quinta-feira, setembro 29, 2011

NÃO ME ABANDONE JAMAIS (Never Let Me Go)



Já faz algumas semanas que assisti este belo filme, mas uma pena que não escrevi logo, enquanto ele estava fresquinho na memória e o sentimento de melancolia ao sair da sessão ainda me impregnava, a ponto talvez de eu fazer um texto mais apropriado e não um tão objetivo, que é o que eu acho que ficará este que está nascendo. NÃO ME ABANDONE JAMAIS (2010) é desses filmes cheios de uma beleza triste e de personagens lutando para viver. É uma ficção científica sem os trejeitos do gênero, mas com especial atenção para os aspectos mais dramáticos da história.

O diretor Mark Romanek, mais conhecido por seus videoclipes do que por seus filmes – afinal, são poucos os filmes -, utiliza um andamento agradavelmente lento para sua narrativa, que combina com as cores sempre esmaecidas da fotografia. Isso, ao mesmo tempo em que combina com a frieza do mundo em que aqueles jovens vivem, contrasta com seus sentimentos de paixão e dor.

Na trama, crianças de uma escola vivem enclausuradas, sem terem direito de ultrapassar os muros. Contam-se a elas até mesmo histórias horríveis de crianças que ousaram tentar e que morreram por isso. A verdade é que elas estão ali para serem bem cuidadas até a idade adulta, quando terão seus órgãos doados a pessoas "normais". Inclusive, uma das cenas mais tocantes é a da professora indignada (Sally Hawkins) que conta pela primeira vez às crianças, durante uma aula, qual seria os seus destinos.

Ao crescer, o trio de crianças que protagoniza o filme é interpretado por Carrey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley. O triângulo amoroso entre eles serve um pouco para atenuar os seus destinos. Em alguns poucos momentos do filme nos esquecemos do futuro, assim como deve acontecer com os próprios personagens, quando procuram viver o presente e esquecer o mundo cruel que lhes acolheu.

terça-feira, setembro 27, 2011

MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (Bridesmaids)



E o título de melhor comédia do ano no cinema vai para MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO (2011), de Paul Feig! Quem diria que esse filme que tinha tudo para naufragar, para ser uma espécie de SE BEBER, NÃO CASE! de saias e com piadas bestas e escatológicas, fosse uma obra que além de provocar algumas das melhores gargalhadas dos últimos anos ainda contasse com personagens próximas à perfeição, muito bem representadas por um time de atrizes vindo dos mais variados lugares.

A grande "revelação" é a protagonista, Kristen Wiig, desconhecida do grande público, mas que depois de um sucesso como esse promete despontar para a glória. A atriz veio mesmo da comédia e é mais conhecida de quem assiste o SATURDAY NIGHT LIVE. Sua personagem é a mulher que rumina um fracasso no relacionamento passado e que mantém um caso com um sujeito que não quer assumi-la como namorada (John Hamm, de MAD MEN). Sua vida vira de pernas para o ar quando ela é convidada para ser madrinha de casamento de sua melhor amiga (Maya Rudolph), que vai se casar com um sujeito cheio da grana. Mas sua principal pedra no sapato é a personagem de Rose Byrne, nunca vista tão linda e lembrando a Gillian Anderson nos bons tempos. A cena do discurso na festa de noivado é um exemplo de até que ponto a rivalidade entre mulheres pode chegar.

Mas nada prepara o espectador para a cena escatológica, mesmo quem já esteja esperando e já tenha visto o trailer. E o interessante é que a cena, que termina na rua, até pode ser vista com uma certa beleza plástica. Por incrível que pareça. Quem sai perdendo somos nós, brasileiros, que ficamos com fama de donos de restaurantes suspeitos. Mas nosso senso de humor transcende esse detalhe.

MISSÃO MADRINHA DE CASAMENTO ainda conta com a última participação de Jill Clayburgh, que depois do filme veio a falecer. Ellie Kemper, a divertida secretária de THE OFFICE, também dá o ar de sua graça, mas nada seria tão perfeito se não fosse contratado um par de roteiristas mulheres (a própria Kristen Wiig e Annie Mumolo). Nada como mulheres para escrever sobre o universo feminino, com um misto de delicadeza e sem-vergonhice, no sentido de mostrar as suas personagens em situações bem embaraçosas e ainda nos deixar próximo a elas. E parabéns mais uma vez a Judd Apatow, que, mesmo como produtor, continua deixando sua marca.

sábado, setembro 24, 2011

AMARGA ESPERANÇA (They Live by Night)



Este ano comemora-se o centenário de Nicholas Ray. O cineasta não está mais entre nós, mas isso não é motivo para não celebrar a sua obra. Além do mais, é o empurrãozinho que eu precisava para iniciar uma nova peregrinação, conhecer mais a fundo a filmografia de um dos mais importantes e aclamados cineastas de todos os tempos. Até fiz a minha estreia na Amazon com um livro sobre sua obra, "The Films of Nicholas Ray", de Geoff Andrew. Por enquanto tenho gostado do livro, mas demorei bastante para passar da enorme introdução. Cheguei até a esquecer um pouco do filme por causa disso. Mas com os próximos isso não acontecerá.

Chegamos então à estreia de Ray, com o incensado AMARGA ESPERANÇA (1948), baseado no romance de Edward Anderson, o mesmo que serviria de base para RENEGADOS ATÉ A ÚLTIMA RAJADA (1974), de Robert Altman. Por isso, antes de ver o próximo filme de Ray, pretendo ver este de Altman para fazer uma comparação. Com certeza deve ser bem mais sangrento, a julgar pela década e pela geração a que pertencia cada um dos diretores. No caso de Ray, a violência quase nunca é mostrada. Ela é mais sugerida. Nem mesmo as sequências de assalto são mostradas. O que não quer dizer que não existam momentos de grande tensão.

