quinta-feira, outubro 15, 2015

RESPIRE



Mélanie Laurent é uma artista multifacetada. Além de ser aquela atriz fantástica que a gente aprendeu a gostar desde, pelo menos, BASTARDOS INGLÓRIOS, que foi quando ela foi revelada em grande escala para o mundo, ela também é excelente cantora (é só procurar algo dela no youtube) e RESPIRE (2014) já é o seu segundo longa-metragem, tendo participado, inclusive, da edição do ano passado do Festival de Cannes, o que já lhe confere status de autora.

Mas o sucesso desse seu segundo trabalho, pelo menos, não vem de sua exposição ou de ela ser também uma atriz famosa, embora isso também ajude. O seu filme é especial. E pode-se dizer que seria mesmo necessário uma mulher para abordar com tanta segurança o universo íntimo de duas jovens garotas colegiais (Laurent é também corroteirista e o roteiro, por sua vez, é baseado no romance de uma escritora, Anne-Sophie Brasme).

Na trama, Charlie (Joséphine Japy) é uma jovem relativamente popular na escola, embora se perceba logo no início do filme que lhe falta entusiasmo no trato com sua melhor amiga, bem como na rotina de sua vida em si, seja na escola, seja em casa. Essa vontade de viver com mais intensidade surge quando ela conhece Sarah (Lou de Laâge), recém-chegada na escola e já demonstrando muito charme e um brilho todo próprio. Aos poucos as duas se tornam melhores amigas. E essa amizade também passa a se tornar algo a mais, principalmente na cabeça de Charlie, que vai se mostrando cada vez mais apegada a Sarah, que por sua vez vai revelando uma faceta um tanto malévola.

Pode-se dizer que RESPIRE é um filme dividido em dois registros complementares: o filme de amizade e intimidade entre duas garotas e também um suspense de tirar o fôlego. O fato de Charlie ser asmática ajuda bastante na composição desse segundo momento e é o motivo mais óbvio para o título desse trabalho de Laurent, embora haja outros motivos também. E por isso é importante ter cuidado para não entregar o impactante final.

RESPIRE também é um filme feminino no sentido de que as personagens das mães das referidas protagonistas ou moram sozinhas ou são mal tratadas por seus maridos. No caso do pai de Charlie, ele acaba sendo pintado como um sujeito mau caráter que a mãe teima em amar. Esse tipo de relação da mãe acaba por se repetir em Charlie e no quanto ela é apaixonada por Sarah, apesar das humilhações e tudo o mais que acontece com ela ao longo da narrativa.

E como a maior parte do elenco é de estreantes, não deixa de ser digno de nota o modo como Laurent extrai de suas atrizes momentos de tão forte carga dramática, como se elas nascessem para aquele papel, ou como se estivéssemos olhando suas intimidades através de uma janela. Uma janela que também brinca com o espectador, como na cena em que Charlie vai, pela primeira vez, à casa de Sarah. Esse, aliás, é também um momento extremamente elegante no uso da movimentação de câmera, entre vários outros. Por isso, que venham os próximos filmes dirigidos por esta moça talentosa.

quarta-feira, outubro 14, 2015

O LUGAR DAS PERDAS



O cinema cearense tem se tornado cada vez mais amplo em temática e em forma. Além do trabalho de cineastas novos que lidam com a ficção de maneira diferente e ousada e da tradição de cineastas veteranos que continuam contribuindo com sua experiência e talento, sem também perder o frescor, o nosso cinema também tem se caracterizado por trazer à tona reflexões fundamentais para a construção de uma sociedade mais cidadã, abrindo espaço para discussões nos âmbitos político e social.

O LUGAR DAS PERDAS (2015), de Israel Branco, é dessa vertente, embora também procure ser algo mais do que um simples documentário sobre o drama de pessoas que são deslocadas de suas casas pelo governo, buscando meios de se legitimar também como arte, o que o diferencia de programas jornalísticos produzidos para a televisão com um formato predeterminado. Nem que para isso tenha que abusar do uso da câmera na mão, que, de tanto tremer, chega a incomodar.

Nota-se em O LUGAR DAS PERDAS um tatear do realizador na tentativa de ir em busca de entrevistados que possam fornecer palavras e ações que contribuam para a edição final. Isso, aliás, é uma característica do gênero documentário. Lembremos que Eduardo Coutinho não se esquivava de esconder que às vezes não fazia a menor ideia do que iria filmar quando se juntava com sua equipe – provavelmente o caso mais explícito disso esteja em O FIM E O PRINCÍPIO.

Curiosamente, assim como o documentário sobre velhinhos falando sobre o passado e as expectativas do futuro, o filme de Israel Branco também encontra justamente nas pessoas idosas a sua maior força. Até porque essas pessoas possuem muito mais tempo de vida naquele espaço, no caso, a comunidade do Pirambu, uma área pobre de Fortaleza, mas que fica situada próximo ao Centro e à Praia de Iracema, e por isso mesmo vem sendo alvo do Governo para se tornar um novo ponto turístico da cidade.

Essas pessoas mais idosas vieram da zona rural na época da seca e se instalaram naquele espaço, que posteriormente seria concedido a eles por meio de lei federal. Um espaço de amor por aqueles que lá habitam ou habitavam. O LUGAR DAS PERDAS trata justamente do doloroso processo de remoção de algumas dessas pessoas pela Prefeitura de Fortaleza, que ofertou a elas um lugar em um condomínio modesto ou uma quantia em dinheiro se a pessoa preferisse. Essa quantia, porém, não era suficiente para se obter uma nova casa. Pelo menos, não perto dali.

E assim o documentário nos mostra principalmente a insatisfação daqueles que aceitaram a oferta de se mudar para um apartamento, mas acerta mesmo quando encontra uma pessoa que resistiu a essa remoção: a Dona Mazé, uma senhora que se recusou a sair de sua casinha humilde, ainda mais tendo que aceitar parcos 20.000 reais apenas, valor inicialmente oferecido.

Dona Mazé é o coração de O LUGAR DAS PERDAS, que parece em alguns momentos não saber o que fazer com alguns personagens muito bons, como o sujeito que canta um samba sobre o Pirambu e que só aparece uma vez, por exemplo. (Embora seja digna de menção também a senhora que canta o hino do Pirambu e que se mostra valente diante dos infortúnios da vida, como a perda do filho, assassinado.) Mas é natural que isso aconteça quando o acaso pode trazer tanto algo pouco ou muito interessante para o documentarista. Dona Mazé se torna não só a pessoa mais importante do documentário, como também aquela que faz o espectador se comover. E faz o título do filme ganhar em significância e em triste poesia.

segunda-feira, outubro 12, 2015

OITO DOCUMENTÁRIOS



Apesar de o termo documentário hoje ser um tanto complicado de usar, devido às cada vez maiores fusões com a ficção, tomo a liberdade de empregá-lo para designar as obras abaixo, apenas para fins de organização e também por ter pouco a dizer sobre estes filmes, seja por culpa da memória, seja por necessitar cada vez mais passar adiante os títulos que devo a este blog. Nem que seja na forma de textos pequenos e rasteiros.

A VIDA PRIVADA DOS HIPOPÓTAMOS

Embora não tenha me empolgado muito na época em que vi A VIDA PRIVADA DOS HIPOPÓTAMOS (2014), o filme de Matias Mariani e Maíra Bühler hoje me parece bastante inventivo, tanto por ser bem diferente do que se espera de qualquer documentário feito no Brasil, quanto pela forma como vai nos apresentando à situação complicada em que se encontrou um técnico de informática americano que se apaixonou por uma colombiana e que acabou se metendo em encrenca. Os diretores inicialmente pretendiam fazer um filme sobre presos estrangeiros no Brasil, mas a história de Chris, o tal americano, já era mais do que suficiente para que fosse criado um filme dedicado exclusivamente a ele.

SOPRO

Exibido em uma única sessão em mostra no Cinema do Dragão, SOPRO (2013), de Marcos Pimentel, é um trabalho que lida com a vida rural sem necessariamente estar preocupado com algo parecido com uma narração. Aliás, até há uma narração, no sentido de que todo filme tem uma, mas Pimentel prefere homenagear a natureza e a vida simples através de imagens que se configuram num ritmo próprio. A sequência mais memorável pra mim e que acabou me causando náuseas foi a de um nascimento de um bezerro. A câmera nos mostra até o fim o processo de nascimento da criatura, que aos olhos de um sujeito da cidade pode parecer no mínimo estranho, cronenberguiano até. Mas a vida animal é assim. O sopro do título também está presente no som do vento, principal elemento do que se poderia chamar de trilha sonora do filme.

OS ÚLTIMOS CANGACEIROS

E depois de quatro anos de sua exibição no Cine Ceará, Wolney Oliveira finalmente consegue colocar em cartaz o seu OS ÚLTIMOS CANGACEIROS (2011), um trabalho bem interessante em que o efeito do acaso é mais uma vez um aliado dos documentaristas. Aqui temos o caso do encontro de um casal que fazia parte do bando do lampião. Os dois, já bem velhinhos, vivendo separados por causa da polícia, nem sabem mais se o outro está vivo. Wolney se torna, então, responsável por esse reencontro, e ainda nos presenteia com imagens inéditas do bando de Lampião, filmadas por Benjamin Abraão e colorizadas a mão. Ficou um trabalho bonito, mas não deixa de ser curioso também ver os velhinhos que já mataram tanta gente serem hoje recebidos como heróis nacionais. Não tive como não lembrar de O ATO DE MATAR, de Joshua Oppenheimer, mas sabemos que o contexto aqui é outro, bem diferente. Afinal, a polícia era corrupta e o sertão nordestino era deixado ao deus-dará. O banditismo era, então, uma questão de honra para muitas dessas pessoas que aderiam a essa vida.

NOSTALGIA DA LUZ (Nostalgia de la Luz)

Não sei bem dizer qual foi minha cisma com este NOSTALGIA DA LUZ (2010), de Patricio Guzmán. Posso dizer que acabei não gostando pelo efeito do treme-treme que algumas salas do Cinépolis Rio-Mar Fortaleza proporcionam. Isso a muito me incomoda e retira bastante o prazer dos olhos que um filme poderia trazer. Logo, acabei ficando com má vontade de ver o filme, que acompanhei meio que a contragosto. Quem sabe revendo em casa eu gosto. A impressão que ficou foi que a junção do filosofar sobre as estrelas e o tempo e a questão da vida perdida de presos políticos que foram enterrados e até hoje têm seus restos mortais procurados por familiares no Deserto do Atacama, no Chile, durante a ditadura de Pinochet, não chegaram a formar um todo coeso. Pareceram dois assuntos que foram forçosamente colocados juntos por Guzmán. Mas, claro, posso estar enganado.

