trabalhar mais com o relacionamento dos dois e menos com as paisagens. O que, de certa forma, frustra um pouco as expectativas de quem quer "pegar uma carona" com os personagens.
REUNIÃO DE AMIGOS



Eu, Luiza e Natércia



Luiza, Júnior e eu

Nesse último par de meses, ao mesmo tempo que eu perdi um amigo vítima de um acidente de moto, tive a sorte de encontrar com outros que há tempos não via. Assim, recentemente voltei a sair com os amigos mais chegados da época do coral do IBEU, gente que conheço desde 1992!

Nesse final de semana, eu me encontrei com os meus melhores amigos da época da faculdade. Lá pelos idos de 1996 e 1997 a gente saía muito. Íamos ao cinema, a shows, ou apenas saíamos pra comer pizza ou andar pela Beira-Mar. As circunstâncias acabam por afastar a gente. O mundo gira, a gente conhece outras pessoas, a vida muda. Mas é muito legal rever essas pessoas que foram (e ainda continuam sendo) tão importantes pra gente e poder botar o papo em dia, ver o que mudou de lá pra cá.

Daqui a pouco eu volto com os filmes.

segunda-feira, novembro 21, 2005

PELE DE ASNO (Peau D'âne)



Nesse fim de semana chegou a Fortaleza o 4º Festival Varilux de Cinema Francês, mostra intinerante que deveria ser exemplo para outras mostras que acontecem apenas em cidades como Rio ou São Paulo. Esse festival tem trazido todo ano 7 produções. Um fator a se reclamar seria talvez a repetição de filmes já presentes em outra edição, como é o caso de AMORES PARISIENSES, de Alain Resnais, e LESTE-OESTE - UM AMOR NO EXÍLIO, de Régis Wargnier. São filmes que, inclusive, até já foram lançados em DVD no Brasil. O Festival deixa, assim, de trazer mais filmes inéditos, o que é uma pena, já que a cinematografia francesa é uma das mais ricas do mundo. Nesse ano, os maiores destaques do festival foram exibidos na noite de sábado: A DAMA DE HONRA, o novo filme de Claude Chabrol, e a cópia restaurada de PELE DE ASNO (1970), de Jacques Demy.

Demy é mais conhecido como o diretor do premiado musical OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR (1964, Palma de Ouro em Cannes). PELE DE ASNO foi o terceiro filme de Demy protagonizado por Catherine Deneuve - os dois primeiros foram o já citado OS GUARDA-CHUVAS DO AMOR e DUAS GAROTAS ROMÂNTICAS (1967). Diferente dos dois primeiros, PELE DE ASNO é menos um musical e mais um conto de fadas bem humorado. Não que a música não esteja também muito presente; ela está. Inclusive, há uma canção que não sai da cabeça da gente de tanto que ela é repetida ao longo do filme - até o papagaio canta.

A estória, baseada num conto de Charles Perrault, é das mais divertidas: um rei (Jean Marais) precisa satisfazer o último desejo de sua esposa (Catherine Deneuve), que no leito da morte faz com que ele prometa que se ele tiver de casar de novo, terá que ser com a mulher mais bela da região. Acontece que mulher bonita é artigo raro por aquelas bandas e a mulher mais bela é justamente sua filha (também interpretada por Catherine Deneuve). O rei, angustiado, vai então consultar o seu conselheiro, que diz não haver problemas no fato de um rei se casar com a própria filha. Segundo ele, se perguntado a qualquer garotinha com quem ela quer se casar quando crescer, ela dirá: "com papai". O problema é que a filha do rei não gosta muito dessa história e vai pedir conselho à sua fada madrinha (Delphine Seyrig), que tem os seus planos para barrar o casamento.

Além de trazer uma estória que diverte em seus momentos de cafonice extrema, PELE DE ASNO é uma festa para os olhos, graças ao colorido exagerado. Por exemplo, nas terras do rei, todos os seus servos se vestem de azul. Até a cor da pele de alguns deles é azul e os cavalos também são pintados dessa cor. Já nas terras do outro rei, todo mundo se veste (ou se pinta) de vermelho. Algumas das cenas mais divertidas do filme são as cenas envolvendo os vestidos de casamento da princesa. Bem espalhafatosos e bregas. O filme é cheio de situações fantasiosas, como um burro que defeca dinheiro, fadas madrinhas que voam e usam varinhas mágicas, uma bruxa que cospe sapos, além de uma brincadeira em cima do clássico "Cinderella".

É bastante curioso o fato de Demy ter feito esse tipo de filme justamente numa época em que os cineastas franceses faziam obras mais políticas, de contestação, como era o caso de Jean-Luc Godard e da própria esposa de Demy, a cineasta Agnès Varda. Demy começou a ser subestimado a partir de maio de 68, quando os franceses colocaram mais política nos filmes. No entanto, os defensores de Demy afirmam que há nas entrelinhas de suas estórias um frescor e um otimismo que resistiu bem mais ao tempo do que muitas das obras mais valorizadas de seus contemporâneos. Além do mais, os filmes são menos ingênuos do que parecem.

Uma outra qualidade do diretor é que ele é capaz de criar novos mundos, brincando com o tempo e com o espaço. Numa seqüência do filme, a fada madrinha mostra que já sabe o que é uma pilha (bateria), em outra, o rei seleciona um poema de um livro só com poetas do futuro, e no final há a aparição surreal de um helicóptero. O filme tem o sabor de contos de fada infantis. Ele começa e termina com um livro se abrindo e se fechando e é narrado por uma voz suave. Assim como vários desses contos clássicos, o filme também deixa no ar uma sensação de desconforto, seja pelo uso extremo das cores predominantes, seja pela ironia da situação, seja pelas canções com toques melancólicos. A alegria no filme se aproxima de um estado de euforia próximo de um usuário de drogas. Num dos últimos números musicais, o casal de apaixonados canta, fora dos próprios corpos, uma canção que diz "o que fazer com toda essa felicidade e contentamento"? É o que se pode chamar de alegria insana.

sexta-feira, novembro 18, 2005

A VIDA MARINHA COM STEVE ZISSOU (The Life Aquatic with Steve Zissou)



Existem filmes que são tão pessoais que fica até difícil de se fazer uma análise a respeito sem precisar de fazer algumas pesquisas antes. E chega a ser quase um milagre esses filmes personalíssimos conseguirem quem os banque dentro de Hollywood. Por mais que não se goste dos filmes de Wes Anderson, há que se elogiar a sua capacidade de fazer o que bem entende no cinema americano. E com o apoio de uma turma de amigos famosos que estão sempre por perto. Alguns deles estão de volta nesse A VIDA MARINHA COM STEVE ZISSOU (2004): Bill Murray, Owen Wilson e Angelica Huston são autênticos atores "andersonianos", sentindo-se em casa para construir aqueles personagens meio caricatos, meio bobalhões, que a gente já está acostumado a ver. Aliás, acostumado em termos, já que a estranheza vai estar sempre no ar nos filmes de Anderson. Mas quem já viu os outros três filmes dele - PURA ADRENALINA (1998), TRÊS É DEMAIS (1999) e OS EXCÊNTRICOS TENEBAUMS (2001) - já pode ficar um pouco mais à vontade vendo esse novo trabalho.