Mas Ray prefere enfocar mais em seus personagens do que na trama, em especial seus heróis perseguidos pela sociedade, o casal Bowie (Farley Granger) e Keechie (Cathy O’Donnell). E há a noite. Não foi à toa que quando escrevia sobre JOHNNY GUITAR (1954) François Truffaut chamou Ray de "o poeta do cair da noite". Pode-se até dizer que a noite seria uma das "personagens" mais importantes do filme. Afinal, tirando alguns poucos momentos que acontecem durante o dia – a sequência inicial com a tomada de cima, é um exemplo -, tudo o mais acontece à noite, que é ao mesmo tempo refúgio para o casal perseguido por crimes, como também perigosa o suficiente para fazer com que eles fiquem ainda mais paranoicos.

Embora já tenha visto outros filmes de Ray - NO SILÊNCIO DA NOITE (1950), JOHNNY GUITAR e JUVENTUDE TRANSVIADA (1955) -, ainda não me sinto suficientemente íntimo de sua obra para falar dos aspectos mais presentes. Inclusive, pretendo rever esses três filmes. Com o tempo, vou tecendo mais considerações a respeito. De todo modo, foi dada a largada.

quinta-feira, setembro 22, 2011

LARRY CROWNE - O AMOR ESTÁ DE VOLTA (Larry Crowne)



A segunda experiência na direção de Tom Hanks de um filme para cinema resultou numa obra que desperta mais indiferença do que qualquer outra coisa. É o típico filme que não fede nem cheira. Tem lá suas qualidades, principalmente morais, como a valorização dos estudos numa universidade, muito importante nos dias de hoje, em que cada vez o estudo passou a ser algo para poucos interessados.

LARRY CROWNE – O AMOR ESTÁ DE VOLTA (2011) é também uma história de amor. Mas por mais que se tenha a sempre simpática Julia Roberts como um possível trunfo, a química entre os dois astros não funciona no sentido do amor. Talvez porque Tom Hanks tenha perdido – se é que um dia teve – essa aura de galã. Ele até pode ter sido bem sucedido nas cenas em que se mostra um sujeito atrapalhado, mas não nas (poucas) cenas de amor. Outro equívoco do filme está na construção do roteiro, dos diálogos. As cenas na sala de aula, dos alunos aprendendo a arte da oratória, são muito bobas.

A história de um homem que perde o emprego e que resolve entrar para uma universidade, mesmo já estando numa faixa etária mais avançada em comparação com os jovens estudantes, tem o seu interesse. E as cenas mais felizes do filme são justamente as que mostram o relacionamento de Larry Crowne com a bela Talia (Gugu Mbatha-Raw), sua colega da aula de Economia. É ela quem ajuda Larry a ficar com uma aparência mais jovem e menos desajeitada.

De todo modo, apesar de alguns momentos divertidos e de LARRY CROWNE ter um bom andamento, difícil não sair do cinema com a impressão de ter visto um filme que se perdeu pelo caminho. Melhor Tom Hanks continuar só como ator mesmo.

quarta-feira, setembro 21, 2011

A ALEGRIA



Eis um filme que é um desafio para se escrever a respeito. Posso dizer simplesmente que não gostei de A ALEGRIA (2011), de Felipe Bragança e Mariana Meliande, mas tenho dificuldades em explicar os motivos. Na verdade, pra mim, o filme me parece todo errado. Na construção dos personagens, nos diálogos, na tentativa de criar uma atmosfera surreal, na história confusa. Ok, há quem diga que os diálogos eram mesmo para ser nonsense, que a atmosfera era mesmo para ser diferente, que os personagens não são o mais importante do filme. Mas então o que seria? As referências a Apichatpong Weerasethakul, a M. Night Shyamalan e a Tsai Ming-liang , como eu li numa crítica por aí?

Se o filme se pretende ser pós-moderno e homenagear esses autores prestigiados, que ao menos se mostrasse suficientemente atraente, que conquistasse o espectador com sua trama. O filme até poderia render muito bem se fosse talvez dirigido por outro diretor. Afinal, Felipe Bragança já teve experiência em trabalhar com Karim Aïnouz como roteirista em O CÉU DE SUELY (2006) e na minissérie ALICE (2008). Quer dizer, boa companhia ele teve e com certeza deve ter auxiliado muito bem o cineasta cearense em seus ótimos trabalhos.

À trama da garota de 16 anos que vive numa realidade onde só se fala em fim do mundo falta um clima especial para que os momentos de descontração – ou de tristeza – do elenco jovem sejam no mínimo tocantes. Alguns diálogos chegam a constranger. Tudo bem que na vida real se fala muita bobagem, mas às vezes é bem complicado ver isso no cinema. Além do mais, não estamos falando da vida real. O filme em nenhum momento procura ser naturalista. Ao início, com o primo da protagonista fugindo de uns homens desconhecidos que matam seu amigo enquanto ele está fantasiado de monstro numa floresta, falta a magia da natureza dos filmes de seu homenageado, Apichatpong Weerasethakul.

Enfim, não é um filme que faça o espectador dormir, afinal ele é diferente e essa é a sua principal qualidade, mas também chega a aborrecer depois de meia hora. De qualquer maneira, diria que uma revisão se faria necessária para, quem sabe, encontrar algo de belo ou mágico neste A ALEGRIA.

terça-feira, setembro 20, 2011

GAINSBOURG - O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (Gainsbourg (Vie Héroïque))



Uma cinebiografia diferente, GAINSBOURG – O HOMEM QUE AMAVA AS MULHERES (2010) é uma obra que mistura o musical com o drama em doses certas, mas que também flerta com o surreal, em especial nos momentos em que o protagonista conversa com seu alter-ego, um rato gigante feito como uma caricatura sua (o nariz grande, as orelhas de abano), mas também representando o modo como os nazistas viam os judeus. Assim, quem for esperando uma história convencional da vida do artista pode se decepcionar. O que temos aqui são recortes de sua vida e carreira, dando especial atenção para o seu relacionamento com as mulheres. Vendo o filme, inclusive, a impressão que se tem é que ele não tinha amigos, apenas casos, namoradas, esposas.

