sábado, fevereiro 28, 2009

THE YAKUZA PAPERS VOL. 1 - BATTLES WITHOUT HONOR & HUMANITY (Jingi Naki Tatakai / Battles without Honor and Humanity)



Quando Quentin Tarantino usou o recurso do sangue espirrando exageradamente dos membros decepados nas cenas de ação e violência em sua obra-prima KILL BILL, ele muito provavelmente fez uma homenagem aos filmes de Kinji Fukasaku, que não por acaso é explicitamente homenageado nos créditos de abertura da edição japonesa do filme. Em minha ignorância em relação ao cinema de ação oriental, provavelmente esse recurso pode não ter sido exclusividade de Fukasaku, mas com certeza vendo o filme nos dias de hoje fica difícil não associar a KILL BILL. A cine-série BATTLES WITHOUT HONOR & HUMANITY (1973) foi lançada nos Estados Unidos num box chamado THE YAKUZA PAPERS, que contém o original e suas quatro sequências. A julgar pelo primeiro filme e pelos trailers das sequências e de outros dois trabalhos de Fukasaku que vêm nos extras do DVD, posso arriscar em dizer que o diretor foi o homem a pintar o cinema japonês de vermelho. Sangue é o que não falta nesse filme, considerado por muitos como "O PODEROSO CHEFÃO japonês", já que a produção foi realizada um ano após o sucesso mundial do filme de Coppola.

A trama se passa no Japão recém-devastado pela Segunda Guerra Mundial e o filme afirma ser baseado em fatos reais, tendo a intenção de contar a história das famílias Yakuza. A série foi adaptada de uma série de artigos publicados por um jornalista e ex-yakuza, Koichi Liboshi. O filme se utiliza do recurso da imagem congelada, em especial nas sequências de morte dos jovens (e velhos) mafiosos. Uma das coisas que chegou a me impressionar foi a morte de um dos personagens mais interessantes da trama, antes da metade do filme. Assim, com o protagonista preso e um personagem importante morto, ficamos sem chão, tentando nos apegar a novos personagens. O excesso de personagens pode deixar as coisas um pouco confusas para o espectador (leia-se "eu"), mas em nenhum momento o filme fica aborrecido ou deixa de ser interessante. Se for como uma série de televisão, que depende muito do gosto adquirido e da familiaridade com os personagens, há chances de as continuações serem ainda melhores.

O principal personagem desse filme cheio de testosterona é Shozo Hirono, interpretado por Bunta Sugawara. Ele é um ex-soldado que após ter tentado vingar o amigo que teve um de seus braços decepados pela Yakuza é levado preso. Na cela, ele conhece um jovem rapaz pertencente a uma das famílias Yakuza. Os dois fazem um pacto de sangue e o yakuza tem a ideia de "simular" um harikiri, a fim de escapar da da prisão. O truque dá certo e em questão de dias Shozo tem sua estadia na prisão diminuída pela família do yakuza. Em sua vida errante e com a coragem que tem, Shozo aceita se filiar à família de mafiosos. Ele chega, inclusive, a impressionar o seu chefe, ao pagar por um erro seu cortando o próprio dedo mindinho, uma prática adotada pela instituição como forma de arrependimento e coragem. A cena do corte do dedo é um dos momentos de destaque do filme, ainda que essa cena se caracterize mais pelo humor do que pela violência gráfica.

O filme também se caracteriza pelo caos reinante, pelo uso da câmera na mão, pelo formato semi-documental e por um número incrível de assassinatos. Cada assassinato é mostrado com a imagem congelada e com a data e o nome da morte do dito cujo. A rapidez com que surge cada morte passa a sensação de que a vida daquele povo nada vale. Morrer é apenas um detalhe. Claro que o filme não se faz apenas de corajosos e sucididas, mas também de covardes e chorões, como o senhor da máfia que pede, chorando, a ajuda de Shozo para que ele execute um serviço perigoso para ele. As motivações dos personagens e suas intenções de mudar de lado nem sempre são claras, mas acho que isso se deve mesmo a uma falta de hábito da minha parte de ver filmes policiais japoneses.

Deixo os meus agradecimentos ao chapa Renato Doho, que fez a gentileza de copiar os cinco filmes do box. Tenho estoque para muita sangreira ainda.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

HALLOWEEN



É fácil simpatizar com Rob Zombie. Principalmente quem gosta de cinema de horror. Desde que ele se tornou conhecido mundialmente como vocalista da banda White Zombie que se notou o seu interesse por filmes do gênero. O próprio nome da banda não negava. Mas o legal é que ele levou isso mais longe, passando a dirigir filmes e alcançando o seu auge criativo com o segundo trabalho, REJEITADOS PELO DIABO (2005), uma mistura de filme de horror com policial setentista. E foi nos anos 70 que Zombie foi buscar a fonte para o seu terceiro longa-metragem, dando origem a HALLOWEEN (2007), refilmagem do clássico de John Carpenter, datado de 1978. Confesso que não sou entusiasta do filme de Carpenter e nem cheguei a ver nenhuma de suas continuações. Por isso, a possibilidade de eu gostar da refilmagem de Zombie não era remota. E quase que Zombie conseguiu fazer com que eu gostasse de seu filme. Gostei de um terço dele: justamente a parte que é menos explorada na obra de Carpenter, que é a infância de Michael Myers.

Zombie já tem um histórico interessante em sua curta carreira em trabalhar com famílias disfuncionais. Assim, não é de se espantar que ele queira ter enfatizado a infância de um dos psicopatas mais famosos do cinema. Não acredito que Zombie tivesse o intuito de dissecar a personalidade do assassino, mas de explorar algo que é ainda mais assustador: uma criança cheia de maldade na alma. Uma maldade que por mais que se procure, não se encontra uma razão, por vias sociológicas. As primeiras cenas do jovem Myers matando primeiramente o seu colega de escola e depois membros de sua família são bem fortes. Não sei se o fato de eu ter visto uma versão uncut do filme tenha tornado tudo mais pesado. Por isso, os primeiros quarenta minutos de filme são bem interessantes.

Depois, quando Myers foge do sanatório onde está preso e sai matando por aí, o filme vira um slasher vagabundo. Como se não interessasse mais para Zombie aquele filme. Como se o mais importante já tivesse sido contado. A bela e gostosa Sheri Moon Zombie aparece no filme como a mãe do assassino, que trabalha para criar os filhos num inferninho como stripper e prostituta. Enquanto isso, o jovem Myers, já desde pequeno, gostava de matar animais indefesos. O que já denunciava um caso patológico, mas que não pôde ser tratado a tempo pela mãe. Foi preciso que houvesse um massacre em sua casa para que se percebesse o grau de periculosidade de Myers. Malcom McDowell, o nome mais conhecido do elenco, interpreta o papel que no original foi de Donald Pleasance, o do psiquiatra que estuda a mente do psicopata desde a sua infância. E se o filme de Carpenter era uma homenagem aos gialli, especialmente a Dario Argento, Zombie encontra ecos no "horror rural" dos anos 70, tipicamente americano.

Quem espera do filme apenas um slasher vulgar, com muito sangue e algumas cenas de nudez, pode não ficar tão decepcionado. Mas quem já esperava algo tão bom quanto REJEITADOS PELO DIABO – como a maior parte daqueles que esperavam isso de Zombie - vai quebrar a cara. Uma pena saber que Zombie está filmando uma continuação. Quer dizer, o que poderia ser um cineasta promissor e mais um nome a encabeçar a lista dos grandes cineastas de horror pode acabar se perdendo pelo caminho com uma franquia requentada e sem graça. Antes disso, porém, Zombie já tem pronto um projeto mais interessante: a animação THE HAUNTED WORLD OF EL SUPERBEASTO, baseada nos quadrinhos criados por ele mesmo e já no ponto para ser lançada.