EDUARDO COUTINHO, 7 DE OUTUBRO

É tanta a saudade que sentimos de Eduardo Coutinho que este documentário EDUARDO COUTINHO, 7 DE OUTUBRO (2014), de Carlos Nader, chega a ser um alento. Nader, diretor do excelente A PAIXÃO DE JL (2014), emula o estilo enxuto de conversa de seu entrevistado e o resultado é bem descontraído e acaba por revelar bastante da personalidade e da vida de Coutinho, do seu processo de trabalho, da sorte em conseguir entrevistados fantásticos. Nader, ao usar a aleatoriedade na escolha de cenas de filmes como opção dentro de uma obra já bastante extensa como a de nosso maior documentarista, faz do acaso mais uma vez um aliado nesse gênero. Se fica atrás de qualquer outro título da filmografia de Coutinho é porque talvez queira mesmo ser humilde o bastante para reverenciar o seu ídolo.

ADEUS À LINGUAGEM (Adieu au Langage)

Não foi como deveria ter sido. Ver ADEUS À LINGUAGEM (2014, foto) em 2D e não em 3D, como foi pensado e arquitetado por Jean-Luc Godard, talvez seja ver apenas uma sombra de seu trabalho, aqui mais um filme-ensaio desse diretor que optou por um estilo peculiar de filmar a partir da década de 1970, quando praticamente abandonou a narrativa em prol de outros meios de contar a história ou de passar adiante a sua mensagem, a partir de imagem e recortes de textos seus e de outras pessoas ilustres. Tentar resumir ADEUS À LINGUAGEM é um tanto complicado, mas pode-se dizer que o principal eixo temático gira em torno de um casal vivendo em crise. Não chega a ser um filme difícil como se costuma pensar dos trabalhos do diretor suíço-francês e certamente deve render boas discussões filosóficas sobre a vida e a sociedade. E isso sem nunca deixar de ser cinema.

CAMPO DE JOGO

Certamente quem gosta de futebol e não é muito interessado em linguagem cinematográfica fora do convencional não deve gostar muito de CAMPO DE JOGO (2015), filme em que o esporte é o elemento central, mas, ao mesmo tempo, o diretor Eryk Rocha evitar mostrar os lances, preferindo deixar sua câmera nos olhares e nas emoções daquelas pessoas pertencentes a dois times de periferia que jogam no mesmo dia em que acontece a final da Copa do Mundo de 2014. Rocha faz cinema-poesia, ao optar por poucos depoimentos e filmar os corpos como num dança e os cortes da montagem como pedaços da construção de uma linguagem própria. Não é todo mundo que deve gostar do resultado, mas não dá pra dizer também que se trata de trabalho que mereça ser ignorado.

O UNIVERSO GRACILIANO

Não sou exatamente fã de Sylvio Back. Ele é até um bom diretor de documentários ensaísticos que sabe lidar muito bem com pedaços de outros filmes e imagens, como fez em YNDIO DO BRAZIL (1995), mas não soube aproveitar um tema tão interessante, que é a vida (e com ela a obra) de Graciliano Ramos, um de nossos maiores escritores. Em O UNIVERSO GRACILIANO (2013), Back opta por entrevistar pessoas que tiveram alguma relação, seja de amizade ou familiar, com o Velho Graça. O filme revela pouco sobre a obra do cineasta, mas algumas falas são acertos, como a cena em que a filha do escritor testemunha o momento em que o pai morre. Há uma valorização maior do homem Graciliano em detrimento do escritor e isso acaba empobrecendo o documentário. Eu confesso que estou na torcida para que Back não seja o diretor de uma futura adaptação de Angústia, um dos grandes romances de Graciliano, como andavam dizendo por aí.

domingo, outubro 11, 2015

BATA ANTES DE ENTRAR (Knock Knock)



Depois das dificuldades enfrentadas durante o processo de trazer CANIBAIS (2013), seu filme-homenagem a CANIBAL HOLOCAUSTO, de Ruggero Deodato, para o circuito comercial, outro trabalho de Eli Roth, mais recente, e também contando com sua atual musa e esposa Lorenza Izzo, teve mais sorte em alcançar mais rápido e uma maior aceitação nas salas de cinema: BATA ANTES DE ENTRAR (2015). Muito provavelmente por ser um exemplar muito mais leve do que estamos acostumados a ver do cinema sempre perturbador e sangrento de Roth, o homem por trás de O ALBERGUE (2005).

Vale lembrar que O ALBERGUE nasceu durante um momento particularmente intenso dos filmes de horror com muito sangue e violência, os chamados torture porns. Na época de O ALBERGUE, filmes como o francês MÁRTIRES, a franquia JOGOS MORTAIS, o remake de HALLOWEEN, o remake A ÚLTIMA CASA, e até mesmo A PAIXÃO DE CRISTO, de Mel Gibson, são exemplares desse momento em que a humanidade parecia querer purgar os seus próprios pecados e/ou queria saciar sua sede de sangue. Essa tendência ainda não acabou, mas parece estar demonstrando sinais de cansaço.

Por isso BATA ANTES DE ENTRAR é um terror muito mais psicológico do que físico, que dialoga com VIOLÊNCIA GRATUITA, de Michael Haneke, em sua capacidade de intoxicar o sangue, com a tortura imposta pelas duas garotas ao protagonista. Pena que Eli Roth não tenha a classe de Haneke para compor essa história de um homem de família (Keanu Reeves) que é visitado por duas moças atraentes que começam um processo de sedução, para em seguida transformar a vida do sujeito em um inferno crescente.

O fato de Keanu Reeves estar exageradamente canastrão – como se fosse algo de propósito, ou como se ele não estivesse levando a sério em momento algum o filme – contribui para que a sensação de suspensão da descrença seja abalada. Sabemos que Reeves é um ator limitado, mas sabemos também que em muitas ocasiões suas atuações funcionam muito bem.

Assim, sobra para que as duas meninas, as chilenas Lorenza Izzo e Ana de Armas, tomem o filme para si. Elas são as dominadoras em todos os sentidos. Dominam quando usam a fraqueza masculina para benefício próprio e quando começam a perturbar a ordem do protagonista a partir do café da manhã.

Por mais que filmes de horror sejam obras que têm como uma característica recorrente o moralismo, Roth parece não ter a intenção aqui de criar um conto moral sobre alguém que cometeu um erro e está pagando por seus pecados, que surgem na figura daqueles dois anjos exterminadores. Seria mais algo como uma sátira desse tipo de horror moralista. A não ser que as supostas alegações de pedofilia que uma das moças reivindica para o personagem seja verdade, o que aproximaria o filme de MENINA MÁ.COM, de David Slade, sobre um pedófilo que recebe uma lição de uma jovem garota.

BATA ANTES DE ENTRAR é um remake de DEATH GAME (1977), de Peter S. Traynor, estrelado por Sondra Locke e Colleen Camp, que no filme de Roth aparecem como coprodutoras. Dizem que o original é bem interessante.

sábado, outubro 10, 2015

A TRAVESSIA (The Walk)



No cartaz de A TRAVESSIA (2015), os dois filmes de Robert Zemeckis que são citados como referência são NÁUFRAGO (2000) e O VOO (2012), justamente seus dois últimos trabalhos em live action – suas três experiências com animação em captura de movimento, que demandaram muito de seu tempo, foram bastante importantes para a consolidação e afirmação dessa tecnologia, mas estão longe de estarem entre seus melhores trabalhos, já que a preocupação maior com os efeitos aliada à vontade de atingir um público infantil acabaram prejudicando os resultados finais.

Além do mais, há pelo menos um elemento de NÁUFRAGO e O VOO que está bastante ligado ao novo filme: a queda. Nesses três trabalhos, Zemeckis se mostra obcecado pela queda, que nos dois filmes anteriores é mostrada como um espetáculo à parte. Em A TRAVESSIA, a queda pode ser vista até certo ponto como uma possibilidade, mas é também, no caso da realização do sonho de Philippe Petit (Joseph Gordon-Levitt), sinônimo de morte, uma palavra tabu para o personagem e que deve ser riscada de sua mente sob risco de atrapalhar o sucesso de seu ambicioso projeto.

A incrível história do equilibrista Philippe Petit já foi contada em documentário antes, em O EQUILIBRISTA (2008), de James Marsh, mas é até interessante ver o filme de Zemeckis sem ter visto o documentário. Curte-se mais cada momento. Aliás, como é gostoso acompanhar a narrativa de A TRAVESSIA. O diretor utiliza um velho recurso, o da narração do próprio personagem contando a história não apenas em voice-over, mas também de cima de um prédio, ainda que não seja o mesmo onde se deu a sua incrível e proibida aventura.

E sendo proibida, A TRAVESSIA entra na questão da arte como objeto transgressor e como ato de desobediência civil. Em vários momentos, Petit faz questão de afirmar que ele não é um artista de circo, ele é um artista. E isso é muito importante como afirmação, principalmente para o filme e para refletir na própria criação de Zemeckis. Como se o cineasta quisesse dizer também que ele não é apenas um dos grandes pioneiros do uso de tecnologias de ponta no cinema, mas que é também um dos grandes cineastas de sua geração. Ao ver A TRAVESSIA, temos mais uma vez certeza disso.

A busca de um modelo de narrativa que consiga trazer tanto o suspense e a tensão do ato proibido e quase suicida de Petit, auxiliado por seu grupo de cúmplices, e ao mesmo tempo também captar a sensação do personagem quando ele finalmente atinge o seu objetivo, em um momento tão especial que é um misto de felicidade orgasmática com uma profunda paz de espírito, é atingido com precisão pelas imagens fabulosas que aliadas à tecnologia IMAX 3D trazem uma sensação de que estamos também no fio que liga as duas torres gêmeas do World Trade Center. Para quem tem medo de altura, o filme é um convite a desafiar esse medo.