Só o fato de ele ter tido um caso com Brigitte Bardot (Laetitia Casta) já deixa o artista em posição de destaque. E a cena musical em que Brigitte dança usando apenas um lençol já é uma das mais memoráveis do filme, perdendo provavelmente para a sequência erótica em que ouvimos o clássico da "fuck-music", a escandolosa "Je t'aime... moi non plus", escrita para Bardot, mas gravada e lançada quando ele já estava vivendo com a mulher mais importante de sua vida, Jane Birkin (Lucy Gordon), que aparece desfilando com microvestidos matadores.

Uma das infelicidades da produção, aliás, é o fato de a atriz Lucy Gordon ter se suicidado após as filmagens. Ela foi encontrada enforcada pelo namorado. Uma tragédia, sem dúvida, já que a atriz, depois desse papel, poderia ter alçado grandes voos. Aqui na Terra mesmo, quero dizer. No final, o filme é dedicado a ela.

GAINSBOURG acompanha a vida do artista desde a sua infância na França ocupada na Segunda Guerra Mundial, quando ele já se mostrava um pequeno conquistador de mulheres, até sua decadência, quando deixou que o cigarro e o álcool tomassem de conta de sua vida. O artista, aliás, desde o começo teve essa aura rock and roll, contestadora e polêmica, que deve ser um orgulho para os franceses. Talvez nem tanto para os mais conservadores, principalmente depois de ele ter feito uma versão reggae de "A Marselhesa".

A opção por um registro mais musical, fragmentário e com um senso de humor todo particular por parte do diretor Joann Sfar foi uma sacada inteligente, já que se fosse mesmo para contar com mais detalhes a vida de Gainsbourg, um filme de duas horas e poucos minutos não seria suficiente. Por isso, diria que GAINSBOURG foi um sucesso para o que se propôs. E funciona como uma porta para que um leigo, como eu, tenha cada vez mais interesse na vida e na obra desse artista que é um ícone do mundo ocidental.

segunda-feira, setembro 19, 2011

CONAN – O BÁRBARO (Conan – The Barbarian)



Depois de tantas críticas negativas sapecadas tanto por profissionais como por cinéfilos, espera-se obviamente o pior deste novo CONAN – O BÁRBARO (2011). Resultado: a coisa não é tão feia quanto pintam. Há até alguns momentos interessantes, especialmente no início. Porém, há que se concordar que o filme ficou bem genérico e que o excesso de CGI só depõe contra. Ao que parece, o diretor Marcus Nispel, que tem em seu currículo novas (e boas) versões de O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (2003) e SEXTA-FEIRA 13 (2009), se sai melhor no horror do que no terreno da ação e da fantasia.

Muitos acreditavam no potencial de Jason Momoa, o brutamontes da série GAME OF THRONES, no papel do cimério. E realmente ele não se sai mal. Não cabe atribuir o fracasso artístico do filme ao musculoso ator. Ele, na verdade, se sai muito bem em vários momentos, em especial, quando contracena com a bela Rachel Nichols. Ele representa o homem forte que, apesar da brutalidade, ou por causa dela, acaba conquistando as mulheres, mesmo aquelas que ele têm que amarrar as mãos com cordas. O bárbaro é o representante de um tempo em que as mulheres eram muito frágeis e os homens deveriam ser muito fortes para garantirem sua sobrevivência.

Logo no início do filme, na cena da invasão de um povo à aldeia dos cimérios, mais especificamente na cena crucial dele com o pai (Ron Pearlman), vemos que eles são criados para não temer nem a morte nem a dor. E a própria filosofia de vida de Conan fica explícita quando ele diz que vive, ama, mata e está contente assim. Deste modo, o filme tenta passar para o espectador um tempo em que as coisas eram muito mais simples, apesar de mais perigosas e sangrentas.

E falando em sangue, uma pena que o líquido vermelho apareça no filme quase como num videogame, de tão irreal que fica na fotografia de videoclipe e com o uso de computação gráfica. Comparar com a ótima série GAME OF THRONES, uma produção para a televisão que também trata de um mundo bárbaro fictício, é até covardia. Assim, por mais que o filme apresente cenas de violência gráfica, essa violência acaba sendo atenuada por esses aspectos. E quanto à história, pode-se resumir como sendo a busca de Conan pelo assassino de seu pai, tendo, para isso, que desafiar homens, bruxas e monstros pelo caminho.

domingo, setembro 18, 2011

SEIS CURTAS DA MOSTRA "FEMININO PLURAL"



Uma pena que uma mostra tão boa quanto esta "Feminino Plural" esteja passando em branco, sem repercussão na mídia e sem interesse por parte do público. Eu achava que pelo fato de a sessão ser gratuita, a sala estaria cheia, mas assisti os curtas na companhia de uns poucos gatos pingados. Que acredito que apreciaram bastante a seleção, que tem colocado em geral filmes premiados em festivais nacionais e internacionais e que trazem a mulher como foco. Comento abaixo um pouco de cada um dos curtas-metragens vistos nesta noite de domingo.

JOYCE

Filme que se beneficia bastante do som ambiente e do carisma das duas meninas que o protagonizam. As locações, numa favela e numa casa de shows que privilegiam a música baiana, acabam dando ao filme um jeitão mundo cão, mas sem nunca perder a sensibilidade. É um filme cuja delicadeza remete ao primeiro amor de uma garotinha. Direção de Caroline Leone. 14', 2006.

TERESA

O meu favorito da mostra, TERESA (foto, acima) nos apresenta a personagem-título, uma mulher que chega com muito pouco dinheiro a São Paulo em busca do noivo e acaba se vendo sozinha. O relacionamento dela com outra mulher solitária, a dona de um quiosque na rodoviária, dá uma dimensão humana às personagens. O filme, mesmo tendo uma curta duração, consegue emocionar como se já conhecêssemos a personagem há muito tempo. Direção de Paula Szutan e Renata Terra Cunha. 18', 2009.