Ainda assim, pelo fato de ser um trabalho muito pessoal e cheio de piadas internas, ainda assim, é um pouco difícil de se absorver o filme, suas intenções, seu humor, suas idéias. O que não nos impede de nos deliciarmos com os belíssimos quadros que Anderson constrói e nos oferece para o prazer de nossos olhos. Ele transforma a tela numa espécie de pintura em cinemascope. As pessoas e os objetos estão no quadro com um senso de simetria tão bem formulado que os atores ficam parecendo bonecos à disposição de uma criança que leva jeito de artista.

E "criança" talvez seja uma das palavras chave do filme, já que uma de suas últimas cenas, com Steve Zissou (Bill Murray) colocando um menino nos ombros e sendo seguido pelos amigos como se dissesse "sigam-me os bons!" é uma das mais belas do filme. Também parece brincadeira de criança as cenas de tiroteio com balas de festim. Seus personagens, principalmente os homens, também agem como crianças em corpo de adulto. As mulheres, "pra variar", são mais maduras. No filme, há duas mulheres bem fortes: Cate Blanchett, como a jornalista grávida que balança o coração de Steve e de Ned (Owen Wilson), e Angelica Huston, como a matriarca Zissou e verdadeira mente por trás do sucesso do aventureiro-cineasta.

Um dos destaques do filme é, sem dúvida, a participação de Seu Jorge cantando versões em português de canções de David Bowie. Acho que eu gosto mais dessas versões em violão cantadas pelo Seu Jorge do que as versões originais. Tanto que, depois do filme, eu fui resgatar o meu disco do Bowie pra ouvir e acabei não curtindo tanto assim. É como se as canções dele fossem ótimas pra ouvir, mas nem sempre boas pra se cantar junto. E eu também não curto muito aquela voz meio glitter dele. Mas reconheço a beleza de suas composições. Inclusive, no filme, tem uma cena que eu acho fantástica, que é quando Bill Murray pede licença de uma conversa que está tendo com Blanchett para respirar um pouco de ar puro lá no ponto alto da proa do navio e ouvimos um trecho de uma canção do Bowie. È como se ele estivesse prestes a desmoronar e por isso pede licença para "suspender o tempo" e recarregar as baterias para enfrentar de novo a dura batalha da vida.

Pena que eu tive de ver esse filme em DVD, já que ele não passou nos cinemas daqui, lugar onde o filme deveria ser visto, preferencialmente. Ao menos, o DVD está muito bom e vem com comentários em áudio do diretor.

Para o próximo ano, Anderson estará de volta com THE FANTASTIC MR. FOX, baseado num livro de Roald Dahl, mesmo autor de "A Fantástica Fábrica de Chocolate". Ainda não foi divulgado o elenco.

quinta-feira, novembro 17, 2005

O OPERÁRIO (The Machinist / El Maquinista)



O OPERÁRIO (2004) é um dos filmes que mais passa o sentimento de aflição que eu já vi na vida. Muito por causa do estado em que ficou o ator Christian Bale para dar forma ao personagem esquelético do filme. Em certa altura, Jennifer Jason Leigh, no papel da prostituta carinhosa Stevie, diz para Trevor (Bale): "Se você fosse mais magro, você não existiria." E o filme, com sua lente perversa, não nos poupa de ter que olhar para aquele esqueleto humano e ter que acreditar que aquele ali é mesmo Bale.

Claro que dá pra desconfiar de um filme cujo principal assunto de debate seja a "dieta" do ator principal para se adequar ao personagem. Mas é que Bale chegou a parar de comer mesmo. Comia apenas uma lata de atum e uma maçã por dia. Ele ficou praticamente sem se alimentar por semanas e mal tinha força nas pernas. Seus músculos já tinham sido "comidos" pelo próprio corpo.

Brad Anderson, o diretor, e Scott Kosar, o roteirista, se aproveitaram dessa entrega do ator para construir um suspense hitchcockiano inspirado em PSICOSE. Eles tiveram que conseguir financiamento na Espanha, já que o projeto foi considerado muito sombrio pelos executivos de Hollywood. Por isso as filmagens aconteceram em Barcelona. Tiveram que adaptar a cidade de modo que ela ficasse parecida com Los Angeles. Tudo isso é mostrado no ótimo documentário constante do DVD. O documentário, inclusive, foi dirigido por Nacho Cerdà, diretor de renome dentro do circuito underground de filmes de terror. Pena eu não ter tido tempo de ouvir (e ler, principalmente) a faixa de comentário (legendada) de Brad Anderson.

Não dá pra contar muito da história sob o risco de estragar as surpresas. Não que eu já não tivesse advinhado algumas coisas a partir do aparecimento do personagem de Ivan, mas as razões e as causas de seu definhamento só vão ser esclarecidas lá pelo final. Pode-se dizer que o filme é hitchcockiano também no uso da culpa como tema principal. O fato de boa parte da trama se passar numa fábrica cheia de máquinas pesadas e com o risco de se perder um braço naquele troço aumenta ainda mais o mau estar.

Desde o começo notamos que o tom do filme será bem sinistro. Afinal, OPERÁRIO já começa com Bale tentando dar fim a um cadáver. Um outro detalhe interessante é que o céu no filme aparece sempre carregado de nuvens. Parece que está prestes a cair uma tempestade, lembrando até o céu do começo de O PÂNTANO, da Lucrécia Martel. Tudo isso ajuda a passar um clima de pesadelo e de perturbação mental do personagem.

O DVD está com imagem belíssima em widescreen 2,35:1.

quarta-feira, novembro 16, 2005

FRANÇOIS TRUFFAUT EM DOIS FILMES



Tive o prazer de ver recentemente mais dois filmes da filmografia de François Truffaut, um dos diretores preferidos da casa. Os dois filmes são muito importantes por abordarem temas recorrentes da obra do cineasta, que são: a busca da infância perdida e o amor pelas mulheres. Truffaut sempre fez filmes muito pessoais. Não poderia ser diferente com essas duas belas obras.

O GAROTO SELVAGEM (L'Enfant Sauvage)

A infância foi o primeiro tema importante da obra de Truffaut. Sua estréia na direção foi com a obra-prima OS INCOMPREENDIDOS (1959), um dos mais belos filmes sobre a infância de todos os tempos. O filme foi o primeiro de uma pentalogia semi-autobiográfica que marcaria a história do cinema. Tendo em vista sua história de vida, não tenho como não imaginar que o garotinho encontrado na floresta e educado por um cientista de O GAROTO SELVAGEM (1969) deva representar o próprio Truffaut, já que ele se sentiu abandonado pelos pais. Além do mais, ele foi educado e "adotado" pelo crítico André Bazin, que se tornou uma espécie de pai pra ele. (Um detalhe curioso é que Bazin morreria de leucemia no mesmo dia em que Truffaut começava as filmagens de OS INCOMPREENDIDOS.) Truffaut era uma espécie de menino selvagem, tendo tido experiência como deliqüente juvenil, chegando a dormir na cadeia e indo parar depois num centro de correção juvenil. Curiosamente, Truffaut também exerceu a função de quase-pai para o ator Jean-Pierre Léaud, o jovem que encarnou o famoso Antoine Doinel, e a quem O GAROTO SELVAGEM é dedicado.