Contar a história de Petit desde a infância em Paris, quando ficou fascinado com um equilibrista de circo e como conseguiu sozinho ser um mestre nessa habilidade para depois chegar ao projeto de vida que nasceu antes mesmo de as torres ficarem prontas, tudo isso contribui para que nos aproximemos mais do personagem, o que mais uma vez nos remete aos dois filmes citados no cartaz, que nos ligam a um homem sozinho em uma ilha e a um homem sozinho em assumir a culpa de ter bebido e ao mesmo tempo ter salvado os passageiros e a tripulação de um voo. Aqui a solidão também está presente, mesmo que Petit tenha parceiros que o ajudem a realizar o ato. Mas não se trata de uma solidão ruim. Pelo menos, não aqui.

Estar sozinho em meio a nuvens visualizando pessoas tão pequenas lá embaixo enquanto ele desempenha um ato tão insano é não só o momento mais importante de sua vida, mas também um momento em que ele atinge um estado de espírito até então desconhecido. A cena do pássaro se aproximando para olhar para ele, por exemplo, tem uma força espiritual poucas vezes vista no cinema.

Ver A TRAVESSIA é entender que o uso da tecnologia 3D pode sim ser usado para nos fazer atingir níveis especiais de apreciação fílmica que vão muito além de um mero parque de diversões incluído na rotina dos multiplexes e de uma forma de aumentar o custo dos ingressos. Claro que sabemos que se trata de um caso especial, mas é sempre bom dizer que casos especiais assim devem ser tratados com muito carinho, e por isso mesmo perder a chance de ver A TRAVESSIA no cinema é quase um crime.

quinta-feira, outubro 08, 2015

ENTOURAGE – FAMA E AMIZADE (Entourage)



Derivado de uma das séries mais queridas da televisão – ainda que seu séquito de fãs não seja tão grande assim –, ENTOURAGE – FAMA E AMIZADE (2015), de Doug Ellin, é um filme que já vinha sendo bastante esperado desde o final da oitava e última temporada (2011) por causa do carinho que criamos com os personagens, a turma do astro de Hollywood Vince Chase e sua entourage, formada por E., Turtle, Drama e o executivo Ari.

O longa para cinema só decepciona se você espera algo bem além de uma versão estendida de um episódio. E tem a vantagem de apresentar mais participações especiais de astros de Hollywood vivendo eles mesmos. Destaque para Liam Neeson, Mark Wahlberg (ele é produtor da série, anyway), Jon Favreau, Jessica Alba, Armie Hammer, entre outros. Mas da turma que faz o papel de si mesmo quem ganha mesmo a cena, até por aparecer mais, é Ronda Rousey, que faz par romântico com Turtle – o sortudo já havia namorado a Jamie-Lynn Sigler (de FAMÍLIA SOPRANO) durante duas temporadas da série.

Mas o que importa mesmo é acompanhar as aventuras e confusões de nossos heróis em um momento em que Vince resolve dirigir ele mesmo um filme, e também atuar, lembrando dos bem-sucedidos casos de Kevin Costner e DANÇA COM LOBOS e Mel Gibson e CORAÇÃO VALENTE, dois filmes oscarizados. Curiosamente, como acontece na maioria das vezes na série, não vemos as cenas do set de filmagens, mas só o que acontece depois, com as negociações para as primeiras exibições para os produtores, montagem, lançamento e repercussão do filme, que se chama "Hyde".

Apesar de a turma continuar mais ou menos igual, E., curiosamente, aparece mais galinha, separado da adorável e grávida Sloane (tão bom ver a Emmnuelle Chriqui de novo). Já Turtle aparece mais confiante, em seu novo corpo magro e agora que ficou rico negociando tequila. Vince e Turtle não mudaram nada. Mas quem se destaca mesmo entre os cinco é mesmo Ari, cada vez mais nervoso, por mais que as regras impostas a ele sejam a de estar sempre calmo para agradar a esposa e não perder o casamento.

Muito provavelmente alguém que nunca acompanhou a série não vai gostar muito do filme e talvez por isso a distribuição no Brasil tenha sido muito discreta – na verdade inexistente na maioria das cidades brasileiras. Se bem que o filme pode até ter um efeito oposto e fazer com que algum espectador que nunca viu a série passe a se interessar pela gostosa brincadeira envolvendo Hollywood, sexo, dinheiro, fama, carrões, amizade masculina e muita mulher bonita.

terça-feira, outubro 06, 2015

NÓS DUAS DESCENDO A ESCADA



Tem dias que só um filme muito bom para ajudar a salvar. Foi o caso de NÓS DUAS DESCENDO A ESCADA (2015), de Fabiano de Souza, exibido em Fortaleza no 9º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual. A comparação deste com AZUL É A COR MAIS QUENTE pode até ser um pouco difícil de evitar, já que em ambos os filmes há um casal feminino apaixonado e suas histórias são narradas com um espaçamento de tempo considerável, de modo que nós percebamos esse fator temporal tanto desgastando quanto enriquecendo a relação.

Separando os nove capítulos em que se divide o longa, o diretor e roteirista Fabiano e o produtor e editor Milton do Prado utilizam notícias curiosas da época em que se passa a história, entre os anos de 2011 e 2012. A proposta da filmagem foi também ousada nesse sentido, já que as cenas foram filmadas com esse espaçamento de nove meses. O resultado é que sentimos tanto o entusiasmo inicial dos primeiros encontros quanto o tédio e o desgaste quando surgem as discussões mais acirradas.

Apesar de em alguns momentos parecer ter alguma gordura na edição a partir de sua segunda metade, fica difícil imaginar o filme sem as cenas que ficaram. Do jeito que ficou, NÓS DUAS DESCENDO A ESCADA é tanto uma obra pop, que agrada a plateias maiores com sua narrativa agradável, como também flerta com o cinema de autores franceses como Jacques Rivette, Eric Rohmer e o Godard dos tempos de ACOSSADO.

Soube, através do produtor, que uma cena de sexo ficou na sala de edição, o que não deixa de ser uma pena, mas a difícil decisão pode ter beneficiado o produto final. O sexo, ainda que seja um elemento bastante excitante, além de muito bonito de ver no modo como é filmado, acaba servindo principalmente para a construção do estudo do relacionamento amoroso entre as belas protagonistas, a arquiteta Mona, vivida pela loira Carina Dias, e a estudante de arte Adri, vivida pela morena Miriã Possani.

Adri, depois de uma cantada de Mona e de um encontro no ônibus que rende até uma boa piada que remete explicitamente a LUA DE FEL, do Polanski, se torna alvo fácil e objeto do desejo de Mona e também do espectador. Aquele rosto fino de intelectual bonita e aqueles óculos de aros grossos são encantadores. Por outro lado, Mona, com aquele cabelo curtinho, acaba lembrando Jean Seberg no citado filme do Godard. Terá sido intencional?

Algumas cenas são dignas de nota, dada a delicadeza com que são dirigidas e representadas. Vale destacar a brincadeira em uma videolocadora com títulos de filmes brasileiros, as tantas vezes em que as duas se acariciam e conversam na cama, o baseado no aniversário de Adri, o momento em que ela chega deslocada em uma festa dos amigos de Mona (uma das mais bem-dirigidas, provavelmente, e uma das poucas com vários personagens em cena) e as buscas de resolução da situação das duas, inspirando-se, metalinguisticamente, nas comédias românticas. Mas não sem algo de estranho, herdeiro do cinema europeu, para tornar a obra mais charmosa.

No mais, outro belo destaque do filme é a sua trilha sonora, recheada de canções tão saborosas que deveriam constar em um CD encartado em uma futura edição em DVD do filme (dreaming is free). Frank Jorge é o autor da trilha original, mas no elenco de artistas há nomes como Graforréia Xilarmônica, Júpiter Maçã, Karina Buhr, DJ Dolores, Tulipa Ruiz, Clarissa Mombelli, Fernanda Takai, Cris Martins e até Aracy de Almeida, tudo funcionando muito bem no conjunto da obra.

domingo, outubro 04, 2015

TRÊS CLÁSSICOS DO CINEMA BRASILEIRO



De vez em quando surgem oportunidades de ouro de vermos certos filmes clássicos em cópias decentes no cinema, seja em 35 mm, seja em DCP. Os três títulos abaixo foram vistos em diferentes momentos de diferentes mostras no Cinema do Dragão, e o meu sentimento de agradecimento pelos curadores por terem trazido essas obras é grande. Falemos um pouco sobre cada um deles.

O BEIJO DA MULHER ARANHA (Kiss of the Spider Woman)

A repercussão de PIXOTE – A LEI DO MAIS FRACO (1981) chamou a atenção dos americanos para Hector Babenco, que acabou por fazer três produções americanas, a começar por O BEIJO DA MULHER ARANHA (1985, foto), coproduzido com o Brasil e que traz em seu elenco, além de Sônia Braga no papel-título, um grande elenco de apoio de rostos conhecidos do cinema e da televisão brasileiros. O BEIJO DA MULHER ARANHA é um filme que traz bastante da estética suja de PIXOTE, principalmente quando se passa dentro da cela em que dois homens, um deles gay, vivido por William Hurt, passam a estabelecer uma relação de amizade. Há todo um contexto político, muito bem-vindo naquele momento de redemocratização brasileira e Raul Júlia e Hurt se entregam aos seus papéis muito bem. As origens literárias da obra se tornam evidentes nos momentos em que Hurt procura contar história fictícias para ambos passarem o tempo. É também um filme sobre confiar no outro em um momento especialmente difícil para presos políticos ou perseguidos pela ditadura.

O GRANDE MOMENTO

Provavelmente uma das comédias mais divertidas e mais interessantes do cinema brasileiro, O GRANDE MOMENTO (1958), de Roberto Santos, não faz parte nem do período das chanchadas, que estava moribundo, nem do Cinema Novo, que estava nascendo. Trata-se de um objeto diferente, ainda que se visto hoje possa ser encarado como uma produção de narrativa convencional. Na trama, passada na periferia de São Paulo, o jovem Gianfrancesco Guarnieri é um rapaz que vive problemas financeiros na hora de casar, tendo que vender a bicicleta, por exemplo, para pagar o aluguel do terno para o casório. E ainda precisa pagar o fotógrafo, a florista, as bebidas para a festa etc. E ainda precisa de dinheiro para a lua-de-mel. É toda uma lógica de tentar mostrar que está tudo bem em uma situação de falta de dinheiro, que ainda impera nos dias de hoje. O que não impede que o filme seja cheio de momentos engraçadíssimos e situações que divertem até hoje. O GRANDE MOMENTO segue sendo um grande filme e ainda fala às novas audiências, passados todos esses anos.