SEXO E CLAUSTRO

Documentário que funciona como filme-denúncia, SEXO E CLAUSTRO intercala imagens de santos da Igreja Católica com o relato impactante de uma mulher mexicana que teve que comer o pão que o diabo amassou durante seu período como freira numa igreja e que, devido a sua preferência por mulheres, teve que frequentar um psicólogo para que fosse "curada". E isso é só um pouco do muito que conta essa mulher. Direção de Claudia Priscilla. 13', 2005.

SISTEMA INTERNO

Interessante curta que tem a originalidade de ser contado todo através de câmeras de segurança. Ao final, quando vemos a protagonista em sua casa, o filme reserva uma surpresa. Um trabalho que mostra o quanto estamos, cada vez mais, expostos a perder a nossa intimidade. Direção de Carolina Durão. 17', 2007.

ESTAÇÃO

Talvez seja o menos interessante dos seis filmes, mas o domínio narrativo da diretora demonstra que mais um pouco e este ESTAÇÃO daria um bom longa-metragem. Fala de uma moça que tem o sonho de ser atriz e que vive por alguns dias na Rodoviária do Tietê. Direção de Marcia Faria. 15', 2010.

SWEET KAROLYNNE

Exemplo de documentário que deve muito à personagem, no caso uma garotinha paraibana e seu amor por um galo. A menina é uma graça e o fato de ter uma família que oferece shows – seu pai faz cover do Elvis Presley – torna tudo ainda mais interessante. Não deixa de ser inteligente da parte da diretora ter conseguido fazer algo bom com tão poucos recursos. Direção de Ana Bárbara Ramos. 15', 2009.

A Mostra "Feminino Plural" está em exibição nas cidades de São Paulo, Fortaleza, Salvador e João Pessoa.

sexta-feira, setembro 16, 2011

AS BRUMAS DE AVALON (The Mists of Avalon)



Nem estava nos meus planos rever este filme, mas como foi exibido numa aula do mestrado, com o intuito de trazer questões relativas ao papel feminino na sociedade ocidental, achei interessante poder rever. AS BRUMAS DE AVALON (2001) é uma produção para a tv baseada no best-seller de Marion Zimmer Bradley que oferece um ponto de vista bem feminino para a tão conhecida lenda do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, que talvez ainda tenha como melhor representante no cinema e na tv EXCALIBUR, de John Boorman, que, aliás, deu até vontade de rever.

O grande problema das adaptações dessas histórias de Camelot é que o tempo sempre parece curto para contá-las, mesmo num filme como esse, de três horas de duração. No caso do filme de Boorman, eu lembro que era cheio de atropelos, ainda que muito bem realizado. O ideal seria uma série de televisão para abarcar todos os personagens e subtramas. Assim como MERLIN, outra produção para a tv, AS BRUMAS DE AVALON destaca o momento de transição entre o Cristianismo, a nova religião, e a lenta queda das crenças antigas, do culto à deusa-mãe.

Uma ousadia da obra é tornar uma personagem que geralmente é tida como uma vilã em protagonista inocente, a Morgana, irmã de Arthur. O filme também faz questão de apresentar gerações anteriores a Arthur e Morgana, seus pais e tia em papéis importantes. Destaque para a presença de atrizes de respeito como Joan Allen e Angelica Huston. Quem interpreta Morgana é Juliana Margulies, bastante conhecida por quem acompanhou a série E.R. Outros rostos conhecidos são os de Samantha Mathis, no papel de Guinevere, e Michael Vartan, como Sir Lancelot.

Talvez a cena de maior destaque no filme seja a de sexo a três entre Arthur, Lancelot e Guinevere. Pelo que me lembro, nas outras versões, Arthur descobre que está sendo chifrado e rejeita a esposa e o amigo. Algo do tipo. Em AS BRUMAS DE AVALON, Guinevere é uma chorona que fica pelos cantos, triste pelo fato de não poder gerar um filho. Enquanto isso, Arthur já tem um filho - gerado com a própria irmã – andando por aí. Mordred, o filho de Arthur com Morgana, parece uma figura trágica e moral, no sentido de ser um monstro gerado por uma relação incestuosa. E essa é apenas uma das questões em que a moral e a culpa cristãs se manifestam nesta obra, que termina de maneira bem curiosa.

quinta-feira, setembro 15, 2011

SEGURA A ONDA – A OITAVA TEMPORADA COMPLETA (Curb Your Enthusiasm – The Complete Eighth Season)



Imperdível pra quem é fã de SEINFELD, CURB YOUR ENTHUSIASM, ainda que seja mais ácida que a série que trouxe fama a Larry David, é o mais próximo que podemos ver da série que deixou marcas na televisão e no nosso modo de ver as pequenas coisas do dia a dia. Provavelmente o que afasta mais um pouco o espectador de Larry seja a sua forte aproximação com o show business e com uma classe alta de Los Angeles, já que supostamente assistimos a sua vida. Mesmo assim, não é de estranhar se nos sentirmos identificados com ele em várias situações.

A oitava temporada (2011), se não foi tão boa quanto a anterior, que contava com a presença de todo o elenco de SEINFELD no que talvez seja a mais importante reunião da década na televisão, manteve o ótimo nível de situações inteligentemente criadas. Nem sempre são episódios de soltar gargalhadas, mas o prazer que sentimos com as presepadas de Larry bastam. Como esquecer do episódio "The Safe House", no qual um amigo de Larry está namorando uma stripper siliconada? Ou de "The Hero", em que Larry ganha fama de herói, depois de ter tropeçado nos cadarços grandes de seu tênis e protegido sem querer uma bela mulher no avião? Ou da disputa dele com Rosie O'Donnel por uma atraente bissexual em "The Bi-Sexual"?

