quarta-feira, janeiro 21, 2009

NA MIRA DO CHEFE (In Bruges)



Uma das surpresas do ano passado, NA MIRA DO CHEFE (2008) é apenas o segundo trabalho de Martin McDonagh. O primeiro foi o premiado curta-metragem SIX SHOOTER (2004), que chegou a ganhar o Oscar de melhor curta, mas como acontece com esses mini-filmes, eles costumam ser esquecidos ou ignorados. Geralmente classificado como comédia, NA MIRA DO CHEFE traz uma estranha melancolia auxiliada pela trilha sonora que segue em direção oposta às trapalhadas dos dois assassinos que passam uns dias em Bruges (uma pouco conhecida cidade turística da Bélgica) depois de terem executado um serviço. A princípio, o filme não fornece ao espectador detalhes do que ocorreu e o que tanto incomoda o personagem de Colin Farrell (que ganhou o Globo de Ouro pelo papel). Ele é o mais jovem da dupla de assassinos. Seu parceiro, interpretado por Brendan Gleeson, até que curte essas "férias" em Bruges, já que gosta de História e Artes, enquanto seu amigo acha tudo aquilo um saco, preferindo sair para beber e conhecer mulheres. Mas como eles estão lá esperando uma ligação do chefe (Ralph Fiennes) para uma possível missão confidencial, eles não podem se dar ao luxo de saírem do quarto de hotel à noite.

Colin Farrell repete um pouco o personagem com crise de consciência de O SONHO DE CASSANDRA, mas, despido dos cacoetes de ser um alter-ego de Woody Allen, aprimora o seu tipo, ainda que suas expressões faciais não sejam muito diferentes da apresentada no thriller de Allen. Ambos os filmes possuem uma aura trágica, mas há em NA MIRA DO CHEFE um humor misto, que vai do pastelão e politicamente incorreto - como na cena envolvendo o personagem de Farrell e uma família de americanos obesos – ao mais sutil, como nas cenas em que os dois assassinos estão conversando sobre cultura. E o clima da cidade acaba por fazer com que os dois assassinos reflitam sobre a vida, sobre a morte e até sobre a arte. A originalidade de NA MIRA DO CHEFE está também nas cenas de ação, que tingem o filme de vermelho.

A cidade de Bruges é um espetáculo à parte, sendo uma espécie de personagem, sempre presente, seja na arquitetura de igrejas e museus, seja nos belos canais que a enfeitam e dão a ela um ar veneziano, seja nas ruas e nos parques. E é num desses parques arborizados que acontece um dos momentos cruciais desse belo filme que surpreende não apenas pela sua qualidade, mas pela mistura de gêneros que acabou por deixá-lo no limbo das distribuidoras. Geralmente filmes sobre assassinos profissionais não são chamariz para o público dessas sessões "de arte", mais acostumados a dramas franceses, por exemplo. Pra completar, o filme é suficientemente estranho para fazer sucesso no circuitão. Sorte dos poucos que se permitirem conferir esse ótimo trabalho de um cineasta que já deixou sua marca. Aguardemos o próximo trabalho de McDonagh.

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