domingo, setembro 25, 2016

O SILÊNCIO DO CÉU (Era el Cielo)



2016 tem sido um ano muito positivo para o cinema brasileiro. Talvez o melhor ano em muito tempo. E sair da sessão de O SILÊNCIO DO CÉU (2016), o novo trabalho de Marco Dutra (QUANDO EU ERA VIVO, 2014), só amplifica essa impressão. Isso porque, do início ao fim, o filme nos pega pelo braço e, com sua narrativa intrigante, sua história de pessoas atormentadas pelo medo, pela culpa ou por alguma coisa que deixa a angústia entalada na garganta, faz com que o silêncio do título brasileiro também se conserve durante a sessão, com os espectadores atentos, curiosos, tensos com o desenrolar dos acontecimentos e também com o modo como o diretor e seus roteiristas esquadrinham seus personagens através de uma voice-over que os aprofundam.

O melhor a fazer é ver o filme sabendo o mínimo ou praticamente nada, para ir se envolvendo com as surpresas que acontecem tanto na narrativa, quanto nas opções formais de Dutra ao apresentar os personagens. No caso, através de uma apresentação mais aberta do personagem de Leonardo Sbaraglia – a maior parte do filme é contada através de seu ponto de vista – e de uma maneira mais misteriosa a personagem de Carolina Dieckmann.

Ela é a esposa que é estuprada por dois homens logo no início do filme. Vemos muito pouco, mas a imagem é incômoda. O uso do som abafado na mixagem de som, como um efeito de perturbação psicológica de Diana, sua personagem, acentua essa impressão durante boa parte do início do filme. O ponto de vista de Mario (Sbaraglia) e o posterior ajuste no som não diminuem a dor daquela situação, já que o horror de ver a mulher sendo violentada e não conseguir fazer nada é bastante revoltante (para ele, principalmente).

O embate interior de Mario em ser o homem que gostaria de ser – longe de todos os medos, todas as fobias que o atormentam (ele tem medo de avião também) – é um dos grandes pontos fortes do filme. E o ator argentino desempenha com louvor esse papel de homem frágil que finge ser forte. Muito da força do filme está em seu personagem, mas também no que nos é apresentado de herança da obra literária, na narração do personagem, que usa o espectador como um confessionário.

De certa forma, tanto as fobias de Mario quanto a perseguição aos atores do crime torpe são elementos que aproximam O SILÊNCIO DO CÉU de UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock. Claro que há uma infinidade de suspenses psicológicos que são devedores desta obra-prima, mas de vez em quando alguns filmes se aproximam mais, por causa de alguns aspectos específicos. No caso do filme de Dutra, essa influência não se manifesta como em DUBLÊ DE CORPO, de Brian De Palma, em forma de homenagem explícita, mas de forma mais natural, sem tanta natureza de hipertexto.

Tanto que é possível esquecer esse detalhe da influência hitchcockiana e se deixar levar pela trama, pelo desejo do protagonista de enfrentar, de alguma maneira, não apenas os homens que atacaram a sua esposa e a deixaram em estado de choque e tornaram ainda mais complicada a relação conjugal, mas, principalmente, talvez, enfrentar seus demônios interiores, aqueles que o assombram desde sempre, que o fazem sentir-se menos homem do que gostaria de ser.

Entre as cenas com Carolina Dieckmann, há duas bem especiais: uma envolvendo a fábula da cegonha e o porco-espinho e outra em que ela está na cama com o marido, os dois do lado oposto da linda fotografia em scope. Mas talvez um dos melhores momentos de Diana no filme seja o momento de enfrentamento, na casa de um dos estupradores. A opção pela imagem dela à meia-luz subindo a escada parece remeter a vários clássicos hollywoodianos do passado, vários filmes noir, por exemplo, embora o andamento mais lento do suspense faça lembrar também os filmes de tonalidade mais misteriosa de Walter Hugo Khouri. O fato é que sair do cinema depois de tanta poesia visual faz bem demais ao espírito, por mais doloroso que seja o drama dos personagens.

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