Enfim, praticamente todos os episódios trazem situações muito boas. O último, "Larry vs. Michael J. Fox", traz a participação especial de Michael J. Fox. E por incrível que pareça, Larry brinca com o Mal de Parkinson do ator. A cena da Coca-Cola foi uma tirada de gênio. E a trama paralela, envolvendo um garotinho de sete anos que demonstra uma afetação gay, é tão boa quanto a principal. Quer dizer, num único episódio, ele consegue criar duas situações perfeitas, engraçadas e politicamente incorretas. E muito bem amarradas. É exemplo raro de diversão inteligente na televisão, mesmo que tenhamos que esperar dois anos para ver uma temporada de apenas dez episódios de meia hora. É o caso de qualidade valer mais do que quantidade.

quarta-feira, setembro 14, 2011

ENTOURAGE – A OITAVA TEMPORADA COMPLETA (Entourage – The Complete Eighth Season)



E ontem foi o meu dia de despedida de ENTOURAGE, uma das séries mais queridas dos últimos anos, fechando a conta em sua oitava temporada (2011). E lá estava eu, feito besta, chorando com a conclusão da crise entre Ari e a esposa e pelos gestos afetivos dos amigos de E. ao fazer com que dê certo a relação dele com Sloan. Aliás, depois da série, vou ter que ir atrás dos filmes com a Emmanuelle Chriqui, essa bela filha de imigrantes marroquinos que me conquistou com sua beleza singular. Sloan e E. é o mais belo dos casais de ENTOURAGE, embora eu tenha curtido muito a temporada passada com a Sasha Grey deixando Vince louco de paixão e entrando em parafuso.

Mas, antes de mais nada, ENTOURAGE é uma série sobre o amor entre amigos. Algo que me faz lembrar com carinho os filmes do grande Howard Hawks, que cultuava esse sentimento tão bonito e tão pouco explorado nos filmes e na televisão. Ora, se até as mulheres, que têm a fama de serem mais competitivas, tiveram sua chance com SEX AND THE CITY, por que não os homens, que têm fama de serem mais leais um ao outro não teriam? E é aí que entra a série, que começou como uma comédia leve sobre os bastidores de Hollywood e foi cada vez mais partindo para o caminho da comédia romântica.

Comparando as primeiras temporadas, que tinham o luxo de trazer participações especiais de astros de Hollywood, com os cortes nos gastos bastante visíveis nas temporadas seguintes, nota-se que o que se perdeu em alguma parte se ganhou em outra, já que os personagens foram crescendo ao longo dos anos. Vince, por exemplo, é mais do que um astro de cinema bonito e que pega todas as mulheres. Ele tem, acima de tudo, um bom coração, como bem disse Turtle, ao falar com Sophie sobre ele num dos episódios finais da última temporada.

Se há um problema com essa temporada, talvez seja o fato de tudo ter acontecido muito rápido, de as coisas mais importantes só se resolverem nos episódios finais e de o fato de a amada de Vince não ter tido tempo suficiente para conquistar a plateia, apesar de sua inegável beleza. O grande momento desta temporada final – que tem um pouco cara de final de novela mesmo, é verdade – é o momento da ópera, da reconciliação de Ari e sua esposa. Mas sabe o que foi covardia mesmo, ao ver aquele avião zarpando no final? Foi ouvir "Going to California", a minha canção favorita do Led Zeppelin, ao fundo. Não tem como não se arrepiar, meus amigos.

terça-feira, setembro 13, 2011

TRUE BLOOD – A QUARTA TEMPORADA COMPLETA (True Blood – The Complete Fourth Season)



E não é que os roteiristas, diretores e produtores de TRUE BLOOD conseguiram fazer uma quarta temporada (2011) decente? Depois de irem ao fundo do poço com a temporada anterior, a série ganhou fôlego com a ideia de saltarem um ano nos acontecimentos na pequena cidade de Bon Temps. Isso porque Sookie esteve um ano fora, depois de ter sido levada para o reino das fadas! Pois é. Como se já não bastassem vampiros, metamorfos, lobisomens, panteras e outras criaturas, agora a série tem fadas e bruxas.

Mas foi principalmente por causa da bruxaria e da participação especial de Fiona Shaw que a série se reergueu. A luta das bruxas contra os vampiros foi o principal mote dessa temporada. Uma bruxa chamada Antonia aparece num ritual de possessão. Ela foi uma das várias bruxas dizimadas séculos atrás, quando os vampiros faziam parte da Santa Inquisição. Algumas das situações até são boas como terror, outras funcionam mais como humor, como o fato de Lafayette ser um médium e ser possuído pelo espírito de pessoas mortas. A temporada também se diferenciaria das demais pelo inevitável relacionamento mais profundo entre Sookie e Eric.

Mas vamos logo para a melhor coisa da temporada: Jessica, cada vez mais linda. Ela é a coadjuvante que rouba a cena. A atriz, Deborah Ann Woll, é o último nome a aparecer nos créditos, mas, por mim, se a série fosse centrada nela, ganharia muito mais pontos. Surgida no finalzinho da primeira temporada como uma vampira criada por Bill (bastante apagado nesta temporada), ela foi cada vez mais conquistando seu espaço e atingindo o seu auge de beleza e sedução nesta temporada, quando seu relacionamento com o humano Hoyt já está cansado e ela acaba se envolvendo com Jason, melhor amigo do sujeito. Aliás, Jason já tem um histórico de pegar mulheres bonitas na série que é de dar inveja. E cada pequena participação de Jessica valia até por um episódio ruim. Vê-la de capa vermelha e lingerie antes da cena de sexo é um presente para os fãs. Dá até pra perdoar o excesso de homem pelado durante a temporada.