P.S.: Quem mais está acompanhando LOST? O mais recente episódio, "The Life and Death of Jeremy Bentham", se não é o meu favorito da temporada (gostei mais dos dois anteriores), me deixou ainda mais instigado quanto aos rumos da série. E Benjamin Linus continua sendo um dos personagens mais enigmáticos e interessantes da trama.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

MILK – A VOZ DA IGUALDADE (Milk)



Dos indicados ao Oscar de melhor filme, dois deles se passam nos anos 70 e se utilizam de um registro semi-documental: FROST/NIXON, de Ron Howard, e este MILK – A VOZ DA IGUALDADE (2008), assinado por Gus Van Sant, cineasta que até pouco tempo era tratado com desprezo pela crítica e pela maioria dos cinéfilos, mas que depois de GERRY (2002) resolveu radicalizar e fazer um trabalho experimental e autoral, revelando-se um dos cineastas mais importantes da atualidade. Assim como Van Sant ousou se libertar do academicismo e da mesmice hollywoodianos para abraçar o diferente, assim também Harvey Milk ousou peitar a polícia e a sociedade de sua época e não apenas assumir publicamente sua homossexualidade, mas também lutar pela igualdade de direitos e pelo fim da discriminação. Não era uma luta fácil, é verdade. E muita coisa ainda não mudou, mas muito do que foi conseguido se deve a Harvey Milk, a primeira figura política assumidamente gay, que começou procurando mudar a sua rua, a Rua Castro, da cidade de San Francisco, cidade que já teve a fama de ser matadora de homossexuais e hoje é uma espécie de meca da diversidade sexual.

Quanto a Van Sant, também homossexual assumido, digamos que ele fez algumas concessões para tornar a sua obra de mais fácil acesso ao grande público. Concessões estéticas, ainda que sua obra encontre pontos que a vinculam a ELEFANTE (2003), por exemplo. Não é para menos que conseguiu ficar entre os cinco indicados ao prêmio da Academia e a premiação de ator e as cenas de beijos entre Sean Penn e James Franco na festa meio que vieram para compensar a falta de prêmios mais importantes para O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN numa edição passada do prêmio. Se o filme de Ang Lee era sobre o amor que não pode ser dito, MILK é sobre a coragem de dizer. Dizer como forma de sobreviver. A certa altura do filme, Harvey Milk, num discurso privado para seus amigos mais íntimos, pergunta se alguém ali já saiu definitivamente do armário, se já contou para toda sua família e amigos quem eles são realmente. Um deles afirma que nunca contou o fato para o pai e é encorajado por Milk a ligar para ele imediatamente.

No entanto, tentar mudar a cabeça de uma nação que cresceu com raízes puritanas tão fortes não é fácil. E o filme já começa com Milk deixando um testamento numa fita cassete, para ser ouvido caso ele seja assassinado. E os homossexuais morrem no filme não apenas assassinados pela polícia, por grupos extremistas ou por psicopatas em potencial. Eles morrem também de suicídio, seja por não aguentarem a pressão da sociedade, seja por se sentirem sozinhos e abandonados. Um dos momentos mais bonitos do filme é quando um jovem do interior dos Estados Unidos liga para Milk e diz que vai tirar a própria vida, pois o pai quer levá-lo para uma clínica para "consertá-lo". Milk diz para ele fugir dali imediatamente e ir para a cidade grande mais próxima. Mas o jovem também tem outro problema: ele não consegue andar.

Apesar de tratar de um tema tão forte, deprimente e de fácil caminho para o melodrama, Gus Van Sant se utiliza de um registro mais seco, com a câmera na mão frequentemente, como forma de tornar o seu filme mais próximo da realidade, mais próximo dos Estados Unidos da década de 70. MILK não nega seu caráter panfletário. É mesmo um filme de natureza política. Assim MILK se aproxima mais do seu objeto de estudo, como para dar continuidade à luta de Harvey Milk. Não é para menos que o discurso de Sean Penn no Oscar tenha sido tão incisivo. Ele quis verdadeiramente proclamar a sociedade americana a se unir para quebrar de vez o preconceito aos grupos homossexuais. E acredito que tanto o também oscarizado roteirista quanto o diretor Gus Van Sant tiveram motivos para ficar orgulhosos do astro.

terça-feira, fevereiro 24, 2009

QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (Slumdog Millionaire)



Os finalistas para o Oscar deste ano foram bem estranhos. Quem é que ia prever, dois anos atrás, que os favoritos ao prêmio principal seriam filmes dirigidos por David Fincher e Danny Boyle? Quem ia prever que o principal nome indie da festa, Gus Van Sant, voltaria com um título mais acadêmico? E quem diria que um dos melhores filmes, talvez até o melhor dos cinco, fosse dirigido por Ron Howard? O cinema é uma caixinha de surpresas. E mesmo que alguém tivesse apostado numa recente moda indiana, quem diria, há dois anos, que QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? (2008) abocanharia tantos prêmios? Danny Boyle finalmente conquistou Hollywood. E ainda trouxe Bollywood consigo, embora, como eu já falei aqui, duvido que ela tenha vindo para ficar. Vamos ver se filmes puramente indianos e com aquelas características bem populares e tradicionais do país vão se tornar também populares no Ocidente.

Quanto ao filme de Boyle, eu fui um dos que não entraram em sua viagem. Como também não havia entrado na viagem de TRAINSPOTTING (1996), um dos filmes mais celebrados do cineasta e uma das obras mais representativas dos anos 90. Mas pelo menos é possível estabelecer elos em comum entre o novo filme e outros trabalhos do diretor. O dinheiro, por exemplo, é algo que está presente desde a estreia de Boyle, com o suspense COVA RASA (1994) até o pouco visto CAIU DO CÉU (2004). Só que em QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? o dinheiro é tido por Jamal, o protagonista, não como algo tentador, mas como uma maneira de escapar de sua condição e, principalmente, de conseguir o amor de sua vida: uma garota por quem ele é apaixonado desde a infância e que agora encontra-se sob o poder de um grupo de gângsters perversos. Desses que pegam as crianças desde cedo para trabalharem como mendigos, assassinos ou entrarem para o mundo da prostituição. E por mais que alguém diga que ele está falando da realidade do país, não é assim que se vê o filme.

Assim como o jogo de perguntas e respostas que ele está jogando e que faz Jamal se lembrar de momentos da sua vida, numa montagem que valeu ao filme um Oscar, também a vida de Jamal, inclusive os momentos teoricamente mais dramáticos, como a morte de sua mãe, são vistos como um jogo. Há uma frieza que já é característica de Boyle. A emoção é superficial e alegria final é rasa. E eu vejo isso como um problema. Preciso da emoção para entender que o cineasta sabe o mínimo das técnicas de manipular a audiência, como Fincher soube mostrar, por mais que acusem o seu filme de apelar demais para os clichês. E quando eu falo "manipular", eu falo isso positivamente, como Hitchcock manipulava a audiência. Não há problema nenhum nisso se você está se permitindo ser manipulado. (É claro que essa é uma discussão que vai mais longe se analisarmos o que faz, por exemplo, um cineasta como Lars Von Trier.)

Dizem que Boyle chegou a se sentir ofendido quando compararam o seu filme ao brasileiro CIDADE DE DEUS. Meirelles pelo menos acertou a mão em seu filme e fez um trabalho que vai além da estética publicitária e do queimar a vista com as luzes e a fotografia. Além do mais, a comparação com CIDADE DE DEUS, vai além da sequência das galinhas. A amizade entre os dois irmãos pode ser usada como uma relação de aproximação entre os dois filmes, bem como a resistência do protagonista a adentrar o mundo da corrupção, coisa que seu irmão não soube fazer.