VERA

Visto mais recentemente, VERA (1986), de Sérgio Toledo, foi exibido no 9º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual. A escolha do título, pela organização do evento, foi muito feliz, tanto para aqueles que acompanham o festival pelo interesse na temática ou como exercício de cidadania, como para cinéfilos que valorizam um trabalho que até hoje é respeitado. VERA é um dos melhores filmes de sua época e é uma pena que Toledo tenha se aposentado do cinema. A história é baseada na vida de Anderson Herzer, transexual e poeta que passou a infância na Febem e foi protegido por Eduardo Suplicy, que, sensibilizado por seu talento artístico e sua condição, resolveu arranjar emprego para ele. No filme, os nomes são mudados e a personagem principal se chama Vera, embora prefira que a/o chamem de um nome masculino, Bauer. O papel rendeu a Ana Beatriz Nogueira o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim de 1987. A narrativa alterna cenas dos momentos em que Vera vive na Febem e em momentos que ela tenta, muito timidamente, contato com a sociedade preconceituosa que foi apresentada pelo personagem de Raul Cortez. Gosto do filme inteiro, mas gosto especialmente das cenas de intimidade de Vera com uma moça negra por quem ela se apaixona. O drama de rejeitar o próprio corpo feminino também sensibiliza a plateia.

quinta-feira, outubro 01, 2015

PERDIDO EM MARTE (The Martian)



Poucos cineastas têm trabalhado com tanta regularidade e com um elenco tão bom em Hollywood quanto Ridley Scott. No momento, por exemplo, só consigo lembrar de outro nome: Steven Spielberg. Em comum, ambos também são produtores, embora Spielberg seja um nome mais gigante nesse sentido. PERDIDO EM MARTE (2015) mostra mais um exemplo de fôlego de Scott, novamente no espaço, depois de duas excelentes experiências anteriores: ALIEN – O OITAVO PASSAGEIRO (1979) e o controverso PROMETHEUS (2012), que ganhará em breve uma continuação.

PERDIDO EM MARTE tem um pé no realismo, ao sair do universo de monstros e mostrar um futuro mais ou menos próximo, quando a humanidade já poderá ousar pisar pessoalmente em solo marciano. Mas ainda num momento bastante delicado. O filme já começa quando a equipe de seis astronautas liderada pela Comandante Melissa Lewis (Jessica Chastain) escapa de uma tempestade de areia e pedras e bate em retirada na própria nave. Uma pessoa do grupo, porém, o botânico Mark Watney (Matt Damon), fica para trás, atingido pelo vento e pelos detritos. É dado como morto e deixado sozinho no planeta.

Não se trata de um ESQUECERAM DE MIM em Marte, já que os seus colegas ficam preocupados e tristes com sua suposta morte. Mas Mark acorda e decide sobreviver diante daquelas circunstâncias tão terríveis. Afinal, ficar tantos milhões de quilômetros afastados da Terra em um planeta em que não dá sequer para respirar o ar não é para qualquer um.

É possível fazer um paralelo com um filme superior: GRAVIDADE, de Alfonso Cuarón, no qual Sandra Bullock se vê sozinha no espaço, no meio do nada. Acontece que PERDIDO EM MARTE não é um filme de naufrágio que foca apenas nas dificuldades de sobrevivência e na inteligência de Mark, mas também vemos o que acontece na Terra quando os executivos da Nasa avisam que perderam um homem na missão espacial e depois avisam que ele está vivo para o povo, que passa a acompanhar diariamente o drama do astronauta. Também vemos, ainda que pouco, cenas na nave que se encaminha de volta para o nosso planeta.

Scott tem o luxo de trabalhar com uma galeria de atores de fazer inveja a muita gente: além dos já citados Damon e Chastain, há também a presença de Kristen Wiig, Jeff Daniels, Michael Peña, Sean Bean, Kate Mara, Sebastian Stan e Chiwetel Ejiofor. Seja em Marte, no espaço ou na Terra.

Um dos pontos negativos do filme está no andamento por vezes moroso, que torna pouco empolgante ou preocupante a dura meta de Mark de sobreviver àquilo tudo, embora seja divertido ver as possibilidades apresentadas para sair de determinada situação, como quando ele utiliza as próprias fezes como adubo para plantar batatas em uma estufa no planeta vermelho, assim como as tentativas do pessoal da NASA de levar inicialmente comida para ele numa sonda.

Assim, a narrativa alterna momentos de desespero e outros de esperança animadora, como quando ouvimos “Starman”, do David Bowie, tocando. E não deixa de ser mais uma obra de Scott que lida com pessoas em circunstâncias terríveis tendo que encontrar forças de onde achava que não tinha e ainda ter uma ajudinha da sorte ou do destino. Lembramos tanto de ALIEN quanto de ATÉ O LIMITE DA HONRA (1997); tanto de ÊXODO – DEUSES E REIS (2014) quanto de GLADIADOR (2000), goste-se ou não desses filmes.

quarta-feira, setembro 30, 2015

UM SENHOR ESTAGIÁRIO (The Intern)



Interessante como Robert De Niro se reinventou como ator de comédia a partir do finalzinho dos anos 1990, com MÁFIA NO DIVÃ, e teve bem poucos bons momentos no chamado cinema sério, ou cinema ligado aos filmes de gângster, que é como ele era geralmente associado, por causa principalmente de sua associação com Martin Scorsese. E não dá pra dizer que não deu certo.

UM SENHOR ESTAGIÁRIO (2015), de Nancy Meyers, está aí para provar mais uma vez que ele tem tino para o humor e ainda brinca com sua carreira pregressa, como na cena em que precisa arranjar um jeito de evitar que a mãe da personagem de Anne Hathaway leia determinado e-mail.

O novo trabalho de Meyers é mais do que o que se vende no trailer, que passa a ideia de que é uma comédia ligeiramente boba, ainda que estrelada por um par de astros tão bons quanto De Niro e Hathaway. Ambos já tiveram tempo mais do que suficiente para provarem seus talentos e aqui a química funciona muito bem. O único medo era de que UM SENHOR ESTAGIÁRIO sofresse de um excesso de fofura, o que dá para pensar lá pela metade do filme.

Porém, uma vez que somos tragados pelo drama dos personagens, que vamos nos aprofundando em seus problemas pessoais, esse exagerar na dose do açúcar acaba funcionando a seu favor no final, embora seja bem possível que alguns torçam o nariz pelo fato de o filme entrar sem medo no terreno do melodrama, que talvez seja o gênero que continua mais ligado à velha Hollywood, o que eu vejo como algo positivo.

UM SENHOR ESTAGIÁRIO convida o espectador para pensar também em várias situações do mundo contemporâneo, desde o modo como a sociedade digital rejeita a experiência dos mais velhos; passando pela vida complicada de uma mulher no mercado de trabalho, tendo que também ser boa mãe e boa esposa; e pela necessidade das pessoas de se sentirem-se úteis, mesmo estando aposentadas. No caso, há vários casos de pessoas que morrem logo que se aposentam, principalmente homens, pois não encontram mais nada que faça sentido na vida.

E é o caso de Ben, personagem de De Niro, um senhor viúvo que depois que perdeu a esposa já experimentou de quase tudo – viajou pelo mundo, teve casos com mulheres da sua idade, pratica atividade física –, mas que vê na possibilidade de recomeçar, ainda que como estagiário, aos 70 anos, uma chance de ver sentido na vida.

Ben sente um profundo respeito por sua nova patroa, Jules (Hathaway), uma jovem mulher que conseguiu em pouco tempo transformar uma pequena empresa em uma companhia de sucesso, uma loja dedicada a vender roupas femininas pela internet. Mas Jules é extremamente reservada e o fato de Ben ser bastante observador faz com que a relação dos dois seja um pouco difícil no começo, embora saibamos que aos poucos eles se tornarão amigos.

Aliás, o tema da amizade, que é tão bem-vindo em filmes, raramente lida com a amizade entre sexos opostos. Há casos como o de APENAS UMA VEZ e de MESMO SE NADA DER CERTO, ambos de John Carney, mas nesses filmes há uma tensão amorosa entre os protagonistas. No caso de UM SENHOR ESTAGIÁRIO, é uma amizade que se aproxima mais de uma relação entre pai e filha, até porque em nenhum momento o pai de Jules é citado.

Assim, depois de tantos filmes abordando o chamado bromance, desde os antigos trabalhos de Howard Hawks até as comédias recentes, temos, enfim, uma obra que lida com muita sensibilidade da relação de amizade entre um homem mais velho e mais seguro de si e uma forte empresária que está passando por uma crise no casamento. Ambos pintam para o mundo imagens de pessoas fortes, mas não é isso que a sociedade exige da gente? Não é assim que devemos nos portar, até para não desabarmos em algum momento? Nessas situações, um abraço de um grande amigo nos ajuda a seguirmos em frente, mais fortes e mais determinados.

domingo, setembro 27, 2015

ORESTES























Tem um professor colega meu que tem umas opiniões bem controversas e ele é daqueles que procuram todos os dias o pior que está acontecendo na política brasileira e já amanhece o dia falando mal do PT, da Dilma, do quanto está torcendo pelo impeachment etc. Segundo ele, o Governo só quer saber de ajudar os gays e contribui com a impunidade, ao beneficiar os grupos de direitos humanos (coisa que eu nem sei se é verdade). Ele também é desses que é a favor da pena de morte e disse que aqui devia ser como a Indonésia. Já falei pra outros colegas que falar essas coisas todos os dias é meio que se autoenvenenar, provocar câncer em si mesmo etc.

Por outro lado, a questão do direito de matar (existe isso?) impregna até mesmo aqueles que assistem a um filme de ficção ou uma telenovela. Fui com uma amiga minha ver O LOBO ATRÁS DA PORTA, e ela achou justo a protagonista ter feito o que fez com a garotinha por causa do que foi feito com ela. Do mesmo modo, uma irmã minha, comentando o final da novela VERDADES SECRETAS, achou que a mocinha fez bem ao matar o sacana que a seduziu. A impressão que fica é que matar por vingança pode.

