quinta-feira, abril 20, 2006

TOP 20 ANOS 80

1. SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, de Peter Weir
2. O HOMEM-ELEFANTE, de David Lynch
3. HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO, de Rob Reiner
4. O SACRIFÍCIO, de Andrei Tarkovski

5. UM TIRO NA NOITE, de Brian De Palma
6. A MANSÃO DO INFERNO, de Dario Argento
7. TOURO INDOMÁVEL, de Martin Scorsese
8. PARIS, TEXAS, de Wim Wenders

9. DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II, de Robert Zemeckis
10. EROS, O DEUS DO AMOR, de Walter Hugo Khouri
11. ESTRANHOS NO PARAÍSO, de Jim Jarmusch
12. SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, de Steven Soderbergh

13. DRUGSTORE COWBOY, de Gus Van Sant
14. A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER, de Philip Kaufman
15. TÚMULO DOS VAGALUMES, de Isao Takahata
16. CONQUISTA SANGRENTA, de Paul Verhoeven

17. ERA UMA VEZ NA AMÉRICA, de Sergio Leone
18. A OUTRA, de Woody Allen
19. CHRISTINE, O CARRO ASSASSINO, de John Carpenter
20. A MOSCA, de David Cronenberg

No mês de maio, a Liga dos Blogues Cinematográficos vai eleger os melhores filmes da década. O pessoal já está se movimentando, mandando seus rankings. Como aconteceu com o ranking dos anos 90, eu pretendia colocar a minha lista apenas depois do resultado final, mas como o Chico também já divulgou a lista dele e a minha já estava pronta, aqui vai ela.

Essa relação é bastante pessoal e segui apenas a minha memória afetiva. Dos vinte títulos desse ranking, apenas seis eu tive a sorte de ver no cinema. É um número até razoável, levando em consideração o fato de que o ano oficial do início de minha cinefilia é 1989. Os outros títulos foram vistos na televisão, ou descobertos mais recentemente.

A presença de SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS no pódio se justifica principalmente pelo grande impacto que o filme teve em mim, cinéfilo iniciante. Foi o único filme que eu vi três vezes no cinema e de certa forma me incentivou a fazer o curso de Letras. Mesmo nos dias de hoje, quando revejo certas cenas, o filme de Peter Weir permanece belo e emocionante. Outro filme marcante do início de minha cinefilia foi a comédia romântica HARRY E SALLY - FEITOS UM PARA O OUTRO, filme que de tempos em tempos eu costumo rever. Inclusive, teve um reveillon que eu fiquei em casa sozinho e resolvi assití-lo. Nunca Meg Ryan esteve tão linda e encantadora. E eu sai do cinema literalmente pulando de alegria. Alegria e entusiasmo, eu também senti durante toda a projeção de DE VOLTA PARA O FUTURO - PARTE II. Dos três da série, esse é o meu favorito e o único que me deixou eufórico.

O HOMEM-ELEFANTE, de David Lynch, acabou por passar à frente de quase todos depois que o revi em DVD. Que obra extraordinária essa do Sr. Lynch, esse que eu considero um dos maiores cineastas vivos e um dos poucos que podem entrar na categoria de gênio. Ao menos é assim que eu o vejo. Quanto a O SACRIFÍCIO, de Tarkovski, vê-lo é como entrar numa janela para outro mundo, onde as coisas acontecem mais lentamente. Se no cinema de Tarkovski cada quadro, cada objeto é dotado de uma importância tremenda, imagine se o homem de repente fala sobre o fim do mundo. De arrepiar.

Os anos 80 foram anos de ouro para Brian De Palma. Por isso, foi muito difícil escolher entre UM TIRO NA NOITE, VESTIDA PARA MATAR e DUBLÊ DE CORPO, três obras-primas inspiradas no mestre Hitchcock. Mas como eu vi UM TIRO NA NOITE na janela correta e o filme me pegou, então, vai ele mesmo. Outro especialista em thrillers presente no ranking é Dario Argento, com seu genial A MANSÃO DO INFERNO, experiência onírica e viajante que compete com SUSPIRIA (1977) na minha preferência.

Woody Allen não poderia faltar e eu escolhi um de seus mais belos dramas bergmanianos: A OUTRA. De Paul Verhoeven, ainda devo a mim mesmo uma revisão decente de ROBOCOP (1987), então, posso dizer que CONQUISTA SANGRENTA, por enquanto, é o meu favorito de sua fase oitentista. Sangrento e sensual como poucos filmes americanos poderiam ser. De John Carpenter, fiquei com o delicioso CHRISTINE, O CARRO ASSASSINO, um de seus trabalhos mais subestimados. De David Cronenberg, o repulsivo A MOSCA continua sendo o meu preferido de toda sua filmografia.

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER, eu tive o prazer de ver no cinema, dias depois de ter lido o livro de Milan Kundera. O filme tem o mérito de não diluir a obra do escritor, coisa que geralmente acontece nesse tipo de adaptação. Sem falar que ver a nudez de Juliete Binoche e Lena Olin, as duas na flor da idade, não tem preço. O sexo também fala alto na estréia triunfal de Steven Soderbergh, com o premiado SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE. Outro cineasta que começou com o pé direito foi Gus Van Sant, com o seu excelente DRUGSTORE COWBOY.

Como resolvi colocar apenas um filme por diretor, foi um dilema escolher entre PARIS, TEXAS (que eu vi na tv) e ASAS DO DESEJO (visto no cinema). Acabou vencendo o drama intimista sobre a redescoberta de um homem que havia perdido tudo, até sua própria identidade. É uma obra bastante melancólica. Mas triste mesmo é a animação GRAVE OF FIREFLIES, que faz chorar até os de coração mais duro.

TOURO INDOMÁVEL, ainda pretendo rever em DVD. A falta de tempo não tem me permitido ir à locadora. Mas pela minha memória, da vez que o assisti na televisão, o filme de Scorsese continua imbatível dentro da década de 80. Também pude ver na tv a obra-prima de Jim Jarmursch, ESTRANHOS NO PARAÍSO, no tempo em que a Band passava filmes de vanguarda na madrugada.

O cinema nacional na década de 80 pode não ter sido tão bom quando nas duas décadas anteriores, quando esteve no seu auge, mas coisa boa não faltava. Como Walter Hugo Khouri é um de meus cineastas preferidos, não podia faltar um filme do mestre no meu ranking. Escolhi EROS, O DEUS DO AMOR, todo narrado em câmera subjetiva e com uma carga erótica impressionante. É um dos mais geniais filmes do cinema nacional.

Outros filmes excepcionais que poderiam estar na lista: O TURISTA ACIDENTAL, VELUDO AZUL, VESTIDA PARA MATAR, DUBLÊ DE CORPO, HANNAH E SUAS IRMÃS, A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO, O REI DA COMÉDIA, NAUSICAÄ OF THE VALLEY OF THE WINDS, LAPUTA: CASTLE IN THE SKY, ASAS DO DESEJO, AMOR, ESTRANHO AMOR, UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES, OS ELEITOS, FANNY E ALEXANDRE, ONDE FICA A CASA DE MEU AMIGO?, OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA, INDIANA JONES E O TEMPLO DA PERDIÇÃO, FACA DE DOIS GUMES, KUARUP.

Aguardem o Top anos 70 pra daqui a alguns meses.

P.S.: Quem souber como conseguir, ou puder me enviar, o cartaz de EROS, O DEUS DO AMOR, do saudoso Khouri, favor me ajudar.

quarta-feira, abril 19, 2006

NASCIDO PARA LUTAR (Kerd Ma Lui / Born to Fight)

  

Quando um amigo meu me falou que estava de posse de uma cópia em DVD de NASCIDO PARA LUTAR (2004), eu falei: "rapaz, traz esse negócio pra eu ver." Já tinha ouvido falar que era um troço inacreditável (pelos comentários do Diogenes na Canibal e pelos blogs do André e do Renato), mas não tinha noção do quanto. A seqüência inicial é de cair o queixo, já que os atores/dublês despencam de cima dos caminhões em alta velocidade sem medo de quebrarem todos os ossos do corpo. Só vendo pra crer. Imagino o quanto esse povo deve ter sofrido pra fazer esse filme. Deixa os filmes da série POLICE STORY, do Jackie Chan, parecerem bricandeira de criança. 

A história é simples, meio ridícula até, mas é bem envolvente: policial (Dan Chupong) prende um chefão de contrabando numa operação que custou a vida de seu parceiro. A fim de relaxar um pouco depois do trauma recente, ele viaja com a irmã, uma ginasta que vai participar de uma missão humanitária junto com outros atletas num vilarejo pobre do interior. As coisas vão bem até que, sem mais nem menos, um grupo de homens armados massacra a população do vilarejo e fica com o restante como refém. Eles querem que o seu líder, o chefão que o protagonista havia prendido no começo do filme, seja libertado. Caso contrário, eles lançarão mísseis nucleares sobre a capital. O legal é que na hora que os bandidos deixam tocar o hino da Tailândia nos megafones, os reféns, sentindo-se envolvidos pelo espírito patriótico, começam a cantar juntos o hino e decidem lutar, ainda que sem armas, contra os vilões. É preciso haver um sacrifício para que as vidas de mais pessoas sejam poupadas. Poucas vezes eu vi um sentimento patriótico mostrado de maneira tão bonita quanto nesse filme. E olha que é um filme que nem dá pra se levar muito a sério. 

NASCIDO PARA LUTAR é estrelado basicamente por campeões olímpicos tailandeses. Os momentos ridículos do filme ficam por conta de alguns figurantes nas cenas de luta dos aldeões e dos ginastas contra os malvados vilões. Em alguns momentos, além da utilização de câmera lenta, há também replays. Fica engraçado ver replays nas cenas em que um jogador de futebol chuta bolas pesadas na cabeça de seus inimigos, utilizando suas habilidades futebolísticas. 

Interessante notar que a Tailândia tem uma cinematografia até que bastante diversa, a julgar pelos exemplares que têm pintado por aqui recentemente. Além de vir de lá um dos filmes de arte mais incensados dos últimos tempos (MAL DOS TRÓPICOS), não custa lembrar que o filme de terror mais assustador do ano (ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO) também veio de lá. No território da porradaria, além desse NASCIDO PARA LUTAR, tem nas locadoras pra alugar ONG-BAK: GUERREIRO SAGRADO (2003), que dizem também ser muito bom. É melhor o pessoal de Hong Kong tomar cuidado, senão daqui a pouco os tailandeses vão tomar o cinturão de ouro deles de reis do cinema de ação. 

P.S.: Recebi hoje a nova Paisà. Ainda não terminei de ler, claro, mas dei uma folheada e li o comecinho. Parece estar excelente.

terça-feira, abril 18, 2006

O NOVO MUNDO (The New World)

 

O adjetivo "sensacional" se adequa perfeitamente aos filmes de Terrence Malick, em especial a este O NOVO MUNDO (2005), sua mais recente empreitada nas telas. Digo "sensacional" porque Malick é o cineasta das sensações, dos sentidos, da busca da beleza no mundo físico e sensorial. Seus personagens vivem intensamente cada momento. Assim que começa o filme, John Smith, o personagem de Colin Farrell, está preso dentro do navio que se aproxima da costa do estado da Virgínia, no início da colonização americana. Ele estava preso por indisciplina e iria ser enforcado, mas logo seu superior o perdoa e ele passa a chefiar uma expedição pelo território selvagem em busca de mantimentos e ouro. É quando ele é capturado pelos índios. Novamente ele é salvo pela compaixão, dessa vez pelo amor de uma mulher, uma jovem índia, uma princesa, a preferida das filhas do cacique. Por causa desse amor, mais tarde essa moça trairá a confiança de sua tribo e será renegada. Essa é a famosa história de Pocahontas, mais conhecida por causa do desenho animado da Disney, de 1995. 