De todo modo, minha intenção não é denegrir a imagem do filme, que tem os seus defensores, que não são apenas os votantes da Academia e da imprensa estrangeira nos Estados Unidos, que também votaram no filme para o Globo de Ouro. Um dos textos mais interessantes que eu li sobre o filme foi o de Chico Fireman, que encarou a aceitação de QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO? nos Estados Unidos como símbolo de uma nação que agora quer voltar o olhar para os problemas do mundo, deixar de olhar só para o próprio umbigo e aceitar os estrangeiros com braços abertos. Afinal, com Obama no poder, queremos acreditar que estamos diante de uma nova nação, certo? Uma nação que também quer ser otimista, apesar dos obstáculos. Achei interessante essa explicação. Embora obras como CARTAS DE IWO JIMA, de Clint Eastwood, e A PAIXÃO DE CRISTO, de Mel Gibson, com suas opções pela língua original, já fossem "ensaios" para esse momento.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

OSCAR 2009



Pra mim, o melhor momento dessa 81ª cerimônia do Oscar foi a brincadeira que Ben Stiller fez com o colega Joaquin Phoenix. Ele apareceu ao lado de Natalie Portman para apresentar um dos prêmios de óculos escuros, com uma barba postiça enorme e mascando chiclete, a exemplo da presepada de Phoenix numa recente "entrevista" para o programa de David Letterman. Foi o momento mais divertido da noite. A tão esperada homenagem a Jerry Lewis acabou sendo um pouco deprimente, já que eles o homenagearam por sua ação humanitária e não pelo conjunto de sua genial obra. Dizem que o próprio Lewis havia ficado um pouco chateado com isso, embora não tenha deixado transparecer quando subiu ao palco para receber o prêmio.

Pra quem costuma dizer que festa do Oscar é tudo a mesma coisa, esse ano foi até diferente. Acho difícil eles manterem o mesmo formato nas próximas edições, até porque iria ficar chato e cansativo. Para esse ano, contudo, a idéia de convidar cinco ganhadores da estatueta para falar para cada indicado das quatro categorias de interpretação funcionou e emocionou os indicados. Em que outra ocasião poderíamos ver Robert De Niro falando diretamente para o amigo Sean Penn e fazendo uma piadinha sobre a sua interpretação de Harvey Milk? E essas não foram as únicas modificações. O fato de a premiação ser apresentada por Hugh Jackman, que não se destaca por seu senso de humor, mas por sua capacidade de dançar, cantar, de ser um showman também contribuiu para uma mudança significativa.

E ao contrário do que se pensava, o fato de diminuírem a quantidade e a duração das canções indicadas ao prêmio - o que fez com que Peter Gabriel ficasse insatisfeito e desistisse de subir ao palco para interpretar "Down to Earth", de WALL-E – curiosamente não diminuiu os números musicais. Ao contrário, números musicais não faltaram na festa. O próprio Hugh Jackman abriu a cerimônia dando uma de Billy Crystal e cantou e dançou em homenagem aos principais indicados. Fora isso, teve até número com Beyoncé Knowles, onde ele deixou um monte de marmanjos com inveja ao pegar nas belas pernas da cantora. O fato de o grande premiado da noite ser QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?, de Danny Boyle, filme que termina com uma sequência musical ao estilo Bollywood, pode ter contribuído para tanto cantar e dançar. Em tempos de crise, isso seria uma forma de espantar os males.

E falando em crise, ela já chegou ao Oscar. Nos Estados Unidos, eles tiveram que diminuir o preço do que se cobrava para se colocar um anúncio no intervalo da festa. Aqui no Brasil, o fato de a festa acontecer em pleno Carnaval fez com que muita gente sequer ficasse sabendo da premiação, que não foi transmitida esse ano por nenhuma televisão aberta. Só pela TNT. Sem falar no fato de os filmes indicados não estarem recebendo uma distribuição decente nos cinemas.

Quanto às premiações, a maioria delas foi bem previsível. A única surpresa da noite foi o japonês DEPARTURES vencer o israelense VALSA COM BASHIR na categoria de filme estrangeiro. Mas de qualquer maneira, essa é uma categoria um pouco mais difícil de prever. Também fiquei surpreso com a vitória de Sean Penn por MILK – A VOZ DA IGUALDADE, vencendo o meu favorito, Mickey Rourke (O LUTADOR). Apesar de gostar de Penn, eu achava preferível Frank Langella ganhar o prêmio por sua brilhante performance em FROST/NIXON. Do jeito que ficou, pareceu uma premiação políticamente correta. Kate Winslet ganhando o prêmio de atriz principal também não foi o que eu queria. Não por Kate, que eu acho ótima, mas pelo filme que ela concorria, o fraco O LEITOR. Mas a premiação mais certa da noite era a de Heath Ledger, por BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS. O prêmio foi recebido por sua família.

O grande perdedor da noite foi justamente o filme que mais tinha indicações. O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON, de David Fincher, que apareceu em várias listas de melhores do ano e era tido como um dos favoritos, acabou tendo que se contentar com três prêmios técnicos, das treze indicações. E será que Bollywood chegou pra ficar em Hollywood? Eu ainda não acredito. Se a moda indiana chegou até nas novelas da Globo, acredito que se os filmes produzidos na Índia chegarem com força no Ocidente acho que vai ser apenas uma moda passageira, como foram as cinematografias chinesa, iraniana, dinamarquesa, japonesa e sul-coreana, que tiveram o seu momento de destaque em determinado momento dos últimos vinte anos.



Os Vencedores

Melhor filme: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Melhor diretor: Danny Boyle, por QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Melhor ator: Sean Penn, por MILK – A VOZ DA IGUALDADE
Melhor atriz: Kate Winslet, por O LEITOR
Melhor ator coadjuvante: Heath Ledger, por BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS
Melhor atriz coadjuvante: Penélope Cruz, por VICKY CRISTINA BARCELONA
Melhor filme estrangeiro: DEPARTURES (Japão)
Melhor filme de animação: WALL-E
Melhor roteiro adaptado: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Melhor roteiro original: MILK – A VOZ DA IGUALDADE
Melhor fotografia: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Melhor direção de arte: O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON
Melhor figurino: A DUQUESA
Melhor documentário em longa-metragem: MAN ON WIRE
Melhor documentário em curta-metragem: SMILE PINKI
Melhor montagem: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Melhor maquiagem: O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON
Melhor trilha sonora original: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Melhor canção: "Jai Ho" (QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?)
Melhor curta-metragem de Animação: LA MAISON DE PETITS CUBES
Melhor curta-metragem: SPIELZEUGLAND (TOYLAND)
Melhor edição de Som: BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS
Melhor mixagem de Som: QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?
Melhores efeitos visuais: O CURIOSO CASO DE BENJAMIN BUTTON

As musas da noite

domingo, fevereiro 22, 2009

FROST/NIXON



Numa atitude de rebeldia diante do descaso e desrespeito das distribuidoras, eu, que sempre costumo esperar para ver o filme no cinema, resolvi pegar da internet FROST/NIXON (2008), um dos cinco indicados a melhor filme do Oscar 2009. Este ano, pela primeira vez em muito tempo, as distribuidoras não conseguiram agendar o lançamento de todos os cinco indicados ao prêmio principal até pelo menos o final de semana do Oscar. Como não sou de ficar contando o que gasto com cinema durante o ano – pelo menos a tão falada crise ainda não chegou a esse ponto – vejo que perdi de ver um filmão no cinema, mas por outro lado, ver o filme na hora que me convém e no conforto da minha poltrona e com as luzes apagadas para se aproximar do clima da sala escura tem a suas vantagens. Como não se trata de um filme que tenha muitos planos gerais, tendo mais cenas se passando em lugares fechados, acredito que não se perde muito vendo na telinha. Ao contrário, foi um prazer ver esse filme nessas condições. E "prazer" é uma palavra que surpreendentemente combina com FROST/NIXON.

Digo "surpreendentemente" porque a direção do filme é de Ron Howard, cineasta que tem mais erros do que acertos em sua filmografia. E porque o filme é sobre uma entrevista dada a um político. Quer dizer, jamais imaginaria que um filme com um tema desses se tornasse algo tão agradável e empolgante. FROST/NIXON parece um filme de luta de boxe misturado com drama de tribunal. Ron Howard e o roteirista Peter Morgan – que já havia se saído muito bem abordando temas políticos em A RAINHA - recebem muitos pontos positivos com esse trabalho. Aliás, daria para fazer uma comparação entre esses dois ótimos filmes, dado o tom semi-documental adotado por ambos, ainda que de maneira distinta. No filme de Howard, a inclusão de pequenas entrevistas com os personagens do filme, dadas como se eles estivessem participando de um documentário ou um programa jornalístico, torna-o ainda mais interessante.