ORESTES (2015), o filme de Rodrigo Siqueira que está em cartaz em poucas salas do país, trata justamente desse tipo de discussão: até que ponto matar é justo ou aceitável? Matar o assassino de sua mãe, mesmo sendo ele o seu pai é algo que deve ser considerado? Essa pergunta é feita tanto a partir da peça grega Orestes, de Eurípedes (458 a.C.), quanto a partir da possibilidade de busca de justiça de uma jovem cuja mãe foi entregue pelo próprio amante/marido, o Cabo Anselmo, um militar que havia se infiltrado no grupo comunista de que fazia parte Soledad Barret Viedma, ao Delegado Fleury, do DOPS.

A filha de Soledad é uma das participantes e um dos casos que mais tornam ORESTES uma obra interessante e forte. Filha de uma tragédia, as fotos que ela possui dela com o pai ou a com a mãe foram muito provavelmente tiradas pelo Cabo Anselmo. Acabamos criando um ódio por esse indivíduo a partir de trechos de uma entrevista que ele deu ao Roda Viva. Inclusive, fiquei bem interessado em ver a entrevista completa, que está disponível no youtube.

O documentário ORESTES ainda apresenta outros casos dolorosos, como a de um dos sobreviventes da ditadura que visita um dos lugares em que foi torturado, ou a de uma mãe cujo filho foi morto e enterrado como indigente depois de uma ação da polícia. Há também um posicionamento que não poderia deixar de haver no filme, que é o de uma mulher que busca justiça e que põe tudo preto no branco, achando que a polícia tem sempre razão e que todo garoto que anda armado é merecedor do seu fim.

Embora eu goste mais da primeira parte do filme, que é a da apresentação dos “personagens” e principalmente dos casos relacionados à ditadura militar, não deixa de ser muito interessante tanto a encenação inspirada na peça de Eurípedes por um grupo de atores, quanto o psicodrama que leva todas aquelas pessoas para uma espécie de expurgo encenado das suas vidas. Um trabalho bem diferente do que costuma-se ver nos cinemas, ORESTES mereceria mais atenção do público.

quinta-feira, setembro 24, 2015

EX-MACHINA – INSTINTO ARTIFICIAL (Ex Machina)



Como muitas vezes uma coisa leva à outra e atrizes belas e carismáticas tendem a ser chamarizes para vermos determinadas produções, ainda mais quando já são suficientemente elogiadas por público e crítica, foi Alicia Vikander que me levou a EX-MACHINA – INSTINTO ARTIFICAL (2015), que no Brasil foi lançado direto em vídeo.

Meu encanto pela moça se deu recentemente, em O AGENTE DA U.N.C.L.E., de Guy Ritchie, mas já a havia visto em ação no ótimo O AMANTE DA RAINHA, de Nicolaj Arcel. Em EX MACHINA, ela interpreta a mais sexy andróide do cinema desde Sean Young em BLADE RUNNER, O CAÇADOR DE ANDRÓIDES.

E a semelhança entre os dois filmes não para aí: há uma entrevista avaliativa que muito lembra a vista no trabalho de Ridley Scott, um teste fictício que é baseado no teste de Turing, que consiste em determinar se o objeto testado é humano ou não. No caso, já se sabia que o objeto não era humano, mas havia a intenção de avaliar o grau de humanidade daquela máquina.

Na trama, Domhnall Gleeson é Caleb, um jovem programador que é sorteado para participar de um experimento secreto de inteligência artificial, tendo que avaliar as qualidades humanas de uma andróide bem especial (Alicia Vikander). Durante o teste, ele e a andróide começam a ter momentos de maior intimidade, ou mesmo de interesse sexual. Pelo menos, vemos isso do ponto de vista de Caleb e da boca de Ava, a andróide feminina.

O autor da façanha – da criação de Ava – é um cientista inescrupuloso, Nathan (Oscar Isaac), um homem meio amargo que é bastante controlador, tem hábitos etílicos que o deixam com uma baita ressaca no dia seguinte, e possui uma andróide particular como escrava sexual e realizadora de outras atividades.

O filme é dividido em capítulos, que são marcados pelos encontros de Caleb com Ava, que nos mostram a crescente aproximação dos dois, no medo dela de ser desligada (morta) – outro flerte com BLADE RUNNER – e na falta de confiança que Caleb passa a ter em relação a Nathan. Um dos aspectos mais positivos é o clima de suspense que se cria nos diálogos tensos e/ou de atrito desses três personagens ao longo do filme, que presenteia o espectador com cenas ousadas e até perturbadoras, que aproximam o filme do cinema de horror.

EX MACHINA é a estreia na direção de Alex Garland, que possui no currículo alguns trabalhos como roteirista. Inclusive, há trabalhos dele nessa função que guardam similaridade com o seu début, como os ótimos SUNSHINE – ALERTA SOLAR (2007) e NÃO ME ABANDONE JAMAIS (2010).

quarta-feira, setembro 23, 2015

SEIS COMÉDIAS



Mais uma postagem com o objetivo de despejar alguns títulos vistos há algum tempo e que precisam ser comentados para diminuir a lista interminável dessa minha obrigação de escrever sobre todos os filmes vistos. Será preciso mais posts como esses para que eu consiga diminuir pelo menos pela metade a lista atual, que tem cerca de 80 títulos.

O ÂNCORA - A LENDA DE RON BURGUNDY (Anchorman – The Legend of Ron Burgundy)

Engraçado que eu vi este filme em casa com a intenção de ver a sua continuação no cinema, coisa que acabou não rolando. O ÂNCORA – A LENDA DE RON BURGUNDY (2004) é um filme que tem os seus momentos e deve muito disso ao bom desempenho de Will Ferrell. Por mais que ele não seja uma unanimidade na comédia americana atual, ele consegue sim ser muito engraçado quando está inspirado ou dispõe de bons textos. Infelizmente O ÂNCORA é um pouco irregular, mas tem bons momentos, duelo de sexos, nos apresenta à misoginia típica das empresas da época, e ainda conta com um elenco de apoio mais do que respeitável, principalmente hoje em dia: Paul Rudd, Steve Carell, Christina Applegate, Seth Rogen, entre outros. A continuação se chamou aqui no Brasil TUDO POR UM FURO (2013) e também é dirigida por Adam McKay.

QUERO MATAR MEU CHEFE 2 (Horrible Bosses 2)

Infelizmente a continuação do ótimo QUERO MATAR MEU CHEFE (2011), de Seth Gordon, não foi muito bem sucedida. Com a mudança de diretor – entrou Sean Anders, que por acaso ou não fez o ótimo FAMÍLIA DO BAGULHO (2013) – a coisa desandou um pouco. Mas talvez nem tenha sido culpa de Anders, mas de um roteiro mais esperto, já que a turma era praticamente a mesma e eles já estavam entrosados. Na trama, Dale, Kurt e Nick (Charlie Day, Jason Sudeikis e Jason Bateman, respectivamente) resolvem montar a própria empresa, mas acabam sendo ludibriados e perdem tudo. Optam, então, por uma outra solução drástica: um sequestro. Jennifer Aniston volta ao papel de ninfomaníaca, que, aliás, lhe cai muito bem. Sem falar que o restante do elenco de apoio, incluindo aqueles que retornam para os seus papéis (como Jamie Foxx), é um trunfo e tanto, embora não tenha tido resultado muito favorável no final.

A NOITE DA VIRADA

Curiosamente A NOITE DA VIRADA (2014) foi uma comédia que não foi muito bem recebida nos cinemas, o que já apontou para uma crise de um gênero que parecia ser certeza de sucesso para o grande público. E é um filme que mereceria um pouco mais de atenção, já que é um dos bons exemplares. Fábio Mendonça, que só havia dirigido coisas para a televisão e curtas-metragens, comanda um elenco bem divertido na história de uma festa em um apartamento cheia de muitas confusões. Na trama, Ana (Júlia Rabelo) resolve fazer uma festa de reveillon em seu apartamento, reunindo vários amigos. O que ela não sabe é que o marido (Paulo Tiefenthaler) a está traindo com a vizinha (Luana Piovani), que por sua vez é casada com um homem que considera meio molenga (Marcos Palmeira). Depois de confessar a traição, a festa vira um caos e os dois casais acabam formando uma espécie de quadrado amoroso, enquanto o banheiro é palco de confissões, uma suposta morte e até mesmo tráfico de drogas (Taumaturgo Ferreira é um traficante simpático). Bem divertido.

SEM DIREITO A RESGATE (Life of Crime)

Quem gosta de JACKIE BROWN, de Quentin Tarantino, deve ficar especialmente interessado nesta gostosa comédia inspirada em um livro de Elmore Leonard e que também conta com alguns personagens vistos no filme de Tarantino, só que aqui interpretados por outros atores. No caso, sai Bridget Fonda e entra Isla Fisher para o papel de Melanie, e sai Samuel L. Jackson e entra Yasiin Bay, para o papel do traficante Ordell. Trata-se, portanto, de uma história que antecede os eventos de JACKIE BROWN. Na trama de SEM DIREITO A RESGATE (2013), dois criminosos sequestram a mulher de um executivo (Jennifer Aniston), mas encontram dificuldades nas negociações pois o sujeito (Tim Robbins) não tem muito interesse em ter a mulher de volta ou pagar uma fortuna por ela. A conclusão acaba sendo não apenas divertida, mas até mesmo excitante.

A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS (Spy)

Por mais que eu ainda não seja fã de Melissa McCarthy, não dá pra negar que ela está muito bem neste A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS (2015, foto), de Paul Feig, responsável pelo ótimo MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (2011), ainda o ponto alto de sua carreira. Mas o novo filme, além de ser a terceira parceria dele com McCarthy no cinema, segue também a cara de filme milionário que já possuía o seu trabalho anterior, AS BEM-ARMADAS (2013). Assim, há muitas explosões e perseguições e agora há também todo o luxo de locações na Europa, como nos thrillers de espionagem (James Bond, principalmente) que eles tentam homenagear. O filme ainda conta com boas participações de Rose Byrne, Jude Law, além de revelar o talento de comediante de Jason Stathan.

