sábado, novembro 01, 2014

PASSION



É lastimável a falta de respeito de nosso circuito exibidor com o trabalho de alguns grandes mestres, que sequer têm a chance de ter seus filmes à disposição para o espectador. Como a distribuidora PlayArte resolveu deixar PASSION (2012) no limbo, não lançando sequer em DVD ainda, resolvi vê-lo por outras vias.

Com relação a De Palma, infelizmente o problema não é só no Brasil e não é só de distribuição, mas de produção também, já que um cineasta que vem somando décadas de contribuição inestimável ao cinema só conseguiu levar a cabo o seu projeto de filmar PASSION, remake de CRIME DE AMOR (2010), de Alain Corneau, graças a investimentos de produtores franceses e alemães.

Como GUERRA SEM CORTES (2007) não chegou a passar em nossos cinemas, o último filme de De Palma presente em nosso circuito foi DÁLIA NEGRA (2006). Quer dizer, lá se vão oito anos. Curiosamente, a admiração do cineasta pelo corpo feminino não chega a ser explorado como se esperava, como aconteceu em obras como DUBLÊ DE CORPO (1984) e FEMME FATALE (2002). O cartaz que mostra Rachel McAdams e Noomi Rapace se aproximando para um beijo na boca acaba funciona mais como um atrativo do que como um aperitivo para o espectador.

A trama de PASSION trafega no jogo de intrigas dentro de uma grande empresa de publicidade. Mais exatamente entre as duas personagens. McAdams é uma bem-sucedida executiva que se aproveita da ideia inteligente de sua assistente (Rapace), tomando-a para si para alçar voos maiores em sua carreira. Seu veneno de mulher-serpente acaba por contagiar a assistente, que pretende ir à forra.

Mas nem tudo é o que parece em PASSION, que já começa enganando pelo título e tem um roteiro deliciosamente confuso (bem parecido com alguns thrillers europeus). Destaque para a cena do split screen, em que vemos as duas personagens em um momento crucial da trama, sendo que De Palma brinca também com outra arte, o balé.

Esse jogo de enganos já havia sido melhor visto em OLHOS DE SERPENTE (1998), na genial cena da luta de boxe. Mas não quer dizer que não seja também brilhante no novo e subestimado trabalho. Enganar o espectador continua sendo uma das maiores habilidades de Brian De Palma, grande mestre das ilusões.

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