No terreno das interpretações, quem rouba a cena é mesmo Frank Langella, que faz um Richard Nixon decadente, logo após ter se afastado da presidência após o escândalo Watergate. Mas Michael Sheen não faz feio no papel do apresentador de entrevistas para a TV David Frost. Eu diria que o ator, só agora, alcançou a visibilidade necessária. Eu, pelo menos, só fui me lembrar que era ele que havia interpretado o Primeiro Ministro Tony Blair em A RAINHA vendo sua filmografia no IMDB. O ótimo elenco ainda inclui Rebecca Hall, outra atriz que havia passado batido por mim até vê-la em VICKY CRISTINA BARCELONA, de Woody Allen, e ter me apaixonado por sua personagem. Novamente, ela encanta no papel da moça que David Frost conhece na primeira classe de um voo e que, logo no dia em que a conhece, a convida para um encontro com Richard Nixon. Ela, claro, não ia deixar de perder essa oportunidade. Kevin Bacon é o braço direito de Nixon, o cara que levaria uma bala pelo seu chefe; e Sam Rockwell é o homem que quer ver Nixon se humilhar diante das câmeras e pagar pelos crimes que cometeu enquanto Presidente dos Estados Unidos.

Mas quem acha que foi fácil preparar essa histórica entrevista não sabe o quanto David Frost teve que penar, à procura de patrocinadores, bancando com o seu próprio dinheiro e tendo que fazer a entrevista de forma independente, para depois vender para alguma emissora de televisão interessada. Os bastidores dessa luta de Frost pela entrevista, que durou anos para se realizar, também tornam o filme atraente. Mas nada como os detalhes da personalidade de Nixon, que é mostrado não exatamente como um vilão, mas que pode despertar sentimentos contraditórios no espectador: da raiva ao desprezo, da indignação à pena. E por isso que sua indicação ao Oscar é mais do que merecida. Deu de dez no Richard Nixon de Anthony Hopkins no tedioso NIXON, de Oliver Stone.

P.S.: Ontem fiz uma viagem histórica para a casa de meu avô, homem bastante querido por todos que o conhecem e que se encontra abatido pela sequelas de dois AVCs. Por razões que vão além de nossa compreensão, a viagem para ir vê-lo nunca dava certo. Ontem, para minha surpresa, finalmente deu. Agora o patriarca, o sr. José Fernandes, vive sob os cuidados de sua filha (minha tia) numa localidade do município de Aratuba. O lugar é longe e de difícil acesso, mas valeu a pena ter estado lá. Eu, que costumo sempre dizer que só choro em filmes e não na vida real, tive que conter as lágrimas. Foi muita emoção. Aos 88 anos de idade, ele fica cada vez mais emocionando quando alguém da família vai visitá-lo. E chora com a partida. Muita coisa passou pela minha cabeça, olhando para aquela vida simples e sofrida, e me senti um pouco como um Eduardo Coutinho, escutando com atenção e interesse a conversa de senhores velhos e que tem tanta história pra contar. Só que fazendo parte da história. Enfim, daria um post inteiro só pra esse assunto.

P.S. 2: O Diário de um Cinéfilo foi citado na Folha Online, numa matéria sobre sites de cinema. Bacana. :)

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

OPERAÇÃO VALQUÍRIA (Valkyrie)



Depois de ter feito três blockbusters baseados em personagens de histórias em quadrinhos, Bryan Singer resolveu fazer um filme de orçamento menor. OPERAÇÃO VALQUÍRIA (2008) teve o seu trailer tantas vezes exibido e seu lançamento tantas vezes adiado que o público acaba ficando desinteressado pelo filme. E Tom Cruise, ator em crise depois de uma série de eventos recentes que foram desembocar no fim do contrato milionário com a Paramount e na conscientização do ator de que deveria ter ficado calado em vez de ficar falando o tempo todo da cientologia, deixou de ser chamariz para a audiência. Parece até que o público se cansou dele. Depois do encalhamento dos DVDs nas lojas de GUERRA DOS MUNDOS e MISSÃO: IMPOSSÍVEL 3, o ator deu um passo para trás e trabalhou como coadjuvante ao lado de atores de renome em LEÕES E CORDEIROS e TROVÃO TROPICAL, onde se destacou, tendo até sido indicado ao Globo de Ouro de ator coadjuvante. OPERAÇÃO VALQUÍRIA é o seu retorno como protagonista. Ele continua com o bom senso de trabalhar com bons diretores, embora Singer seja um exemplo relativo do que se chama bom diretor. Ainda acredito que o melhor trabalho dele na direção seja o piloto de HOUSE (2004).

Outro ator que também está bem pouco popular - pra não dizer decadente - é Kenneth Branagh, que desde a separação com Emma Thompson caiu em projetos que não deram certo. E pensar que nos anos 90 ele era um cineasta respeitado e tal. Sua chance de se reerguer como cineasta pode estar em THOR, a adaptação para as telas do herói da Marvel, prevista para o próximo ano. Se o Deus do Trovão não conseguir trazê-lo de volta, nada mais poderá. Branagh está num papel bem pequeno e insignificante em OPERAÇÃO VALQUÍRIA. Quanto ao filme, seu principal mérito é mostrar para as novas audiências um "novo" ângulo de visão da Segunda Guerra Mundial. Por mais que o personagem real do Coronel Claus von Stauffenberg já tenha sido visto no cinema e em produções televisivas inúmeras vezes, para as grandes plateias, principalmente as mais jovens, os atos desse homem honrado e inteligente ainda permanecem desconhecidos. A imagem que se tem dos alemães durante a Segunda Grande Guerra é a de ou nazistas, ou de pessoas facilmente manipuláveis ou - como dá a entender em O LEITOR - de pessoas cúmplices, caladas e covardes, diante dos atos brutais de Adolf Hitler. OPERAÇÃO VALQUÍRIA foi apenas uma das várias tentativas de oficiais alemães tentarem sabotar os planos de Hitler, que por isso ficava bem protegido na Toca do Lobo.

Tom Cruise na pele de Stauffenberg não faz feio, mas também não é o intérprete ideal. Talvez seja até um dos motivos do fracasso do filme nas bilheterias. Que pelo menos se pagou, mas é pouco para Tom Cruise e uma prova da despopularização do astro. Na primeira cena de OPERAÇÃO VALQUÍRIA, vemos logo um ataque aéreo dos aliados, que culminou na perda de uma mão e de um olho do militar, que, apesar disso, ainda permaneceu trabalhando, mas cada vez mais tentado a participar em traições ao reinado de Hitler. Uma das coisas que poderia ser melhor aproveitada no filme é o relacionamento de Stauffenberg com a esposa. Ela é vista poucas vezes no filme e isso acaba por diminuir o impacto das cenas que envolvem os dois. Bryan Singer preferiu se concentrar na trama política e de suspense, que em alguns momentos chega mesmo a funcionar, mas que no fim do filme gera aquela impressão de que poderia ser melhor e de que o resultado é um filme frio demais para um thriller e com sérios riscos de cair rapidamente no esquecimento.