O NOVO MUNDO é cinema-poesia. Malick se preocupa menos em contar uma história e mais em nos deixar maravilhados com a beleza natural daquele mundo selvagem. Impossível não ficar maravilhado com a fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki, de A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA e E SUA MÃE TAMBÉM. A fim de ampliar o nosso prazer estético, além da beleza visual, a música também contribui para que sejamos levados para aquele mundo, como se estivéssemos respirando o ar da floresta. A música original é de James Horner, mas ouvimos também composições de Mozart e Wagner. Quando a música pára, ficamos com o som da floresta - o barulho das águas, o canto dos pássaros, o som dos animais silvestres. 

O cinema é basicamente feito de visão e audição, mas O NOVO MUNDO nos aproxima também dos outros sentidos. Talvez por isso o sentimento de frustração de vez em quando acontece, já que sente-se vontade de se aprofundar nas sensações que o filme provoca, o que nem sempre é possível. (Quem sabe, sob efeito de alguma droga relaxante, esse aprofundamento aconteça.) Em certa cena, a índia (Q'Orianka Kilcher, que tinha apenas 15 anos durante as filmagens) pergunta ao seu marido (Christian Bale) porque existem as cores. Interessante essa preocupação, já que desde o começo o filme nos dá uma consciência da beleza das cores do mundo, seja pelo céu azul, o verde da vegetação, o colorido das tintas nos corpos dos índios, a roupa dos ingleses, o luxo da côrte do Rei James. 

Interessante notar também as narrativas reflexivas dos três personagens principais. Essas narrativas entrecortam os diálogos, não esperam que tudo fique mudo, não acontecem no início das cenas. Elas invadem a ação. Essas vozes, ditas em tom calmo e sereno, passam um sentimento de paz que contamina as seqüências de guerra. Aliás, o filme até evita a violência, não mostrando o sangue nas batalhas. Até mesmo a paixão da índia por John Smith é substituída pelo amor mais realista e maternal quando ela entra em contato com o personagem de Bale. Tudo no filme é um convite à paz, à contemplação, à meditação. Como se o modo de vida dos nativos americanos encontrasse o zen-budismo. 

P.S.: Já está disponível no site do Cinema com Rapadura minha mais nova coluna. O assunto é: rever filmes.

segunda-feira, abril 17, 2006

O ALBERGUE (Hostel)

 

O fim de semana prolongado foi bem legal. Fui para uma casa de praia no Porto das Dunas com praticamente a mesma turma do ano passado. É sempre um prazer estar perto de pessoas inteligentes e de papo agradável e interessante. Os jogos de mesa, a piscina e as sessões de SEINFELD também contribuíram para que o feriadão fosse dos melhores. Pena que quando cheguei em casa ontem, meu computador tinha pifado. Como eu já estava pensando em comprar outro mesmo, parece que essa vai ser a oportunidade de montar uma máquina melhor e mais forte. 

No dia anterior à viagem, fui conferir O ALBERGUE (2006), de Eli Roth. Trata-se de um filme desaconselhável para audiências mais sensíveis, já que é quase impossível, mesmo para quem já está acostumado com gore, ficar indiferente às cenas de tortura e violência gráfica. Em alguns momentos, eu até questionei se esse tipo de filme - assim como o australiano WOLF CREEK - VIAGEM AO INFERNO - não seriam exercícios de masoquismo de nossa parte (ou de sadismo, se nos divertimos com as cenas mais perturbadoras). Porém, essa violência crescente nos filmes parece inevitável, ainda mais com essa onda de revival do horror rural americano e da popularização dos filmes japoneses mais hardcore. Por falar em japa hardcore, O ALBERGUE conta com uma ponta do maluco Takashi Miike, ídolo de Roth. 

Na trama, três rapazes, em férias na Europa e passando por Amsterdã, recebem uma dica de um lugar que é um verdadeiro paraíso para os marmanjos em busca de mulheres lindas e loucas por sexo. O lugar seria um pouco escondido e situado na Bratislava, capital da Eslováquia. O sujeito que deu o endereço pros rapazes disse que lá é onde existem as mulheres mais lindas do mundo. (Bom, eu tinha ouvido falar que era na Hungria, mas como é país vizinho...) Assim que eles chegam lá, eles não se decepcionam. O albergue conta com uma sauna onde homens e mulheres ficam nus e as meninas são bastante receptivas e atraentes. À noite é só felicidade: festa, drogas e muito sexo. A coisa começa a ficar sinistra quando um dos rapazes desaparece sem deixar vestígio. Aí o filme muda de tom e o bicho começa a pegar. E pega pesado. Não vão faltar dedos decepados, tendões partidos, uma assustadora serra elétrica e gente tendo o olho perfurado. Perturbador. 

Interessante que os atuais filmes do gênero, diferente dos SEXTA-FEIRA 13 nos anos 80, têm apresentado menos personagens. Logo, são menos mortes e mais momentos de tensão. De certa forma, isso funcionou como um consolo pra mim, que não estava muito disposto a ver mais gente sendo torturada até a morte. O ALBERGUE é mais uma evolução na carreira de Eli Roth, que já tinha mandado bem com CABANA DO INFERNO (2003). Se esse novo filme não for melhor, com certeza, é bem mais memorável que o anterior. E ainda tem o aval de gente como Miike e Quentin Tarantino, que aparece como produtor executivo, tendo seu nome destacado no cartaz, servindo de chamariz.

quinta-feira, abril 13, 2006

VIVER A VIDA (Vivre sa Vie: Film en Douze Tableaux)

  

Finalmente um filme de Jean-Luc Godard que me deixou extasiado. Acho que isso aconteceu pelo fato de o filme ser um dos mais tristes da filmografia do diretor e todos os outros que eu vi tangenciavam a paródia, tinham um senso de humor peculiar e todo do diretor. Humor é algo muito particular. Mas a tristeza não: ela é universal. E como eu tenho uma queda pela melancolia nas artes ("I only listen to the sad sad songs"), VIVER A VIDA (1962) me pegou. 

Desde os primeiros acordes da música de Michel Legrand até aquele trágico e abrupto final, passando pelas experimentações vanguardistas do diretor e a divisão do filme em capítulos, VIVER A VIDA é uma dessas maravilhas que o cinema gera e que fica guardado no nosso coração e na nossa mente muito provavelmente até nossa morte. Claro que ainda é cedo para ficar proclamando que VIVER A VIDA é o meu Godard favorito - o homem tem uma filmografia de mais de 70 títulos e eu só assisti até agora a apenas nove, incluindo aí três curtas -, mas por enquanto posso dizer que é. E o filme deve crescer ainda mais numa revisão. 

VIVER A VIDA é a história de uma mulher que vende seu corpo para preservar sua alma. Por causa da temática quase espiritual, o filme se aproxima das obras de Robert Bresson e Carl Theodor Dreyer. Inclusive, numa cena, Anna Karina vai ao cinema e assiste ao clássico A PAIXÃO DE JOANA D'ARC, de Dreyer. Em alguns momentos Karina até fica parecida com Maria Falconetti, especialmente quando ela chora enquanto vê o filme. O primeiro capítulo mostra Karina conversando com um homem, os dois de costas o tempo inteiro. Eles estão sentados no balcão de um bar e a câmera em nenhum momento mostra seus rostos, a não ser através de um espelho. Num outro capítulo, vemos detalhes de como o negócio da prostituição se desenvolve. No caso da personagem de Karina, entrar no mundo da prostituição foi a única saída, já que nem mesmo entrar no seu quarto alugado ela podia mais, por falta de dinheiro. Outra seqüência linda é aquela que mostra Karina cantando e dançando num bar enquanto alguns homens jogam sinuca. O gosto de Godard pela leitura aparece quando ouvimos trechos de "O Retrato Oval", de Edgar Allan Poe. 

Se não conseguir cópia de O PEQUENO SOLDADO (1963), devo alugar RO.GO.PA.G (1963), projeto coletivo em que Godard dirige um segmento. Os outros três são dirigidos por Roberto Rossellini, Pier Paolo Pasolini e Ugo Gregoretti. 

Agradecimentos, mais uma vez, a Carol Vieira, que me emprestou esse belo DVD lançado no Brasil pela Magnus Opus.

quarta-feira, abril 12, 2006

QUANDO UM ESTRANHO CHAMA (When a Stranger Calls)

 

Na última segunda-feira resolvi tirar um dia de folga do meu trabalho diurno. É sempre bom poder dormir até às onze da manhã pra colocar um pouco em dia o sono atrasado. Pena que quando se acorda tarde, perde-se metade do dia. Mas, por outro lado, se ficarmos preocupados com o que se perde durante o dia, não se dorme mais. Pois bem. Nesse meu dia de folga, aproveitei, claro, para ir ao cinema. As opções não andam lá tão interessantes, mas filmes de terror e suspense sempre são atraentes para mim. Como tinha chegado atrasado no domingo para a sessão de QUANDO UM ESTRANHO CHAMA (2006), aproveitei a oportunidade para ir vê-lo na segunda. Mas não foi uma tarefa tão fácil. Antes, passei no Centro para fazer uma transferência no banco. Retirar dinheiro de um banco e depositar no outro. Na fila do depósito do Banco do Brasil, vivi um momento de pesadelo. Estava apressado para pegar logo o ônibus pro Iguatemi e uma mulher estava usando a fila de depósito da agência para fazer um monte de pagamentos. Ela ficava o tempo inteiro brigando com um menino que insistia em botar a mão na máquina, impedindo a leitura do código de barras. Pior do que o menino, só mesmo a voz irritante da mulher, que gritava para a agência inteira ouvir: "Tiago, não mexe, Tiago. Tu tá me atrapalhando..." E eu ficava fazendo careta, prestes a desistir da fila. Mas como não sou de desistir fácil - pelo menos para certas coisas - consegui chegar na máquina e efetuar o depósito. Agora era sair dali correndo e com sorte estar em meia-hora no Iguatemi. 

Ir do Centro para o Iguatemi de ônibus não é nenhuma maravilha. Ainda mais quando se está atrasado. Nem vou contar do micro-ônibus de linha lotado e da menina que passou mal. Resultado: cheguei atrasado dez minutos para ver o filme. Contrariando meus princípios, e me recusando a ir embora "com as mãos abanando", comprei o ingresso assim mesmo. Na pressa, não passei no banheiro para lavar o rosto e ainda comprei uma garrafa de água mineral daquelas bem caras que eles vendem nos bombonieres do UCI. Depois de toda essa maratona, quando cheguei na sala, só havia um senhor assistindo ao filme e a tela estava com uma tarja preta em cima e embaixo. Como eu já estava bastante irritando, saí imediatamente da sala puto da vida pra reclamar lá. "A sala 7 tá com problema. Uma mancha preta em cima e embaixo. Não dá pra assistir. Não tem como voltar o filme, não?". Aí o rapaz que recebe o ingresso, muito gentilmente, e ignorando o meu mau humor, ligou lá para o projecionista. E não é que eles voltaram o filme mesmo? Desde o começo? Que sorte a minha, hein. Senti como se tivesse uma espécie de anjo da guarda ou santo protetor dos cinéfilos do meu lado. Ou então, eles já estão me reconhecendo de tanto eu ir lá e acham que eu sou algum jornalista. Mas sabe o que foi mais legal? Ao contrário do que a crítica em geral anda dizendo, eu gostei muito do filme. Assisti do começo ao fim com prazer e interesse. Entre os blogueiros cinéfilos, o único que eu vi elogiando o filme foi o Tobey

Apesar de, para as novas gerações, parecer mais um prolongamento do prólogo de PÂNICO, de Wes Craven, QUANDO UM ESTRANHO CHAMA é uma refilmagem de MENSAGEIRO DA MORTE (1979), de Fred Walton. Inclusive, dando uma olhada na filmografia de Walton no IMDB, vi que ele chegou a dirigir para a televisão WHEN A STRANGER CALLS BACK (1993), que a julgar pelo título deve ser uma espécie de continuação do filme original. A nova produção foi dirigida por Simon West, de CON AIR (1997) e LARA CROFT: TOMB RAIDER (2001). Nesse suspense modesto, ele pôde mostrar melhor seus dotes como diretor, caprichando nos travellings, na ambientação, na construção da atmosfera, na escolha da atriz principal. Quer dizer, nem sei se foi ele quem escolheu a atriz, mas a gente agradece assim mesmo. Camilla Belle é um colírio para os olhos. Ela está em O MUNDO DE JACK E ROSE (2005), de Rebecca Miller. Camilla lembra um pouco a Elisha Cuthbert, só que morena.  
O filme tem uma estrutura bem simples. No começo, ficamos sabendo de um serial killer. O que ele faz com as vítimas não é mostrado. Em seguida, conhecemos a personagem de Camilla, uma jovem que está de castigo por ter exagerado na conta do celular. Seu castigo é ficar sem carro, sem celular e ainda servir de baby sitter numa casa super-luxuosa. A casa, aliás, é uma atração à parte do filme. Fiquei tão fascinado com a casa quanto a protagonista. É uma mansão enorme situada à beira de um lago. O lugar, além de belamente mobiliado e iluminado, é todo equipado com aparelhagem eletrônica, alarme eletrônico, essas coisas. A jovem recebe ligações de um sujeito de voz ameaçadora e que parece estar cada vez mais perto dela. A tensão vai se criando aos poucos até chegar ao clímax e ao belo e meio abrupto final. 

