terça-feira, dezembro 17, 2013

FILHA DE NINGUÉM (Nugu-ui ttal-do anin Haewon)



Não é preciso ver muitos filmes de Sang-soo Hong para perceber as semelhanças neles. É mais ou menos como acompanhar a filmografia de Hawks ou de Ozu. Neste mesmo ano chegou ao nosso circuito comercial A VISITANTE FRANCESA (2012), com Isabelle Huppert interpretando três papeis em três pequenas histórias de aproximadamente meia hora. Trata-se de um filme que enfatiza a repetição em sua estrutura narrativa. Nesse filme, as mulheres são exaltadas e os homens são patéticos. Pode-se dizer o mesmo de FILHA DE NINGUÉM (2013), que conta com uma das protagonistas mais belas do cinema oriental recente: Jeong Eun-Chae.

No caso de Jeong, não precisamos ouvir os elogios que vários personagens fazem a ela, já que sua beleza está ali o tempo inteiro, para apreciarmos junto com a belíssima fotografia do filme. Inclusive, Jane Birkin, que interpreta a si mesma num sonho da protagonista, também a elogia. Diz que ela parece com sua filha. A jovem fica lisonjeada. Ao que parece, essa necessidade de os personagens receberem elogios faz parte da obra do diretor, que opta por personagens carentes.

Diferente, porém, de A VISITANTE FRANCESA, em que predominava um tom de comédia, FILHA DE NINGUÉM é bem mais cruel com seus personagens, quase todos com sentimento de abandono. A começar pela protagonista, a jovem estudante de cinema Haewon, que se sente abandonada quando sua mãe parte para o Canadá. Sozinha na Coreia do Sul, ela não resiste e entra em contato novamente com um professor de cinema casado, com quem ela teve um caso meses atrás.

O reencontro reacende a paixão dos dois, mas o sujeito se sente muito temeroso que alguém descubra seu caso com Haewon. Ele teme tanto pela família quanto pela universidade. Confessa ter vontade de fugir com a jovem para bem longe, mas no fundo sabe que não tem coragem para tanto. Por ele, os dois continuariam levando esse relacionamento secreto por anos e anos.

Apesar dos zooms desconcertantes que também se fazem presentes em A VISITANTE FRANCESA, é numa cena relativamente longa e com câmera parada que FILHA DE NINGUÉM se mostra mais agradável de ver. Trata-se da cena em que Haewon e o professor encontram-se com outros alunos para beber em um restaurante. Uma série de sentimentos são notados nesta única cena: a vergonha do professor e sua necessidade de disfarçar o fato de que tem um caso com Haewon; a tristeza e o sentimento de abandono da jovem, que transparece quando a vemos beber muito saquê; as perguntas dos alunos que desconfiam da relação dos dois e a situação vergonhosa que sente o ex-namorado da moça, que também está presente na mesa.

É, sim, um filme que justifica o estardalhaço entre os críticos mais exigentes e é uma pena que a obra de Sang-soo Hong esteja quase toda inédita no Brasil. Mas isso parece estar mudando. Felizmente.

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