O filme conta a história de um garoto que é encontrado numa floresta e reeducado por um cientista (interpretado pelo próprio Truffaut), que a principio tem um interesse apenas científico pela criança, mas, depois, vai adquirindo um amor paterno por ele. O garoto não fala, não anda em posição ereta e não conhece nada do mundo urbano. Ele é tratado pelo cientista com métodos comportamentais e através da noção da recompensa. Se ele fizer a tarefa direitinho, ganha um copo d'água, por exemplo. O garoto tem um prazer especial de sorver a água, olhando a paisagem pela janela. UM belo filme, fotografado em preto e branco por Nestor Almendros, lembrando um pouco o estilo de O HOMEM ELEFANTE, de David Lynch.

O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (L'Homme qui Aimait les Femmes)

Chegou-se a dizer que toda a obra de Truffaut seria sobre a procura da infância perdida. E o amor devotado às mulheres tem algo de procura pela figura da mãe. Outro detalhe curioso é que Truffaut, ao lado de Luis Buñuel, talvez seja o cineasta que mais tem fixação por pernas de mulheres. Eu mesmo já fiquei babando pelas pernas de Claude Jade em DOMICÍLIO CONJUGAL (1970), um dos meus filmes favoritos. Em OS INCOMPREENDIDOS, tem uma cena em que o padrasto de Antoine faz um comentário sobre as belas pernas da mãe dele.

Achei na internet uma interessante análise fílmica intitulada "O homem que amava as pernas", onde a autora disseca essa obsessão do autor, em sete de seus filmes. A autora do ensaio até se apóia em Freud, que em seu livro "A Interpretação dos Sonhos", diz ser a escada o símbolo onírico do ato sexual, enquanto que o subsolo é o inconsciente, o intra-uterino. E tanto a escada quanto o subsolo estão fortemente presentes em O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (1977), um dos mais importantes filmes de Truffaut. (Lembrei-me novamente de Claude Jade subindo numa escada portátil em DOMICÍLIO CONJUGAL. E não contem nada pra ninguém, mas eu também me lembrei da Talia James em OS EXERCÍCIOS DE BUTTMAN, do John Stagliano.)

A trama do filme se inicia a partir do momento em que o protagonista (Charles Denner) se encanta com as pernas de uma mulher e sai na missão de encontrar a dona dessas pernas. Com o tempo, vemos que esse homem é uma espécie de viciado em conquistas amorosas. Seu passatempo é abordar as mulheres e conquistá-las sem jamais desistir. Uma vez que as conquista, ele meio que sente um vazio e acába por abandoná-las. Interessante os comentários que ele faz sobre elas, em narração em off. Por exemplo, ele diz que, no verão, gosta mais de mulheres de seios pequenos, enquanto que no inverno prefere mulheres de seios grandes.

O filme é um dos mais controversos do Truffaut. Chegaram a acusá-lo de machista, de usar as mulheres como objetos sexuais descartáveis. Mas não. O filme é uma homenagem sincera dedicada a todas as mulheres. O próprio personagem não tem nenhum amigo homem. Ele sente necessidade de estar sempre ao lado do sexo feminino para se sentir forte, desejado ou protegido.

Agradecimentos a Carol Vieira, que foi quem me forneceu as cópias em DVD desses dois filmes ainda inéditos no Brasil. O único inconveniente pra mim era que o áudio estava fora de sincronia com a imagem, mas os filmes são tão bons que isso nem chegou a incomodar tanto.

P.S.: Falando em cinema francês, começa nesse fim de semana, em Fortaleza, o 4º Festival Varilux de Cinema Francês, que esse ano vai acontecer no Iguatemi. Os grandes destaques do ano são PELE DE ASNO, de Jacques Demy, em cópia nova, e A DAMA DE HONRA, o novo de Claude Chabrol. Vou tentar estar lá para conferir alguns dos filmes do festival.

terça-feira, novembro 15, 2005

MONSTROS (Freaks)



Meu interesse pela obra de Tod Browning aumentou exponencialmente a partir da leitura dos artigos escritos por Daniel Camargo para duas edições da saudosa Cine Monstro. Seu texto sobre O MONSTRO DO CIRCO (1927) me despertou uma vontade enorme de conhecer esse e outros filmes de Browning. Acredito que O MONSTRO DO CIRCO deve ter sido uma espécie de preparação para MONSTROS (1932), seu quarto filme falado - os três primeiros foram THE THIRTEENTH CHAIR (1929), O FORA DA LEI (1930) e DRÁCULA (1931). Após ter feito DRÁCULA por encomenda para a Universal, Browning foi contratado pela MGM para realizar o seu polêmico filme sobre pessoas com deformidades físicas, tratadas como aberrações de circo.

Se em DRÁCULA já se notava um despreparo do diretor com as novas técnicas do cinema falado, com muito falatório e câmera estática, em MONSTROS percebe-se uma evolução. Há um uso maior de movimentos de câmera e dos mais variados ângulos. Mas os responsáveis pelo sucesso do filme foram mesmo os anões e as pessoas deformadas, contratadas para interpretarem os freaks do título. Quer dizer, o filme não foi bem um sucesso de bilheteria no ano em que foi produzido. Na verdade, ele foi um fracasso retumbante, já que foi boicotado pelas ligas de decência do país inteiro, sendo logo recolhido. Dizem que nas exibições teste, muita gente saiu correndo da sala com poucos minutos de filme. Mas eu considero o resultado final do filme um sucesso.

A história envolve os temas favoritos de Browning: deformidades físicas e morais e mutilação. Essa obsessão do diretor por esse tipo de tema, dizem que pode ter nascido de um acidente de carro sofrido por ele. Em 1915, Browning e seus amigos estavam voltando de uma festa. Por causa de uma forte neblina, o carro de Browning colidiu com o vagão de um trem que passava pelo cruzamento. O diretor Allan Dwan, que vinha num carro atrás do seu, dizia se lembrar com horror daquela noite, quando teve que recolher pedaços dos amigos pela estrada. Browning sobreviveu ao acidente, mas a tragédia marcou a sua obra.

Na trama de MONSTROS, um anão se apaixona por uma trapezista. Cego pela paixão, ele não percebe o quanto está sendo ridicularizado por ela, que só se interessa pelo seu dinheiro, ainda pretendendo matá-lo envenenado. Os dois fazem parte de um circo que contém muitas pessoas com defeitos físicos: um homem cujo corpo terminava nas costelas e usava as mãos como se fossem pés, um outro sem braços nem pernas que consegue acender um cigarro sozinho, um hermafrodita, uma mulher barbada, uma outra que não tem braços e usa as pernas para comer, as irmãs siamesas, pessoas com cabeças "de alfinete" e anões. Muita gente ficou admirada se perguntando do porquê de Irving Thalberg ter topado produzir um filme como esse. Mas, se por um lado, muita gente achava que Browning estava explorando essas pessoas, por outro, notava-se o carinho que ele tinha para com elas.

O filme contém apenas 61 minutos de duração e é um belíssimo trabalho. Há pelo menos três seqüências antológicas: a das bodas da trapezista com o anão, com todos os freaks gritando "one of us!" (cena que foi citada em OS SONHADORES, do Bertolucci); a cena da tempestade, que traz a cruel vingança dos "monstros"; e a chocante cena final, mostrando o destino da trapezista.

O DVD do filme, lançado pela Magnus Opus, contém uma galeria de fotos de várias "aberrações" e alguns textos sobre assuntos relativos ao filme, sendo que o melhor deles é sobre o filme em si, escrito pelo crítico Luiz Nazário.