Os melhores filmes de terror podem ser comparados a uma noite de tempestade. A gente se sente bem porque está protegido, mas ao mesmo tempo se assusta um pouco com os trovões e os relâmpagos. Claro que alguns filmes conseguem transcender essa característica e nos levar para outros territórios. Um Lynch ou um Shyamalan, por exemplo, são casos à parte dentro desse universo do horror. QUANDO UM ESTRANHO CHAMA é um exemplo mais convencional, que utiliza os clichês do gênero sem inovar muito, mas que faz isso com muita competência e elegância. Levando em consideração a atual safra dos lançamentos no circuitão, é um filme muito bem vindo e que merece ser conferido.

terça-feira, abril 11, 2006

V DE VINGANÇA (V for Vendetta)

 

Minha lembrança de "V de Vingança", a HQ de Alan Moore e David Lloyd, não é muito viva. Já faz mais de quinze anos que eu tomei contato com essa e outras obras de Moore através de um amigo dos tempos do ensino médio - foi ele quem me apresentou belezuras como "Watchmen" e "A Piada Mortal", só pra citar os Moores. Acho que "V de Vingança" foi uma das obras do escritor que eu menos gostei, mas gostaria muito de reler. Agora que a Panini está republicando em encadernação única a obra, vou ter a chance de reavaliar. 

Quanto a V DE VINGANÇA (2005), de James McTeague, trata-se de um belo filme. Elegante, com um texto subversivo e uma heroína de dar gosto. Interessante como a presença de uma bela mulher contribui para que vejamos um filme com bons olhos. Mas não diria que o mérito do filme está apenas na beleza e no carisma de Natalie Portman. V DE VINGANÇA se diferencia dos outros blockbusters que a gente está acostumado a ver nos cinemas por não rechear o filme com cenas de ação à Michael Bay ou efeitos especiais desnecessários. Os efeitos visuais mais visíveis são poucos e usados a seu favor, como nas cenas em que V corta a garganta de seus inimigos ou naquela bela cena da chuva com a Natalie Portman olhando pra cima. 

A controvérsia toda está no fato de o herói do filme (V, interpretado por Hugo Weaving, de máscara o tempo todo) guardar semelhança com um terrorista. Sua missão é se vingar dos chefões do governo totalitário que mata homossexuais ou pessoas com credos diferentes (o corão é livro proibido). Depois de conseguir entrar em rede nacional, ao invadir uma rede de televisão, ele promete que em um ano, no dia 5 de novembro, ele explodirá o Parlamento inglês. Sua intenção é destruir o símbolo do atual governo e, dentro desse período de um ano, convencer a população da Inglaterra a aceitar a sua causa. O filme é narrado pelo ponto de vista de Evey (Natalie), mas vez ou outra também acompanhamos as investigações do policial vivido por Stephen Rea, o ator fetiche de Neil Jordan. 

Apesar de o filme se passar na Inglaterra, é praticamente impossível não pensar no atual governo de George Bush, nos EUA pós-11 de setembro e ver o filme como uma provocação. Mas acredito que um filme que convida à reflexão é sempre bem vindo. O curioso é ver Natalie Portman, de família israelense, e que até já trabalhou em filme de Amos Gitai, num filme que tem mais sintonia com a causa dos palestinos. Outra curiosidade é que V DE VINGANÇA mostra a população inteira da Inglaterra dependente da televisão. As pessoas parece que não fazem outra coisa na vida. 

Provavelmente, quando eu reler a obra de Alan Moore, o filme vai ficar bem pequenininho, a exemplo do que ocorreu com DO INFERNO (2001). Mas independente da comparação com os quadrinhos, V DE VINGANÇA é uma experiência das mais agradáveis.

segunda-feira, abril 10, 2006

IRMA VAP - O RETORNO

 

Tem coisa mais desagradável do que comédia sem graça? Pois é. E ainda tem gente que fala mal do humor americano, dizendo que suas piadas só quem entendem são eles, mas não tem povo que saiba fazer melhor humor. A comédia é o gênero mais difícil de se fazer bem. Quando sai errado, fica aquela sensação ruim de riso sem graça, e chega uma hora que cansa mesmo. IRMA VAP - O RETORNO (2006), de Carla Camurati, é um desses casos. Eu não me sinto bem falando mal de cinema brasileiro, tendo em vista todas as dificuldades que nós enfrentamos para botar um filme no mercado exibidor, mas tenho que ser sincero e admitir que o filme foi um equívoco. 

A intenção inicial da diretora era levar às telas a bem sucedida peça "O Mistério de Irma Vap", que passou onze anos em cartaz em São Paulo. Um recorde. Mas logo ela viu que não ia surtir o mesmo efeito apenas transpor o teatro para o cinema. Foi aí que surgiu a idéia de beber na fonte de O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE?, de Robert Aldrich. A história ficou bem parecida. Só ficou faltando a Cleide (Marco Nanini) botar um rato no jantar de Tony (também Nanini). Mas por mais que Marco Nanini seja excelente, vê-lo num filme desses é um desperdício. 

No filme anterior de Carla, COPACABANA (2001), ele esteve muito bem também e o filme era ótimo, tinha um sabor de saudosismo, um olhar contemplativo diante da vida que me agradou muito. Infelizmente, o sucesso não se repetiu, embora, na bilheteria, IRMA VAP - O RETORNO até consiga mais dinheiro, já que o filme está sendo distribuído também no circuitão, não apenas no circuito alternativo. IRMA VAP - O RETORNO pode até ser um programa muito bom pra quem viu a peça e tem saudades, mas quem nunca assistiu vai ficar com a impressão de que o espetáculo não passava apenas de puro besteirol. 

Li que Nei Latorraca, um dos protagonistas do filme, vai fazer uma outra adaptação para o cinema, dessa vez, de um sucesso da tv, A GRANDE FAMÍLIA - O FILME. Pelo visto, não é só o cinema americano que está apelando para adaptações de programas de tv para o cinema. A Rede Globo não desiste, mesmo com o fracasso comercial (e artístico) de OS NORMAIS e de CASSETA & PLANETA - A TAÇA DO MUNDO É NOSSA. Enquanto isso, filmes sérios de grandes realizadores como Beto Brant, Carlos Reichenbach, Julio Bressane, Ugo Giorgetti, entre outros, são distribuídos em poucas cópias e demoram séculos para chegar na maioria das capitais.

sexta-feira, abril 07, 2006

NO DIRECTION HOME - BOB DYLAN

  

Interessante como NO DIRECTION HOME - BOB DYLAN (2005) é coerente com a filmografia de Martin Scorsese. O Dylan do documentário é tão solitário e genial quanto o Howard Hughes de O AVIADOR (2004), Jesus de A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988) ou o Dalai Lama de KUNDUN (1997). Provavelmente Scorsese, um sujeito que já declarou que aprecia muito estar sozinho, tem alguma espécie de identificação com esse tipo de pessoa. Claro que não é só isso. Scorsese já havia se mostrado um fã da banda de apoio de Bob Dylan no documentário musical THE LAST WALTZ (1978), que eu ainda não tive a chance de ver. Scorsese andou dizendo por aí que pensa em se dedicar mais aos documentários. Ele pretende abandonar os filmes de ficção porque eles consomem muita energia, são bem mais trabalhosos, e ele já começa a sentir o peso da idade. Ainda mais porque 

Scorsese tem feito ultimamente produções muito caras. Torço para que esse dia demore a chegar, já que prefiro os seus filmes de ficção. Seus documentários são muito longos. NO DIRECTION HOME, por exemplo, eu tive que ver "em fascículos". E o assunto não é tão interessante pra mim quanto o de UMA VIAGEM PESSOAL ATRAVÉS DO CINEMA AMERICANO (1995). Esse sim, eu vi com o coração batendo mais forte de tão entusiasmado que fiquei. Acho que acabei me tornando um fã do cinema americano dos anos 40 e 50 muito por causa desse filme. Pretendo um dia rever esse documentário extraordinário. 

Mas voltando ao doc sobre Dylan, adoro o início, mostrando um dos concertos polêmicos que o cantor fez ao lado de sua banda, fazendo um som eletrificado, mais rock, e levando vaias e gritos de "Judas" do público, que queria ver o Dylan cantor de folk e de canções de protesto. Esse Dylan de 1966 tem um quê de arrogante. A maneira como ele se comporta no palco é semelhante a de rock stars contemporâneos, como Liam Gallagher, por exemplo. E essa impressão fica ainda mais forte quando comparamos com o Dylan iniciante, com jeitão de caipira, com apenas um violão e uma gaita e cantando canções como "Blowin' in the wind" e "A hard rain's a-gonna fall". 

O DVD duplo divide o filme em duas partes que contam, em ordem cronológica, o início da carreira de Dylan até 1966, quando ele alcançou o estrelato. Mas de vez em quando, somos levados de volta para o show de 66, com Dylan interpretando canções extraordinárias como "Like a Rolling Stone" e "Leopard-skin pill-box hat", em arranjos lindos. Em 1965, com "Mr. Tambourine Man", Dylan já apontava uma mudança. Os fãs queriam vê-lo como um cantor de protesto e lá vinha ele com uma música de maconheiro, de quem tem mais vontade de fugir da realidade do que de se envolver com ela a fim de mudá-la. Dylan, aliás, nunca gostou desse negócio de dizerem que ele era cantor de protesto. Interessante sua postura diante da imprensa nas entrevistas. Mas também, com tanta pergunta estúpida partindo dos jornalistas, a gente lhe dá até um pouco de razão ao vê-lo respondendo de maneira tão cínica. Pelo depoimento de Joan Baez, Dylan não era uma pessoa fácil de se relacionar. Ela pareceu até um pouco rancorosa com o passado dos dois. 

De material extra, o DVD traz apresentações de alguns dos entrevistados cantando, além de diversas apresentações do próprio Dylan e de um material promocional com a canção "Positively 4th Street", uma de minhas favoritas do cantor. Essa canção é talvez a melhor já feita sobre alguém que sente raiva por outra pessoa. Dylan é um ótimo exemplo de compositor que aliava com maestria a emoção e a inteligência.

quinta-feira, abril 06, 2006

A DONA DA HISTÓRIA

 

Meu estoque de filmes aqui pro blog está se acabando. Se eu continuar no ritmo da semana passada, quando vi apenas dois filmes, o Diário de um Cinéfilo vai ter bem menos atualizações do que costuma ter. O problema é que tenho trabalhado muito e o tempo para os filmes diminuiu nos últimos dias. Mas é possível que essa situação se reverta e eu consiga ver mais filmes nesse fim de semana e nos feriados que vêm por aí para, assim, poder abastecer isso aqui. Enquanto isso, vamos em frente, ignorando o "déficit técnico". 

