domingo, agosto 16, 2026

ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (Teenage Sex and Death at Camp Miasma)

 
Fiquei encantado com este ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (2026), que é tanto uma homenagem aos slashers que tanto sucesso fizeram nos anos 1980, quanto uma fotografia dos tempos de hoje, que elegeram o horror como gênero principal para levar a juventude ao divã, com seus inúmeros problemas e complexidades. Inclusive, essa coisa de categorizar filmes por gênero não é muito o perfil da diretora Jane Schoenbrum, vide seu coming of age com embalagem (ou capinha) de filme de horror EU VI O BRILHO DA TV (2024). Ou seja, dá para perceber seu amor pelo gênero, mas também dá para ver seu interesse em usar o horrror, no caso, como desculpa para retratar o desejo (e também a frustração com o sexo) de sua heroína, a cineasta Kris, vivida por Hannah Einbinder (série HACKS), a quem foi conferido o direito de revitalizar a franquia “Acampamento Miasma”, que tanto faz lembra a bem mais popular SEXTA-FEIRA 13 quanto o slasher mais de nicho ACAMPAMENTO SINISTRO.

Quem gosta de slashers, inclusive, vai se deliciar, particularmente, com a abertura do filme, que apresenta em poucos minutos a glória e a decadência de uma franquia slasher, inclusive (e principalmente) quando ela passa para o mercado de VHS, já que foi nos anos 1980 que esse subgênero se tornou mais popular. É possível pensar também no quanto as novas gerações sentem essa nostalgia daquilo que não viveram, ou que viveram já no finalzinho, no caso do DVD. Em determinado momento do filme, Kris encontra numa loja de conveniência de uma cidezinha perdida do norte dos Estados Unidos um DVD de um dos capítulos de cinessérie “Acampamento Miasma” e pergunta ao atendente do hotel onde se hospeda se há, em algum dos quartos, um aparelho de DVD para que possa usufruir do produto adquirido. Ou seja, percebe-se também essa necessidade da mídia física, que foi se perdendo com o advento dos streamings.

Essa falta de fisicalidade também pode-se levar para a personagem de Einbinder, que confessa logo no primeiro encontro com a atriz de cinema aposentada Billy (Gillian Anderson), hoje mais conhecida como a final girl do primeiro “Acampamento Miasma”, que tem dificuldade de ter orgasmo, e por isso o trabalho para ela é prioridade. Abrindo um parêntese para parabenizar a diretora Jane Schoenbrum por trazer uma atriz, que mesmo sendo uma incrível intérprete, segue sendo muito mais lembrada como a Agente Dana Scully de ARQUIVO X; e juntá-la a outra atriz, mas desta vez de uma série mais recente, o que acaba tornando o filme chamaria para pelo menos duas gerações diferentes de espectadores, por mais que acredite que a obra seja mais abraçada pela cinefilia jovem e pela comunidade LGBTQIA.

Vale lembrar que o slasher é um subgênero que carrega como estigma um teor bastante exploratório e misógino. Além de homofóbico e transfóbico (a referência a ACAMPAMENTO SINISTRO não é à toa). Eis que, assim como outras cineastas mulheres têm feito ao pegar gêneros mais explorados e desenvolvidos com o olhar masculino, Schoenbrum vira do avesso o subgênero aqui e o coloca para o olhar feminino. Kris deve ao “Acampamento Misma” original o seu despertar sexual, especialmente na cena de sexo marcante da personagem de Billy. E Billy, como mulher vivida e atraente, conta a Kris o segredo de seu olhar naquela cena.

O legal deste filme é que ele tinha tudo para parecer pedante, já que usa, sim, muitas palavras para buscar entender a fascinação pelo gênero, mesmo reconhecendo seus problemas de preconceito. Inclusive, há até um desejo por parte de Kris de se imaginar como uma personagem vitimada por algum assassino serial de um slasher, um fetiche um bocado estranho, mas que, dentro de um filme que trabalha tão bem a autoconsciência do espectador, se torna pouco perigoso. Como diz a frase apregoada por Billy, “se você se sentir que está real demais, é só desligar”. Isso vale para uma fita cassete ou um DVD, mas também vale para a trama do filme.

Falando em trama, além de todas as cenas em que as duas atrizes contracenam juntas, todas deliciosas, há uma divertidíssima em que Kris conversa numa videochamada com os produtores do filme que ela foi chamada para dirigir. Ao colocar pera eles suas novas ideias, que são talvez até mais ousadas que as brincadeiras metalinguísticas que Wes Craven fez em O NOVO PESADELO – O RETORNO DE FREDDY KRUEGER(e cá pra nós, o nosso Mojica foi ainda mais genial nesse quesito em EXORCISMO NEGRO), ao colocar para eles essas ideias, vemos um pouco do que o mercado é capaz de podar de ideias originais de tantos realizadores em favor daquilo que julgam que o público supostamente quer ver.

Felizmente, estamos vivendo uma nova era de ouro para o horror, com produções originais e ousadas fazendo sucesso de crítica e de público, e incentivando os produtores a investir mais nesses criadores mais loucos, por mais que a influência do cinema de décadas passadas ainda continue presente.