BELAS E PERSEGUIDAS (Hot Pursuit)

Anne Fletcher continua privilegiando personagens femininas em situações engraçadas, como já pudemos ver em filmes bem melhores e mais simpáticos, como VESTIDA PARA CASAR (2008) e A PROPOSTA (2009). BELAS E PERSEGUIDAS (2015) traz Reese Whiterspoon como uma policial correta que acaba levando a pior ao ser traída por uma corporação corrupta, durante o processo de testemunha da mulher de um mafioso, vivida por Sofía Vergara. A policial acaba entrando em maus lençóis, tanto por estar ainda querendo desempenhar a sua boa função, mas as coisas não ficam fáceis quando ela passa a ser tida como criminosa foragida. BELAS E PERSEGUIDAS, no final, acaba sendo uma diversão bem despretensiosa que conta com alguns bons momentos, muito por causa do bom desempenho do par de atrizes. Sofía Vergara, em especial, com um acento hispânico carregado, acaba ficando bem engraçada. Faltou pouco para ser uma boa comédia.

terça-feira, setembro 22, 2015

EU ESTAVA JUSTAMENTE PENSANDO EM VOCÊ (Comet)



Engraçado os rumos que as paixões nos levam. E por paixão, pelo menos inicialmente, não estou me referindo ao sentimento que nutrimos por pessoas, mas pela arte mesmo. Livros, discos, filmes, séries acabam nos levando a outros livros, discos, filmes e séries. No caso, o que me levou a EU ESTAVA JUSTAMENTE PENSANDO EM VOCÊ (2014) foi o fato de ser dirigido por Sam Esmail, a mente brilhante por trás da série mais surpreendentemente foda do ano, MR. ROBOT (2015). Em seu currículo de direção, havia apenas este filme estrelado pela lindíssima Emmy Rossum (virei fã) e pelo gente boa Justin Long.

O filme é praticamente só com eles dois. Há alguns poucos coadjuvantes, mas a história até poderia ser uma peça de teatro, mudando apenas o cenário de vez em quando. Mas que bom que é cinema, pois o cinema tem um alcance tão maior e é capaz de tantas coisas. E Esmail tem um cuidado especial com a edição. Como a história se passa durante seis momentos de seis anos da vida amorosa de Dell (Long) e Stephanie (Emmy), mostrados de maneira não cronológica, mas até que bastante fácil de entender e juntar o quebra-cabeças, a edição é fundamental. Se fosse uma peça de teatro teria que abrir mão desse recurso.

Pois bem, mas voltando às paixões, incrível como alguns filmes são capazes de pegar o nosso coração sofrido e esfregá-lo num ralo como este. Pelo menos foi mais ou menos assim que eu me senti ao acompanhar a trajetória de Dell e Stephanie, desde o momento em que se conhecem até a crise mais difícil de seu relacionamento, a busca pelo outro novamente e o sentimento de gratidão que fica quando se sabe que aquele relacionamento foi mais do que especial.

O primeiro momento, quando eles se conhecem, é mesmo mágico. E Esmail sabe contar isso muito bem. Claro que ter a Emmy Rossum ali toda linda ajuda pra caramba a se apaixonar junto com o personagem, mas sabemos que isso não é o suficiente para que uma história de amor seja capaz de nos pegar de tal maneira. No caso, conseguimos captar o sentimento de desespero de Dell em não deixar de jeito nenhum aquela moça escapar dele. Havia algo em sua memória embaralhada (de presente, passado e futuro) que sabia que ele estava diante da mulher da sua vida e que deixar passar aquele momento seria um vacilo tremendo. E certamente nos solidarizamos e sofremos com esses momentos especiais, que não têm nada de calmo e sereno, não. É desesperador mesmo.

Dá pra comparar com ANTES DO PÔR-DO-SOL, de Richard Linklater, quando o casal Jesse e Celine só tem uma hora para conversar antes que ele pegue o avião de volta para casa. O sentimento de urgência, de estar junto o máximo de tempo possível, chega a ser perturbador. A vantagem de Dell, no caso, é que ele não tinha um avião para pegar, mas ele tinha que conquistar aquela moça ali, não importando que ela já estivesse com um namorado ou ficante no evento da chuva de meteoros.

E mal dá tempo para que o coração fique calmo, pois COMET (acho lindo esse título original) nos joga num turbilhão de emoções e D.R.s em diferentes momentos das vidas deles dois que aquela história de ficar feliz para sempre já é mesmo coisa do passado. Há fins para determinadas histórias, alguns agradáveis, outros extremamente dolorosos, mas é nisso que está a graça do filme, é nisso que está a sua força em mexer com os nossos sentimentos e até reviver certos momentos pessoais, sejam as mancadas, sejam os acertos.

E há também o momento em que a realidade é questionada, que é um ponto de interseção com MR. ROBOT. Há determinado segmento que parece um sonho. A fotografia ganha uma tonalidade diferente; a sensação é de que estamos numa espécie de limbo, algo entre o sonho e o desejo, a vida e a morte. Além do mais, quem diria que eu fosse gostar de Roxette alguma vez na vida?

segunda-feira, setembro 21, 2015

A VÊNUS LOURA (Blonde Venus)



Talvez seja o menos barroco dos filmes de Josef von Sternberg estrelado por Marlene Dietrich. Até por se passar nos Estados Unidos e não em nenhum lugar distante ou exótico, há uma economia na direção de arte que é compensada com um sentimentalismo que não foge exatamente ao que é mostrado em filmes como MARROCOS (1930), DESONRADA (1931) e O EXPRESSO DE SHANGAI (1932). Marlene tenta parecer mais cínica e amarga do que a doce mãe de família que pretende salvar o marido de um câncer, voltando a cantar em um cabaré e, com isso, acaba se apaixonando por outro homem.

Sternberg entra aí numa linha perigosa do melodrama, que para muitos pode incomodar, mas que para mim ganha pontos. Pode até ser que em alguns momentos essas emoções passem do ponto, como acontece provavelmente perto da cena final, mas mesmo assim é até difícil não cair um cisco no olho, depois de vermos a nossa heroína passando por tantas tribulações, fugindo com o filho nos lugares mais ermos dos Estados Unidos.

A VÊNUS LOURA (1932) não deixa de também apresentar a Dietrich cantora, a Dietrich capaz de encantar dezenas de homens, seja no palco, seja em meio a outras mulheres. Há uma cena particularmente marcante, que até quem não gosta do filme deve achar curiosa, que é quando ela se apresenta vestida de gorila. A fantasia é tão realista que a princípio parece mesmo um gorila de verdade. Então, presenciamos uma espécie de strip-tease daquela roupa.

Aliás, como o filme foi feito antes do Código Hays, podia ter algumas ousadias, como a cena inicial das moças tomando banho nuas num lago, enquanto o personagem de Herbert Marshall teima em não sair de perto da moita. Somos transpostos então para o futuro, quando os dois estão casados, têm um filho pequeno e o marido agora enfrenta um caso raro de câncer, que até tem uma chance de cura, mas que é um tratamento experimental e que necessita de dinheiro. É quando a doce mãe e esposa resolve voltar aos cabarés, fazendo aquilo que sempre fez tão bem.

Infelizmente as canções não são o forte dessa vez. Mas, como são poucas, não há muito problema. Afinal, A VÊNUS LOURA também conta com o jovem Cary Grant no papel do milionário que banca a cirurgia do marido da cantora e ainda oferece uma vida de luxo e amor, o que faz com que isso balance o coração dela. Como o personagem de Grant é tão generoso e cheio de amor, acabamos por torcer por ele, o que não deixa de ser também algo curioso, levando em consideração que estamos optando aqui pela infidelidade, pelo adultério, ao invés do sagrado matrimônio.

Não fosse o filho, seria tão mais fácil jogar tudo para o alto, mesmo havendo toda uma história pregressa com o marido, que é romantizada quando os dois contam para o filho sobre a noite em que se conheceram, e o garoto acha a história mais bela de todas, gosta de ouvir antes de dormir. Acaba sendo uma estratégia um tanto estranha para uma história para fazer dormir, especialmente para um menino, mas funciona para os propósitos do filme.

Considerado por alguns como um Sternberg menor, A VÊNUS LOURA me encantou de tal maneira que, ao final da metragem, considerei-o o meu Sternberg favorito, embora agora fique balançado entre ele e MARROCOS, com aquele final tão poderoso. Aliás, como é interessante acompanhar a trajetória de Dietrich nesses filmes: apesar de ser uma mulher, digamos, pecadora, sua trajetória se aproxima da santidade, ao abraçar uma espécie de calvário de dor, de amor intenso e de negação – pelo menos até certo ponto, dependendo do filme – da felicidade.

domingo, setembro 20, 2015

SEIS LONGAS VISTOS NO CINE CEARÁ 2015



Não cheguei a ver todos os filmes da mostra competitiva deste ano do Cine Ceará (faltei dois dias), mas até que vi bastante, e o meu preferido do festival, JAUJA, que não vi no evento, tive a chance de vê-lo com mais tranquilidade numa sala do Cinema do Dragão, o que acredito que tenha sido melhor para a apreciação. O Cine São Luiz é lindo e grande e majestoso, mas para certas obras que exigem um pouco mais de atenção do espectador, ele chega a dispersar um pouco os dispersos (como eu). Vamos, então, aos filmes que faltaram eu comentar aqui no blog. Será, mais uma vez, um exercício de memória, já que vi esse filmes no mês de junho.

O CLUBE (El Club)

Uma pena que um dos filmes mais interessantes do festival, o chileno O CLUBE (2015), tenha sido exibido em uma cópia ruim. E logo na noite de abertura. Isso não impediu que ele fosse eleito pelo júri oficial e também o da crítica como o melhor do Cine Ceará. Pablo Larraín é mais famoso por NO (2012), que mostra o processo de eleições do Governo do Chile, em um diferente e difícil processo de redemocratização. Em O CLUBE, o diretor se volta para um assunto distante da política do país e entra com coragem num assunto delicado: o do padres que se afastam da igreja por seu passado como pedófilos. O filme se passa numa casa em que moram um grupo de padres que têm esse passado em comum, mas que têm suas vidas reviradas quando chega uma espécie de fiscal da Igreja, que quer colocar na linha a vida mansa e de jogos apostados em corridas de cachorros daqueles homens. Entra em cena também, pra completar, um homem que afirma ter sido molestado por um deles quando era criança. E a coisa só piora e o filme vai ganhando ares cada vez mais sombrios. Gostaria de revê-lo em melhores condições. É possível que eu goste mais.

