domingo, dezembro 29, 2013

HISTÓRIA REAL (The Straight Story)



Recentemente, notei que este ano eu não vi ou revi nenhum filme de David Lynch. A falta de novos filmes do diretor tem sido cruel. Por outro lado, há sempre a possibilidade de rever seus filmes. E o que eu escolhi para ver neste momento um tanto melancólico, que é o final de ano, foi HISTÓRIA REAL (1999), que na época que passou nos cinemas eu vi com muito sono e não aproveitei nada. Agora, na revisão, vi o quanto é lindo, uma obra-prima. Um tanto atípico na filmografia do diretor, mas ao mesmo tempo cheia de elementos lynchianos.

Aliás, só o fato de o filme contar a história (real) de um sujeito que resolve efetuar uma longa jornada em cima de um cortador de grama para fazer as pazes com o irmão, com quem não fala há dez anos, é por si só bizarra. Bizarra, mas também tocante. Ao contrário dos filmes típicos de Lynch, não há aqui uma América com um estranho segredo a ser descoberto. O que há a ser descoberto é o homem Alvin Straight (Richard Farnsworth), que precisa de duas muletas para se sustentar em pé e tem uma visão ruim, mas que mesmo assim é teimoso o suficiente para empreender a jornada.

E é uma jornada de descoberta para os espectadores. Aos poucos, aquele homem simples vai ganhando ares de herói. Ficamos sabendo que ele lutou na Segunda Grande Guerra, que tem algo a lamentar naquele período e que conhece quem lutou aquela guerra só de olhar nos olhos. Isso a gente fica sabendo mais perto do final, numa conversa entre ele e um contemporâneo. Aliás, o filme é cheio de conversas memoráveis, como a da moça grávida à procura de carona, a do padre, a do senhor que lhe oferece abrigo etc. Cada uma dessas conversas vão revelando aos poucos a história de Alvin e até mesmo detalhes da vida dolorosa de sua filha, vivida por Sissy Spacek, uma personagem bem lynchiana: tem dificuldades de fala.

Inclusive, esse amor que Lynch tem pelos velhinhos pode ser vista em outras obras dele. Como esquecer o velhinho que precisa ajudar o Agente Cooper a ir ao hospital em determinado episódio de TWIN PEAKS (1990-1991) ou aquele velhinho do banco do último capítulo? Mas é em HISTÓRIA REAL que ele pôde exercitar tão bem essa ode à velhice, cuja pior parte, segundo Alvin Straight, é lembrar-se da juventude.

No mais, HISTÓRIA REAL é um filme em que Lynch demonstra bastante o seu gosto por pinturas, emulando muitas vezes o trabalho expressionista de Edward Hopper. Há também momentos em que se pode ver uma utilização de câmera que lembra os filmes de horror de Lynch. E isso já acontece no início do filme, quando vemos um baque e a câmera se aproximando lentamente da casa de Alvin, como quando se aproximou do beco escuro para revelar a criatura assustadora de CIDADE DOS SONHOS (2001). Trata-se também de uma homenagem aos Estados Unidos rural, com imagens lindas dos campos e das máquinas que promovem o desenvolvimento agrícola.

Porém, mesmo sendo tudo isso, HISTÓRIA REAL é, acima de tudo, uma história de amor: um amor um pouco contaminado por desavenças do passado, mas uma vez que escutamos a voz de Lyle, quando Alvin chega finalmente a sua casa, vemos que a reconciliação está ali. E não resta muito para aquela dupla de irmãos a não ser olhar as estrelas, as mesmas estrelas que Alvin olhou enquanto acampava à noite, durante sua trajetória. Estrelas que brilham ao som da bela música de Angelo Badalamenti.

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