quinta-feira, setembro 11, 2014

LA PRINCESA DE FRANCIA



O Farol, o primeiro festival internacional de cinema de Fortaleza, encerrou-se nesta quarta-feira com um resultado muito positivo para a organização e para o público, que se fez presente ao evento, assistindo tanto aos filmes quanto aos debates. Destaco, em especial, o delicioso debate que houve sobre o cinema americano dos anos 70 com Paulo Santos Lima, crítico da Folha de S. Paulo.

O filme a encerrar o festival que começou com chave de ouro (com o excelente A HISTÓRIA DA ETERNIDADE, de Camilo Cavalcante) foi o argentino LA PRINCESA DE FRANCIA (2014), um filme que foge ao que se costuma ver do estereótipo que se criou do cinema daquele país, isto é, dramas melancólicos, ainda que bastante sensíveis.

O filme de Matías Piñeiro é de outra ordem: não faz concessões, mostrando-se até um tanto hermético ao misturar possibilidades temporais, como na cena em que uma das personagens pensa em possíveis situações, criando quase que um tempo subjuntivo no cinema, com seu experimentalismo. Há também outra curiosidade: os jovens se reúnem para encenar uma comédia de Shakespeare (Trabalhos de Amores Perdidos, que foi adaptada como um musical por Kenneth Branagh em 2000) não para os palcos, mas para o rádio.

Em meio a conversas com telefones celulares, o rádio aparece como um elemento anacrônico. Além disso, o filme se inicia convidando o espectador a ouvir a bela Sinfonia da Primavera de Schumann, preparando o público para um universo não apenas erudito, com pinturas, Shakespeare e música clássica, como também a um tipo de cinema mais alternativo, num sentido mais radical do termo.

Ainda assim, apesar da quantidade relativamente grande de personagens e da confusão que se engendra em cirandas amorosas, principalmente para quem nunca viu ou leu a peça do bardo inglês, LA PRINCESA DE FRANCIA é um filme que dá vontade de rever. Não apenas para tentar entender melhor a trama em sua curta duração de 70 minutos, mas também porque é de uma beleza admirável em se tratando de direção cinematográfica. Para um filme que namora o teatro (e o rádio e a pintura e a música erudita), o cinema está em primeiro lugar nesta terceira obra de Piñeiro a brincar com a obra de Shakespeare.

Na trama, Victor, um jovem burguês que retorna a Buenos Aires, pretende retomar o trabalho de seu falecido pai no teatro. Não faltam amigos interessados em participar, e nem mulheres interessadas nele, embora sua intenção seja justamente se manter afastado de namoros para não se distrair. Mas isso é complicado, pois ele acaba entrando em contato com a ex-namorada, bem como com outras meninas do grupo de teatro. Um dos problemas para o espectador é não se confundir entre as tantas mulheres do filme em tão curto espaço de tempo.

O namoro de Piñeiro com Shakespeare já ganhou tanta fama no circuito de festivais que seu próximo trabalho será em língua inglesa, a partir das personagens femininas de uma das comédias mais famosas do bardo, Sonhos de uma Noite de Verão.

Mal posso esperar para que LA PRINCESA DE FRANCIA caia na rede ou, melhor ainda, chegue ao nosso circuito, com legendas embutidas na própria imagem, já que as legendas eletrônicas lá no cantinho chegam a incomodar, por causa dos diálogos espirituosos em ritmo de metralhadora.

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