P.S.: Está no ar, no CCR, coluna nova falando de meu primeiro ano como cinéfilo.

segunda-feira, novembro 14, 2005

MARCAS DA VIOLÊNCIA (A History of Violence)



David Cronenberg está de volta. E com um de seus melhores trabalhos. Depois de ter usado um ritmo excessivamente arrastado e sonolento em seu SPIDER - DESAFIE SUA MENTE (2002), o diretor, apreciador de tipos estranhos, se utiliza novamente de uma certa lentidão para narrar a história de Tom Stall (Viggo Mortensen), homem que tem a sua rotina pacata de pai de família alterada depois que ele se transforma num herói nacional ao matar com surpreendente agilidade dois assassinos que ameaçavam a tranqüilidade de seu café. A fama de herói de Tom se espalha através dos jornais e da televisão. Um dia, chegam em seu estabelecimento dois sujeitos que dizem o conhecer. Ele teria um passado negro desconhecido de todos da cidade.

O filme é talvez o mais compacto e econômico das obras de Cronenberg. Tão econômico quanto um Clint Eastwood ou um Alfred Hithcock. Durando apenas 96 minutos, MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005) não possui nenhuma cena supérflua, nada desnecessário. Seu rigor narrativo e a bela construção dos enquadramentos torna cada vez mais evidente uma maturidade no estilo que só os grandes mestres adquirem. Nesse filme, em especial, ele também subverte a ordem dos clímaxes.

Suas obsessões por coisas orgânicas aqui aparecem de forma mais sutil. Embora não se possa chamar de sutil as cenas que envolvem tiros e sangue. Foi-se o tempo em que a gente assistia faroestes onde um sujeito levava um tiro e apenas caía do cavalo ou de cima de um telhado, sem traços de derramamento de sangue. O cinema de hoje adota uma violência mais gráfica. Os tiros que Tom dá em seus inimigos arrancam pedaços de seus rostos, num trabalho de maquiagem excepcional.

Mas, voltando às suas obsessões, um suposto homossexualismo sempre foi um assunto que de vez em quando surgia nas discussões sobre a obra cronenberguiana. Basta lembrar dos orifícios em formas de ânus de EXISTENZ (1999), o ânus que fala de MISTÉRIOS E PAIXÕES (1991) e as relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo em CRASH - ESTRANHOS PRAZERES (1996). De acordo com uma teoria proposta pelo amigo Renato Doho, o tema do homossexualismo está presente em MARCAS DA VIOLÊNCIA através de símbolos. Nesse caso, abaixo das camadas superficiais, o filme seria sobre alguém tentando fugir de seu passado gay, escondendo-se numa comunidade ortodoxa americana. A segunda cena de sexo com Maria Bello seria, então, uma espécie de auto-afirmação masculina. Não deixa de ser uma teoria interessante.

Ainda em relação a Maria Bello, a cena que mostra rapidamente a ferida em suas costas, resultado do sexo na escada, é puro Cronenberg, numa espécie de auto-homenagem. A primeira cena de sexo do filme é belíssima. Acho que foi a primeira vez que vi uma cena de "meia-nove" romântica, cheia de ternura, pouco intoxicante. Chega a ser impressionante a forma como Cronenberg equilibra essa ternura com uma violência tão brutal que até parece que faz pingar sangue em nossa roupa. Um dos melhores filmes do ano, sem dúvida.

sábado, novembro 12, 2005

DAVID O. RUSSELL EM DOIS FILMES



De David O. Russel, ja tinha visto seus outros dois filmes: TRÊS REIS (1999), o filme que o projetou internacionalmente, colocando-o no primeiro time de Hollywood, e A MÃO DO DESEJO (1994), sua estréia na direção de longas-metragens e lançado no Brasil apenas em VHS. Recentemente tive a oportunidade de conferir mais dois trabalhos do diretor. Vamos a eles.

PROCURANDO ENCRENCA (Flirting with Disaster)

Trata-se de um dos filmes mais engraçados protagonizados por Ben Stiller. Pode-se dizer que esse foi o primeiro filme importante de Stiller como comediante em Hollywood. Antes ele era mais conhecido na televisão. O ator alcançaria o estrelato dois anos depois com QUEM VAI FICAR COM MARY? e mostraria que é um dos maiores comediantes da atualidade. Em PROCURANDO ENCRENCA (1996), Stiller é um sujeito casado que decide conhecer os seus pais biológicos. Patricia Arquette é a esposa e Téa Leoni, a encarregada de apresentá-lo aos pais. Os três saem em viagem pelo interior dos EUA e uma série de situações engraçadas acontece. PROCURANDO ENCRENCA é desses filmes que nos fazem dar gargalhadas sozinhos em plena madrugada. Uma delícia. Gravado da Globo.

HUCKABEES - A VIDA É UMA COMÉDIA (I Heart Huckabees)

Depois da maravilha que é PROCURANDO ENCRENCA, lá fui eu alugar o DVD de HUCKABEES - A VIDA É UMA COMÉDIA (2004), que não chegou a passar nos cinemas brasileiros e foi direto para as locadoras. Também pudera, achei que foi muita coragem dos produtores de Hollywood bancarem um projeto doido desses. Existem filmes que mesmo não sendo ruins conseguem ser insuportáveis para quem não embarcar na viagem. É o caso desse mais recente filme de Russell. Não via a hora de terminar. Seus 107 minutos de duração pareciam 4 horas de tão chato que eu achei. A trama é sobre detetives existenciais ajudando pessoas desorientadas a se autoconhecerem. O elenco é cheio de estrelas: Dustin Hoffman, Jude Law, Mark Wahlberg, Naomi Watts, Isabelle Huppert, Lilly Tomly e Jason Schwartzman. Acho que eu teria gostado mais do filme se ele fosse um pouco mais sério, se houvesse algum sentido e profundidade na filosofia dos tais detetives. Quem eu mais gostei no filme foi a Isabelle Huppert, que apesar da idade, continua uma mulher belíssima e cheia de charme. Tenho vontade de ver os filmes que ela fez nos anos 70 e 80, já que vi uma foto dela antiga e achei-a linda. Voltando ao filme de Russell, o DVD vem cheio de extras, igualmente chatos, principalmente as tais cenas excluídas. O maior destaque (e a melhor coisa do disco) é o documentário sobre a produção do filme, com duração de 34 minutos. Pelo documentário, deu pra notar o clima de descontração no set de filmagens, mas também percebi certa falta de rigor por parte do diretor. Tudo fica parecendo uma brincadeira irresponsável. O DVD está com excelente qualidade de imagem, em widescreen 2.35:1.

sexta-feira, novembro 11, 2005

O CORONEL E O LOBISOMEM



O CORONEL E O LOBISOMEM (2005), estréia de Maurício Farias, filho do cineasta veterano Roberto Faria, na direção, é o terceiro de uma espécie de trilogia iniciada com O AUTO DA COMPADECIDA (2000) e LISBELA E O PRISIONEIRO (2003). O diferencial do novo filme é a direção mais contida de Farias, em vez da montagem rápida e mais televisa de Guel Arraes. O que, pra mim, significou uma melhora considerável. Dessa vez, o filme ficou mais parecido com cinema e menos com televisão.

Outro diferencial está no texto rebuscado de José Cândido de Carvalho, muito bem adaptado para o filme. Lembro que eu peguei o livro pra ler numa biblioteca, na época da faculdade, mas não consegui ir até o fim. Me faltou mais persistência, achei-o cansativo. O filme consegue passar muito bem o texto de José Cândido, o que pode cansar um pouco parte do público.