A DONA DA HISTÓRIA (2004) é o caso de filme que conquistou a minha antipatia desde os trailers. Eu odiava aqueles trailers. E me recusei a ver o filme no cinema, apesar de ouvir de alguns amigos que ele era legal. Aí, dia desses, a minha irmã chegou com o DVD do filme lá em casa. E como era de graça, lá fui eu assistir. Levando em consideração o pré-conceito que eu tinha com o filme, até que ele se mostrou bem melhor do que eu esperava. Não que seja um grande filme - no fim das contas, parece uma mini-série da Globo exibido na telona -, mas é bem divertido e mantém o interesse até o final. 

O que o filme tem de mais interessante é exatamente a história das escolhas que se faz na vida e das repercussões que elas trazem pra gente. O que aconteceria se eu, em vez de ter terminado o namoro com aquela menina, continuasse com ela até hoje? É possível que eu já estivesse casado. Isso seria bom ou ruim? O filme brinca com essas possibilidades, meio como O EFEITO BORBOLETA, só que de um ponto de vista mais feminino, mais leve. 

Uma das coisas que mais me incomoda é essa mania de mostrarem a juventude dos anos 60 do mesmo jeito. Será que se eu entrasse numa máquina do tempo e fosse parar nessa década, eu daria de cara com um bando de jovens com todos os estereótipos da época e gritando "o povo unido, jamais será vencido" e levando cacetada dos policiais? Duvido que minha mãe freqüentasse essas passeatas. Ela devia trabalhar muito e ouvir "aquela canção do Roberto". Não digo que isso não tenha acontecido, mas é que isso fica muito a cara de ANOS REBELDES (a mini-série da Globo). 

Já uma das coisas que eu gostei no filme foi a fotografia, a cargo de José Roberto Eliezer (A DAMA DO CINE SHANGAI, NINA). Em alguns momentos, a fotografia até que compensa um pouco o estilo de dramaturgia "Rede Globo" que o Daniel Filho impõe. Débora Falabela está igualzinha à Lisbela do filme de Guel Arraes e os outros três atores (Rodrigo Santoro, Marieta Severo e Antonio Fagundes) também não se esforçam pra fazer algo diferente do que se vê nas novelas. 

O roteiro é de João Falcão, baseado numa peça sua. O Falcão que está estreando na direção com A MÁQUINA. Comparando os dois filmes (mesmo sem eu ter visto A MÁQUINA ainda, apenas o trailer), parece que Falcão gosta muito de viagens no tempo, esse tipo de coisa. Bom, eu gosto também. E vou tentar ver A MÁQUINA antes que ele saia de cartaz.

quarta-feira, abril 05, 2006

DESAFIO AO ALÉM (The Haunting)

  

A impressão que se tem vendo DESAFIO AO ALÉM (1963) é que trata-se de um filme dirigido por um grande cineasta, um diretor de primeiro escalão, mas pouco afinado com o gênero terror. E olha que Robert Wise começou a carreira fazendo filme de terror - A MALDIÇÃO DO SANGUE DE PANTERA (1944). Desde o início percebemos as qualidades cinematográficas do filme, principalmente no dinâmico prólogo que apresenta um histórico das tragédias que aconteceram na casa. O problema é que em nenhum momento sente-se aquela atmosfera ao mesmo tempo opressiva e prazerosa característica dos melhores exemplares do gênero. Robert Wise opta por esconder o jogo o tempo todo, tornando o filme frio e racional, como o personagem do cientista que vai até a casa assombrada a fim de pesquisar fenômenos extrasensoriais. 

Durante as quase duas horas de filme, pouca coisa realmente acontece. Em certo sentido, o filme é interessante, especialmente quando nos leva para a mente perturbada de Eleanor (Julie Harris), a mulher que passou boa parte de sua vida cuidando de sua mãe doente e cuja experiência dentro daquela casa significa para ela o melhor momento de sua existência. 

Para dar uma impressão de que a casa estava quase viva, Robert Wise utilizou um protótipo de lentes que causavam uma certa distorção, as chamadas lentes 30 mm. Para passar uma impressão de profundidade de campo, Wise também usava montagens em certas cenas. Wise teve a idéia de filmar DESAFIO AO ALÉM quando estava lendo o livro "The Haunting of Hill House", de Shirley Jackson, durante as filmagens de AMOR, SUBLIME AMOR (1961). 

Dizem que a casa usada para as filmagens era realmente assombrada pelo fantasma de uma mulher que se matou porque não casou com seu amado numa sexta-feira. Por causa disso, Wise falou que não filmava nas sextas-feiras. Pode até ser que a casa e o bosque ao seu redor fossem mesmo assustadores para quem estava filmando, mas o filme não passa essa sensação. Filme visto em divx, numa cópia que preserva a bela fotografia p&b em scope

DESAFIO AO ALÉM recebeu uma refilmagem recentemente: A CASA AMALDIÇOADA (1999). Bem ruim e cheia de CGI, pelo que dizem. 

P.S.: Está no ar, no CCR, coluna nova. O que a falta de idéias não faz com a gente, hein.

terça-feira, abril 04, 2006

O SOL DE CADA MANHÃ (The Weather Man)

 

Acredito que os grandes filmes são aqueles que ficam com a gente bem mais tempo do que as cerca de duas horas de projeção. Quando o filme é desses que tenta passar uma mensagem e essa mensagem vai embora quando saímos do cinema é sinal de que: 1) não entendemos a proposta do filme; 2) não nos sensibilizamos com o filme; ou 3) trata-se de uma obra descartável e tão digna de desprezo quanto os piores livros de auto-ajuda. Não saberia dizer em qual dessas situações entra este O SOL DE CADA MANHÃ (2005), mas com certeza o filme, assim como desceu fácil, também foi para o esquecimento fácil. Talvez pelo fato de eu não ter me identificado com o personagem de Nicolas Cage. 

Na trama, Cage é um "homem do tempo", um apresentador de meteorologia de um canal de televisão de Chicago que vive recebendo fast food na cara quando caminha pela rua. Ele é um homem bem sucedido financeiramente, mas é bastante insatisfeito com a vida. Principalmente pelo fato de seu casamento ter naufragado. Além do mais, seus dois filhos também têm problemas. Sua filha caçula, inclusive, sofre por ser um pouco gordinha e usar roupas bem apertadas para suas dimensões - a cena da "pata de camelo" é ao mesmo tempo engraçada e constrangedora. 

Para um filme que se pretende sério, O SOL DE CADA MANHÃ tem outros problemas, como a caricaturização de alguns personagens. O personagem de Michael Caine, no papel de pai do protagonista, por exemplo, é sempre mostrado como uma figura fria e distante. Já o sujeito que tenta seduzir o filho de Cage é mostrado como um tarado filho-da-puta. Mas no geral, O SOL DE CADA MANHÃ é bastante agradável de se acompanhar, a narrativa é lenta e prazerosa, mas suspeito que Gore Verbinski seria muito mais feliz em sua carreira se ele se dedicasse aos filmes de terror. O CHAMADO (2002) foi a melhor coisa que ele já fez e duvido muito que vá fazer coisa melhor algum dia. Não tenho a mínima vontade de ver as continuações de PIRATAS DO CARIBE (2003), embora ele até possa acertar a mão e os filmes sejam divertidos.

segunda-feira, abril 03, 2006

A ERA DO GELO 2 (Ice Age: The Meltdown)

 

A primeira pergunta que se costuma fazer em se tratando de continuações é: o filme é melhor que o primeiro? No caso de A ERA DO GELO 2 (2006) a resposta é não. Mas isso não quer dizer que o filme não seja legal. É que o primeiro filme era mais sentimental, não era muito centrado na ação, como esse. O que muda agora também, além da natural evolução na parte técnica, é que A ERA DO GELO 2 é mais engraçado que o primeiro. Até Scrat, o esquilo que vive em busca de uma noz maior do que ele, aparece bem mais vezes. Suas aparições são como vinhetas inseridas ao longo do filme. 

Dos três personagens principais - o mamute Manny, a preguiça Sid e o tigre dentes-de-sabre Diego -, o filme centra mais em Manny, que vive deprimido por acreditar ser o último dos mamutes, um animal em extinção. Até o dia em que ele conhece Ellie, a mamute fêmea que acredita ser um gambá. Nem sempre essa situação gera momentos engraçados. Mas os dois gambás são bem divertidos e se integram à turma com facilidade. 

Aqui no Brasil, todas as cópias do filme lançadas nos cinemas foram dubladas. Mas eu nem liguei muito pra isso, já que me acostumei com as vozes de Tadeu Mello e Diogo Vilela, dublando muito bem Sid e Manny. O personagem do tigre recebe menos destaque dessa vez, a não ser por conta do seu medo da água. Pode-se dizer que o filme retoma a temática da amizade, já muito bem explorada no primeiro filme. A principal novidade, porém, é o clima meio apocalíptico: o mundo de gelo deles iria se acabar por causa do aquecimento global, o que não deixa de ser um tema bastante atual. Em alguns momentos, o filme lembra a história da Arca de Noé, tanto por causa das inúmeras espécies de animais migrando, quanto pela figura de algo parecido com uma arca, que aparece em certa parte do filme. 

A sessão a que eu fui estava lotada. E olha que eu vi o filme na maior sala do shopping e logo quando cheguei a sessão anterior já estava esgotada. (Por causa disso, acabei passeando mais com meu sobrinho e gastando mais dinheiro.) Pelo visto, essa indústria dos desenhos animados ainda é bastante lucrativa. Tanto é que antes do filme começar passaram vários trailers de novos desenhos. Dos que eu me lembro, os mais divertidos são DEU A LOUCA NA CHAPEUZINHO e CARROS - esse é emocionante - e o mais visivelmente ruim é SELVAGEM.

sexta-feira, março 31, 2006

UMA MULHER É UMA MULHER (Une Femme Est une Femme)

 

Continuando minha peregrinação pela obra de Jean-Luc Godard, falo sobre UMA MULHER É UMA MULHER (1961), segundo longa-metragem e primeira experiência com as cores e com o cinemascope do diretor. O filme é muito agradável de se ver. Brinca - ou subverte - com a comédia romântica e com o musical clássico americano. A assinatura do diretor é inconfundível e a fotografia é linda. Gosto muito dos travellings no clube de striptease

UMA MULHER É UMA MULHER foi o trabalho que marcou o início da parceria de Godard com Anna Karina, que apareceria em mais seis filmes do diretor - VIVER A VIDA (1962), O PEQUENO SOLDADO (lançado em 1963 mas produzido em 1960, antes, então, de UMA MULHER É UM MULHER), BAND À PART (1964), ALPHAVILLE (1965), O DEMÔNIO DAS ONZE HORAS (1965) e MADE IN USA (1966). Ela foi a musa do diretor durante esse período. Dizem que quando o relacionamento dos dois acabou, Godard ficou ranzinza, nunca mais foi o mesmo. O caso Godard-Karina é um exemplo clássico de como uma mulher influencia fortemente a obra de um artista. Basta lembrar também das mulheres que passaram pela vida de Woody Allen (Diane Keaton, Mia Farrow) e de Tim Burton (Lisa Marie, Helena Bonham Carter). Temos também o caso de Kenneth Branagh, que praticamente afundou sua carreira depois da separação com Emma Thompson. Outros exemplos de parceria marcante de diretor e atriz/esposa: Rossellini e Ingrid Bergman, Antonioni e Monica Vitti. 