P.S.: Chega o Carnaval e, com ele, o final de semana do Oscar. As distribuidoras continuam comendo bola. Além de deixarem obras importantes de Tarantino, Ang Lee e De Palma em longa espera, em temporada de Oscar, eles não conseguiram soltar nem mesmo todos os cinco indicados a melhor filme a tempo. Depois reclamam quando o povo baixa os filmes em vez de ir ao cinema.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

CINÉASTES DE NOTRE TEMPS - FRANÇOIS TRUFFAUT OU L'ESPRIT CRITIQUE



Interessante esses registros de um momento da vida e da obra de um homem como François Truffaut, que praticamente se despia em seus filmes e entrevistas, tal a exposição de sua vida, seus pensamentos e visão de mundo em suas obras. Seu primeiro longa-metragem, OS INCOMPREENDIDOS, já era semi-autobiográfico e mesmo em trabalhos de época ou em filmes que aparentemente não pareciam tão pessoais - como FAHRENHEIT 451 (1966), por exemplo -, o ar de pessoalidade estava presente nem que fosse para descrever coisas que ele admira, como as pernas de uma mulher ou o respeito pelos livros e pelos mortos. O documentário FRANÇOIS TRUFFAUT OU L'ESPRIT CRITIQUE (1965), do programa CINÉASTES DE NOTRE TEMPS, flagra um cineasta que ainda alçaria voos maiores, mesmo tendo começado sua carreira com o pé direito com um marco da Nouvelle Vague. Truffaut já havia participado do mesmo programa dedicado ao citado movimento revolucionário do cinema francês no qual ele foi uma das cabeças pensantes mais importantes, e apareceria em mais outros dois programas, um deles para dar testemunho sobre Jacques Becker.

O que eu não gostei no documentário é que ele destaca demais um dos filmes de Truffaut que eu menos gosto, que é JULES E JIM (1962), inclusive abrindo com uma canção do filme na voz de Jeanne Moreau. Há também um bom destaque para o belo curta ANTOINE E COLLETE (1962), continuação de OS INCOMPREENDIDOS. Mas o que mais há no documentário é um ainda tímido Truffaut falando de seus primeiros trabalhos de frente para a câmera. Ou seria aquilo uma entrevista coletiva? De todo modo, é sempre bom ouvir Truffaut, assim como é bom ler seus escritos, sempre entusiasmados e apaixonados. Mas talvez o melhor momento do programa seja mesmo ver o depoimento do jovem Jean-Pierre Léaud, falando com os olhos brilhando do prazer que é trabalhar com Truffaut, que foi quase um pai para ele.

Quando encerrei minha peregrinação pela obra do cineasta, tendo tido o prazer de rever seu filme-testamento, DE REPENTE NUM DOMINGO, esqueci de ensaiar um top 10 com os meus favoritos do cineasta. Então a hora é essa. Mandem as suas listas também!

Top 10 Truffaut:

1. DOMICÍLIO CONJUGAL (1970)
2. BEIJOS PROIBIDOS (1968)
3. OS INCOMPREENDIDOS (1959)
4. A SEREIA DO MISSISSIPI (1969)
5. O ÚLTIMO METRÔ (1980)
6. O QUARTO VERDE (1978)
7. A NOITE AMERICANA (1973)
8. DE REPENTE NUM DOMINGO (1983)
9. A HISTÓRIA DE ADÈLE H. (1975)
10. DUAS INGLESAS E O AMOR (1971)

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

O LUTADOR (The Wrestler)



Lembro que, nos anos 80, eu costumava assistir aqueles programas de luta livre que passavam não me recordo em que canal. Achava aquilo muito divertido. Sabia que era tudo combinado mas sabia que fazia parte do show de entretenimento. Onde estão aqueles lutadores malucos daquele show hoje? Daqueles lutadores, o que se tornou mais famoso foi Hulk Hogan, que até fez alguns filmes para cinema e TV. A grande maioria deve ter ficado como o Randy "The Ham" Robinson, o personagem incorporado com sinceridade e identificação por um inspirado Mickey Rourke em O LUTADOR (2008), o melhor trabalho de Darren Aronofsky. O próprio Rourke, que nos anos 80 era um astro de primeira grandeza de Hollywood, entrou de cara em sua paixão antiga pelo boxe, deixando o cinema um pouco de lado. E o cinema acabou por deixá-lo de lado também, tornando-o coadjuvante de filmes B. A decadência parecia ter chegado definitivamente para o agora desfigurado Mickey Rourke, que nem mesmo com participações mais recentes em filmes classe A como ERA UMA VEZ NO MÉXICO, CHAMAS DA VINGANÇA, SIN CITY e DOMINO, conseguiu sair da aura de decadente.

Sua história até daria para traçar alguma comparação com a de Sylvester Stallone, até pela volta de Sly à boa forma com o seu personagem mais querido, o lutador de boxe Rocky, mas há mais diferenças do que semelhanças entre os dois, até porque Stallone quase sempre foi protagonista de seus filmes, mesmo os mais vagabundos. O que estava faltando para Rourke era mesmo um papel como esse, feito como uma luva para ele. Sua caracterização como o lutador que ganha com dificuldade alguns trocados participando de campeonatos para seus velhos fãs saudosistas é o ponto alto de sua carreira. E saudosismo é palavra-chave em O LUTADOR, que ainda se beneficia dos velhos hard rocks que tanto sucesso fizeram na década de 80. Não é para menos que um dos grandes momentos do filme é a cena de Rourke entrando no ringue perto do final do filme ao som de "Sweet Child o'Mine", do Guns N’Roses, a mais bem sucedida banda de hard rock, ao lado do Bon Jovi, que não comparece na trilha do filme.

O diálogo entre Rourke e Marisa Tomei num bar, lembrando os "bons anos 80" e de como o Nirvana chegou para acabar com a festa e tornar os anos 90 um pesadelo para eles, mesmo não concordando com os dois, me fez simpatizar e compreender o sentimento, já que tenho sentido algo parecido em relação aos 90 e os 2000. No caso de Marisa Tomei, ela está no filme no papel de uma dançarina de boate de strip-tease, que tem como cliente o lutador, que com o tempo torna-se um amigo também. Ambos representam personagens decadentes tentando sobreviver num mundo que não trata bem aqueles que se utilizam do corpo como ganha-pão. Afinal, nada mais efêmero do que a juventude e nada mais cruel do que o tempo. E é nesse clima um tanto quanto baixo astral que se passa a trama de O LUTADOR.

Outro destaque do filme é a linda Evan Rachel Wood no papel da filha do lutador que não quer mais saber do pai, pois ele abandonou a família para se dedicar às lutas e, consequentemente, às farras da época. O momento mais tocante do filme talvez seja o diálogo do pai tentando fazer as pazes com a relutante filha. A decadência e o mal estar são também mostrados na quantidade de pílulas que o personagem de Rourke ingere para ficar "bombado" e no quanto isso repercute para a definição da tragédia do herói. Com uma performance tão intensa e bonita quanto a de O LUTADOR, esperamos que Rourke retorne com força às telas, de preferência com uma estatueta dourada nas mãos. Enquanto isso, Aronofsky se recupera do fracasso do pretensioso FONTE DA VIDA (2006), colecionando prêmios com o novo filme e se preparando para encarar uma reinvenção de ROBOCOP, que me parece uma barca furada, mas o cinema tem das suas surpresas.

O LUTADOR concorre ao Oscar nas categorias de melhor ator e melhor atriz coadjuvante (Marisa Tomei). Estou na torcida pelos dois.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

EASY VIRTUE



A peregrinação pela fase muda de Alfred Hitchcock não está sendo tão agradável quanto ver seus melhores filmes. Mal posso esperar para iniciar logo os filmes dos anos 30. Mas enquanto não chego lá, vou vendo aos poucos os que ainda restam da fase muda do mestre do suspense. Chegamos, então, a este EASY VIRTUE (1928), um dos quatro filmes do diretor produzidos em 1927. E vale esclarecer que não estou seguindo a ordem de lançamento dos filmes, mas a ordem de produção, que é a ordem de como eles são comentados nas entrevistas que o cineasta deu para François Truffaut e Peter Bogdanovich nos livros "Hitchcock/Truffaut - Entrevistas" e "Afinal, Quem Faz os Filmes". Como se trata de um filme menosprezado tanto pelos fãs e pela crítica quanto pelo próprio cineasta, pouco se fala de EASY VIRTUE nas entrevistas. O próprio Bogdanovich pergunta a Hitchcock se vale a pena falar alguma coisa sobre esse filme. Quer dizer, o próprio entrevistador já não valorizava esse trabalho.

