Pela primeira vez, em minha vida adulta, deixei de ver um jogo do Brasil na Copa e fui ao cinema (o jogo contra o time do Marrocos). Por mais que não seja entusiasta de futebol, toda essa movimentação do maior campeonato de seleções futebolísticas em escala global acaba respingando em mim. Mas comecei a ficar desinteressado por esse evento a partir da Copa de 2002 e depois nem me lembro mais das outras copas (a não ser a do 7x1), embora tenha visto pelo menos os jogos do Brasil, em casa ou em outro lugar.
Até estava chateado, achando que o fato de os jogos acontecerem à noite atrapalharia o meu cinema. Para minha surpresa, os cinemas de shopping estavam abertos no dia do primeiro jogo e até tinha muita gente na sessão de DIA D (2026), o novo trabalho de Steven Spielberg. E era uma sala IMAX, que costuma caber mais gente. A daqui, do UCI Iguatemi, tem a capacidade de 424 lugares e havia mais ou menos a metade dos acentos ocupados.
Aliás, tenho percebido um entusiasmo maior por parte do público das salas de cinema ultimamente. Pelo menos, nas de cinema de shopping. Vejo pessoas entusiasmadas com vários filmes de apelo popular, como a cinebiografia de Michael Jackson, a continuação de O DIABO VESTE PRADA ou o filme do He-Man, ou produções de terror mais sofisticadas, que têm ficado mais tempo em cartaz, como OBSESSÃO e BACKROOMS – UM NÃO-LUGAR. Um filme novo de Steven Spielberg, confesso que não esperava que fosse ser tão bem recebido como este foi, pelo menos na primeira semana. Isso porque não vejo mais Spielberg como aquele cara que chamava multidões ao cinema, como foi até os anos 2000. Ainda assim, é um grande autor, sabe dominar as emoções, tem uma assinatura, merece nosso respeito e nossa atenção.
Uma coisa que vai deixar muita gente frustrada é como o filme se apresenta como algo diferente do que se poderia pensar a partir dos trailers veiculados. Por outro lado, se pensarmos bem, Spielberg tem um olhar muito mais ligado à fantasia do que à ficção científica (vide, principalmente, E.T. – O EXTRATERRESTRE) e é justamente isso que ele faz em DIA D. A própria aparência dos alienígenas na forma de animais bonitinhos e feitos em CGI é algo que puxa o filme para um tom mais fantasioso e menos realista, por mais que a trama geral lide com imagens vazadas de ETs sendo maltratados (há uma cena, vale destacar, que a imagem dessa maldade dos homens frente aos ETs faz lembrar o holocausto dos judeus) e explorados pelos militares, principalmente no mitológico acidente de Roswell, no Novo México, em 1947.
Inclusive, isso nem parece ser mais novidade. E esse é um dos pontos fracos do filme, parecendo um roteiro antigo que não contou com muitas atualizações. Assim como considero desnecessária toda aquela parte em que a personagem de Eve Hewson (FLORA E FILHO – MÚSICA EM FAMÍLIA) fica desesperada ao ter sua fé abalada ao saber da verdade sobre a existência de outras criaturas inteligentes habitando o universo. Aquela conversa dela com a freira vivida por Elizabeth Marvel chega a ser constrangedora.
DIA D se divide em duas tramas principais interligadas. Temos a subtrama de Josh O’Connor e Eve Hewson, casal que foge de uma organização de dentro do governo americano, chefiado pelo personagem de Colin Firth (aqui num papel bem caricato, mas interessante como o vilão do filme). Sua função é evitar que esse rapaz, o personagem de O’Connor, divulgue as imagens dos ETs para o mundo. Colman Domingo (sempre muito bom) está também no grupo da divulgação da verdade, nos bastidores.
A outra trama, eu diria que é mais interessante: é a trama da jornalista vivida por Emily Blunt, aqui em seu melhor papel em muito tempo. Ela, assim com o personagem de O’Connor, tem a capacidade de compreender a linguagem dos alienígenas e isso acaba rendendo momentos muito bons, que tanto funcionam para mostrar a grandeza da atriz como para trazer elementos mais intrigantes para a trama. A cena dela falando a língua dos extra-terrestres em rede nacional já é um clássico.
Há uma cena muito boa de ação no filme, que traz aquele Spielberg dono da tradição dos blockbusters de ação desde os anos 1970, que é a cena com Blunt e O’Connor dentro de um carro sendo empurrando para um trem em movimento. Ótima a cena, mas que parece um enxerto, uma concessão num filme cuja ação mais se parece com a de thrillers de espionagem da década de 1970. Aliás, ver o filme é mais uma maneira de ver Spielberg como um dos grandes herdeiros dessa geração incrível.
No mais, há uns problemas de roteiro e dá a impressão de que algumas cenas ficaram na mesa de edição, levando em consideração que há muita coisa confusa naquele começo. As cenas das pessoas apavoradas e fugindo nas estradas ficam mal explicadas e são a maior evidência dessa possibilidade. Sendo um filme de cerca de 2h30, é possível que exista uma “versão do diretor” por aí. De todo modo, é sempre um privilégio ter um filme novo do Spielberg em cartaz. Nem havia me dado conta que seu anterior, OS FABELMANS, é de 2022. Foi o maior espaço de tempo entre um filme e outro do realizador. Ainda mais levando em consideração que teve ano que ele conseguiu nos presentear com duas obras-primas, como foram os casos de JURASSIC PARK – O PARQUE DOS DINOSSAUROS (1993) com A LISTA DE SCHINDLER (1993) e de GUERRA DOS MUNDOS (2005) e MUNIQUE (2005).