Alguns dos momentos mais divertidos de UMA MULHER É UMA MULHER são aqueles que mostram Jean-Claude Brialy e Anna Karina xingando-se com a utilização de livros, já que eles não estavam falando um com o outro. Eles se levantam da cama, pegam o abajur e vão atrás de livros nas estantes, procurando palavras ou frases que possam agredir o outro. Achei bastante estranho o relacionamento dos dois. Karina faz o papel de uma mulher que trabalha como stripper para ajudar na renda familiar. Achei estranho também o fato de o seu namorado não ser possessivo ou ciumento. Ela deseja engravidar e ele não gosta nada da idéia, fugindo como o diabo foge da cruz. 

UMA MULHER É UMA MULHER é um filme muito bem humorado. Mas é aquele humor tipicamente godardiano. Não é filme pra rir, mas pra sorrir. O único momento melancólico do filme é aquele que mostra Karina e Jean-Paul Belmondo num bar e a vitrola tocando uma canção de Charles Aznavour. ATIREM NO PIANISTA, de Truffaut, inclusive, é citado numa cena. Parece que os amigos da Nouvelle Vague ajudavam-se mutuamente. 

Ainda não foi o filme que me tornou um fã de Godard - ACOSSADO (1960) continua liderando minhas preferências -, mas é, sem dúvida, um belo filme. Não virei fã talvez por não ser adepto desse cinema excessivamente autoconsciente de ser cinema, de nunca se levar a sério. Mas isso é Godard. Sei que não posso querer algo diferente vindo dele. Ao menos nesse período. A cópia que eu consegui foi ripada do DVD da Criterion. Coisa fina. 

Agradecimentos à Carol, que me conseguiu essa cópia. Inclusive, quem estiver interessado em filmes do acervo dela, é só passar um e-mail para ela. A Carol tem cópias raras, algumas delas com legendas em português, de vários filmes de vanguarda.

quinta-feira, março 30, 2006

O GIGANTE DE FERRO (The Iron Giant)


Que beleza de filme! O GIGANTE DE FERRO (1999) traz de volta o prazer de se ver um filme de animação tradicional - e que não seja japonês. Se bem que o filme mistura um pouco animação computadorizada (o Gigante de Ferro) com animação tradicional (tudo ao seu redor). Brad Bird, que dirigiria em seguida o ótimo OS INCRÍVEIS (2004), fez um filme que agrada tanto crianças quanto adultos.

O GIGANTE DE FERRO tem uma atmosfera saudosista irresistível. Mesmo que não tenhamos vivido os anos 50, possivelmente já vimos algumas sessões da tarde e alguns desenhos animados que lembram bastante aquilo que é mostrado no filme. A década de 50 foi marcada pela paranóia da Guerra Fria, da bomba atômica. Impagável a cena em que mostram num cinema um filme sobre a importância de se abrigar debaixo da mesa quando o alarme alertar a chegada da bomba. Estando debaixo da mesa, tudo ao seu redor explodirá, mas você sairá ileso. Era uma época de maior inocência na sociedade americana. Mas também de maior intolerância com o desconhecido. Bom, as coisas não mudaram muito de lá pra cá nesse segundo quesito.

Na trama, um garotinho que vive sozinho com a mãe (não lembro se o filme diz se ela é solteira, viúva ou divorciada) vai brincar no bosque perto de sua casa e dá de cara com um robô gigante que come coisas de metal. O robô não se dá conta que está diante de fios de alta tensão e acaba levando um grande choque. Com pena do robô, o garoto vai até a chave mestra e desliga a energia elétrica, salvando o gigante. O gigantesco homem de ferro sente-se muito agradecido e passa a ficar amigo do garotinho. Aos poucos ele vai entendendo o ser humano e aprendendo um pouco da língua. A coisa começa a se complicar quando um homem do governo passa a perseguir o robô.

Comparando com OS INCRÍVEIS, O GIGANTE DE FERRO ganha em alguns pontos. Principalmente na história e na capacidade de fazer emocionar. Há muitos momentos realmente tocantes no filme, como aquela cena que homenageia o BAMBI da Disney. A companhia viu a qualidade dessa produção da Warner e contratou o diretor para dirigir OS INCRÍVEIS.

Vi O GIGANTE DE FERRO em divx, imagem em widescreen 2,35:1, mas o filme saiu em DVD no Brasil. Só não sei se a edição nacional está respeitando o aspecto original. Quem faz a voz do Gigante é o Vin Diesel, da mãe do garoto é a Jennifer Aniston, e do Dean, Harry Connick Jr. 

quarta-feira, março 29, 2006

UM PLANO PERFEITO (Inside Man)

 

Se for pra escolher entre o filme de assalto tenso e violento e o filme de assalto leve, limpo e inteligente, fico com o tenso e violento. Sou mais um filme como UM DIA DE CÃO ou O HOMEM QUE BURLOU A MÁFIA do que títulos como ONZE HOMENS E UM SEGREDO ou THOMAS CROWN - A ARTE DO CRIME. Esse segundo subgênero em geral me dá sono, me aborrece até. Exceção, talvez, para UMA SAÍDA DE MESTRE, que por alguma razão que eu não sei explicar me agradou muitíssimo. Quando ouvi comparações do novo filme de Spike Lee com UM DIA DE CÃO, o super-clássico de Sidney Lumet, fiquei bastante entusiasmado. Porém, para minha decepção, O PLANO PERFEITO (2006) se aproxima mais do filme de assalto inteligente e enganador. Resultado: fiquei com sono no cinema, coisa que eu odeio. Se for pra sentir sono durante o filme, que seja em casa, onde posso interromper a fita ou o DVD pra tirar uma soneca e depois retomar de onde parei. (Se bem que vem a dúvida cruel: senti sono porque não estava gostando do filme, ou não gostei do filme porque senti sono?) 

O PLANO PERFEITO é um filme atípico na carreira de Spike Lee, marcada em sua maioria por filmes que abordam questões sociais e étnicas. Geralmente, seus filmes são produções de baixo orçamento, mas que contam com nomes famosos de Hollywood. Vários de seus filmes, inclusive, são lançadas no Brasil apenas no mercado de vídeo. À primeira vista, O PLANO PERFEITO parece apenas mais um thriller convencional, sem uma marca autoral. À segunda vista, também. Na verdade, não consigo ver O PLANO PERFEITO como um filme de Spike Lee. Não que haja algo de errado em se fazer trabalhos mais comerciais e conseguir um bom dinheiro com isso. É que é tudo muito estranho. 

A personagem de Jodie Foster, por exemplo, é a mais enigmática. Não dá pra entender direito que tipo de pessoa ela é. Uma espécie de lobista, ouvi dizerem. Uma pessoa com forte influência política. Talvez a sua personagem seja a chave para entender o filme. Denzel Washington continua muito bem, mas parece estar no piloto automático, no papel do policial meio malandro, dando a impressão de que a gente já viu esse filme antes. Completa a trinca principal, Clive Owen, como o líder do assalto ao banco. 

As reflexões sociais estão presentes nos detalhes. A que eu mais gostei foi aquela do garotinho e o seu mini-videogame violento. O menino é fã do lema de 50 Cent, que diz "get rich or die trying". No fim das contas, fiquei sem entender se essa crítica seria ao novo rap americano tão ligado à riqueza e ao luxo ou se esse rap do 50 Cent já não carregaria em si uma certa ironia ao capitalismo nos Estados Unidos. Apesar dessas sutilezas, O PLANO PERFEITO não deixa de ser mais um blockbuster com um diretor talentoso atrás das câmeras. Pode ser mais do que isso, pode até ser um dos melhores filmes do diretor, mas fazer o que se ele não me impressionou em momento algum? Enquanto isso, fico torcendo pelo retorno do Spike Lee que eu aprendi a gostar. E de grandes filmes como FAÇA A COISA CERTA (1989) e A ÚLTIMA NOITE (2002).

terça-feira, março 28, 2006

SAL DE PRATA

  

"Tem as pessoas que se masturbam pensando em alguém, e as pessoas que se masturbam pensando nelas mesmas. As primeiras são as mais bacanas, mas as outras ganham muito mais dinheiro." Até que eu gostei dessa frase do filme, embora não tenha entendido direito. SAL DE PRATA (2005), de Carlos Gerbase, é um exemplo da falta de criatividade no cinema brasileiro. Em muitos filmes, o uso da metalinguagem pode significar um atestado de falta de idéias disfarçado de inteligência, de intelectualidade. O problema é que esse filme do Gerbase não engana ninguém. 

Em TOLERÂNCIA (2000), a trama até que era bem conduzida. Embora o filme não seja essas maravilhas, tinha a beleza de Maitê Proença, um tema interessante. E como diretor, Gerbase não é ruim. O que não dá pra entender é como os produtores aceitaram fazer um filme com um roteiro tão tosco. Se falta criatividade, porque não encomendar um roteiro de terceiros ou adaptar uma obra literária? Talvez a presença de Camila Pitanga e de Maria Fernanda Cândido no elenco tenha ajudado um pouco aos produtores aceitarem fazer o filme. Confesso que fui atraído por esse filme por causa do trailer, que mostrava essas duas atrizes juntas no mesmo quarto, na promessa de fazerem um menage à trois com um sujeito (Marcos Breda). Tudo propaganda enganosa. Nem mesmo nudez o filme tem. Ele até engana, com aquela introdução mostrando Camila Pitanga teoricamente nua, mas vista só dos ombros pra cima num quase close, falando sobre regras de censura nos filmes enquanto simula estar gozando. 

Uma discussão sobre os rumos do cinema atual também aparece numa cena. Afinal, cinema é cinema apenas se for feito em película, ou vale também vídeo, digital etc? É nesse momento que o personagem de Marcos Breda sofre um enfarte e morre. Sua namorada, a economista vivida por Maria Fernanda Cândido, procura então conhecer os roteiros não filmados que ele deixou. Aos poucos, vai descobrindo que ele estava tendo um caso com uma de suas atrizes (Camila Pitanga). Ao mesmo tempo, ela também estava com caso com outro cineasta de quinta categoria (Bruno Garcia). Quer dizer, é um desfile de chifres. Se tivesse mais gente, o filme poderia ser confundido com um daqueles westerns cheios de bois. 

O início de SAL DE PRATA é um pouco ridículo, mas ao menos a condução da estória não nos deixa aborrecidos. Além do mais, é sempre curioso ver um filme que se passa em Porto Alegre, longe do eixo Rio-São Paulo ou das caatingas nordestinas. SAL DE PRATA cai no buraco mesmo do meio pro final, quando vários cineastas tentam adaptar os roteiros de Breda. Aí não tem escapatória. Quando se acendem as luzes, o que sai da boca de muita gente é a frase: "que filminho de merda esse." E com razão.

segunda-feira, março 27, 2006

JOHN WOO EM DOIS FILMES

 

No começo dos anos 90, quando Jean-Claude Van Damme trouxe John Woo para os EUA e os seus filmes chineses começaram a chegar em vídeo no Brasil, eu não me entusiasmei muito pra assistí-los. A única amostra dos filmes pré-Hollywood de Woo que eu tinha visto era FERVURA MÁXIMA (1992), o filme com mais balas por segundo que eu já vi na vida. Embora eu goste de um bom tiroteio, achei aquela overdose de balas do filme bem exagerada. Desde então, só passei a acompanhar mesmo a carreira americana do diretor, à medida que os filmes chegavam aos cinemas, destaque para A OUTRA FACE (1997), seu melhor trabalho no ocidente. 

Como tenho o costume de andar pelas ruas do Centro olhando as bancas de revista, dei de cara com fitas VHS de THE KILLER (1989) e BALA NA CABEÇA (1990), as duas custando apenas dois reais, cada. Após uma rápida checada na qualidade aparente das fitas, resolvi arriscar e levá-las pra casa. Se não rodasse no videocassete, o prejuízo não ia ser tão grande. Felizmente elas rodaram. Só a fita de BALA NA CABEÇA que estava um pouco suja, mas deu pra ver o filme completo. Então, pra encerrar esse primeiro momento de "orientação" do blog, nada como dois super-clássicos da fase áurea de John Woo. 