O que Hitchcock destaca em ambas as entrevistas é a cena da telefonista, na qual não vemos (e nem ouvimos, claro, já que é um filme mudo) a conversa dos dois namorados. Sabemos o rumo da conversa e a decisão final da protagonista - se ela aceita ou não casar com o rapaz da alta sociedade - através apenas da expressão facial da telefonista. Há algum suspense na expectativa de que a heroína, divorciada e tendo passado por um escândalo na sociedade, não tenha seu passado descoberto pela família do noivo, que a odeia desde o primeiro momento que a vê. O fato de ela ser inocente, de não ter chegado a trair o marido que vivia bêbado, faz com que o filme seja mais um que traz o principal tema recorrente hitchcockiano: a pessoa inocente pagando por algo que não fez. O início do que seria tratado nos filmes de Hitchcock como a transferência da culpa. O mesmo havia acontecido no anterior, DOWNHILL (1927).

Há outras coisas em comum entre EASY VIRTUE e DOWNHILL. O rapaz que faz o papel do noivo no filme é Robin Irvine, o mesmo ator que contracena com Ivor Novello em DOWNHILL. A atriz, Isabel Jeans, também está em DOWNHILL. Diria que EASY VIRTUE é um pouco melhor resolvido narrativamente, mas perde pontos no aspecto inventivo com o outro filme. Tirando a cena da telefonista, EASY VIRTUE não apresenta praticamente nada de novo. E eu diria que, talvez por ser baseado numa peça de teatro e ter duas cenas se passando num tribunal, o filme carece muito do som. Hitchcock, ao contrário de cineastas como Charles Chaplin, Buster Keaton e F.W. Murnau, nasceu mesmo para o cinema falado.

Há uma refilmagem inglesa de EASY VIRTUE, com Jessica Biel no papel principal, que está estreando aos poucos em alguns países da Europa, mas que ainda não chegou ao mercado americano. Segundo o IMDB, o remake chegou a ser exibido no Brasil, durante o Festival do Rio do ano passado.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

SEXTA-FEIRA 13 (Friday the 13th)



Eis uma das melhores surpresas deste ano que se inicia. Apesar da assinatura de Michael Bay na produção, o novo SEXTA-FEIRA 13 (2009) consegue superar com facilidade qualquer filme da franquia original – até mesmo a divertida parte 6. O que não é nenhuma tarefa hercúlea, mas não deixa de surpreender mesmo assim. O diretor, Marcus Nispel, já havia feito um bom trabalho com a "atualização" para os anos 2000 do clássico O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA (2003), embora essa afirmativa não seja uma unanimidade.

O novo SEXTA-FEIRA 13 não é um remake do primeiro filme, de 1980 – se fosse, nem teria graça -, mas uma espécie de fusão dos três ou quatro primeiros. Como não me lembro bem quais filmes da franquia cheguei a ver com certeza, precisaria fazer uma pequena maratona para poder me lembrar. O filme de Marcus Nispel possui uma trama ágil, bem construída, surpreende já nos minutos iniciais, recicla com habilidade os clichês dos filmes homenageados e oferece diversão sem concessões às novas platéias. Estão lá as deliciosas jovens peladas e prontas para o sexo, as divertidas e sangrentas mortes das vítimas de Jason e o suspense final, quando nos apegamos aos personagens sobreviventes.

Como é de costume, a trama se inicia quando um grupo de jovens – como sempre loucos por sexo, bebidas e drogas, coisas que o moralista Jason parece não tolerar – chegam para fazer um acampamento no famoso Crystal Lake, o lugar à beira de um lago onde Jason costumava atacar suas vítimas nos velhos filmes da franquia. No novo filme, o assassino que nunca morre parece ter ficado mais ágil, mais inteligente e mais rápido no ataque às vítimas. A primeira delas é um rapaz que tem como seu últimos momentos de vida a felicidade de encontrar uma plantação de maconha, ao ficar sozinho enquanto seus demais companheiros estão com suas namoradas se divertindo. Duas cenas de sexo se destacam e uma delas acontece logo no começo do filme, numa barraca, com um interessante jogo de sombras que deixa a sequência com uma boa carga erótica.

O que surpreende é uma reviravolta que acontece já nos primeiros minutos de filme e que introduz novos personagens logo em seguida. As cenas de violência, que já não incomodavam às gerações oitentistas e faziam parte da diversão, agora, em tempos de JOGOS MORTAIS e O ALBERGUE, o sangue pode correr solto, ainda mais com o filme ganhando uma censura 18 anos, com liberdade para brincar à vontade com as cenas, embora, em comparação com os citados filmes, a diversão esteja sempre à frente da tortura e do sadismo. Há quem possa reclamar da falta de cenas de sustos, desses de pular da cadeira, mas as técnicas utilizadas nos filmes de terror recentes para assustar, utilizando-se do som, já estão mais do que manjadas e, por isso, o filme se beneficia mais do prazer da narrativa, dos corpos dos personagens, da atmosfera de terror e de uma espécie de sentimento ambíguo em relação a Jason.

P.S.: Foi publicado o resultado final dos melhores do ano da Liga dos Blogues Cinematográficos. O resultado final não reflete os meus votos - na verdade, dos meus favoritos pouquíssimos venceram - mas reflete o gosto da maioria.

P.S.2: E falando em melhores de 2008, está no ar a ediçao de fevereiro da Zingu!, que traz como destaque a eleição da equipe de redação da sua lista de favoritos. Dá pra fazer uma leve comparação com o resultado da Liga. A Zingu! do mês também traz mais uma parte do Dossiê Musas da Boca, Marcelo Carrard falando do W.I.P. brasileiro A PRISÃO, Clotilde Hesme no Musas Eternas e a adorável Mel Lisboa fechando a revista no Musas do Diniz.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

MALDITO – O ESTRANHO MUNDO DE JOSÉ MOJICA MARINS



Fiquei um tanto decepcionado com o documentário MALDITO – O ESTRANHO MUNDO DE JOSÉ MOJICA MARINS (2001), que André Barcinski e Ivan Finotti, os mesmos caras que escreveram a excelente biografia de Mojica, assinam como diretores. No livro, os autores não se incomodam em mostrar os podres do cineasta e vários detalhes de sua vida amorosa, bem como todas as mentiras que ele inventava para se autopromover, além de curiosidades sobre os bastidores das filmagens. "Maldito", o livro, é uma delícia, uma das melhores biografias que já li de alguém, além de ser uma aula de história do cinema e de sua época, oferecendo momentos em que é inevitável o riso e até as gargalhadas. O documentário me pareceu meio chapa-branca. Evita mostrar as presepadas do Mojica e ainda por cima, comete a falha de dar um salto temporal entre RITUAL DOS SÁDICOS/O DESPERTAR DA BESTAR e 24 HORAS DE SEXO EXPLÍCITO. Quer dizer: deixaram quinze anos de história do cineasta para trás, justamente os quinze anos mais frágeis de sua obra, mas não menos importantes do ponto de vista biográfico – não falando, portanto, das aventuras de Mojica pelo terreno das pornochanchadas da Boca do Lixo na década de 70. E, levando em consideração que o documentário só tem uma hora e pouco de duração, daria para eles preencherem com muito mais detalhes sobre a vida e a obra do homem.

Para quem já viu todos os DVDs lançados pela CineMagia, com todos os extras e comentários em áudio, além do citado livro "Maldito", o documentário não oferece muitas novidades. Mojica conta a velha história do batateiro que teve catalepsia e acordou em pleno velório, fala do sonho que foi a gênese para a criação do Zé do Caixão e fala da chamada maldição de que, em todo filme seu, há sempre alguém que morre. Ele trata de desmistificar essa história e diz que foi tudo coincidência e que o único momento realmente de nota aconteceu durante a morte de um de seus técnicos, durante as filmagens de ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER.