ESTRELA CADENTE (Stella Cadente)

Entre uma pescada e outra de sono (estava com déficit de sono e havia acordado cedo), tive que chegar até o fim desse drama de época espanhol de Luís Miñarro, que se destaca principalmente pela bela fotografia e caprichadíssima direção de arte. O filme, estranho em dramaturgia e andamento, mostra o incômodo reinado de Amadeo I da Espanha, que governou o país - por assim dizer, já que ele era rejeitado pela população - durante os anos de 1870 a 1873. Foi o menor tempo que um monarca ficou no Poder na Espanha. Logo depois foi proclamada a República. As convulsões sociais se percebiam só pelo som, enquanto a ação se passa quase toda dentro do palácio que só não é totalmente solitário por causa dos poucos habitantes, alguns ali para diminuir o tédio do Rei com sexo com homens, mulheres e até com melancia. Miñarro faz um trabalho que namora o teatro e a pintura. Ficou bonito, ao menos. Com sono, não dá pra julgar direito.

A OBRA DO SÉCULO (La Obra del Siglo)

O cubano A OBRA DO SÉCULO (2015), de Carlos Quintela, mistura ficção com documentário e descreve a rotina ruim de um engenheiro desiludido que vive na mesma casa com seu pai inconveniente e seu filho frustrado. O lugar onde moram parece largado no meio do nada. Fica localizado em uma parte de Cuba que possui instalações ambiciosas que foram abandonadas quando o país pretendia fazer, junto com a União Soviética, uma central nuclear em 1982. E há várias imagens de arquivo que aparecem de vez em quando na narrativa que ajudam a nos situar historicamente e nos dá uma ideia da ambição daquele projeto que foi abortado com o fim da União Soviética. Era o fim da Guerra Fria também. Ao mesmo tempo, vemos o vazio existencial daquela família que parece não ter muito motivo para viver.

NN

Filmes sobre os anos de chumbo das ditaduras militares dos países da América Latina, temos aos montes. Mas é sempre bom ver a perspectiva de outras cinematografias, como é o caso do Peru. NN (2015), de Héctor Gálvez, se debruça sobre a tentativa de pessoas que trabalham em órgãos dedicados a encontrar ossadas de pessoas desaparecidas para as famílias. O filme acompanha um grupo de pessoas que trabalha exumando os corpos de presos políticos em covas descobertas em regiões desertas do Peru. O “NN” do título quer dizer “non nomine”. O filme lida com frustrações, tanto dos familiares em busca de seus entes queridos quanto dos profissionais que encontram dificuldades e obstáculos para seguir em seu trabalho. É um filme cruel ao mostrar essa realidade, mas também pouco eficiente e pouco envolvente em causar emoções no espectador.

CORDILHEIRAS NO MAR - A FÚRIA DO FOGO BÁRBARO

Trata-se do filme mais político do festival e que, mesmo não sendo tão agradável de ver, é interessante para o público brasileiro, por causa de sua relação íntima com um determinado momento da vida de Glauber Rocha. CORDILHEIRAS NO MAR – A FÚRIA DO FOGO BÁRBARO (2015), de Geneton Moraes Neto, é um documentário que procura discutir um ponto em que Glauber procurou um meio termo ao acreditar que podia contar com o apoio do Presidente Ernesto Geisel. Isso acabou por queimar o filme dele entre seus colegas cineastas, todos de esquerda, que jamais iriam querer fazer acordo com a ditadura. Ele acabou sofrendo perseguição ideológica e sendo visto como traidor da causa. O filme apresenta diversos depoimentos coletados, sendo os mais interessantes os de Jaguar e de Fagner. Em meio a um momento em que vemos uma polarização extrema e que ninguém parece querer achar solução para os problemas de nosso país, mas apenas lutar por suas ideologias, mesmo quando estão errados, é muito bem-vinda a discussão que o filme provoca. Sem falar que acaba por ajudar a acentuar a imagem de santo louco desse cineasta tão polêmico quanto genial.

CAVALO DINHEIRO

Sinto não ter gostado desse filme, mas CAVALO DINHEIRO (2014, foto), do português Pedro Costa, é definitivamente uma obra que merece ser visto principalmente por quem tem um pouco mais de intimidade com o trabalho do diretor português, até por se tratar de parte de uma série de filmes com o personagem caboverdiano Ventura, numa trama que é necessário um pouco mais de conhecimento ao menos do contexto histórico português e sua relação com Cabo Verde. A verdade é que não via a hora de o filme acabar e pra mim foi sim uma sessão de tortura. Na trama, Ventura procura em desespero e com olhar de louco a esposa Zulmira em um hospital abandonado. O filme tem uma fotografia quase sempre muito escura, o que constitui mais um desafio para o público que acompanha a história desses imigrantes de Cabo Frio enfrentando demônios pessoais num filme lúgubre e cheio de momentos no mínimo estranhos para marinheiros de primeira viagem, como a cena do elevador, em que um personagem conversa com uma estátua. Talvez seja um filme que mereça uma outra oportunidade em uma sala menor e mais apropriada. De preferência depois de ter visto outros trabalhos do cineasta.

sábado, setembro 19, 2015

MAZE RUNNER – PROVA DE FOGO (Maze Runner – The Scorch Trials)



O efeito JOGOS VORAZES se repete aqui neste MAZE RUNNER – PROVA DE FOGO (2015), guardadas as devidas proporções: se o primeiro filme, MAZE RUNNER – CORRER OU MORRER (2014) era mais simples e se resumia a uma espécie de jogo mortal no qual os jovens heróis tinham que superar um difícil obstáculo – no caso, um labirinto mutável e cheio de criaturas assustadoras e mortíferas –, no novo filme o cenário é ampliado, já que ficamos sabendo mais detalhes sobre o projeto WICKED, que enviava esses jovens para participar dessas experiências.

Uma vez que, graças ao curioso, impaciente, inteligente e desobediente Thomas (Dylan O’Brien), os jovens conseguiram fugir do labirinto e chegar a uma estação secreta no final do primeiro filme, neste segundo eles são acolhidos, mas Thomas em especial já percebe que algo que está muito errado naquele lugar, enquanto os outros, mais ingênuos, acreditam que estão no paraíso dentro daquelas instalações situadas no meio do nada, quando a Terra foi devastada pelo calor do Sol e sobraram alguns sobreviventes de doenças, sendo que aquela organização era responsável por estudar e procurar cura para essas doenças. Uma delas torna a pessoa semelhante a um zumbi – o que é até um ponto negativo do filme, já que zumbis estão em todo lugar hoje em dia. Mas, enfim, isso não chega a atrapalhar o modo eficiente com que Wes Ball conduz a narrativa.

Um dos méritos do filme é conseguir se manter nas suas mais de duas horas de projeção num ritmo de ação quase non-stop. Não chega a ser um MAD MAX – ESTRADA DA FÚRIA, claro, mas é mais objetivo, simples e efetivo do que, por exemplo, a franquia Divergente, que é bem morna. No caso de PROVA DE FOGO, a sustentação se dá mais na ação, mas há todo um contexto de rebeldia adolescente, de achar que o mundo está sempre contra você (e no caso, está mesmo), que contagia.

Há uma virada, perto do final, que o aproxima de um filme de guerra e que ajuda a valorizar tanto os personagens quanto suas motivações, fazendo uma ponte muito boa para o terceiro filme, que já está confirmado com a direção do mesmo Wes Ball. Ainda há uma excessiva centralização no personagem Thomas, em relação aos demais, que são simples coadjuvantes, mas nesse segundo filme já se percebe uma ampliação desse conceito, dando maior importância, por exemplo, às personagens femininas Teresa (Kaya Scodelario, da série inglesa SKINS) e a novata Brenda (Rosa Salazar). Há outro personagem novo bem legal, que é o Aris (Jacob Lofland).

Dos rostos conhecidos, além de Patricia Clarkson, como diretora da WICKED (que ficam traduzindo horrivelmente como CRUEL nas legendas), há a presença bem-vinda de Giancarlo Esposito (de BREAKING BAD), de Aiden Gillen (de GAME OF THRONES) e de Nathalie Emmanuel (também de GAME OF THRONES).

Como episódio do meio de uma trilogia, PROVA DE FOGO tem o seu charme, assim como teve outros episódios do meio, como O IMPÉRIO CONTRA-ATACA, SENHOR DOS ANÉIS – AS DUAS TORRES e JOGOS VORAZES – EM CHAMAS. São filmes-episódios que representam situações de enfrentamento, de uma relativa derrota ou situação pendente dos heróis no fim, mas que chamam o espectador para um desfecho, que, espera-se, esteja à altura do filme do meio, embora geralmente haja frustrações.

Ainda há algo em MAZE RUNNER - PROVA DE FOGO que incomoda, como não mostrar em nenhum momento os personagens se alimentando, tendo passado dias no deserto sem comida e sem água e depois por outras situações perigosas, além de certa simplificação na maneira como Thomas decide, instintivamente, agir e levar seus colegas junto para enfrentar perigos. Mas pode-se atribuir esse último detalhe como uma característica ariana do personagem, de agir por impulso e de, ao mesmo tempo, ter espírito de liderança e também de trazer confiança para os demais. Além do mais, não deixa de ser interessante esse tatear no escuro, esse caminhar diante do desconhecido.

terça-feira, setembro 15, 2015

CANIBAL HOLOCAUSTO (Cannibal Holocaust)



Não sou exatamente um fã de CANIBAL HOLOCAUSTO (1980), mas tenho um carinho especial por este filme de Ruggero Deodato por uma razão bem pessoal: é o nome de uma lista de discussão de que participei e que abriu meus olhos para determinado tipo de cinema que eu sequer sonhava existir. A turma que participava e comandava a lista era exímia conhecedora de cinema de horror europeu e afins, e eu aprendi muito com eles ao longo dos anos. Sem falar nos amigos que fiz.

Quanto ao mais famoso e chocante filme do ciclo canibal italiano, trata-se de uma obra que merece o respeito, mesmo não se gostando. Afinal, é um trabalho que fez história. Se não é tão gostoso de ver quanto O ÚLTIMO MUNDO CANIBAL (1977), é bem mais original ao misturar ficção com um falso documentário, junto a uma estratégia de marketing corajosa – o diretor afirmava que os atores presentes no filme dentro do filme morreram de fato e por causa disso ele acabou tendo que se justificar diante da lei.

O elenco que "morreu" havia assinado um contrato para que tomasse um chá de sumiço depois das filmagens. Tiveram que provar que estavam vivos depois para que Deodato não fosse preso. Mesmo assim, se os atores não foram mortos, o mesmo não pode ser dito dos animais. Esses sim foram realmente sacrificados para a realização do filme, como uma tartaruga marinha enorme e um macaquinho. Isso é muito mais chocante que qualquer efeito especial. E olha que eles também são bons nos efeitos especiais. A imagem icônica da índia empalada, por exemplo, é difícil de esquecer. Até porque a usam como capa da maioria das versões existentes por aí do filme.