Ainda assim, o filme é muito divertido, destaque para a cena da briga de galo, com a participação de Andréa Beltrão e Francisco Milani, ator e humorista recém-falecido e pra quem o filme é dedicado. As performances de Diogo Vilela, como o Coronel Ponciano de Azeredo Furtado, e de Selton Mello, como Pernambuco Nogueira, o lobisomem, também são ótimas. Engraçado que apesar de toda a covardia do Coronel e de sua mania de se fazer de corajoso, como na cena da onça, por exemplo, faz com que a gente simpatize com o personagem. Eu, por exemplo, fiquei torcendo para que ele conquistasse a prima Esmeraldina, interpretada por Ana Paula Arósio. Pena que ele é muito azarado. Mas isso é parte da graça do filme. É muito mais fácil se identificar com os losers.

A esperada cena da transformação de Pernambuco em lobisomem me deixou um pouco decepcionado. Ainda falta muito pra que o cinema brasileiro consiga rivalizar com o americano ou o francês no quesito "efeitos especiais". Não que eu me incomode com isso. Os efeitos foram funcionais para a trama, mas não essenciais. E eu gostei bastante do final, meio amargo.

quinta-feira, novembro 10, 2005

CÃO DE BRIGA (Danny the Dog / Unleashed)



É sempre bom quando a gente sai do cinema surpreendido positivamente com um filme que recebeu críticas pouco elogiosas. CÃO DE BRIGA (2005) é, de longe, o melhor filme protagonizado por Jet Li no ocidente. Melhor até do que BEIJO DO DRAGÃO (2001). Ambos os filmes, aliás, foram produzidos por Luc Besson. São obras de excelente qualidade técnica, bela fotografia e que tem o intuito de conquistar o mercado internacional, daí a preferência pela língua inglesa e o apoio de atores americanos. O filme é uma co-produção França-EUA-Inglaterra.

CÃO DE BRIGA conta a história de Danny (Jet Li), um homem que foi criado desde criança como um cachorro. Ele foi treinado para arrasar quem estiver em sua frente sempre que tirar a coleira, e ao comando de seu dono, um gângster interpretado por Bob Hoskins. Do jeito que Hoskins é pintado no filme não temos outra opção a não ser odiá-lo pelo que ele fez com Danny, que só recebe um tratamento de respeito quando encontra casualmente um homem cego (Morgan Freeman) consertador de pianos. Depois de um acidente, esse homem o leva para casa, cuida de suas feridas e o trata como um filho. Ele vive sozinho com a jovem Victoria (Kerry Condon). É no novo lar que Danny aprenderá a viver como gente normal, a ser tratado com carinho e a questionar suas origens.

Toda essa premissa me deixava com um pé atrás, mas o negócio é aceitar o filme como ele é: um misto de filme de ação com melodrama, sem nenhuma intenção de ser uma obra realista. Gostei muito do aspecto melodramático do filme. Achei emocionante. E é isso que sustenta a ação, que dá sentido ao filme, especialmente quando Danny reencontra, lá pelo final, o malvado Hoskins. Inclusive, as melhores cenas de luta acontecem justamente após a "iluminação" de Danny, e não antes, quando podemos compartilhar do ódio e do sentimento de revolta do personagem. As coreografias ficaram a cargo do famoso Yuen Woo Ping.

Uma das melhores coisas do filme é a trilha sonora, a cargo de ninguém menos que o Massive Attack, que encerra o filme com uma bela canção ("Aftersun"). Ouvir o trip hop do grupo no cinema é uma maravilha. Aqueles graves parece que tocam a nossa pele.

Soube através do blog do Heráclito, o Blog da Desforra (um dos favoritos da casa), que CÃO DE BRIGA guarda muitas semelhanças com um western inglês chamado DUAS PÁTRIAS PARA UM BANDIDO. A história dos dois filmes é bem parecida. Fiquei curioso pra ver o filme inglês.

quarta-feira, novembro 09, 2005

FASCINAÇÃO (Fascination)



Interessante notar que os vampiros homens são meio impotentes. (Até li um texto sobre vampiros, chamado "Vampiro - A Máscara", que dizia isso). Há sensualidade neles, mas não parece haver relação sexual de fato entre eles e suas vítimas. O interesse deles está apenas no sangue. Já as vampiras fêmeas, como pode ser notado em filmes como VAMPYROS LESBOS, de Jesus Franco, FOME DE VIVER, de Tony Scott, e este FASCINAÇÃO (1979), de Jean Rollin, sempre que podem, dão umazinha, não fazendo distinção de sexo. As vampiras fêmeas funcionam como uma espécie de fetiche, razão pela qual alguns diretores sacanas gostam de botar um monte de mulher pelada se pegando sob o pretexto de que são vampiras.

FASCINAÇÃO é o meu primeiro Rollin. A comparação com VAMPYROS LESBOS pode se dar mais pelo uso da nudez e da sensualidade das atrizes do que pelo estilo de direção. Acho o filme de Franco muito mais charmoso, além de ter uma atriz belíssima (a maravilhosa Soledad Miranda), mas é bastante confuso no quesito história. É um filme de atmosfera. Já o filme de Rollin, é mais clássico narrativo, bem fácil de acompanhar.

Na trama de FASCINAÇÃO, ladrão foge de seus inimigos e se abriga num castelo onde habitam duas belas moças que haviam sido mostradas no início do filme bebendo sangue de boi, sob a desculpa de que é para se tratar de anemia. No início, o ladrão se acha dono da situação - é homem e está armado -, mas as meninas parecem se divertir tanto com a sua presença, preferindo que ele fique para a festa que acontecerá à noite, no qual ele seria o prato principal, que ele acha tudo muito divertido e prefere ficar para ver no que vai dar.

O legal de FASCINAÇÃO é que não se trata de um filme convencional de vampiros, desses em que as vampiras não podem ver o sol nem crucifixos. Na verdade, ele não se parece com um filme de terror até os minutos finais. Está mais pra pornô softcore, abusando de cenas de nudez, de roupas transparentes e dos beijos entre mulheres. Brigitte Lahaie, uma das atrizes principais, inclusive, é veterana de produções pornográficas francesas. Curiosamente, ela está presente em CALVAIRE (2004), de Fabrice Du Welz, filme que eu baixei recentemente por indicação de Fábio Ribeiro. Qualquer dia eu vejo e conto pra vocês.

Agradecimentos a Davi Pinheiro que me forneceu uma cópia do filme, em Divx.

terça-feira, novembro 08, 2005

JOGOS MORTAIS 2 (Saw II)



Quando vi o primeiro JOGOS MORTAIS (2004), no início do ano, fiquei super-entusiasmado. O filme é tenso pra cacete e tem seqüências realmente perturbadoras. Até teria colocado o filme numa listinha de melhores do ano durante o primeiro semestre, mas ele foi se apagando um pouco da memória afetiva. Talvez porque minha memória já não seja mais grande coisa. Ultimamente tenho o costume de me esquecer dos finais de quase todos os filmes que vejo, não sei porque. Talvez porque o final da maioria dos filmes seja o que existe de mais convencional, de mais clichê, especialmente em se tratando de filmes hollywoodianos. Mas do final de JOGOS MORTAIS eu me lembro muito bem. E acho do caralho!