O documentário usa de forma inteligente a estética dos filmes de Mojica, tanto nos créditos de abertura quanto nos de encerramento e mostra cenas dos melhores trabalhos: os dirigidos na década de 60, além de uma cena de FINIS HOMINIS – O FIM DO HOMEM. Há depoimentos de Nilce, de pessoas da família, de técnicos que trabalharam com ele e de seu assistente Satã. Há também imagens de arquivo de quando ele foi homenageado na Espanha, nos anos 70, e foi comparado por alguns jornalistas com Luis Buñuel. Mas melhor mesmo foi a leitura dos capítulos finais do livro, que mostram as presepadas de Mojica nos Estados Unidos, quando foi descoberto pelos americanos e teve seus filmes lançados em VHS pela Something Weird.

Para encerrar, então, minha peregrinação pela obra de Mojica, segue meu top 10:

1. À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA (1964)
2. ESTA NOITE ENCARNAREI NO TEU CADÁVER (1967)
3. O DESPERTAR DA BESTA / RITUAL DOS SÁDICOS (1969/1983)
4. O ESTRANHO MUNDO DE ZÉ DO CAIXÃO (1968)
5. ENCARNAÇÃO DO DEMÔNIO (2008)
6. PESADELO MACABRO (episódio de TRILOGIA DO TERROR) (1968)
7. EXORCISMO NEGRO (1974)
8. PERVERSÃO / ESTUPRO! (1979)
9. FINIS HOMINIS – O FIM DO HOMEM (1971)
10. 24 HORAS DE SEXO EXPLÍCITO (1985)

P.S.: Falando em presepada, viram a entrevista de Joaquin Phoenix para o programa do David Letterman? Ele está irreconhecível e a "entrevista" vai entrar para a história do programa.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

NOSSO AMOR DE ONTEM (The Way We Were)



Um belo exemplo do cinema produzido nos Estados Unidos na década de 70, NOSSO AMOR DE ONTEM (1973) é ao mesmo tempo um história de amor e um filme político. Assuntos políticos estavam tão em voga na época que impregnavam até mesmo filmes românticos. Havia uma preocupação com esses temas, os americanos eram mais críticos ao Governo, havia uma maturidade intelectual no cinema produzido em Hollywood. Não é pra menos que os anos 70 são considerados especiais na história do cinema americano. Sydney Pollack - cujo nome apareceu nos créditos de produtor, junto com o de outro diretor também recentemente falecido, Anthony Minghella, no recente O LEITOR - vivia na época o seu auge criativo e popular e se saía bem tanto em dramas, quanto em filmes de espionagem e até em westerns. Em NOSSO AMOR DE ONTEM, ele ainda teve o mérito de conseguir fazer um par romântico entre Robert Redford e Barbra Streisend, sabendo aproveitar tanto a beleza do galã quanto a estranheza de Streisend, que vai se mostrando uma personagem surpreendentemente atraente ao longo do filme. E de mais fácil identificação com o espectador, apesar de sua extrema seriedade com que via a política e tratava desses assuntos, mesmo em ambientes mais informais e descontraídos como nas reuniões da turma de amigos do namorado.

Na trama que se inicia nos anos 30, Redford é um esportista alheio à política, o bonitão da universidade; ela é a freak, uma judia marxista que distribui panfletos contra a guerra e que fala em discurso sobre o quanto a União Soviética estava se empenhando em ajudar os espanhóis na Guerra Civil Espanhola, enquanto os Estados Unidos ficavam de braços cruzados. Ela queria mostrar que os comunistas não eram o bicho-papão que os políticos americanos queriam que o povo acreditasse que fossem. Mas isso foi antes do mccarthismo, que viria para assombrar a vida do casal nos próximos anos. O interessante do filme é que esse contexto político é mostrado com muita sutileza, sem nenhum didatismo, e até de certa maneira meio que às escondidas, como num thriller de espionagem.

Apesar de trazer cenas memoráveis, Pollack falha na costura dessas cenas. O filme me pareceu pouco coeso, mesmo levando em consideração os saltos temporais. Esse tipo de estrutura funcionaria melhor num filme de espionagem, que já tem uma característica geralmente confusa. Ainda assim, eu diria que a segunda metade de NOSSO AMOR DE ONTEM, ainda que mais problemática no aspecto narrativo, é a mais interessante do filme, quando a política e o drama sentimental/familiar passam a se fundirem com mais força. Mas ao mesmo tempo em que isso deixa o filme mais interessante no aspecto racional, o prejudica no aspecto sentimental. Ainda que Pollack nos reserve momentos de pura beleza e romantismo, como a cena que antecede o parto da personagem de Barbra Streisend, por exemplo, o aparente racionalismo diminui o impacto dramático do filme.

Lendo sobre a produção, soube o porquê desse problema estrutural do filme e isso se deve principalmente ao fato de que Pollack, ao contrário do que desejava o roteirista e criador da trama, Arthur Laurents, fez um filme em que o personagem de Redford ganhava a mesma importância que a heroína idealizada por Laurents, criada já com Barbra Streisend em mente, levando em consideração que na época ela era a judia mais famosa de Hollywood. Sua personagem foi baseada numa garota que o roteirista havia conhecido na faculdade e que deixou nele fortes lembranças. No fim das contas, o roteiro criado por Laurents foi mexido por vários roteiristas, o filme ficou cheio de buracos, e a amizade de Pollack com Redford acabou por prejudicar um pouco o resultado final. Ainda assim, mesmo com todos os problemas, NOSSO AMOR DE ONTEM tem o seu charme e resistiu bem ao tempo.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

QUESTÃO DE VIDA (Nine Lives)



Rodrigo García tem um desafio e tanto pela frente: superar a excelência de sua magnífica série EM TERAPIA (2008). Sua carreira pregressa, no entanto, ainda que bastante dedicada à televisão, já dava uma amostra de seu interesse e habilidade em investigar a alma humana, mais particularmente a alma feminina. Em CONFISSÕES AMOROSAS (2001), seu segundo longa-metragem, depois da bem sucedida estreia com COISAS QUE VOCÊ PODE DIZER APENAS OLHANDO PARA ELA (2000), já demonstrava que o diretor preferia projetos mais experimentais e intimistas, ao mostrar depoimentos de dez mulheres falando de experiências que elas tiveram com homens que marcaram suas vidas. Uma bela seleção de atrizes conta para a câmera, e consequentemente para o espectador, como se estivessem numa sessão de análise. O filme também pode ser visto como uma espécie de precursor de JOGO DE CENA, de Eduardo Coutinho, ainda que o cineasta brasileiro tivesse ambições maiores e diferentes enquanto o trabalho de García contém apenas monólogos, sem nenhuma intervenção aparente do diretor/entrevistador.

Vendo ontem QUESTÃO DE VIDA (2005), lançado em DVD no Brasil pela VideoFilmes, percebi o quanto essas experiências de García foram desembocar na aclamada série da HBO, embora cada trabalho tenha a sua importância e sua força, se analisados separadamente. QUESTÃO DE VIDA é uma série de nove planos-sequência que flagram minutos da vida de nove mulheres. Cada capítulo do filme ganha o nome dessas mulheres: Sandra, Diana, Holly, Sonia etc. As histórias – se é que dá pra chamar esses capítulos de histórias – estão, de alguma maneira, interligadas, trazendo personagens em comum com as demais. O olhar de García é sempre um olhar carinhoso para com suas personagens e mesmo se tratando de um filme episódico e, portanto, passível de irregularidade, o resultado final de cada episódio é comovente, cada um à sua maneira.