THE KILLER - O MATADOR (Die Xue Shuang Xiong / The Killer) 

Engraçado como esses filmes de John Woo são carregados de sentimentalismo, coisa que eu sempre achei meio esquisita no diretor. Em alguns momentos, as emoções dos personagens e a música que toca ao fundo parecem meio cafonas, mas aos poucos a gente se acostuma e acha até legal. Surpreendentemente, o primeiro filme que me veio à mente enquanto assistia a THE KILLER foi SUBLIME OBSESSÃO, de Douglas Sirk. Sinopse do filme de Sirk: "playboy apaixona-se por uma viúva e passa a persegui-la. Ao tentar fugir, a mulher é atropelada e fica cega. Arrependido, o homem estuda medicina só para curá-la e fazer com que ela o veja com outros olhos." Na trama de THE KILLER algo semelhante acontece. Chow Yun-Fat é um assassino profissional que durante um de seus serviços cega acidentalmente uma moça. Sofrendo com o remorso, ele se aproxima da jovem, que agora tenta se adaptar ao mundo da escuridão. Ele aceita um novo trabalho, a fim de receber dinheiro para pagar uma cirurgia nos olhos da agora namorada. Ao mesmo tempo em que é perseguido pelos mesmos mafiosos que o contrataram, o matador também é vigiado pelo policial vivido por Danny Lee, que desde o início já guarda uma admiração pelo assassino bem intencionado. Um dos temas caros a John Woo é justamente o da valorização da amizade, do senso de companherismo. Apesar das diferenças, esses dois homens acabam gostando bastante um do outro. Claro que tudo é contado com muita bala, muita perseguição de carros, muito sangue jorrando em câmera lenta. Até mesmo os benditos pombos, marca registrada dos filmes de Woo, aparecem numa cena na igreja. THE KILLER talvez seja o grande filme do diretor, sua obra-prima.

BALA NA CABEÇA (Die Xue Jie Tou / Bullet in the Head)


Esse filme teve uma produção mais ousada, com uma reconstituição de época muito boa e cenas de guerra que envolvem muitos figurantes, armas e helicópteros. Nessa época, John Woo estava com tudo e suspeito que esse filme deve ter sido um dos mais caros que ele realizou em Hong Kong. O filme conta a história de três amigos bem diferentes que, após uma confusão, precisam fugir de Hong Kong. O país estava passando por uma processo complicado. Nas ruas havia muita confusão entre estudantes e policiais. As pessoas queriam se livrar do governo inglês. O clima era aquele de "xô, capitalismo inglês, que venha o comunismo chinês"! Os três rapazes saem dessa atmosfera hostil pra outra muito pior, quando decidem fugir para o Vietnã, justamente durante a fatídica guerra contra os Estados Unidos. Os três acabam se envolvendo com mafiosos e sendo capturados pelos vietcongues. O ator mais conhecido do filme é Tony Leung (de 2046 e AMOR À FLOR DA PELE). Gosto muito dos dois primeiros atos do filme, com ação non-stop. Nem dá muito tempo de pensar. O negócio é curtir as seqüências eletrizants de ação. Só não curti muito o último ato. Senti que Woo exagerou um pouco no melodrama e no comportamento e destino dos três personagens. Se não fosse por isso, BALA NA CABEÇA seria tão bom quanto THE KILLER.

domingo, março 26, 2006

ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO (Shutter)

 

Não tenho do que reclamar dessa onda de produções de terror vindas da Ásia. Estou me divertindo - e me assustando - bastante, além de estar também aprendendo um pouco mais sobre diferentes culturas. ESPÍRITOS - A MORTE ESTÁ AO SEU LADO (2004), produção tailandesa de dois diretores de nome esquisito, é a bola da vez. Para um filão que parece estar perdendo o fôlego devido às várias cópias, continuações e remakes, esse filme se saiu muito bem. A história é bem mais simples que a de O CHAMADO e bem mais assustadora que a de O GRITO. 

Na trama, jovem casal atropela acidentalmente uma garota na estrada. Desesperados com a situação, eles fogem do local do acidente. Aos poucos, coisas estranhas passam a acontecer com eles, a começar pelas fotografias que o rapaz tira. A maioria delas aparece com uma sombra por cima. E isso é apenas o começo de uma série de acontecimentos assustadores que o filme apresenta. 

O barato de ESPÍRITOS é que arrumaram até tempo para uma cena de alívio cômico, que deve ter matado de inveja os roteiristas de TODO MUNDO EM PÂNICO. Refiro-me à cena em que o rapaz está no banheiro e vê que o seu papel higiênico acabou. Ele pede, então, o papel à pessoa que está no sanitário vizinho. É uma cena de arrancar gargalhadas, mas essa é uma das poucas cenas, se não a única, em que existe algum humor. O filme aborda um assunto bastante sério e arrepiante, que é o do "encosto", do espírito que fica grudado na pessoa. Imagina você acordar de madrugada (perto das três horas, ainda por cima) e ver que alguém está puxando o teu cobertor. Ninguém quer isso, não é verdade? Sem dúvida, minha cota de sustos e arrepios pro dia de hoje já foi mais do que preenchida.

sexta-feira, março 24, 2006

SUICIDE CLUB (Jisatsu Saakuru / Suicide Circle)

 

Eu ia falar sobre esse filme numa resenha para o Cineprojeto 365, mas a turma acabou esfriando e o projeto está novamente na geladeira. Sabendo que, depois de tanto tempo que eu vi o filme, não faria mesmo nenhum texto inspirado ou digno de entrar no site, aqui estou eu fazendo mais um de meus textinhos superficiais para o blog. É mais um exercício de memória que de vez em quando eu me dou ao trabalho de fazer para dar conta dos vários filmes que vejo. Claro que antes eu preciso dar uma lida nuns textos sobre o filme a fim de refrescar minha memória. 

O meu interesse por SUICIDE CLUB (2002), de Shion Sono, veio desde as pequenas notas presentes nas primeiras edições da Cine Monstro. A premissa do filme em si é das mais interessantes: grupo de colegiais japonesas cometem suicídio coletivo numa estação de metrô. As meninas, todas sorridentes, se dão as mãos e na hora que o metrô passa, todas se jogam na frente. O filme exagera de propósito no sangue, que banha todo o transporte, fazendo com que todos os passageiros fiquem aterrorizados. O evento repercute na mídia e alguns jovens, inspirados no que aconteceu, acabam fazendo o mesmo. Pena que o filme vai ficando com a trama cada vez mais complicada e traz um final que não faz jus ao início instigante. Ainda assim, vale a pena ser conferido, principalmente por quem curte a estranheza das obras pop japonesas. E também pra quem curte gore, claro. Tem uma cena em que uma mulher vai cortando seus próprios dedos e encharcando a casa toda de sangue. O ator que faz o detetive é Ryo Ishibashi, rosto conhecido de filmes como AUDITION, de Takashi Miike, e BROTHER, de Takeshi Kitano. 

Curiosamente, o Japão tem mesmo um histórico de suicídio bastante expressivo. Li num texto sobre o filme que em 2000 33.000 japoneses cometeram suicídio. Os japoneses, inclusive, já tem tradição de suicídio desde os tempos dos samurais, que se matavam por honra. Era preferível morrer a viver desonrado. Mas a situação nos dias de hoje é bastante diferente. Talvez o problema do suicíio hoje tenha mais a ver com o isolamento e com a incapacidade de algumas pessoas de conseguirem se adaptar à sociedade. A cultura pop no filme é vista como superficial e decadente e uma das causas da onda do suicídio. Mas ao mesmo tempo, são as canções pop que trazem letras que oferecem uma solução para o problema.

quinta-feira, março 23, 2006

DUMPLINGS (Gaau Ji)

 

Se na semana passada eu me concentrei no cinema francês, essa semana o foco vai ser cinema oriental. Poucas horas antes de assistir 2046, de Kar-wai, aproveitei meu dia de folga para conferir em divx a versão em longa-metragem de DUMPLINGS (2004), de Fruit Chan. Que beleza de filme, narrado com uma sobriedade bastante interessante para um representante do cinema fantástico. 

Em DUMPLINGS, Fruit Chan procura adotar uma narrativa mais realista, tornando bem mais verossímil a história da mulher que vende pasteizinhos feitos com carne de feto humano que fazem com que as pessoas alcancem a eterna juventude. O tema da juventude que se esvai, creio que seja de interesse de todos, já que o tempo é implacável para todo mundo. Acredito que para as mulheres essa preocupação seja ainda maior. No caso da personagem do filme, ela é uma atriz decadente que sente que seu marido a está trocando por uma moça mais jovem. Inicialmente, os pastéis parecem para ela repulsivos. Pra gente também, já que o som do filme e a aparência meio melada da comida fazem com que nós sintamos um certo nojo. 

O tema parece uma atualização do vampirismo e do canibalismo e guarda alguma semelhança com MORTOS DE FOME, de Antonia Bird, que mostrava pessoas que viviam para sempre ao comer carne humana. Se DUMPLINGS se limitasse apenas a isso, com certeza não seria tão bom. Algumas das melhores cenas dizem respeito ao aborto em si. Fruit Chan fez um filme que além de mostrar a sociedade narcisista dos dias de hoje, ainda critica o rígido controle de natalidade da China. A primeira cena de aborto apresentada no filme é de deixar a gente sem piscar os olhos. 

Suspeito que a versão mais curta de DUMPLINGS seja mesmo o melhor segmento da antologia TRÊS EXTREMOS (2004), que trazia também obras dos cineastas mais conhecidos Takashi Miike e Chan-wook Park. A fotografia de DUMPLINGS é lindona, a cargo do celebrado Christopher Doyle. O filme é uma prova de que a nova geração de cineastas de Hong Kong veio mesmo pra ficar. Fico imaginando o quanto nós estamos perdendo com nossa falta de oportunidade de acompanhar mais filmes vindo de lá.

quarta-feira, março 22, 2006

2046 - SEGREDOS DO AMOR (2046)

  

 Sempre tive um pouco de dificuldade de absorver ou de me encantar com os filmes de Wong Kar-wai. O primeiro filme dele que vi foi justamente AMOR À FLOR DA PELE (2000), um dos mais incensados pela crítica. E pra falar a verdade achei o filme bastante chato, arrastado e repetitivo. Depois de ouvir tanta gente elogiando o homem, resolvi pegar algo dele pra ver em vídeo. Gostei bastante de ANJOS CAÍDOS (1995), talvez o seu filme mais fragmentado e com mais estética de videoclipe. Peguei também FELIZES JUNTOS (1997), que também gostei, mas é o tipo de filme que não me emocionou em nenhum momento. É mais o caso de se valorizar a estética, digo, a fotografia, a direção de arte, essas coisas, do que o drama dos personagens. 

2046 - SEGREDOS DO AMOR (2004) leva as obsessões estilísticas de Kar-wai a graus extremos. E dá-lhe filtros, câmera lenta, fumaça, efeitos estilososos. Isso pode aborrecer aos que não gostam desse aspecto do diretor, mas deve agradar bastante aos seus fãs. Pra mim, o filme foi a melhor experiência que eu tive com o cinema de Kar-wai. Foi o mais próximo que eu estive de me envolver e de me emocionar com um filme dele. Ainda assim, não gostei das partes futuristas do filme. As partes inciais e finais de 2046, com a narração de Tony Leung e aquela historinha que se passa no futuro, são bem chatas. Ao menos dá pra se entreter com o visual, realmente de cair o queixo. 

A melhor coisa do filme é o miolo, que trata da relação de Tony Leung com Gong Li, Zhang Ziyi, Maggie Cheung e Faye Wong. O filme atinge o seu pico quando focaliza no relacionamento do protagonista com a personagem de Zhang Ziyi - belíssima, um colírio para os olhos. Adoro as cenas em que ela aparece nos cantos da tela, naquela excepcional fotografia em scope. Aliás, dá pra chamar de scope a proporção de 2.40:1? Reparei que na sala em que eu assisti ao filme, a tela não dava conta da largura do filme, ficando um pedaço da fotografia de fora. Mas nada que comprometa a apreciação. A fotografia ficou a cargo de Christopher Doyle, fotógrafo excepcional que tem se dedicado a trabalhar bastante no oriente. 