Levando em consideração a falta de criatividade do cinema de horror americano atual, JOGOS MORTAIS foi um belo exemplo de vitalidade. Um pequeno filme B de vez em quando dá uma chacoalhada no mercado e rende horrores. Pena que JOGOS MORTAIS acabou se transformando numa franquia, como os filmes do Jason e do Freddy. Por outro lado, se vistos dessa maneira, assim, despretensiosa, como diversão meio sadomasoquista, essa franquia não deixa de ser interessante.

JOGOS MORTAIS 2 (2005) tem um monte de cenas que causam aflição, como a seqüência inicial, em que um sujeito tem que retirar uma chave presa atrás de seu próprio globo ocular se não quiser morrer. Essa seqüência é apenas o portão de acesso ao filme. A trama propriamente dita começa quando um detetive é "convidado" para investigar o novo crime do Jigsaw e percebe que seu filho faz parte do grupo de cobaias dos jogos do psicopata, que nesse filme mostra o seu rosto e suas razões para fazer o que faz. Numa casa, algumas pessoas estão presas e são forçadas a acabam tendo que eliminarem umas às outras, sendo sempre captadas por câmeras.

Do filme original, apenas a atriz Shawnee Smith está presente. O diretor do primeiro, o malasiano James Wan, caiu fora da direção dessa continuação. Ele deve estar de volta às telas no próximo ano com SILENCE, filme que aproveita um dos personagens de JOGOS MORTAIS. Wan aparece como produtor executivo do segundo filme, dirigido pelo desconhecido Darren Lynn Bousman. Um dos problemas desse novo filme está na montagem, que consegue ser mais videoclípica do que a do original. Também senti falta dos flashbacks, que davam um charme a mais ao primeiro filme. Aqui, optou-se por uma narrativa mais linear, ainda que a brincadeira com o tempo esteja de certa forma presente.

Em se tratando de seqüências perturbadoras, as minhas favoritas são a cena das agulhas e a da menina que fica com os braços presos. Legal ver a reação do público. O que a gente ouve de palavras como "caralho" e "puta-que-pariu" é impressionante. Quanto ao final, ele deixa um gancho para uma nova continuação, mas está longe de ser tão bom quanto o final chocante do primeiro. Parece que os produtores do filme filmaram cinco desfechos diferentes, que devem aparecer como extras do DVD.

segunda-feira, novembro 07, 2005

TUDO ACONTECE EM ELIZABETHTOWN (Elizabethtown)



Pode-se até não gostar dos filmes de Cameron Crowe, mas não dá pra se dizer que o diretor não tem personalidade. TUDO ACONTECE EM ELIZABETHTOWN (2005) tem a cara de Crowe. O filme é uma mistura de QUASE FAMOSOS (2000) com JERRY MAGUIRE (1996). A obsessão de Crowe por música pop está cada vez mais evidente e quase fora de controle. Foram dar total liberdade pro jornalista, olha ele aí dando uma de DJ nos filmes. Eu, como também sou apreciador de música pop - de vez em quando estou aqui falando sobre alguma canção que eu descobri em algum filme -, não tenho do que reclamar. Curiosamente, apesar de o filme ser recheado de belas canções, não teve nenhuma que realmente me encantasse. Conheço pouca coisa do repertório mostrado no filme - acho que só as canções do U2 ("Pride") e do Elton John ("My father's gun") -, mas acredito que elas devem ficar melhores numa segunda audição.

O problema do filme está na vontade que o diretor tem de querer ser poético e profundo sem conseguir ser. Em alguns momentos, até parece um desses livros de auto-ajuda. Ainda assim, não tem como não simpatizar com a sinceridade e a honestidade de Crowe. Seu filme é uma homenagem ao pai, já que em QUASE FAMOSOS, ele dava muito destaque à mãe, enquanto o pai era deixado de lado. Até me identifiquei um pouco com o personagem de Orlando Bloom, por causa da relação distanciada com o pai.

Na trama, Bloom é um executivo de uma indústria de sapatos que acaba de perder o emprego por causa do megafracasso de seu projeto de tênis, resultando num prejuízo de quase um bilhão de dólares. Ele até pensa em suicídio, quando uma ligação da irmã dizendo que seu pai falecera faz com que ele viaje até Elizabethtown para buscar o corpo do pai, que vivia separado da família. No avião, ele conhece a comissária de bordo vivida por Kirsten Dunst. A princípio, ele meio que rejeita a moça, mas depois ele acaba se interessando por ela.

A personagem de Kirsten é quase como uma figura angelical, mais até que a Kate Hudson de QUASE FAMOSOS, já que a Kate tinha um apelo sexual maior, o que acaba distanciando do que chamamos de anjo. Já com Kirsten, não há nenhuma tentativa de torná-la uma pessoa atraente sexualmente. A relação entre os dois seria mais espiritual e carinhosa do que sensual.

A trilha sonora incidental do filme foi composta por Nancy Wilson, esposa de Crowe. As canções do filme são, em sua maioria, rocks mais de raiz, para ficarem mais com a cara de Kentucky, e traz artistas como Tom Petty, Ryan Adams e Lindsey Buckingham.

domingo, novembro 06, 2005

CIDADE BAIXA



Já não se faz mais público de cinema brasileiro como antigamente. Hoje as pessoas até reclamam de filmes que contêm cenas de sexo, alegando que elas são desnecessárias, gratuitas. Foi o que aconteceu com esse ótimo representante do novíssimo cinema brasileiro. CIDADE BAIXA (2005), de Sérgio Machado, mostra a relação amorosa de dois rapazes (Lázaro Ramos e Wagner Moura) com uma prostituta (Alice Braga, sobrinha de Sônia Braga). Alice, de apenas 22 anos, está participando de uma produção estrangeira filmada aqui no Brasil, com Brendan Fraser e Catalina Sandino Moreno no elenco.

CIDADE BAIXA é basicamente sobre a força dos hormônios sobre os homens. Eles não conseguem pensar direito; seguem os seus instintos, os seus desejos; pensam com a cabeça de baixo, alguns diriam. Também pudera, com um mulherão daqueles. Mas os hormônios do filme também se apresentam na violência masculina, especialmente na cena da briga de galo, que conta com a participação memorável de José Dumont.

CIDADE BAIXA é um filme que tem a seu favor um grupo de atores excepcionais. Ainda que o filme não fosse bom, o ingresso já estaria pago, só pra ver Lázaro Ramos e Wagner Moura novamente atuando. Curiosamente, esse já é o sexto filme que os dois rapazes fizeram juntos. Os outros foram: SABOR DA PAIXÃO (2000), AS TRÊS MARIAS (2002), CARANDIRU (2003), O HOMEM DO ANO (2003) e NINA (2004). Eles também estão em A MÁQUINA, de João Falcão, ainda inédito no circuito comercial, mas que pôde ser visto na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Na trama, os dois rapazes trabalham como transportadores num barco, na Bahia. Eles se comportam e se amam como dois irmãos. Esse amor fraternal entra em xeque a partir do momento que eles conhecem Karinna, a prostituta que aceita carona até Salvador, em troca de um programa e de alguns reais em dinheiro.