A temporada vinha se mantendo mais ou menos fraca no início, mas foi ganhando força nos episódios finais. O penúltimo episódio, então, está entre os melhores de todos, com um primeiro clímax muito bem estruturado na inevitável luta entre a bruxa e os vampiros. O último episódio ficou com cara de encerramento, mas depois começam a surgir alguns ótimos ganchos que servem para garantir a fidelidade do espectador para o próximo ano. Quem diria...

segunda-feira, setembro 12, 2011

COWBOYS & ALIENS



Um bom filme pelo que se propõe, COWBOYS & ALIENS (2011) consegue juntar bem as características de dois gêneros muito bem definidos e distintos do cinema americano: o western e a ficção científica de extraterrestres monstruosos, tendo o mérito de unir harmonicamente os elementos desses dois gêneros. Do western, o filme traz a figura do sujeito procurado, o saloon, os bandidos do deserto e até os índios. Já do sci-fi, COWBOYS & ALIENS traz naves estelares, abdução e ETs monstruosos parecidos com o de ALIEN. Aliás, parece que depois de ALIEN, muita gente procura apenas criar variações da figura do monstrengo.

Outro ponto positivo do filme está no modo como ele vai dando as informações para os mistérios iniciais. Quem é aquele homem no deserto (Daniel Craig)? Por que ele está sem memória? O que é aquele bracelete estranho em seu braço? Quem é a mulher misteriosa, que diz saber o que está acontecendo (Olivia Wilde, linda)? O que querem os extraterrestres? Essas e outras perguntas vão sendo respondidas aos poucos, mantendo o interesse e o ar instigante do filme, fazendo com que ele se diferencie dos genéricos.

Também a favor, está a presença de Harrison Ford, que cada vez mais tem feito o tipo aparentemente rabugento, o que dá a entender que isso faz parte da personalidade do ator e que é aproveitado nos filmes. Mas a presença dele no filme é a melhor desde K-19: THE WIDOWMAKER. Mesmo o clímax, que costuma ser enfadonho na maioria dos filmes de ação hollywoodianos, parece interessante. E a superprodução, que une a Universal, a Dreamworks e a Paramount e mais um monte de produtores, incluindo Steven Spielberg, acaba se saindo melhor do que se esperava. Em tempos de cortes de gastos, é preciso mesmo uma união desse tipo. O filme também é um ponto a mais para o competente diretor Jon Favreau, que depois dos dois filmes do Homem de Ferro passou a ser visto como um nome quente em Hollywood.

sexta-feira, setembro 09, 2011

A RODA DA FORTUNA (The Band Wagon)



Enquanto os amigos paulistanos podem se dar ao luxo de ver vários filmes de Vincente Minnelli no cinema numa mostra dedicada ao autor, eu vou fazendo a minha parte aqui, tendo o prazer de rever – dessa vez, com olhos mais generosos e mais abertos – esta maravilha que é A RODA DA FORTUNA (1953). A vontade de rever o filme veio com o documentário SANTIAGO, de João Moreira Salles, quando o momento mais belo é mostrado. Era a cena favorita do mordomo da família do documentarista e não dá para dizer que ele tinha mau gosto, já que se trata de um dos momentos mais mágicos e belos da história do cinema.

A cena em questão é a de "Dancing in the dark", em que Fred Astaire e Cyd Charisse dançam de maneira sublime. Ela, vindo do balé e estreando no cinema; ele, já famoso em Hollywood por dançar com leveza. O resultado é tão belo que é impossível descrever em palavras. É preciso ver para sentir a grandeza da música de Howard Dietz e Arthur Schwartz. Não há letra; apenas a música orquestrada e os corpos que se movimentam com uma tal graciosidade que é como se eles não estivessem no plano físico. E, no entanto, há uma sensualidade nos gestos de Charisse que a aproxima do terreno. Afinal, não tem como não se encantar com suas pernas - as mais belas da história do cinema - e sua elegância. Uma sequência que definitivamente já vale o filme inteiro.

Todavia, A RODA DA FORTUNA ainda conta com outros momentos musicais brilhantes, como Fred Astaire cantando "By myself" no início, seguido do ambicioso número "Shine Your Shoes", que mostra o quão longe quis ir Minnelli para tornar a sua obra grandiosa. Em entrevista contida no documentário HOMENS QUE FIZERAM O CINEMA, presente nos extras, ele afirma que gostava de tratar os musicais como filmes dramáticos. Talvez por isso eles tenham ficado tão bons.

No outro documentário presente no dvd, o que trata especificamente de A RODA DA FORTUNA, é muito bom ver Cyd Charisse ainda bela, apesar da idade. Mesmo assim, não duvido que ela tenha muitas saudades de seu auge e de sua juventude. O documentário só aumenta o entusiasmo do espectador em relação ao filme e principalmente a "Dancing in the dark", descrita por Charisse como a sua música favorita de todos os tempos e também o número musical favorito. Mas o documentário também não deixa de lado a beleza de coreografia e uso de cores e sensualidade que é a sequência do "Girl hunt ballet", no qual Charisse aparece como uma mulher fatal, de vestido vermelho e tudo. Entre outros números memoráveis, claro.

E eu acabei escrevendo apenas sobre os números musicais e não falando nada do enredo. Mas a história é o de menos, ainda que seja bem bonita.

Entre os extras, o dvd duplo da Warner ainda conta com o curta-metragem JACK BUCHANAN COM O GLEE QUARTET (1930), sobre um sujeito que não ensaiou para uma apresentação com um quarteto e que foi visto por mim com gargalhadas. Quem quiser conferir e rir também, ele está disponível no youtube.

quinta-feira, setembro 08, 2011

OS MESTRES LOUCOS (Les Maîtres Fous)



Jean Rouch é mais conhecido pelo documentário experimental EU, UM NEGRO (1958), que já estava na minha "lista de filmes a ver o quanto antes" desde que li o ótimo texto de João Moreira Salles, presente no livrinho "Ilha Deserta – Filmes". Mas foi numa aula do curso de mestrado, quando o professor se referiu a este OS MESTRES LOUCOS (1955), que eu fiquei com uma curiosidade (mórbida) de conferir esta obra dotada de imagens fortes e impressionantes.