+ TRÊS FILMES
AVATAR – FOGO E CINZAS (Avatar – Fire and Ash)
Pelo tanto que odiei o segundo filme (2022), até que me surpreendi positivamente com este terceiro título da franquia, por mais que muita coisa continuasse me incomodando. O que houve de novo aqui neste AVATAR – FOGO E CINZAS (2025) foi o acréscimo do vermelho nos tons, graças ao novo povo do fogo apresentado. Inclusive, gostei muito da líder, uma espécie de vilã, que se une ao grande vilão, o Coronel Miles Quarich (Stephen Lang), que agora só aparece no corpo de um na'vi, ou seja, do mesmo tamanho do povo a quem ele deseja atacar. James Cameron continua cafona pra caramba, até na utilização da música, mas principalmente no modo como ele lida com as questões ecológicas, em especial nas cenas dos garotos contracenando com os seres aquáticos apresentados no segundo filme. Gostei de algumas soluções que ele deu para a conclusão: cresce na terça parte final e é admirável também como o diretor consegue lidar com tantos elementos dentro do quadro, principalmente quando são pássaros voando no céu junto com outros objetos da geografia do lugar. Há uma maior participação do "menino macaco", também conhecido como "Spider", bem como dos filhos de Jake (Sam Worthington), o grande herói da cinessérie, junto com sua esposa Neytiri (Zoe Saldaña). Não dá para reclamar de qualquer coisa no que se refere a aspectos técnicos, mas esse tipo de filme continua fazendo eu querer ver filme de gente comum assim que saio da sessão. Aliás, não conheço nenhuma pessoa que se declara um megafã de Avatar. Portanto, não entendo como pode ter feito tanto sucesso de bilheteria. Não creio que se deva ao fator TITANIC (1997).
PREDADOR – TERRAS SELVAGENS (Predator – Bad Lands)
Não sou tão entusiasta da franquia Predador. Mesmo o primeiro filme, de 1987, que é muito bom, não vejo como justificativa para terem feito tantos filmes assim com a criatura alienígena. Tanto que depois do segundo, de 1990, que é diferente por ser ambientado na selva de pedra, não cheguei a acompanhar tudo que saía de novidade. O anterior, O PREDADOR – A CAÇADA (2022), havia recebido boas críticas, e é do mesmo realizador, Dan Trachtenberg, que chega essa bela surpresa que ainda conta com a presença luminosa de Elle Fanning, como uma androide muito simpática que se oferece como parceira bastante improvável do carrancudo jovem predador que saiu traumatizado de seu planeta natal, mas disposto a cumprir sua missão, apesar do bullying pra lá de agressivo da família. PREDADOR – TERRAS SELVAGENS (2025) tem um ótimo senso de humor, ótimas cenas de ação e um final que deixa a gente com um sorriso no rosto, com vontade de ver mais filmes com aquele trio de amigos em altas aventuras por planetas distantes e selvagens. No fim das contas, o real motivo de eu ter ido ver o filme foi a Fanning mesmo. Que menina linda e talentosa, hein.
DRÁCULA – UMA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO (Dracula - A Love Tale / Dracula)
Luc Besson, o cineasta francês que consegue fazer as produções mais caras com o dinheiro de seu país, como produto para exportação em língua inglesa, voltou aos holofotes neste ano com duas histórias de amor: a primeira delas foi um filme noir às avessas, JUNE E JOHN (2025), que muito me agradou, e o segundo é esta nova adaptação do romance de Bram Stoker, com bem mais liberdades e uma interessante maneira de preencher lacunas da história, especialmente quando a gente pensa nela a partir da lembrança de NOSFERATU, ainda mais porque ainda estão frescas na memória as imagens e as opções estéticas de Robert Eggers para o seu DRÁCULA – UMA HISTÓRIA DE AMOR ETERNO (2025). Neste trabalho de Besson, a história começa no tempo das cruzadas, quando um príncipe do século XV é enviado para lutar ("por Deus", segundo a igreja) contra os muçulmanos. Mas ele amaldiçoa a Deus pois sua amada é morta pelos inimigos e passa a vagar sem conseguir morrer, tornando-se o Conde Drácula. Sua missão passa a ser encontrar a encarnação de sua amada Elizabeta. Besson tem em mãos um elenco muito bom: tanto o jovem Caleb Landry Jones (melhor ator em Cannes por NITRAN) quanto o duas vezes vencedor do Oscar Christophe Waltz como o padre especializado em vampiros. Do elenco feminino, duas moças se destacam: a americana Zoë Bleu, como Mina Harker, e a italiana Matilda De Angelis, como Maria. Há mais romance do que terror nesta versão de Besson, mas ele também não poupa cenas sangrentas. Há algo de humor, e às vezes parece involuntário, às vezes parece rir de si mesmo, como nas cenas de Drácula em sua peregrinação pelos diversos países da Europa, mas diria que isso é até bem-vindo: tira um pouco de um peso que o próprio diretor parece que não queria mesmo executar para essa história. Não gostei tanto assim do final, mas tem sua beleza. A trilha sonora (animadinha) é de Danny Elfman e isso acaba fazendo muita diferença no tom do filme. Além do mais, seu Drácula se assemelha muito, de forma até bem descarada, ao DRÁCULA DE BRAM STOKER, do Coppola. Mas ele faz o bom e velho "copia, mas faz diferente".
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