Sérgio Machado é estreante em longa-metragem de ficção. Seu trabalho anterior mais conhecido é um documentário sobre Mário Peixoto intitulado ONDE A TERRA ACABA (2001). Em CIDADE BAIXA, ele divide os créditos do roteiro com Karim Ainouz, diretor de MADAME SATÃ (2002). É bom estar de olho nesses novos talentos que estão trazendo mais vigor ao cinema brasileiro. CIDADE BAIXA ainda pode dar muito que falar. O que dizer da seqüência final, com o belíssimo trabalho de som, acentuando a respiração dos protagonistas? A câmera tão perto que até parece que sentimos o odor de seus corpos, o calor da respiração, o gosto do suor e do sangue. Filmão.

sábado, novembro 05, 2005

VINCENT PRICE EM TRÊS FILMES



Desde que li as resenhas sobre esses três filmes na saudosa Cine Monstro que tive muita vontade de vê-los. Todos os três receberam cotação máxima pela equipe da revista. E, se na época do lançamento, a distribuição dos filmes da London era problemática por aqui, hoje os três títulos podem ser encontrados a preços populares nos grandes magazines do país, em DVD. Os três filmes são protagonizados por Vincent Price, o maior ícone do cinema de horror americano de todos os tempos. Sem perder muito tempo, vamos a eles.

A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS (House on Haunted Hill)

Primeira das duas parceiras de Price com o mestre da picaretagem William Castle, A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS (1959) é desses filmes que dá prazer de ver. Contém todos aqueles elementos que tornam o gênero terror algo que no mesmo tempo que nos dá medo, passa uma agradável sensação de segurança, especialmente se estamos assistindo no conforto de nossa cama. E quais seriam esses elementos? Uma casa supostamente assombrada, relâmpagos e trovões, cabeças decepadas encontradas na casa, um esqueleto que anda etc. Claro que o filme já envelheceu bastante para causar qualquer medo, mas permanece o prazer de assisti-lo. Na trama, Price é o dono de uma mansão que convida um grupo de pessoas para uma festa. Sua mansão tem a fama de ser assombrada. As pessoas têm o objetivo apenas de permanecerem vivas até o dia amanhecer. Caso consigam, elas levariam para casa uma boa quantia em dinheiro. O filme decepciona um pouco lá pelo final, por deixar muita coisa em aberto. O final nem parece final, mas se o filme fosse todo certinho, não seria uma obra de Castle. No mesmo ano, o diretor e Price fariam o lendário FORÇA DIABÓLICA. A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS foi refilmado recentemente e no Brasil recebeu o título de A CASA DA COLINA (1999).

O CAÇADOR DE BRUXAS (Witchfinder General / Matthew Hopkins: The Conqueror Worm / The Conqueror Worm / Matthew Hopkins: Witchfinder General)

A melhor surpresa dos três. Era justamente o que eu esperava gostar menos (até pelo comentário do Renato, que odiou o filme), e foi o que eu mais gostei. Trata-se mais de um drama do que propriamente um filme de terror, mas é aterrorizante de verdade. A trama se passa na Inglaterra, na época da Revolução Puritana de Oliver Cromwell. O filme mostra os feitos de um homem chamado Matthew Hopkins, general de Cromwell que executava pessoas pela simples suspeita de bruxaria. As cenas mostradas no filme são realmente perturbadoras e revoltantes, principalmente pelo fato de o filho da puta do general usar o nome de Deus para os seus atos ignóbeis o tempo todo. Eu diria que esse é o filme em que Price consegue ser realmente odioso como vilão. Até então, eu sempre o achava um sujeito muito gente fina, por mais malvado que ele fosse nos filmes. O CAÇADOR DE BRUXAS (1968) foi produzido na Inglaterra e foi dirigido por Michael Reeves, que cometeu suicídio meses depois de ter finalizado o filme. Era apenas o quarto filme de Reeves na direção e o mistério de sua morte e a excelência de seus dois últimos filmes o tornaram uma lenda. A trilha sonora do filme é lindona.

TEATRO DA MORTE / AS SETE MÁSCARAS DA MORTE (Theater of Blood)

Esse filme faz com que eu lembre de um papo que eu tive com o Carlão Reichenbach no Cine São Luiz em junho desse ano. Isso porque, ao me falar sobre os filmes de Anthony Hickox, ele me falou que Anthony é filho de Douglas Hickox, e citou justamente esse THEATER OF BLOOD (1973), que conta a genial história do artista que se vinga dos críticos que contribuíram para o seu fracasso. Vincent Price é esse ator de teatro que se vinga dos críticos com requintes de crueldade, sempre se inspirando numa peça de Shakespeare. O filme foi lançado no Brasil por duas distribuidoras, London e PlayArte, daí o duplo título nacional.

sexta-feira, novembro 04, 2005

A JANELA DA FRENTE (La Finestra di Fronte)



Tenho mania de me apaixonar por atrizes de cinema. Bom, confesso que já me apaixonei até por estrelas pornô, mas garanto que não sou o único. Mas, com Giovanna Mezzogiorno, sinto que a paixão é maior. Essa linda escorpiana nascida em Roma me conquistou desde que vi O ÚLTIMO BEIJO (2001), de Gabriele Muccino, filme que guarda um parentesco com os filmes de François Truffaut, especialmente os do ciclo de Antoine Doinel.

Se O ÚLTIMO BEIJO está para Truffaut, A JANELA DA FRENTE (2003), de Ferzan Ozpetek, está para Pedro Almodóvar. Mas o Almódovar mais maduro, pós-A FLOR DO MEU SEGREDO. As comparações com o estilo do cineasta espanhol foram uma constante na imprensa internacional. O filme não existiria, ou ao menos não teria o mesmo brilho, sem a presença deslumbrante de Giovanna. A câmera - e, conseqüentemente, o espectador - namora a atriz do primeiro ao último instante. O close final é o mais belo do ano, auxiliado pela belíssima canção-tema "Gocce Di Memoria", da cantora italiana Giorgia. Fui pra casa com essa música na cabeça, em estado de graça, olhando para o mundo com outros olhos, sentindo uma agradável estranheza no ar, um misto de melancolia e prazer.

A trama de A JANELA DA FRENTE é intrigante: jovem casal (Giovanna e Filippo Nigro) encontra na rua um senhor idoso (Massimo Girotti), vestido de forma elegante, que perdeu a memória. Não conseguindo deixar o pobre velho largado no meio da rua, os dois acabam por levá-lo pra casa para depois passarem numa delegacia de polícia e resolverem o problema. A relação com esse senhor vai fazer com que Giovanna tenha a oportunidade de se aproximar de Lorenzo (Raoul Bova), um rapaz por quem ela tem uma paixão platônica. Ela sempre olhava para ele da janela de sua casa.

A JANELA DA FRENTE recebeu os prêmios David di Donatello de melhor filme, ator e atriz e é um bom sinal de um possível retorno à vitalidade do cinema italiano, que já foi um dos melhores do mundo. Ao lado de BOM DIA, NOITE, de Marco Bellocchio, o filme encabeça a lista de melhores da ilha da bota a serem lançados este ano.