Curiosamente, no mesmo dia, eu havia assistido a DUMPLINGS, de Fruit Chan, que também conta com a fotografia dele. Doyle também aparecerá nos créditos do próximo filme de Shyamalan, A DAMA NA ÁGUA. Ele é o fotógrafo favorito de Kar-wai, tendo trabalhado com ele na maioria de seus filmes. A música também é um dos pontos fortes do filme. 

A trilha sonora ficou a cargo de Peer Raben, o homem que fazia trilhas para Fassbinder. Como 2046 é um filme bem mais melodramático que AMOR À FLOR DA PELE, a música emocinante de Raben veio bem a calhar. Aliás, o fato de 2046 ter mais emoções exacerbadas, mais lágrimas e mais sexo foi um dos motivos de eu ter gostado mais desse filme do que de AMOR À FLOR DA PELE, onde nada se via, tudo se escondia. Afinal, quem quer ver um filme sobre pessoas comprando noodles? (Estou brincando, hein.) 

2046 é o filme que encerra a trilogia iniciada com DAYS OF BEING WILD (1991) e continuada com AMOR À FLOR DA PELE.

terça-feira, março 21, 2006

ANJOS DA NOITE - A EVOLUÇÃO (Underworld: Evolution)

 

Com meia hora de exibição de ANJOS DA NOITE - A EVOLUÇÃO (2006) eu já estava arrependido de não ter comprado ingresso para o melodrama com a Jennifer Lopez que estava passando na outra sala, mesmo sabendo que também não devia ser grande coisa. Pelo menos, o melodrama não iria confundir a minha cabeça com coisas inúteis. Quando o filme vale a pena, até que eu não me incomodo de ficar queimando neurônio, mas não é o caso dessa continuação de Len Wiseman. Aliás, o sobrenome do diretor ("wise man") só faz sentido quando lembramos que ele acabou se casando com a beldade Kate Beckinsale quando a conheceu durante as filmagens de ANJOS DA NOITE - UNDERWORLD (2003). 

A presença de Kate é uma das coisas que justificam a ida ao cinema para ver o filme. Um dos melhores momentos de ANJOS DA NOITE - A EVOLUÇÃO é a cena de sexo dela com o híbrido Scott Speedman. Infelizmente, o diretor fez questão de não mostrar nem os seios nem o traseiro de nossa heroína. Ainda assim, a cena ficou bastante sexy. Como eu já li em algum lugar, melhor do que Kate Beckinsale com roupa preta colante só Kate Beckinsale sem roupa. 

Depois de citar a melhor coisa do filme, dá até preguiça de falar da história modorrenta e enfadonha que continua a luta dos vampiros contra lobisomens iniciada no primeiro filme e que deve agradar mais a fãs de RPG. O principal problema quando se começa a assistir ao filme é ver o quanto eu havia me esquecido da trama original. Nem o flashback que antecede os créditos dá conta de ajudar. É o tipo de filme que se preocupa mais com o visual do que com o conteúdo e cujas complicações na trama só servem para disfarçar os problemas no roteiro. 

Ao menos, dá pra se notar que foi injetado mais dinheiro na produção. Os efeitos especiais estão mais caprichados e o grande lobisomem William, que aparece lá pelo final, chega até a assustar um pouco pelo tamanho e pela selvageria. É uma pena que, apesar de contar com elementos clássicos dos filmes de horror (vampiros e lobisomens), ANJOS DA NOITE prefira optar pelo formato de filme de ação, com muitos tiros e carros sendo destruídos. E é mais lamentável ainda que ele não funcione nem como filme de ação. 

P.S.: Hoje tem coluna nova no Cinema com Rapadura. O assunto está meio atrasado, mas pra quem quiser ler, eu falo sobre as maiores injustiças do Oscar.

segunda-feira, março 20, 2006

FALCÃO - MENINOS DO TRÁFICO


Depois de três anos de espera, finalmente o Fantástico exibiu o documentário FALCÃO - MENINOS DO TRÁFICO (58 min, 2003), de MV Bill e Celso Athayde. Espero que depois dessa exibição não aconteça nada de mal com os diretores do filme, tão preocupados com essas questões sociais que têm transformado o Brasil num país em guerra civil. Em agosto de 2003, esse documentário estava pronto para ser exibido e de uma hora para a outra os seus autores desautorizaram a veiculação por motivos "de foro íntimo". Não sei se isso ocorreu por causa de ameaças dos traficantes ou por desacertos na edição, feita pelo pessoal da Rede Globo. 

Passado todo esse tempo, eis que o Fantástico exibe o documentário, que mostra a triste vida de meninos que trabalham no tráfico de drogas no Rio de Janeiro. O documentário foi exibido em três blocos. Algumas coisas mostradas já foram vistas em um ou outro programa jornalístico, mas o documentário é diferente principalmente por ter sido realizado por pessoas de dentro da favela. O que eu achei mais surpreendente foi a parte que mostra uma brincadeira dos meninos. Eles brincam com o seu próprio cotidiano de violência, como nas brincadeiras de polícia e bandido. Nessa cena, eles fazem uma interpretação de um garoto que é pego por entregar os amigos para a polícia e é jogado num buraco depois de levar vários tiros. 

Coincidentemente, na hora que eles estão brincando uma execução de verdade acontece ali perto. A polícia também é mostrada como contribuinte dessa realidade. A vida dos jovens envolvidos no tráfico é muito curta. Pra se ter uma idéia, dos 16 jovens apresentados no filme, apenas um deles estava vivo no final das filmagens. O "falcão" do título é o garoto que fica com um fuzil e um radiotransmissor vigiando e tomando de conta da favela. Esse menino troca a noite pelo dia. Uma das últimas pessoas mostradas no filme é um rapaz que ficou paralítico depois de levar um tiro e hoje vive resignado em sua cadeira de rodas, tendo abandonado a vida de crime depois de ter passado cinco anos na cadeia. Tocante também o caso do garoto que queria ser palhaço. Sua mãe havia lhe prometido levá-lo para o circo, mas ela já havia morrido. 

Em vez disso, ele estava ali com uma arma na mão, pronto para matar ou morrer. Foi importante esse documentário ter sido veiculado num programa de grande alcance como o Fantástico. Se fosse exibido nos cinemas, pouca gente teria assistido. Segundo noticiado, hoje acontecerá o lançamento do livro "Falcão - Meninos do Tráfico", sobre os bastidores das filmagens. Pra terminar, as últimas palavras de MV Bill no documentário: "Eu não sei exatamente qual o papel desse documentário. Solucionar eu tenho certeza de que não é. Mas é mais um instrumento para ajudar a pensar, repensar as leis dentro do Brasil, para que as pessoas discutam e vejam se é esse mesmo o Brasil que a gente quer. Ou a gente tem um Brasil só ou tem dois Brasis. E parece que estão cuidando mais de um e esquecendo do outro. Só que o outro tá crescendo e se transformando num monstro. Onde nós já perdemos o controle. Tá engolindo todo mundo." 

domingo, março 19, 2006

BETTE DAVIS EM DOIS FILMES

 

Nos anos 60, grandes atrizes do passado que estavam em decadência encontraram no cinema de horror uma bela maneira de entrarem com elegância nessa fase decadente. Bette Davis foi a principal dessas estrelas e o principal culpado disso foi Robert Aldrich, que a convidou para estrelar o clássico O QUE TERÁ ACONTECIDO A BABY JANE? (1962). O filme fez tanto sucesso que a veterana atriz passou a se dedicar a esse gênero meio que marginal, mas que já havia alcançado certo prestígio graças ao sucesso fenomenal de PSICOSE, de Hitchcock. Nos anos 80, Bette já estava, naturalmente, bastante velhinha e debilitada. Em 1983, ela já havia sobrevivido a um câncer nos seios, a uma mastectomia e a um derrame. Sua aparência decrépita pode ser notada no último filme de sua vida, a comédia A MADRASTA (1989), de Larry Cohen. Conta-se que ela abandonou as filmagens depois de ter visto a si mesma nas filmagens. Abaixo, dois filmes da fase decadente de nossa querida Bette Davis.

MISTÉRIO NO BOSQUE / OLHOS NA FLORESTA (The Watcher in the Woods) 

Antes desse filme, Bette já havia trabalhado com John Hough em DE VOLTA À MONTANHA ENFEITIÇADA (1978). MISTÉRIO NO BOSQUE (1980) foi o primeiro filme de terror produzido pela Disney. E como a Disney é uma companhia mais dedicada ao público infantil, é natural que o filme não exagere nos sustos. Apesar disso, John Hough consegue criar uma atmosfera de mistério das mais interessantes. Só os efeitos especiais que ficaram um pouco defasados e chegam a incomodar um pouco. Na trama, família aluga uma casa afastada da cidade e próxima a um bosque. Bette Davis interpreta a proprietária da casa que não recebe com bons olhos os novos visitantes. As duas meninas da família passam a ver coisas e ouvir vozes. A mais velha das meninas procura desvendar o desaparecimento de uma garota ocorrido há trinta anos. MISTÉRIO NO BOSQUE foi o título que o filme recebeu quando exibido nos cinemas brasileiros; OLHOS NA FLORETA é o título da fita da Abril Vídeo. Gravado da FOX. 

A MADRASTA (Wicked Stepmother) 

Essa divertida comédia dirigida por Larry Cohen só conta com a participação de Bette Davis no começo. O roteiro teve de ser reescrito depois da desistência da atriz. Aí é que entra em cena a figura da bruxa jovem, interpretada por Bárbara Carrera. A MADRASTA começa muito bem, mostrando um detetive de polícia à procura de uma bruxa que enfeitiça viúvos para dar um golpe. O filme torna-se problemático com a saída de Bette Davis. Eu, que só fui saber de detalhes dos bastidores depois de ter visto o filme, já suspeitava que alguma coisa estranha havia acontecido. Nos EUA, o filme foi boicotado pela própria MGM, que resolveu lançá-lo apenas no mercado de vídeo. Aqui no Brasil, nem isso. Mas quem costuma ficar de olho na programação da madrugada na tv, pode dar de cara com o filme. Gravado da Globo.

sexta-feira, março 17, 2006

ATIREM NO PIANISTA (Tirez sur le Pianiste)

 

Deu pra notar que essa semana foi dedicada ao cinema francês. Encerro a semana, então, com ATIREM NO PIANISTA (1960), segundo longa-metragem de François Truffaut. E já começo dizendo que o filme não é dos meus favoritos. Não gosto quando Truffaut adentra o cinema de gênero. Ele mesmo chegou a confessar que não é muito apreciador dos filmes de gângster. Desse modo, ATIREM NO PIANISTA acabou se transformando num filme meio esquizofrênico. Em alguns momentos, Truffaut parece fazer uma paródia, mas logo o tom meio cômico é substituído pela melancolia e pelos temas mais caros ao cinema do diretor: o amor, as mulheres, o passado, a música, a família. É como se Truffaut tentasse fugir de seu sentimentalismo e não conseguisse. 

Não deixa de ser um filme interessante. A fotografia em preto e branco e em scope é um dos pontos altos do filme. Mas é a persona de Charles Aznavour que torna o filme especial. No livro "O Prazer dos Olhos - Escritos sobre Cinema", Truffaut diz que se apaixonou por Aznavour depois de ter visto o filme LA TÊTE CONTRE LES MURS (1959), de Georges Franju. O que atraiu Truffaut foi "a fragilidade, a vulnerabilidade e aquela silhueta ao mesmo tempo humilde e graciosa que lembra são Francisco de Assis". O diretor apreciava os homens frágeis e não gostava dos tipos durões. Dito isso, provavelmente Truffaut não gostasse de astros como James Cagney e Edward G. Robinson. Talvez por isso ele tenha realizado um filme de gângster sem cara de filme de gângster. 