Trata-se de um documentário de cerca de meia hora de duração que mostra o ritual dos haouka, na Costa do Ouro africana. O filme inicialmente apresenta os "personagens" que farão parte desse ritual. Todos eles têm os seus humildes trabalhos na "vida real". E a vida real não é muito generosa com esse povo, que na época da realização do filme era colônia dos ingleses. Há um catador de garrafas, um estivador, um guarda, um pedreiro etc. Como que para mostrar a sua força ou talvez zombar ou mesmo assimilar como um antropófago os costumes do colonizador, eles participam de um ritual grotesco. Pelo menos, aos olhos de quem não está acostumado a ver tal coisa.

No tal ritual, os homens são possuídos por entidades que passam a representar membros da elite política dos ingleses colonizadores. As cenas de possessão são impressionantes, pois todos eles tremem e falam com uma baba branca e espessa escorrendo pela boca. Ao fundo, a voz de Jean Rouch descreve o processo, de maneira até rápida demais para apreendermos toda aquela estranha realidade. O ápice do ritual acontece com a matança de um cachorro. Confesso que quando os vi trazendo o inocente animal para o sacrifício, eu fiquei com o coração na mão. A ideia é mostrar a força e a coragem, ao matar e comer um animal que normalmente não se mata e nem se come. Após a matança, é feita uma mesa redonda para saber se eles comerão o animal vivo ou cozido. O mais forte do grupo é o que tem direito à cabeça do cachorro.

No dia seguinte, todos estão de volta aos seus trabalhos, um deles, que estava com problema de impotência sexual e foi considerado impuro para participar do ritual, ficou curado, segundo a narração de Rouch, que provavelmente entrou em contato direto com o grupo. Apesar de o filme ter me causado náuseas, o ineditismo das imagens e a sua força fizeram com que eu ficasse ainda mais interessado no trabalho sem igual do cineasta e etnógrafo Jean Rouch. A Costa do Ouro se renomeou Gana, após sua independência, em 1957.

quarta-feira, setembro 07, 2011

TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS



Fazia tempo que eu não via tantas pessoas saírem no meio de um filme como na sessão do último sábado de TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS (2011). O filme de Domingos de Oliveira, exibido em festivais em 2008, ficou de molho todo esse tempo e só foi lançado no circuito comercial este ano. Quanto ao fato de tanta gente ter desistido do filme no meio da sessão, acredito que é por ter sua exibição em cinema de shopping e em horários normais e não em uma "sessão de arte" ou em cinemas alternativos, em que o público está mais preparado para ver algo minimamente diferente do feijão com arroz exibido no circuitão.

E olha que TODO MUNDO TEM PROBLEMAS SEXUAIS é um filme bem divertido. É curto, dividido em cinco episódios e ainda conta com o talento de um ator popular e que se dá muito bem em comédias como Pedro Cardoso. Aliás, o único episódio em que ele não aparece é justamente o mais fraco. O filme deve muito a ele. O que talvez tenha incomodado à audiência é o principal diferencial: o fato de o diretor ter optado por intercalar cenas feitas exclusivamente para o filme com cenas exibidas no teatro, quando a obra ainda era uma peça teatral de sucesso - um recurso bem interessante, aliás, e que torna o filme maior do que ele seria se fosse apenas uma adaptação convencional da peça.

Nos episódios, há situações bem engraçadas, como a do sujeito que sofre de impotência e esconde da amante o fato de ter tomado Viagra para dar uma surra de cacete na mulher. O problema é quando ela descobre. Outro episódio divertido é aquele que mais usa palavrões, mas nada muito grave. Pedro Cardoso é um atendente de farmácia doido para pegar a sua colega de trabalho, que é aquele tipo de mulher que adora deixar os homens excitados, mas que não "dá". O episódio final, do rapaz com tendências homossexuais, também com Pedro Cardoso, causa muitas gargalhadas. Ah, e o filme ainda conta com a participação sempre bem vinda da sempre linda Cláudia Abreu.

A intenção de Domingos de Oliveira de fazer esse diálogo com o teatro, ele mesmo fazendo questão de explicar pessoalmente sua opção no início do filme, é perfeitamente compreensível. A obra tem muito mais chances de agradar no teatro do que no cinema, mas fico feliz que ela tenha sido transportada para as telas, tornanda-se de mais fácil acesso a um público maior. Afinal, uma peça de teatro, por melhor que seja, não viaja o país inteiro.

segunda-feira, setembro 05, 2011

O HOMEM DO FUTURO



Talvez o mais pop dos diretores brasileiros da atualidade – em REDENTOR (2004), ele fez referência a uma história clássica do Demolidor! -, Cláudio Torres realiza o seu melhor trabalho neste O HOMEM DO FUTURO (2011), que apesar de não ser tão original, tem os seus méritos. O filme brinca com viagens no tempo de um jeito que não tem como não lembrar de DE VOLTA PARA O FUTURO, de Robert Zemeckis. Só que aqui o diretor prefere usar o amor como catalizador da ação.

Na trama, Wagner Moura é um professor de física frustrado e um cientista que atende pelo nome de Zero. Ele chefia um projeto científico bastante ousado, que por acidente acaba por se transformar numa máquina do tempo. Assim, ele vai parar em novembro de 1991, numa festa da escola, quando ele teve a chance de ficar com a mulher da sua vida (Alline Morais). Não acreditando que um nerd como ele seria capaz de namorar uma mulher linda como aquela, ele fica sem entender os motivos de ela querê-lo, mas as lembranças do passado são bem dolorosas e envolvem humilhação. O Zero maduro aproveita o retorno ao passado para consertar as coisas e modificar o seu futuro. O resultado, porém, não sai como previsto.