Mas não quero terminar esse texto sem elogiar novamente a beleza de Giovanna. Trata-se de uma beleza um pouco triste: quando ela sorri, seu sorriso parece tímido; seus olhos parecem olhar sempre para o infinito, além de ter aquelas olheiras que lembram a Capitu de Machado de Assis. Maravilhosa. Alguns momentos especiais de Giovanna que ficarão gravados em minha memória fotográfica: quando ela atende uma ligação de Lorenzo do celular e solta o seu cabelo, que estava preso; o primeiro beijo com Lorenzo na praça; quando o rapaz diz que não consegue deixá-la; quando ela corre desesperadamente pelas escadas do prédio; quando ela passeia solitária pela cidade; quando ela olha para a câmera no instante final e a gente fica hipnotizado por alguns segundos.

quinta-feira, novembro 03, 2005

A LENDA DO ZORRO (The Legend of Zorro)



Minha intenção ontem era ver dois filmes seguidos no cinema: a pré-estréia de JOGOS MORTAIS 2 e, em seguida, a sessão das 19h30 do italiano A JANELA DA FRENTE. Mas nem sempre as coisas são como a gente deseja. Ao chegar lá no Iguatemi, a fila estava imensa e as duas sessões de JOGOS MORTAIS 2 estavam esgotadas! Fiquei bastante surpreso com a popularidade do filme. Pra não ter que ficar mais de duas horas sem ter o que fazer no shopping em pleno feriado, tive de partir para o plano B: sessão de A LENDA DO ZORRO (2005), filme que eu nem estava tão a fim de assistir. Por isso é sempre bom a gente ter um filme mais comercial ainda não visto para essas situações de "emergência". Também tive a sorte de encontrar uma amiga minha por lá, que fez a gentileza de comprar o meu ingresso.

Para a minha surpresa, achei essa continuação superior ao primeiro filme, de 1998, que já caiu no esquecimento pra mim, a não ser por uma ou outra cena com a maravilhosa Catherine Zeta-Jones, na época, despontando para o estrelato. Talvez A LENDA DO ZORRO seja, até agora, o melhor filme que vi de Martin Campbell, diretor pouco expressivo que entrou para o primeiro time de Hollywood a partir de 007 CONTRA GOLDENEYE (1995) - ele tem uma filmografia maior do que eu imaginava, com filmes B nos anos 70 e episódios para séries de TV nos 80.

O título A LENDA DO ZORRO não é em vão: o filme realmente trabalha a figura de Zorro como uma lenda, um verdadeiro super-herói comum a mexicanos e americanos. O começo do filme é um verdadeiro show de acrobacias. Muito boa a seqüência. Depois, vai ganhando uma dimensão mais humana, quando mostra o relacionamento do casal principal vivido por Antonio Banderas e Catherine Zeta-Jones. É o velho arquétipo: mulher quer que marido pare com as aventuras perigosas para relaxar e viver em paz a vida matrimonial, enquanto que ele encara isso como algo ruim, alegando que a população precisa do Zorro, quando na verdade, é ele quem mais precisa do justiceiro mascarado, para realização pessoal. Nesse sentido, A LENDA DO ZORRO funciona bem melhor que LADRÃO DE DIAMANTES, de Brett Ratner, que também mostrava esse tipo de problemática.

Outra qualidade do filme é o senso de humor, quase uma comédia pastelão. Destaque para as cenas com o cavalo Tornado. Tem também uma boa reconstituição histórica. O filme se passa na época do plebiscito que decidiria sobre a anexação do estado da Califórnia aos EUA. Na época, o estado pertencia ao México, mas sempre foi um território misto. A trama gira em torno da utilização de nitroglicerina. Mesmo contando com várias cenas de morte (até o Zorro mata seus inimigos sem dó nem piedade), A LENDA DO ZORRO traz mais de duas horas de diversão para toda a família.
ENCONTRO COM O MICHEL SIMÕES



Sempre legal quando a gente conhece pessoalmente os amigos que só conhecíamos via internet. Nesses dias, tive o prazer de conhecer Michel Simões, sujeito super-gente-fina do blog CineNetCom, além de também colega de lista de discussão. Ele passou por Fortaleza para conhecer a cidade e as praias cearenses com a namorada e a filhinha para depois se enfurnar na salas de cinema pra ver um monte de filmes. Isso é que eu chamo de férias perfeitas: passar uma semana nas praias passeando e a outra semana vendo filmes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Um dia eu ainda faço isso também. Quem quiser ler os seus divertidos e inteligentes relatos sobre 9 dias da Mostra é só dar uma passada no blog do rapaz. Essa foto foi tirada no Hotel onde ele se hospedou. Antes, a gente tinha saído para jantar no Assis, o Rei da Picanha. Ainda bem que ele gostou da comida de lá, já que no dia seguinte, ele esteve lá novamente.

terça-feira, novembro 01, 2005

CRASH - NO LIMITE (Crash)



Nada como se preparar da maneira mais adequada para ver um filme. Como CRASH - NO LIMITE (2004) era um filme sobre batida de carro (entre outras coisas), eu fiz o favor de bater a porta do meu carro no portão lá de casa, quando saí pra ir ver o filme - o idiota aqui tinha deixado a porra da porta aberta. O que acabou rendendo uns arranhõezinhos que vão me custar um dinheirão na oficina, além de um portão amassado. De todo modo, esse pequeno acidente serviu pra eu tomar um pouco o gostinho de uma batida. Esse filme de Paul Haggis pode não ter tanta batida de carro quanto o CRASH (1996) do Cronenberg, mas até que tem bastante. A colisão do título, na verdade, teria um sentido mais amplo.

Sobre o que eu achei do filme, fico no meio termo. Nem o encaro como uma obra puramente preconceituosa cujo tiro saiu pela culatra, nem como um dos melhores do ano, como parte da crítica deixou a entender. Trata-se de um filme bastante agradável de se ver, cheio de pequenas histórias que se cruzam e com uma música que remete à trilha de Aimee Mann para MAGNÓLIA. A comparação com PT Anderson é inevitável. Assim como com o Robert Altman de SHORT CUTS.

Talvez o problema do filme seja a dificuldade que ele tem em aprofundar e desenvolver melhor os personagens. Acredito que quem mais se beneficiou no filme foi Matt Dillon, como o tira que adora humilhar os negros, mas que também pode ser um exemplo de humanidade e profissionalismo (na melhor seqüência do filme, envolvendo Thandie Newton). O filme trabalha com as contradições o tempo todo. Há, por exemplo, o tira bem intencionado (Ryan Phillippe) que acaba comentendo um ato bárbaro. Numa das primeiras seqüências, vemos dois amigos negros comentando sobre o preconceito que eles sofrem, que são mal tratados quando vão a restaurantes e que são confundidos com bandidos quando andam nas ruas. Mas, logo em seguida, eles ironicamente executam um assalto à mão armada. A cena funcionaria bem numa comédia politicamente incorreta.

Paul Haggis, roteirista de MENINA DE OURO (2004), mostra uma Los Angeles em ebulição, prestes a explodir por conta das diferenças entre brancos, negros, latinos e pessoas vindo do Oriente Médio (no caso, os persas, que são confundidos com árabes). Em alguns momentos o filme parece que vai naufragar geral, como na cena do persa dando um tiro na garotinha latina, mas por sorte os resultados acabam sendo surpreendentemente bons. O fato de a maior estrela do filme, Sandra Bullock, ter um papel pequeno e pouco importante dá um ar chique à obra.

As acusações de racismo que a crítica fala do filme não deixa de ser uma ironia, já que um dos produtores de CRASH é o ator Don Cheadle. Há várias seqüências que me deixaram sem entender direito o que o diretor quis dizer, mas não deixa de ser algo bastante interessante para refletir. O que dizer do rapaz negro que diz gostar de música country? E porque alguns dos personagens negros precisam ser tão humilhados, tão vítimas - o próprio Don Cheadle ou o produtor de televisão, vivido por Terrence Howard? Dá impressão que Spike Lee teria feito bem diferente, bem mais bombástico. Mas esse não é um filme do Spike Lee. E é bom aceitá-lo como ele é.