quinta-feira, janeiro 15, 2009

A TROCA (Changeling)



Tem sido cada vez mais difícil pra mim falar de uma obra de Clint Eastwood. Especialmente as que eu gosto muito, pois corre o risco de eu entrar no território do fanatismo ou, pior ainda, não conseguir fazer jus em meu humilde texto ao cineasta que aprendi a admirar há quase vinte anos. A TROCA (2008), protagonizado por Angelina Jolie, com roteiro do quadrinista J. M. Stranczinsky (Homem-Aranha, Poder Supremo, Thor, Rising Stars) e trilha sonora do próprio Eastwood, já está no grupo dos meus favoritos do diretor, embora a lista venha aumentando ano a ano, graças ao fato de o incansável diretor ter aumentado o seu ritmo de trabalho nos últimos anos. Se em 2007 tivemos a dobradinha A CONQUISTA DA HONRA (2006) e CARTAS DE IWO JIMA (2006), neste ano temos outras duas obras do mestre para fazermos a festa, já que em fevereiro chega GRAN TORINO (2008), que vem sendo até bem mais elogiado que A TROCA.

Se as obras de Eastwood já têm aquele jeitão clássico à John Ford, A TROCA, por ser um filme de época (inicia-se em 1928), se beneficia ainda mais dessa característica. O filme começa com uma fotografia em preto e branco que vai ganhando cor aos poucos, mostrando o verde dos jardins e em seguida a cor das belas casas tipicamente americanas. Numa dessas casas vive Christine Collins (Jolie), funcionária de uma rede de telefonia de Los Angeles que cuida sozinha de um garoto esperto de nove anos, que se mostra bem obediente à mãe. Assim como em UM MUNDO PERFEITO (1993), o pai é ausente.

Mais uma vez, o cineasta trata de famílias desfaceladas, ou de pessoas órfãs. No caso de A TROCA, apesar de o garoto ter sido abandonado pelo pai, quem fica órfão na história é a personagem de Angelina Jolie, que ao chegar em casa, certo dia, percebe a ausência de seu filho. Sua busca obstinada pelo menino se torna famosa na cidade e desperta a atenção de um reverendo (John Malkovich) que apresenta um programa de rádio onde costuma alfinetar a polícia de Los Angeles por seus atos brutais e pela corrupção. Assim, mesmo sem conhecer pessoalmente Christine Collins, ele dá apoio à jovem mãe e pede para que os ouvintes orem por ela. Mas ele não é de ficar apenas orando. Ele vai à luta em sua busca por justiça. Os chefes de polícia arrumam um meio de melhorar a sua imagem diante da imprensa e da sociedade, conseguindo um menino com as características do filho raptado de Christine. Ela, logo de cara, diz que o garoto não é o seu filho, mas eles pedem que ela o leve para a casa, dizem que ele ficou mudado por causa do sofrimento entre outras desculpas, e tentam encerrar o caso. Christine não descansa de sua busca, mas a certo momento, tão ou mais importante do que encontrar o filho é vingar-se dos malditos policiais que a fazem sofrer de maneira absurda.

A TROCA vai ganhando tintas de thriller policial a certa altura, tornando a obra ainda mais seca e dolorosa do que já era, enquanto melodrama. A trama toma novos rumos, mas Eastwood toma o cuidado para não perder o foco da personagem de Jolie, que obtém nesse filme a melhor performance de sua carreira. Sua caracterização é excepcional, embora alguns possam achar um pouco afetada. Mas o mesmo diziam de Sean Penn em SOBRE MENINOS E LOBOS (2003), outro trabalho pessimista de Eastwood que também tratava do desaparecimento de um filho.

A preferência por personagens marginais, mas de um senso moral digno, está presente na personagem de Amy Ryan, a prostituta que é colocada num sanatório por pisar nos calos da polícia. A cena em que ela soca um dos enfermeiros para ajudar a amiga é um exemplo da dignidade da personagem e um dos momentos mais empolgantes de um filme cujos tons pessimista, desesperançoso e soturno predominam. E assim como acontece em MENINA DE OURO (2004), Eastwood nos deixa com um peso no coração. Talvez não tanto quanto o melodrama sobre a boxeadora, mas permanece o registro seco e cruel, mal dando espaço para lágrimas, o que torna seus filmes ainda mais incômodos, pois a dor fica guardada no coração e o choro, entalado na garganta.

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