“O normal é bom”, diz Gemma, a personagem de Amelia Eve, quando ela procura ajuda para se livrar de uma entidade maligna que no passado já atormentou e matou sua mãe e agora tem feito de sua vida (e de sua filha pequena) um inferno. E nos filmes de terror, em geral, a vida normal é a vida boa. Melhor dizendo, uma vez que esses personagens se veem numa situação de aflição intensa, tudo o que se quer é a normalidade.
SOBRENATURAL – AGORA ENTRE NÓS (2026) é o sexto filme da franquia criada por Leigh Whannell e, por que não dizer também, por James Wan, que dirigiu os dois primeiros capítulos (2010, 2013) e acabou deixando os demais nas mãos de cineastas pouco talentosos. Se bem que o próprio Whannell, que assumiu a direção de SOBRENATURAL – A ORIGEM (2015), se mostrou um realizador e tanto em filmes como O HOMEM INVISÍVEL (2020) e o subestimado LOBISOMEM (2025).
Aqui neste sexto filme, temos apenas uma personagem que liga esta nova aventura às demais, a médium (morta) Elise (Lin Shaye). No mais, há um frescor neste novo capítulo que entra em sintonia com a boa condução do quase desconhecido Jacob Chase, que tem no currículo um terror chamado VEM BRINCAR (2020), talvez seu cartão de visitas para assumir a direção deste sexto filme. E que bom que funciona bem na maior parte das vezes. E lembremos que ele assume também a função de roteirista. Ou seja, todas as boas ideias de usar instrumentos do meio da odontologia como elementos de terror, são oficialmente dele.
O filme já começa com um clima de opressão impressionante: a pequena Gemma vive com medo da mãe e vê sua casa tristemente abandonada: ao chegar da escola, ela põe o lixo pra fora, esquenta o jantar e lava umas roupas. Enquanto isso a mãe está abatida e enfraquecida pelas forças de um mal que a criança não sabe dizer o que é. O prólogo termina em tom de tragédia para sermos depois levados a 20 anos no futuro, com Gemma agora sendo também mãe solteira de uma menina, trabalhando como dentista.
Um dos méritos do filme é saber construir cenas de pesadelo (na verdade, visitas ao além) muito boas – há uma que faz lembrar BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR, de Kane Parsons). E gosto também da exploração do medo a partir de seu ambiente de trabalho, como na cena do velho aparecendo como paciente.
Outro acerto do filme está na protagonista, que havia aparecido em A MALDIÇÃO DA MANSÃO BLY, série de Mike Flanagan. Ela defende muito bem sua personagem, nos faz acreditar em seu terror. A pequena Island Austin também está perfeita como a adorável filha de Gemma. Quando o filme a apresenta, desde o início é fácil gostar dela, de sua curiosidade sobre o que aconteceu com sua avó, de sua vontade de doar seus brinquedos para a caridade.
O novo diretor, além de fazer algo novo, não deixa de ser fiel ao espírito da franquia, em que planos astrais convivem com o mundo material, histórias do passado são mudadas por eventos do futuro no plano astral, e demônios horríveis ameaçam a paz, não só de uma família, mas do mundo.
Sem dúvida, uma das melhores surpresas do terror em 2026. Justo de onde menos se espera ainda é possível encontrar salvação. Mesmo que num tipo de produção de narrativa mais clássica, sem intenção de querer ser, deliberadamente, uma alegoria de algum transtorno da sociedade contemporânea ou alguma brincadeira de metalinguagem ou coisa parecida. Para isso, tivemos o excelente ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE. Há espaço para o clássico e para o pós-moderno na atual safra do gênero.
+ TRÊS FILMES
BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR (Backrooms)
O cinema de horror em 2026 está bem sortido e cheio de novidades. Sem falar no fator popularidade. OBSESSÃO e BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR (2026), de dois jovens realizadores, encabeçam esse novo momento, embora não se deva esquecer do ótimo EXTERMÍNIO – O TEMPLO DO OSSOS, de Nia DaCosta, lançado no início do ano. BACKROOMS, de Kane Parsons, é intrigante e se diferencia muito do horror mais convencional e não apenas por apostar menos nos sustos e mais num tipo de estranheza trazida de uma criação anônima e coletiva da internet. Na trama, dono de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor) encontra uma passagem para um lugar bizarro e onde as coisas parecem estar todas fora do lugar. Com o desaparecimento desse homem, sua psicanalista (Renate Reinsve), resolve investigar e vai parar no tal lugar. O filme começa a ganhar contornos de terror um pouco mais explícitos perto do final, mas nunca perde seu charme. Ganhou uma versão estendida, mas não sei se teve o mesmo público que viu a primeira vez quis pagar ingresso para ver de novo cenas adicionais.
O ESTIGMA DE SATANÁS (The Blood on Satan’s Claw)
Vendo os extras do DVD (presentes no box Obras-Primas do Terror 10), admirei mais ainda os responsáveis pela materialização desta belezura. Ou seja, foi sugerido ao diretor e ao roteirista a presença de atores muito presentes no cinema de horror inglês da época, como Peter Cushing e Ingrid Pitt, e os caras tiveram a força de dizer que não queriam esses astros, não queriam essa associação com a Hammer, que naquela época não fazia mais filmes de horror muito levados a sério. E acredito que havia mesmo a consciência de que esta produção era especial, como de fato é. Há em O ESTIGMA DE SATANÁS (1971), de Piers Haggard, uma atmosfera que, desde o começo, nos deixa intrigados. Na trama, rapaz, ao arar o campo, encontra o que parece ser o esqueleto de algo que não é nem humano nem animal. Para o jovem, trata-se do esqueleto de um demônio. Ao contar o caso para um reverendo, este acredita ser só uma superstição. Acontece que a comunidade local, especialmente os jovens, passam a ser dominados por espíritos malignos, e o que mais me chamou a atenção foi a garra substituindo a mão de alguns jovens acometidos por essa força. Acaba trazendo algo de perturbador. Destaque também para a belíssima Linda Hayden, que faz a líder dos jovens satanistas. A cena em que ela se despe para seduzir um pastor já é uma das mais belas do cinema de horror britânico que eu tenho lembrança. Além de linda, a atriz empresta muita força para essa personagem. Uma pena que não tenha feito muito sucesso.