O que mais me chamou a atenção em ATIREM NO PIANISTA foi a rapidez da edição, lembrando um pouco JULES E JIM (1962), um de seus filmes seguintes e uma obra bem mais inspirada. Aliás, inspirado é uma palavra que combina com Truffaut. Ele não é um cineasta-gênio como Robert Bresson. Ele é um homem apaixonado pelo cinema, pelas mulheres e pelos livros que quando está inspirado e faz filmes sobre aquilo que ele mais tem intimidade, ele acerta. A edição de ATIREM NO PIANISTA parece conter cenas que se atropelam umas às outras. Como naquele flashback que revela o passado do pianista. Se a gente não prestar atenção, não percebe que é um flashback. Ou só percebe no final. 

ATIREM NO PIANISTA pertence à categoria dos filmes menores de Truffaut, como O ÚLTIMO METRÔ (1980) e DE REPENTE NUM DOMINGO (1983).

quinta-feira, março 16, 2006

A BESTA DEVE MORRER (Que la Bête Meure)

 

Continuando com a fase francesa do blog, falo hoje de um dos filmes mais importantes de Claude Chabrol, outro medalhão do cinema francês e também representante da Nouvelle Vague. Aliás, foi ele quem deu início ao célebre movimento, com o filme NAS GARRAS DO VÍCIO (1958). Chabrol se destaca por seu gosto por tramas sobre crimes e já deve estar de saco cheio de tanto ser comparado com Hitchcock. Mas isso acaba sendo inevitável, dada a semelhança temática. Comparando os dois cineastas, obviamente Chabrol sai perdendo. 

A BESTA DEVE MORRER (1969) é um de seus filmes mais interessantes. O filme começa com um menino sendo atropelado. O sujeito que atropela está do lado de uma mulher. Ele não pára o carro e abandona o corpo do garoto na rua. O pai do menino jura encontrar o assassino. Ele dedica todos os seus dias na busca do homem que matou o seu filho. Seguindo uma pista quente, ele acaba por conhecer uma mulher suspeita de ser a motorista do carro. Ele descobre que ela estava no carro, ma quem dirigia era o cunhado dela. Ele conhece o tal sujeito e, para seu alívio, o homem é absolutamente insuportável. Até o próprio filho lhe confessa que deseja a sua morte. Mas as coisas se complicam bastante até o final inesperado. 

Em A BESTA DEVE MORRER, senti falta de personagens femininas fortes, uma das marcas dos melhores filmes do diretor, como no recente A DAMA DE HONRA (2004) ou em títulos como CIÚME - O INFERNO DO AMOR POSSESSIVO (1994) e UM ASSUNTO DE MULHERES (1988), só pra citar os filmes que vi do cineasta. Apesar desse pequeno porém, o filme é envolvente e instigante.

quarta-feira, março 15, 2006

PICKPOCKET

  

Fazendo um link com ACOSSADO, do Godard, passemos para PICKPOCKET (1959), de Robert Bresson, um dos maiores cineastas de todos os tempos. Godard gostava tanto de Bresson - e desse filme em particular - que deu ao personagem principal de ACOSSADO o nome de Michel como homenagem ao clássico de Bresson. 

PICKPOCKET nos apresenta Michel (Martin La Salle), um batedor de carteiras atormentado pela culpa e pela solidão que se recusa a visitar a mãe doente e a largar o seu vício perigoso. Michel aperfeiçoa a sua arte quando conhece um ladrão profissional, que lhe ensina muitas técnicas. Há também uma relação amorosa de Michel com Jeanne (Marika Green, tia de nossa querida Eva Green), mas ela nunca é explicitada. Aliás, essa relação é até escondida do expectador. Até porque as expressões nos rostos dos modelos - e não atores, já que Bresson não queria ninguém atuando -, não nos dão muitas pistas do que eles sentem. Bresson também tem a característica de esconder coisas importantes da trama. Coisas importantes acontecem antes de começar e depois de encerrado o filme, que tem aquela bela fala de Michel: "Oh, Jeanne, que estranho caminho eu tive que trilhar para te encontrar". 

Bresson prefere nos mostrar as cenas de Michel batendo carteiras, ainda que em determinados momentos ele interrompa a ação com fade outs. Destaque para a cena do trem, um primor de edição, e para a primeira cena, na corrida de cavalos, com Michel tentando retirar dinheiro da bolsa de uma mulher, correndo grande risco de ser pego em flagrante. 

Li em algum lugar que PICKPOCKET foi diretamente influenciado por ANJO DO MAL, de Samuel Fuller, e que foi uma influência forte para GIGOLÔ AMERICANO, de Paul Schrader, diretor e roteirista que apreciava contar histórias de tipos marginais - lembrando que foi Schrader quem fez o roteiro de TAXI DRIVER. Nos dias de hoje, qual diretor seria o herdeiro do cinema de Bresson? Jim Jarmusch talvez, por seu estilo minimalista? 

PICKPOCKET foi só o terceiro filme de Bresson que eu tive a chance de ver. Por enquanto, meu favorito continua sendo O PROCESSO DE JOANA D'ARC (1962). Estou com UM CONDENADO À MORTE ESCAPOU (1956) em casa pra conferir também e, com sorte, encontrarei nas locadoras DIÁRIO DE UM PADRE (1951), considerado o primeiro filme autenticamente bressoniano.

terça-feira, março 14, 2006

ACOSSADO (À Bout de Souffle)



Estava pensando em "pular" ACOSSADO (1960) na minha peregrinação pela obra de Jean-Luc Godard, mas esse filme é muito importante pra que eu não faça uma revisão. Dizem que os filmes de Godard tendem a crescer na revisão (assim falou Sergio Alpendre num comentário), e revendo ACOSSADO eu só tenho a concordar com essa afirmação. Além do mais, como minha memória não é das melhores, em certos momentos, parecia que eu estava vendo o filme pela primeira vez. O único Godard que eu não pretendo rever tão cedo é ALPHAVILLE (1965), que eu acho incrivelmente chato.

ACOSSADO é para muitos a obra-prima maior de Godard. O filme tem uma leveza, uma vontade de viver impressionante. Também gosto muito da refilmagem americana de Jim McBride, A FORÇA DO AMOR (1983), que inverteu um pouco a relação dos progonistas. No lugar de um francês com uma americana, o filme de McBride mostrava um americano (Richard Gere) e uma linda e gostosa francesinha (Valérie Kaprisky). O filme de McBride também tem a vantagem de ser mais convencional e se assumir como uma tragédia, ao contrário de Godard, que parece ter sempre um certo distanciamento; nunca nos esquecemos de que aquilo ali é cinema. Outra coisa: como Richard Gere não era tão canalha como Jean-Paul Belmondo, acabamos simpatizando mais com ele, até porque não é todo dia que aparece um personagem fã do Surfista Prateado.

Um dos grandes trunfos de ACOSSADO é a presença maravilhosa de Jean Seberg, uma americana descoberta por Otto Preminger - ela havia feito JOANA D'ARC (1957) e BOM DIA, TRISTEZA (1958) -, mas que acabou atuando mais no cinema europeu, após o sucesso de ACOSSADO. Suas feições delicadas, seu cabelo curto deixando de fora sua linda nuca, sua graça, tudo contribui para que ela deixe todos os espectadores apaixonados. Dá até raiva quando ela está no quarto com Belmondo e ela fica tentando falar de literatura (Dylan Thomas e William Faukner) e de pintura (Renoir e Picasso) e o ignorante do Belmondo nem liga. Se bem que diante dela, as artes mais nobres parecem mesmo pequenas. Seberg morreu jovem, aos 40 anos, de overdose de barbitúricos.

Em ACOSSADO, Godard já se mostrava bastante interessado na linguagem escrita e na filosofia, como na cena em que Seberg entrevista Jean-Pierre Melville. Adoro quando ela pergunta pra ele sobre a sua maior ambição e ele diz: "tornar-me imortal e, então, morrer". ACOSSADO é um dos maiores marcos do cinema. Ao lado de OS INCOMPREENDIDOS, de Truffaut, o filme de Godard representa um momento culminante na história da sétima arte. A Nouvelle Vague acabou por influenciar o cinema de todo o mundo nos anos 60 e fez com que o cinema tradicional americano entrasse em decadência e precisasse de uma reformulação, que só aconteceria no final da década de 60. O que mais se percebe em ACOSSADO, por exemplo, é a montagem sincopada, a descontinuidade narrativa, a estruturação fragmentada, a câmera na mão, o jazz, o homem contemporâneo e suas idéias.

O filme foi realizado a partir de uma história de Truffaut. Parece que os dois eram grandes amigos no começo, mas foram se distanciando cada vez mais. No campo estético, ainda mais, já que Godard abandonaria o cinema de ficção nos anos 70 e passaria a fazer herméticos ensaios cinematográficos. Li que numa pesquisa da revista MovieMaker, Godard foi considerado o quarto cineasta mais influente de todos os tempos, atrás apenas de Orson Welles, D.W. Griffith e Alfred Hitchcock. Não é brincadeira não.

Algumas curiosidades sobre o filme: dizem que, para passar uma maior sensação de espontaneidade, Godard só passava as falas para os atores à medida que as cenas iam sendo filmadas. Outra curiosidade interessante é que, como não tinha condições de comprar uma dolly, Godard colocou a câmera numa cadeira de rodas em várias cenas do filme. Deve haver muitas outras histórias fascinantes sobre a realização do filme.

Na próxima semana, se tudo der certo, voltarei a falar de Godard, depois que ver pela primeira vez UMA MULHER É UMA MULHER (1961).

segunda-feira, março 13, 2006

FIREWALL - SEGURANÇA EM RISCO (Firewall)

 

Interessante como a instituição familia é vista com mais importância nos filmes americanos do que em qualquer filme de outra nacionalidade. Os Estados Unidos valorizam bastante a família, já que ela é a base de sua sociedade. Como já dizia o guru indiano Osho, o primeiro passo para acabar com as barreiras entre os países seria através do esfacelamento das famílias, como as conhecemos hoje. Mas isso não é fácil, ainda mais num país nascido sob o signo de câncer. 

Não faz nem duas semanas que eu assisti a um filme que também mostrava uma família em risco: FORA DE RUMO, de Mikael Håfström, que eu particularmente achei bem melhor que esse FIREWALL - SEGURANÇA EM RISCO (2006), dirigido por Richard Locraine, cineasta mais conhecido pelos títulos RICARDO III (1995) e WIMBLEDOM - O JOGO DO AMOR (2004), que também trazia Paul Bettany, o sortudo marido da Jennifer Connely. Até mesmo a presença de um filho com problemas de saúde, o filme de Locraine apresenta, entre outros clichês manjados. 

Harrison Ford já não segura mais um filme só aparecendo nele - seu último trabalho havia sido o pouco visto DIVISÃO DE HOMICÍDIOS (2003) - e o peso da idade fica cada vez mais evidente. Engraçado como o tempo passa rápido. Parece que foi ontem que eu assisti a INDIANA JONES E A ÚLTIMA CRUZADA (1989) no cinema! O que 17 anos não fazem com a gente. Espero que isso não prejudique a tão esperada quarta aventura de Spielberg. 

Em FIREWALL, Ford é funcionário de um banco que é ameaçado por um sujeito (Bettany) que pretende usá-lo para fazer uma transferência milionária para uma conta no exterior. Para isso, o vilão seqüestra a família do bancário para assegurar o seu intento. Lá pelo final, o filme fica parecendo uma versão de segunda categoria da série 24 HORAS, tendo inclusive a presença de Mary Lynn Rajskub, a especialista em informática Chloe O'Brian da série. 

Por falar nisso, hoje é dia de estréia da quinta temporada da série na Fox e eu não quero perder. Qualquer episódio dessa série bate esse FIREWALL.