sexta-feira, maio 13, 2005

RIO VERMELHO (Red River)



Antes de terminar a minha peregrinação pela obra de Alfred Hitchcock (que ainda está longe de acabar, só dei um tempo), declaro iniciada minha viagem pelos filmes de Howard Hawks, com a ajuda da ótima e extensa entrevista do diretor, contida no livro Afinal, Quem Faz os Filmes, de Peter Bogdanovich. Infelizmente os filmes de Hawks não recebem o mesmo tratamento que os filmes de Hitchcock no Brasil. São poucos os filmes do diretor disponíveis em DVD e VHS, mas eu vou me contentando com o que tem por enquanto e ficando de olho na programação da tv. Antes de ver RIO VERMELHO (1948), do diretor, só tinha visto SCARFACE (1932), LEVADA DA BRECA (1938), OS HOMENS PREFEREM AS LOIRAS (1953), TERRA DOS FARAÓS (1955), ONDE COMEÇA O INFERNO (1959), ELDORADO (1967) e RIO LOBO (1970). Ainda falta um mundo de filmes de Hawks pra ver. Por enquanto, estou com HATARI! (1962) gravado em casa, mas estou pensando em deixar pra vê-lo depois de pegar outros filmes mais antigos dele.

Howard Hawks foi um dos mais versáteis e talentosos diretores americanos. O sujeito mandava bem em qualquer gênero, seja western, musical, comédia, filme de gângster, épico ou policial. Pena que no filme O AVIADOR, de Martin Scorsese, ele não tenha aparecido (ou aparece?), já que ele foi de grande importância na vida e na carreira do "aviador" Howard Hughes. Na entrevista do livro ele fala um pouco dos aviões de Hughes que ele usou para produzir o seu PATRULHA DA MADRUGADA (1930). Inclusive, um de seus irmãos, que também era diretor de cinema, morreu numa colisão de aviões enquanto filmava. Aquele povo era louco.

Quase tão boa quanto a entrevista, é o texto de introdução de Bogdanovich. Além de dar uma geral na obra do diretor, ele conta sobre o seu relacionamento com ele, chegando inclusive a refilmar uma obra de Hawks, quando LEVADA DA BRECA virou ESSA PEQUENA É UMA PARADA. Uma das partes mais divertidas do livro é quando Hawks, após ter visto MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA, de Sam Peckinpah, com todas aquelas cenas de violência em câmera lenta, diz: "Bem, que diabo, consigo matar e enterrar quatro camaradas no tempo que ele gasta para matar um". Graças a Bogdanovich, fiquei sabendo da divertida disputa criativa que Hawks travava com John Ford. Quando Ford viu o excelente desempenho de John Wayne em RIO VERMELHO, ficou enciumado. Ele já tinha trabalhado diversas vezes com Wayne, mas o velho caubói até então não tinha tido tão brilhante performance. Abaixo, um trecho do livro que fala sobre o caso:

"Hawks conta que eles estavam almoçando, quando de repente Jack, que estava sentado à sua frente, levantou os olhos para ele e disse, incisivamente: "Seu filho da puta". Hawks perguntou, intrigado: 'O que há, Jack?' Howard sorriu ao professeguir a história: 'E ele só baixou os olhos para o seu prato e não disse mais nada'. Hawks deu de ombros, riu e soube que aquilo tinha sido o maior cumprimento que Ford poderia prestar."

De fato, a performance de John Wayne em RIO VERMELHO é fantástica. Ele empresta ao personagem uma carga sombria que eu nunca tinha visto. Talvez seja o personagem mais ambíguo que ele já fez. E a história do filme é empolgante e agradabilíssima. Na trama, Wayne é um vaqueiro que a partir de poucas cabeças de gado, em dez anos se torna dono de um enorme rebanho, com a ajuda de um garoto (Montgomery Clift, em sua estréia nas telas) e de um velho amigo. Eles constroem o maior rebanho de gado do Texas. O problema é que com a Guerra Civil, o preço do gado baixa muito e a única solução que ele encontra para sair da crise é levar todo o gado para o Missouri, correndo o risco de perder todo o rebanho com o ataque de índios ou mesmo de bandidos brancos. Durante o caminho, muita coisa acontece e John Wayne vai ficando cada vez mais cruel e tirano com seus empregados.

Entre as cenas mais impressionantes de RIO VERMELHO, destaca-se a cena do estouro da boiada. Fico imaginando o que é ter visto esse filme no cinema, já que até na televisão essa seqüência é impactante. Hawks usou 1500 vacas no filme, mas tem-se a impressão de que ele usou muito mais. "Tente dizer a 1500 vacas o que fazer", ele dizia. Todas as cenas de suspense que envolvem a perseguição de Wayne ao grupo liderado por Montgomery Clift são também muito fortes. Falando em Clift, não sei se pelo fato de eu saber que ele era gay, mas eu achei aquela cena dele mostrando os revólveres a outro pistoleiro, e um elogiando a pistola do outro, bem sugestiva. Não sei se foi intencional, mas no próprio filme, comenta-se que Clift é muito delicado para aquela vida.

Pelo pouco que eu pude ver da obra de Hawks, RIO VERMELHO já é meu preferido. E não tem jeito, por mais que eu adore os filmes do Leone e tenha descoberto outros excelentes filmes do ciclo de spaghetti western, os westerns americanos são muito melhores. Principalmente os de Ford, Hawks e Anthony Mann.

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