NADJA
David Lynch assina a produção executiva desta espécie de Drácula estilizado e ambientado nos anos 1990, com direito a duas canções do primeiro disco do Portishead, o que para mim já entra como ponto a favor. Por NADJA (1994) ser um filme de vampiro filmado em preto e branco as comparações com O VÍCIO, obra-prima de Abel Ferrara, são quase inevitáveis. Mas as propostas são bem distintas e parece que esse diretor, Michael Almereyda, curte uma adaptação modernosa de um clássico – anos depois faria HAMLET – VINGANÇA E TRAGÉDIA (2000), ambientado numa Nova York contemporânea. O bonito deste seu trabalho aparece mais quando ele tenta emular um pouco do clima de Lynch (que aparece aqui num papel pequeno), como na condução dos diálogos. A vontade de deixar explícita a ligação direta com Drácula aparece até nos nomes dos personagens: há o Drácula, o Val Helsing e o escravo Renfield, além de Lucy, que no romance de Bram Stoker é a melhor amiga de Mina. Aqui Lucy é a principal vítima da vampira Nadja, filha de Drácula. No mais, acho que esperava gostar mais do filme. Visto no box Vampiros no Cinema 7.
BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR (Backrooms)
O cinema de horror em 2026 está bem sortido e cheio de novidades. Sem falar no fator popularidade. OBSESSÃO e BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR (2026), de dois jovens realizadores, encabeçam esse novo momento, embora não se deva esquecer do ótimo EXTERMÍNIO – O TEMPLO DO OSSOS, de Nia DaCosta, lançado no início do ano. BACKROOMS, de Kane Parsons, é intrigante e se diferencia muito do horror mais convencional e não apenas por apostar menos nos sustos e mais num tipo de estranheza trazida de uma criação anônima e coletiva da internet. Na trama, dono de uma loja de móveis (Chiwetel Ejiofor) encontra uma passagem para um lugar bizarro e onde as coisas parecem estar todas fora do lugar. Com o desaparecimento desse homem, sua psicanalista (Renate Reinsve), resolve investigar e vai parar no tal lugar. O filme começa a ganhar contornos de terror um pouco mais explícitos perto do final, mas nunca perde seu charme. Ganhou uma versão estendida, mas não sei se teve o mesmo público que viu a primeira vez quis pagar ingresso para ver de novo cenas adicionais.
O ESTIGMA DE SATANÁS (The Blood on Satan’s Claw)
Vendo os extras do DVD (presentes no box Obras-Primas do Terror 10), admirei mais ainda os responsáveis pela materialização desta belezura. Ou seja, foi sugerido ao diretor e ao roteirista a presença de atores muito presentes no cinema de horror inglês da época, como Peter Cushing e Ingrid Pitt, e os caras tiveram a força de dizer que não queriam esses astros, não queriam essa associação com a Hammer, que naquela época não fazia mais filmes de horror muito levados a sério. E acredito que havia mesmo a consciência de que esta produção era especial, como de fato é. Há em O ESTIGMA DE SATANÁS (1971), de Piers Haggard, uma atmosfera que, desde o começo, nos deixa intrigados. Na trama, rapaz, ao arar o campo, encontra o que parece ser o esqueleto de algo que não é nem humano nem animal. Para o jovem, trata-se do esqueleto de um demônio. Ao contar o caso para um reverendo, este acredita ser só uma superstição. Acontece que a comunidade local, especialmente os jovens, passam a ser dominados por espíritos malignos, e o que mais me chamou a atenção foi a garra substituindo a mão de alguns jovens acometidos por essa força. Acaba trazendo algo de perturbador. Destaque também para a belíssima Linda Hayden, que faz a líder dos jovens satanistas. A cena em que ela se despe para seduzir um pastor já é uma das mais belas do cinema de horror britânico que eu tenho lembrança. Além de linda, a atriz empresta muita força para essa personagem. Uma pena que não tenha feito muito sucesso.
NADJA
David Lynch assina a produção executiva desta espécie de Drácula estilizado e ambientado nos anos 1990, com direito a duas canções do primeiro disco do Portishead, o que para mim já entra como ponto a favor. Por NADJA (1994) ser um filme de vampiro filmado em preto e branco as comparações com O VÍCIO, obra-prima de Abel Ferrara, são quase inevitáveis. Mas as propostas são bem distintas e parece que esse diretor, Michael Almereyda, curte uma adaptação modernosa de um clássico – anos depois faria HAMLET – VINGANÇA E TRAGÉDIA (2000), ambientado numa Nova York contemporânea. O bonito deste seu trabalho aparece mais quando ele tenta emular um pouco do clima de Lynch (que aparece aqui num papel pequeno), como na condução dos diálogos. A vontade de deixar explícita a ligação direta com Drácula aparece até nos nomes dos personagens: há o Drácula, o Val Helsing e o escravo Renfield, além de Lucy, que no romance de Bram Stoker é a melhor amiga de Mina. Aqui Lucy é a principal vítima da vampira Nadja, filha de Drácula. No mais, acho que esperava gostar mais do filme. Visto no box Vampiros no Cinema 7.
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