sexta-feira, abril 07, 2006

NO DIRECTION HOME - BOB DYLAN



Interessante como NO DIRECTION HOME - BOB DYLAN (2005) é coerente com a filmografia de Martin Scorsese. O Dylan do documentário é tão solitário e genial quanto o Howard Hughes de O AVIADOR (2004), Jesus de A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988) ou o Dalai Lama de KUNDUN (1997). Provavelmente Scorsese, um sujeito que já declarou que aprecia muito estar sozinho, tem alguma espécie de identificação com esse tipo de pessoa. Claro que não é só isso. Scorsese já havia se mostrado um fã da banda de apoio de Bob Dylan no documentário musical THE LAST WALTZ (1978), que eu ainda não tive a chance de ver.

Scorsese andou dizendo por aí que pensa em se dedicar mais aos documentários. Ele pretende abandonar os filmes de ficção porque eles consomem muita energia, são bem mais trabalhosos, e ele já começa a sentir o peso da idade. Ainda mais porque Scorsese tem feito ultimamente produções muito caras. Torço para que esse dia demore a chegar, já que prefiro os seus filmes de ficção. Seus documentários são muito longos. NO DIRECTION HOME, por exemplo, eu tive que ver "em fascículos". E o assunto não é tão interessante pra mim quanto o de UMA VIAGEM PESSOAL ATRAVÉS DO CINEMA AMERICANO (1995). Esse sim, eu vi com o coração batendo mais forte de tão entusiasmado que fiquei. Acho que acabei me tornando um fã do cinema americano dos anos 40 e 50 muito por causa desse filme. Pretendo um dia rever esse documentário extraordinário.

Mas voltando ao doc sobre Dylan, adoro o início, mostrando um dos concertos polêmicos que o cantor fez ao lado de sua banda, fazendo um som eletrificado, mais rock, e levando vaias e gritos de "Judas" do público, que queria ver o Dylan cantor de folk e de canções de protesto. Esse Dylan de 1966 tem um quê de arrogante. A maneira como ele se comporta no palco é semelhante a de rock stars contemporâneos, como Liam Gallagher, por exemplo. E essa impressão fica ainda mais forte quando comparamos com o Dylan iniciante, com jeitão de caipira, com apenas um violão e uma gaita e cantando canções como "Blowin' in the wind" e "A hard rain's a-gonna fall".

O DVD duplo divide o filme em duas partes que contam, em ordem cronológica, o início da carreira de Dylan até 1966, quando ele alcançou o estrelato. Mas de vez em quando, somos levados de volta para o show de 66, com Dylan interpretando canções extraordinárias como "Like a Rolling Stone" e "Leopard-skin pill-box hat", em arranjos lindos. Em 1965, com "Mr. Tambourine Man", Dylan já apontava uma mudança. Os fãs queriam vê-lo como um cantor de protesto e lá vinha ele com uma música de maconheiro, de quem tem mais vontade de fugir da realidade do que de se envolver com ela a fim de mudá-la. Dylan, aliás, nunca gostou desse negócio de dizerem que ele era cantor de protesto. Interessante sua postura diante da imprensa nas entrevistas. Mas também, com tanta pergunta estúpida partindo dos jornalistas, a gente lhe dá até um pouco de razão ao vê-lo respondendo de maneira tão cínica. Pelo depoimento de Joan Baez, Dylan não era uma pessoa fácil de se relacionar. Ela pareceu até um pouco rancorosa com o passado dos dois.

De material extra, o DVD traz apresentações de alguns dos entrevistados cantando, além de diversas apresentações do próprio Dylan e de um material promocional com a canção "Positively 4th Street", uma de minhas favoritas do cantor. Essa canção é talvez a melhor já feita sobre alguém que sente raiva por outra pessoa. Dylan é um ótimo exemplo de compositor que aliava com maestria a emoção e a inteligência.

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