Uma das coisas que é estranhamente bela em CANIBAL HOLOCAUSTO é a trilha sonora de Riz Ortolani, que chama atenção logo nos créditos iniciais. E é utilizada mais adiante em uma sequência perturbadora. Ficamos pensando: por que diabos Deodato usa essa música tão bonita para emoldurar algo tão feio e perturbador? Lembrando que não estamos falando aqui apenas de um culto à violência com finalidade puramente estética, misturando, por exemplo, a beleza plástica de uma cena sanguinolenta com uma música de rara beleza, como podemos ver em alguns gialli de Dario Argento. Vai ver isso está no espírito dos italianos mesmo.

De todo modo, CANIBAL HOLOCAUSTO não é um filme para causar prazer – embora seja até fácil encontrar alguém que discorde de mim sobre isso –, mas com a intenção mesmo de causar mal estar. E ainda hoje segue sendo um exemplar de respeito nesse sentido. Afinal, é difícil ficar indiferente a algo tão desnorteador quanto a festa dos canibais em torno dos corpos dos documentaristas americanos.

segunda-feira, setembro 14, 2015

MR. ROBOT – TEMPORADA 1 (Mr. Robot – Season 1)



Dizer que MR. ROBOT (2015) é a melhor série do verão americano é pouco: trata-se da melhor estreia na televisão em 2015, superando, até mesmo, DEMOLIDOR. Isso porque seus dez episódios têm uma unidade impressionante, além de trazerem aquele elemento transgressor que torna o que seria uma obra boa em algo especial. Se há algo que poderia depor contra a série de Sam Esmail, diretor do pouco conhecido COMET (2014), é lembrar demais Clube da Luta (o livro de Chuck Palahniuk e, consequentemente, a adaptação de David Fincher).

Mas Esmail não trata em nenhum momento de esconder sua principal referência. Ao contrário, há várias sequências que não só remetem como também prestam homenagem à controversa obra. A semelhança inicial está no afã de tentar destruir o sistema. A própria organização "terrorista" que o hacker Elliot Alderson (Rami Malek) trabalha nas horas vagas se chama fsociety. Aliás, curioso como a palavra “fuck” é dita, mas é também censurada no áudio e quando escrita também, embora ela esteja lá como forma de rebeldia ao sistema.

Elliot, nosso herói, é avesso a pessoas e viciado em morfina. É isso que diminui a sua tristeza de viver. Em um dos diálogos mais bonitos e ao mesmo tempo mais tristes da série, ele conversa com sua vizinha, Shayla (Frankie Shaw), ao som de "Pictures of You" (The Cure), sobre ele não gostar de ir a shows por causa das pessoas. Por isso prefere ouvir música sozinho, com seus fones de ouvido. Essa conversa só não é um respiro para a trama porque as circunstâncias que a envolvem são bem melancólicas.

O que MR. ROBOT passa principalmente para o espectador é um sentimento de paranoia (já que a série é narrada pelo ponto de vista de Elliot, embora haja alguns momentos que se volte para outros personagens) e de quase perda da sanidade. Exato: por pouco, eu quase piro em determinado momento, não exatamente pelas revelações em si, mas pelo modo como elas são postas. Em determinado momento, por exemplo, Darlene (Carly Chaikin), membro ativo da fsociety, ao contar algo a Elliot, me deixou tão perturbado, que sensação parecida eu só senti em INCÊNDIOS, de Dennis Villeneuve.

Ao contrário de algumas séries que vão conquistando o espectador aos poucos, é logo no piloto que MR. ROBOT pega a audiência de cheio. Tanto que há quem diga que eles não conseguem superar o piloto nos episódios seguintes, algo que eu discordo, até pela forma criativa com que são construídas as narrativas para cada episódio, fazendo-nos lembrar de outra série excepcional: BREAKING BAD.

Inclusive, o hype em torno de MR. ROBOT tem colocado a série em comparação com a cultuada criação de Vince Gilligan, embora ainda seja muito cedo para isso. Só temos uma temporada por hora e sabemos o quanto tantas séries caem de qualidade a partir do segundo ano. Por isso, é bom torcer para que o que vem por aí em 2016 mantenha o alto nível do show.

Com relação à participação bem especial de Christian Slater, trata-se, de fato, do melhor papel dele em anos, mas talvez seja um exagero elogiar tanto assim a sua performance. Ainda assim, há um episódio especial cuja atuação dele se destaca bastante. Até por darem mais espaço a ele. Embora Slater seja o cara que se autodenomina "Mr. Robot" e que convida Elliot para ingressar na fsociety, sua participação é geralmente pequena ao longo da trama principal e das subtramas.

Falando em boas atuações, vale destacar Martin Wallström, que interpreta o executivo psicopata da Evil Corp, em cenas antológicas. Também merecem ser citadas, e com muito carinho, as três moças que rondam a vida de Elliot, as já mencionadas Shayla e Darlene, e também a sua colega de trabalho no seu emprego diurno, Angela (Portia Doubleday), que conhece Elliot desde criança e tem por ele uma atenção especial, embora não saiba de seus segredos.

No mais, outro grande trunfo da série está em não enrolar o espectador, ao entregar aquilo que nós queremos ver acrescido de um bônus. Em um momento em que o capitalismo é visto por muitos como chegando ao fim e que a sociedade como um todo está passando por uma crise violenta, ser simpatizante de grupos como o Anonymous e assemelhados não chega a ser nenhuma novidade. É preciso dar lugar ao novo. E torçamos para que o novo seja algo tão bom quanto MR. ROBOT.

domingo, setembro 13, 2015

LOVE



Sexo sempre foi um chamariz para o público desde os primórdios do cinema. Passou por objeto proibido diversas vezes, mas o curioso é o quanto a nossa sociedade atual se tornou hipócrita no que se refere a exibições de filmes com conteúdo erótico (ou pornográfico, vá lá), mesmo com uma classificação 18 anos. LOVE (2015) é um filme que tem sentido muita dificuldade em penetrar no circuito exibidor. Foi rejeitado pelo Cinemark e no grupo Cinépolis passa em sessões pra lá de tarde. Enquadram-no como um pornô, quando não é exatamente o caso.

Na sessão em que estava, logo que começou, uma moça começou a rir nervosamente. A primeira cena mostra, graficamente, um homem e uma mulher masturbando um ao outro. Demora um pouco, assim como demoraram os risos da moça. Só pararam quando o sujeito, enfim, ejaculou. Ao menos, nesse sentido, Gaspar Noé, mostra logo na primeira cena que o seu filme apresentará esse tipo de material ao longo de sua metragem. Quem quiser ir embora, fique à vontade.

Mas, infelizamente, as cenas de sexo raramente são excitantes. Aliás, até mesmo na pornografia hardcore encontrar algo verdadeiramente excitante tem sido uma aventura muitas vezes frustrante. No caso de LOVE, dá até saudade de NINFOMANÍACA, de Lars Von Trier, que era mais divertido e excitante à sua maneira. Mas principalmente lembramos do infelizmente pouco visto NA CARNE E NA ALMA, de Alberto Salvá, esse sim um filme que consegue aquilo que o alter-ego de Gaspar Noé não consegue, que é saber encontrar no sexo o sentimento de amor, que sabemos que existe nos relacionamentos, e passar isso através de seu trabalho.

Quando Murphy, o protagonista masculino, fala que sua intenção como cineasta é chegar a esse ponto, sabemos a essa altura que aquilo era também a intenção de Noé. E como o filme trata também de frustração e da perda do amor, entendemos que o filme, direta ou indiretamente, acaba dialogando também com as frustrações do próprio cineasta.

De positivo, há o paralelo com IRREVERSÍVEL (2002), tanto no uso da montagem que brinca com o tempo cronológico (acrescente-se o uso da tela preta um pouco mais demorada que o usual nos cortes), quanto na obsessão pelo vermelho na fotografia, e na questão da busca por aquele momento mágico que é o início de tudo, de quando o tempo ainda não tratou de destruir. Aliás, dessa vez ele não culpa o tempo, mas as ações dos indivíduos. Somos o produto de nossas ações, de nossas escolhas. Talvez dizer isso seja simplista demais, mas pelo menos é um pouco melhor que a antiga frase.

LOVE conta a história de Murphy, um estudante de cinema que tem um casamento monótono com Omi e que recebe uma ligação da mãe de sua ex-namorada, a artista plástica Electra. Ela está desaparecida e a mãe teme que ela possa ter cometido suicídio. Preocupado com Electra e sem conseguir encontrá-la, Murphy passa a pensar no tempo em que estavam juntos, em alguns de seus melhores e também piores momentos. E do quanto aquele amor era muito mais verdadeiro do que o que ele nutre por Omi. Curiosamente os nomes dos personagens já trazem algo de pessimista ou de trágico: Murphy e Electra.

Curioso como o filme também acaba trazendo, meio que sem querer, um discurso até moralista, já que as crises de ciúme e as brigas surgem logo depois que eles encaram alguma novidade no terreno sexual, seja ir para um clube de orgia, seja fazendo sexo com outra pessoa às escondidas, seja entrando num threesome com um travesti, seja no uso de drogas. É como se eles estivessem fazendo sempre algo errado, cruzando uma fronteira que não deveriam, embora, na memória de Murphy tudo seja filtrado como parte de um ótimo momento que ele não soube aproveitar.

Uma pena que isso não seja explorado da maneira que causaria algum sentimento de solidariedade no espectador. Ou de proximidade. As cenas de sexo também não ajudam, embora sejam, em alguns momentos, graficamente belas, quando Noé enquadra certas posições de maneira criativa, dentro da janela scope. Mas isso é pouco para um filme em que o sexo é despido de tesão. Talvez a exceção seja o momento do ménage Murphy-Electra-Omi. Mas só nas preliminares. O sexo entre eles fica parecendo um monstro de seis pernas e seis braços que não tem função erótica ou de exalar beleza. A bela música, ao menos, ajuda a tornar a cena elegante. Nessa e em outra sequência, a boa música surge como um elemento quase salvador. Mas, no final, a sensação que surge é a de que LOVE é só uma jogada de marketing que não deu tão certo, e que pode significar uma nova retração na produção de filmes eróticos para o cinema.