No mais, ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE tem, sim, muito sangue, embora seja aquele sangue que esguicha em litros, mais do que KILL BILL. E há também um bocadinho de sexo, o que é algo a se festejar, uma vez que a tal geração Z anda cada vez mais desinteressada de sexo nos filmes é aparentemente até na vida real. Ver um filme como este no cinema é também valorizar o calor da película 35mm (por mais que o filme chegue aqui já em DCP). Schoenbrum usa uma fotografia que remete à dos slashers oitentistas. E isso também é gostoso demais de ver. Assim, aquilo que poderia ser quase acadêmico acaba se tornando tão viajante quanto divertido e sensual.

+ TRÊS FILMES

EU VI O BRILHO DA TV (I Saw the TV Glow)

Antes de ver ACAMPAMENTO MIASMA – ADOLESCÊNCIA, SEXO E MORTE (2024), o novo filme de Jane Schoenbrun, aproveitei para ver este seu trabalho anterior, que teve um hype considerável na época do lançamento, embora não tenha sido lançado nos cinemas brasileiros. EU VI O BRILHO DA TV (2024) me surpreendeu, pois esperava um filme de terror. Não que não seja quando ampliamos o espectro, mas o que vemos aqui é mais um filme sobre falta de aceitação e solidão, em conjunto com questões de sexualidade, envolvendo tanto o jovem Owen (Justice Smith, na fase adolescente e adulta) quanto a sua colega de escola dois anos mais velha, Maddy (Jack Haven, na época do filme ainda usando o nome feminino). Tanto Owen quanto Maddy veem numa série de TV que passa no fim da noite uma espécie de fuga para a realidade triste que vivem. E fuga é uma das palavras-chave do filme, já que Owen tem uma questão com aceitação de sua sexualidade, enquanto Maddy vê como sua única saída para não morrer ir embora daquela cidadezinha. O filme promete ficar mais empolgante justamente quando ela propõe a ele que fujam juntos, enquanto ele foge, mas é desse salto para uma nova vida. A tristeza do destino final de Owen certamente vai encontrar muitos espectadores que ou se identificarão ou se solidarizarão. Acho que o filme podia ser um pouco mais curto, e há um problema de ritmo que me tirou o interesse diversas vezes, por mais que ache a proposta interessante e intrigante. Minha expectativa para ACAMPAMENTO MIASMA... já era muito maior.

INSACIÁVEL (Saccharine)

Um filme de terror que quer tratar de transtornos de compulsão alimentar e apresenta como principal fantasma uma mulher obesa feita em CGI e com aquela cara de assombração manjada já é um filme problemático por si só. Junte-se a isso a prótese horrível para apresentar a atriz quando está (ou se sente) acima do peso. INSACIÁVEL (2026) seria uma espécie de filme-irmão de A SUBSTÂNCIA, mas sem o mesmo talento na direção. Na trama, jovem estudante de medicina que se sente desconfortável com seu peso e rejeitada por seus interesses amorosos experimenta um comprimido que é capaz de emagrecer de forma milagrosa. Acaba descobrindo que a matéria-prima da cápsula é feita de cinzas de cadáveres. O filme tem uma duração desnecessariamente longa. Se fosse só um filme de 80 minutos talvez fosse recebido com mais simpatia pela audiência. A diretora Natalie Erika James, que havia se saído bem em RELÍQUIA MACABRA (2020), teve a coragem de fazer um remake de O BEBÊ DE ROSEMARY chamado APARTAMENTO 7A (2024), e parece se perder ainda mais em seu terceiro longa.

AURORA

Acredito que o próprio diretor José Eduardo Belmonte não estava botando muita fé no sucesso deste filme para ter demorado cerca de 10 anos para montar e lançar, apenas no Telecine e Canal Brasil. Ele acabou priorizando outros dois trabalhos com maior possibilidade de sucesso comercial e lançados naquele 2016, a minissérie ALEMÃO – OS DOIS LADOS DO COMPLEXO e a comédia ENTRE IDAS E VINDAS. Enquanto isso, AURORA (2025) foi ficando de molho, mesmo tendo um elenco de peso. Com apenas 65 minutos de duração, às vezes fica a impressão de que houve um esforço para que as imagens do céu, para indicar o tempo passando, foram, além de totalmente feitas em pós-produção, também uma criação puramente digital. Na trama, casal vivido por Carolina Dieckmmann e Humberto Carrão saem para comprar uma casa: a primeira venda da carreira da corretora vivida por Marjorie Estiano. A quase paz da compra é quebrada por pessoas que entram na casa. Mesmo já entregando os elementos sobrenaturais de cara, acredito que seja interessante ir descobrindo o filme enquanto as revelações vão surgindo, embora a trama em si seja muito simples. É um filme que depende mais da atmosfera e do desempenho de seus atores, além de uma trilha sonora de acompanhamento. Pode não ser um grande filme, mas é um bom exercício e os atores defendem bem seus papéis, principalmente Estiano, que é sempre impressionante em tudo que faz.

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