sexta-feira, maio 30, 2014

A CANÇÃO DA ESPERANÇA (Too Late Blues)



Entre duas de suas obras mais incensadas – SOMBRAS (1959) e FACES (1968) –, o mestre dos cineastas independentes americanos John Cassavetes dirigiu dois filmes em Hollywood, A CANÇÃO DA ESPERANÇA (1961) e MINHA ESPERANÇA É VOCÊ (1963), dois trabalhos que não foram experiências agradáveis para o realizador. Tanto que depois da traumática experiência com MINHA EXPERANÇA É VOCÊ, ele resolveu dar um tempo na direção e trabalhar mais como ator.

A CANÇÃO DA ESPERANÇA, embora seja bem inferior ao impactante filme de estreia de Cassavetes, traz a marca do autor. E até guarda semelhanças com SOMBRAS, tanto no uso do preto e branco, quanto no fato de explorar a noite, o jazz e a dificuldade nos relacionamentos.

No filme, esse último elemento, inclusive, até ganha contornos shakespeareanos, com o personagem do agente musical (Everett Chambers) envenenando o protagonista John "Ghost" Wakefield (Bobby Darin) como o Iago da peça Otelo. No caso, "Ghost" estaria apaixonado pela aspirante a cantora Jess Polanski, vivida por Stella Stevens, e acaba se deixando influenciar pelas maquinações do ciumento agente musical.

Tanto Bobby Darin quanto Stella Stevens não eram as escolhas de Cassavetes para o elenco principal. Houve, no caso, uma imposição da Paramount. O diretor pensava em Montgomery Clift e sua esposa Gena Rowlands para os papeis, o que seria ótimo. Ainda assim, Darin, em sua estreia em um papel que não fosse cantando e Stella, um símbolo sexual que seria mais lembrada por sua participação em O PROFESSOR ALOPRADO, de Jerry Lewis, não fizeram feio. Ela, inclusive, lembra Marilyn Monroe, só que um pouco mais frágil e triste. Até porque a personagem exige.

O filme lida com personagens fracassados, ou que dizem preferir uma vida independente, embora necessitados do dinheiro para se sobreviver. Por isso, acabam se submetendo a trabalhos que não os agradam. O caso mais dramático seria justamente o de Jess, embora o filme siga o ponto de vista do amargurado "Ghost", que perde o que mais tem de importante em sua vida (a namorada, os amigos, a banda), por ter seu espírito envenenado.

Um dos problemas do filme é que "Ghost" não é um sujeito dos mais agradáveis, o que dificulta um pouco tanto uma possível identificação com o personagem quanto um sentimento de solidariedade com sua situação de arrependimento e amargura. E esse problema acaba contaminando o filme como um todo.

A caracterização de Stella também parece muito vinculada ao estilo hollywoodiano de interpretar da época, e acaba destoando do estilo livre e jazzístico de Cassavetes, por mais que saibamos que se trata de uma produção de um grande estúdio. Ainda assim, quem quer conhecer a filmografia de um dos mais importantes diretores do século é bom passar por essas obras tortas de sua carreira também.

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