terça-feira, janeiro 06, 2009

THE PLEASURE GARDEN (Irrgarten der Leidenschaft)



E assim como fiz uma segunda peregrinação pela obra de Howard Hawks para ver filmes inéditos conseguidos, começa oficialmente hoje a segunda pela obra do mestre Alfred Hitchcock. Verei filmes da fase muda do cineasta, alguns inéditos (pra mim) e farei também a revisão de outros que passei por cima durante a primeira e apressada peregrinação. Dessa vez, cada filme, por menor e menos importante que seja, receberá um espaço só seu. Comecemos com o primeiro longa dirigido por Hitchcock: THE PLEASURE GARDEN (1925). O filme é uma co-produção Inglaterra/Alemanha - na época, a Alemanha era uma das potências do cinema mundial - e já apontava o jovem gênio que surgiria.

Confesso que alguns filmes da fase muda de Hitchcock eu não vi inicialmente por pura preguiça. Não tenho tanta boa vontade com filmes mudos, exceto talvez as comédias de Chaplin. Espero que essa obrigação de ver as obras mudas de Hitchcock me faça ter mais gosto e interesse pelo cinema mudo em geral, para poder apreciar melhor as obras de Fritz Lang e F.W. Murnau, por exemplo. E quem sabe até crio coragem para ver as obras de D.W. Griffith.

Surpreendi-me positivamente com THE PLEASURE GARDEN. Achei que a experiência de ver o filme não seria tão agradável e por não ser considerado um típico Hitchcock duvidava de suas qualidades. Na verdade, o filme não se parece mesmo com as obras seguintes do cineasta. O trabalho que é uma síntese de suas obsessões é O PENSIONISTA / O INQUILINO SINISTRO (1926), mas THE PLEASURE GARDEN já mostrava, por exemplo, um catolicismo que se tornaria uma de suas marcas fundamentais nas obras posteriores.

O próprio Hitchcock, em entrevista a Truffaut, trata com carinho THE PLEASURE GARDEN, exatamente por ter sido o seu primeiro trabalho como diretor. As aventuras que ele passou durante a produção, com o orçamento apertado e a sua inexperiência profissional são até mais movimentadas que a própria trama do filme. Uma das histórias mais interessantes sobre a produção diz respeito à cena em que uma das atrizes tem que fazer uma seqüência no mar e os técnicos dizem para Hitchcock que ela não pode entrar na água. E mesmo depois de eles dizerem que ela estava menstruada, ele, inocentemente, não sabia do que se tratava. Tiveram que dar uma aula pra ele, que ouviu atentamente essa novidade. Como Hitchcock nunca escondeu o fato de ter casado virgem e de ter levado uma vida bem pacata, não teve problema nenhum em relatar isso na entrevista. Achei interessante quando ele, ao falar de sua esposa Alma Reville, que na época era sua assistente de direção e namorada, que ambos, durante a realização do filme, eram namorados mas não viviam "em pecado".

Essa pureza pode ser sentida nas intenções e nos atos da protagonista, Patsy, uma jovem humilde que, graças a uma amiga consegue trabalho de dançarina num espetáculo teatral. Ambas conhecem dois homens que trabalham numa colônia inglesa e passam vários meses longe. Patsy aceita com alegria a proposta de casamento do amigo do namorado de Jill e antes de ele viajar para passar dois anos fora, os dois passam um mês em lua-de-mel. Depois, ela descobre o quanto foi inocente ao acreditar em tudo que aquele homem dizia.

O barato do filme é que tudo acontece muito rápido. E em uma hora de duração tudo termina. Quando pensamos, por exemplo, no que acontecerá quando ela viajar e desmascarar o marido com outra mulher, isso já está acontecendo. Hitchcock já tinha um tino comercial, uma vontade de entreter a audiência desde o início. E sem abrir mão de certas estranhezas que caracterizariam o seu cinema, especialmente o produzido na Inglaterra. No caso de THE PLEASURE GARDEN, Truffaut destacou o fato de as duas amigas dormirem na mesma cama e se vestirem como marido e mulher: uma de pijama, a outra de camisola. Mesmo com toda a pureza assumida pelo cineasta na época, havia ali traços de transgressão que tornam suas obras ainda mais interessantes.

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