O filme tem várias situações divertidas, especialmente quando vemos a mesma pessoa três vezes no mesmo lugar. Não tem como não se arrepiar com "Tempo Perdido", da Legião Urbana, cantada por Wagner Moura e Alline Morais. Se bem que a canção fica boa mesmo é quando ele entra. Cantor de um projeto de música brega, ele contribui também na trilha sonora com uma versão de "Creep", do Radiohead, que combina perfeitamente com sua situação de garoto nerd apaixonado pela moça mais bonita da escola. Aliás, os efeitos especiais que mostram Wagner Moura mais jovem são ótimos. Nem parece aquela tosqueira que foi VIPS.

O HOMEM DO FUTURO opta por uma narrativa bem ágil, próxima dos filmes de Hollywood, para não aborrecer o público dos cinemas de shopping. Não vejo nada de errado nisso, a não ser a falta de um momento em que o amor entre o casal de protagonistas possa despertar mais emoção na plateia. Para isso, talvez fosse necessário um pouco mais de sensibilidade por parte do diretor e uma condução um pouco mais lenta em algumas ocasiões. Tirando esse pequeno empecilho e o pisca-pisca de luzes que o filme usa demais, O HOMEM DO FUTURO já garante o seu posto de um dos melhores filmes brasileiros do ano. Até porque o ano anda bem carente de bons lançamentos.

sábado, setembro 03, 2011

O AMULETO DE OGUM



Um dos filmes mais divertidos de Nelson Pereira dos Santos, O AMULETO DE OGUM (1975) foi sua tentativa de se reaproximar do público, depois de ter feito vários filmes mais herméticos e dirigidos às classes mais intelectuais. O AMULETO DE OGUM é também responsável por tirar muito do preconceito que existia com relação às religiões afro-brasileiras, a umbanda e o candomblé, utilizando-se de seus mitos para contar a história de um rapaz que, depois de ter seu pai assassinado, ganha um poder e um amuleto: enquanto sua mãe estiver viva, ele terá "corpo fechado", bala nenhuma o matará. O rapaz é interpretado por Ney Sant'Anna, filho do diretor.

A montagem do filme é rápida, parecendo um pastiche de alguns filmes do início da Nouvelle Vague, mas com ênfase na violência e no crime. Ainda assim, há muito humor. Como o rapaz é levado para trabalhar com um bicheiro poderoso da região (Jofre Soares), ele comete alguns assassinatos a mando do patrão. Assim, algumas manchetes que aparecem nos jornais são superengraçadas, como "Mataram bicheiro no trem", "Mataram a mulher do promotor" e "A ONU exige a captura do assassino". Essa última é impagável. O que diabos a ONU teria a ver com um bandido de fundo de quintal? :D

A trilha sonora é de Jards Macalé, que interpreta o cego que conta a história do filme, mas também conta com algumas canções dos Rolling Stones, que aparecem no inferninho da cidade de Caxias e que funcionam bastante para situar o filme em sua época. Outra canção que aparece, mas na voz de um sujeito local, é "O show já terminou", de Roberto Carlos.

Das cenas de umbanda, a mais impressionante é a de quando uma entidade entra no corpo de Jofre Soares, no momento em que ele aceita os conselhos de um pai-de-santo autêntico, isso depois de ele ter se decepcionado com um pai-de-santo picareta. A figura da mulher forte, presente em grande parte dos filmes de NPS, aparece na personagem de Anecy Rocha, que trai o velho para ficar com o rapaz, e depois o trai também. Ela representaria a Pomba Gira, já que aparece uma estátua dessa entidade numa vinheta com o cego tocando violão.

Das informações contidas no livro "Nelson Pereira dos Santos – O sonho possível do cinema brasileiro", de Helena Salem, a que mais me chamou a atenção foi o depoimento de NPS sobre a organização do filme em ciclos de umbanda: o primeiro, do corpo fechado, é de Ogum; o segundo, da tentação da Pomba Gira; o terceiro, o ciclo de Exu, quando o protagonista se envolve com a cachaça; e depois vem a proteção de Oxum. Dá para notar que Erney José, o consultor para assuntos de umbanda, soube auxiliar direitinho o diretor para a construção da trama.

quinta-feira, setembro 01, 2011

RICKY



De 2000 a 2010, François Ozon realizou dez longas e dois curtas-metragens, o que dá uma média de aproximadamente um filme por ano. E, no entanto, com esse curto espaçamento entre um trabalho e outro, os temas de suas obras parecem tão distintos, ainda que alguns filmes encontrem elos de ligação, como, por exemplo, 8 MULHERES (2002) e o mais recente POTICHE: ESPOSA TROFÉU (2010). RICKY (2009) é outra obra desconcertante para aqueles que tentam descobrir o mínimo múltiplo comum dos filmes de Ozon.

Difícil não escrever sobre o filme sem entregar alguns detalhes que o diretor parece não querer contar, a julgar pelo trailer enigmático e pelas fotos de divulgação que não mostram o pequeno Ricky em toda sua glória. Na trama, Alexandra Lamy é Katie, uma mulher operária, mãe solteira, que cuida de sua filha, mas que parece tão desencantada com a vida que algumas vezes é a filha que cuida dela. No trabalho, ela conhece Paco (Sergi López), um homem que despertou sua atração. Logo no primeiro encontro, eles transam no banheiro da firma. O resultado: uma gravidez. A filha de Katie é quem dá o nome para a criança, Ricky.

A criança se revela bastante chorona, o que perturba os pais, principalmente quando começam a aparecer marcas em suas costas. É a partir daí que o filme passa para um registro fantástico, embora isso já comece a ser anunciado desde o início, pelo tom adotado pelo diretor e eventualmente pela trilha sonora. Embora o filme termine de maneira brusca e pouco satisfatória, principalmente levando em consideração que seu enredo é bem intrigante e original, algumas cenas ficam bem gravadas na memória, como o momento em que Katie desce a um lago, desesperada pelo sumiço de Ricky e o vê chegando, sorrindo com suas asas enormes. Isso oferece ao filme algo de espiritual, que até então não se via de forma tão explícita na obra do cineasta. Ao voltar para casa, Katie sorri, iluminada, como se tivesse sido visitada por um anjo. E quem poderia dizer que não foi?