Algumas histórias são abandonadas no ato de um momento muito importante, como a de Holly, por exemplo. Outras aparentam ter um final. Com o tempo, vamos percebendo que os episódios não estão necessariamente em sua ordem cronológica. Entre os grandes momentos do filme, vale destacar a conversa entre os ex-namorados que se encontram depois de dez anos num supermercado (Robin Wright Penn e Jason Isaacs). Agora que suas vidas estão modificadas é doloroso ter que rever o outro, com os sentimentos teimando em brotar novamente, trazendo consigo as dores. Também achei lindo o episódio estrelado por Amanda Seyfried, a jovem que tem a vida inteira pela frente, mas que não quer abandonar o pai na cadeira de rodas (Ian McShane) e a mãe (Sissy Spacek). A dificuldade de comunicação entre os pais e ela servindo de elo de ligação, com a câmera a seguindo é angustiante. Pode-se sentir o peso que aquela jovem carrega e o quanto o amor às vezes pode ser um obstáculo para o crescimento pessoal. Um dos capítulos mais interessantes acontece num velório - o que novamente me fez lembrar de EM TERAPIA - onde William Fichtner é um homem com deficiência auditiva que acabou de ficar viúvo, mas que mantinha um caso com outra mulher. O encontro dos dois amantes durante o velório é um ponto alto do filme. Enfim, cada história poderia ser mencionada aqui. Mesmo as que não são tão marcantes têm a sua beleza e importância dentro do painel. E que belo capítulo final o filme nos aguarda, com o diálogo entre mãe e filha (Glenn Close e Dakota Fanning) fazendo um piquenique em frente a um túmulo.

Agradecimentos especiais ao amigo Zezão, que me apresentou esse belíssimo filme de García. E falando no diretor, não entendi porque ele aceitou fazer um filme de terror (PASSAGEIROS, 2008), claramente de encomenda, e que nada tem a ver com o seu histórico e sua marca autoral.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

APPALOOSA – UMA CIDADE SEM LEI (Appaloosa)



Fazia tempo que não via um western tão bom no cinema. Mas também, trata-se de um gênero fora de moda, que só por insistência de algumas mentes brilhantes e teimosas ainda continua sendo, vez ou outra, trazido à tona. Deve ser o melhor filme do gênero que vi no cinema desde o maravilhoso PACTO DE JUSTIÇA, de Kevin Costner. E quem gosta do gênero sabe o quanto é importante ter a chance de ver um na telona, de preferência em película. Recentemente tivemos OS INDOMÁVEIS, de James Mangold, mas não gostei tanto assim do filme, talvez por tê-lo comparado ao original, mas não creio que foi por isso. Já APPALOOSA – UMA CIDADE SEM LEI (2008), segunda experiência na direção de Ed Harris, é um filme que bebe claramente da fonte de John Ford. Basta ver as cenas de Virgil Cole, o personagem de Ed Harris, e seu parceiro, Everett Hitch (Viggo Mortensen, mais uma vez excepcional), sentados e descansando num varanda, que lembramos de imediato de PAIXÃO DE FORTES, do "Homero americano". E assim como no clássico de Ford, há em APPALOOSA uma mulher em jogo, embora a atriz não tenha sido a mais feliz das escolhas do elenco: Renée Zellweger, essa moça que além de ter o nome complicado de escrever, tem aquela cara de quem está chupando limão o tempo inteiro. Diria que se fosse uma atriz mais atraente, APPALOOSA seria um filme melhor ainda.

Mas nos contentemos com o que a gente tem, que já é lucro. O filme renova o velho tema dos homens contratados para protegerem uma cidade de um vilão perverso, aqui representado por um Jeremy Irons, que larga aquela fleuma inglesa e se mostra bem mais versátil em papel de bandido do velho oeste. Ele é uma espécie de coronel de uma região do Novo México que no começo do filme mostra que está acima da lei, ao matar o xerife que veio prender dois de seus homens. Com o desaparecimento do xerife, os líderes políticos da cidade contratam os serviços de dois profissionais que já chegam com um contrato que os nomeia como donos da lei da cidade. Virgil e Everett, além de rápidos no gatilho, têm peito para enfrentar qualquer oponente, não têm medo da morte e parecem de confiança. Além do mais, eles têm o seu código de ética e só matam se necessário.

O que desestabiliza a ordem da situação é a vinda de uma mulher, que mexe com o coração de Virgil, um homem maduro mas que não tem muita experiência com mulheres que não sejam prostitutas ou índias. Ele naturalmente fica interessado na loira, mesmo quando ela se mostra de pouca confiança. APPALOOSA quase torna a personagem de Zellweger uma mulher digna de desprezo e, assim, o filme ficaria até com fama de misógino, mas sua personagem tem a chance de mostrar o seu lado da questão em determinada cena do filme, o que de certa forma a redime, embora, como é de praxe no western, o senso de camaradagem entre os homens seja bem mais valorizado. E embora o personagem de Ed Harris pareça interessado numa aposentadoria tranquila ao lado de uma mulher cheirosa, seu parceiro ainda tem gás suficiente para continuar a sua jornada de pistoleiro solitário, como astros como John Wayne e Clint Eastwood tão bem souberam imprimir nas telas. Grande filme com um puta final: um tiroteio que eleva a obra de Harris à lista dos melhores westerns dos últimos trinta anos.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

O LEITOR (The Reader)



Não era nem necessário ver os filmes para perceber que havia alguma coisa errada naquela lista de indicados ao Oscar deste ano. A impressão que fica é que para cada passo dado a frente, como foi o caso da boa safra do ano passado, a Academia dá três passos para trás. O melhor exemplo disso é a inclusão deste O LEITOR (2008), do inglês queridinho da Academia Stephen Daldry, na lista de melhores filmes do ano. Interessante notar que os outros dois longas-metragens de Daldry - BILLY ELLIOT (2000) e AS HORAS (2002) - também foram muito bem recebidos. No entanto, até mesmo a interpretação de Kate Winslet neste filme fica aquém da mostrada no superior FOI APENAS UM SONHO, de Sam Mendes.

O que muitos dizem, com uma ponta de cinismo, mas não com menos verdade, é que o filme ganhou o apoio dos votantes pelo tema e não por suas qualidades estéticas. A Academia tem um fraco por filmes que tratam do Holocausto e O LEITOR é um exemplo de isca para se pegar um peixe grande. Provavelmente não ganhe dos favoritos, mas só a indicação já é um presentão para um filme tão morno e sem graça. Em nenhum momento, Daldry conseguiu me comover com sua história de amor fria envolvendo um jovem de quinze anos e uma mulher com o dobro de sua idade.

Na trama, que se passa em diversas épocas, mas que se inicia de verdade numa Alemanha ainda se recuperando do baque deixado pela Segunda Guerra Mundial, David Kross é um jovem estudante que desce do ônibus passando mal, vomitando, devido a uma doença da época: a febre escarlatina. Ele é ajudado por uma mulher (Kate Winslet) que trabalha de recolher os tickets dos passageiros. Ele descobre onde ela mora e, meses depois, surge em sua casa, com flores, como forma de agradecimento. O que ele não esperava é que no segundo dia de visita, o sexo acontecesse tão fácil. Assim, o jovem vai tendo a sua iniciação sexual, ao mesmo tempo em que retribui esse enorme favor através da leitura. Hanna, nome da personagem de Kate Winslet, é uma mulher que adora boas histórias, clássicos da literatura, tem um senso estético, apesar de não ter tido, claramente, uma boa educação. Ela prefere que outros leiam para ela.

O filme, assim, é também sobre o gosto pela leitura, e com certeza deve funcionar melhor em sua fonte original: o romance de Bernhard Schlink. Mas o principal tema, além da valorização da leitura e do sexo e amor entre pessoas de idades diferentes é a questão da culpa coletiva que os alemães carregam nas costas por causa do Holocausto. E a figura de Hanna, responsável por administrar uma ala de um campo de concentração, é a representação da própria Alemanha, uma espécie de bode espiatório. Sua inocência, seu senso de responsabilidade e principalmente sua vergonha a levam a se sacrificar. E a aspereza é uma dominante no filme e até que funciona. Pena que nos momentos em que Daldry tenta soar um pouquinho mais melodramático, o filme quase se torna uma comédia involuntária, como nas vezes em que Hanna chora ao escutar emocionada a leitura dos romances narrados pelo seu jovem amante. É Kate Winslet pagando mico e levando o espectador junto com ela. Pelo menos as cenas de sexo e nudez ajudam a equilibrar um pouco a coisa. Quanto a Ralph Fiennes, sua interpretação é tão pouco destacável que dá para esquecer facilmente dele no filme.

O LEITOR recebeu cinco indicações ao Oscar: melhor filme, melhor diretor, melhor atriz (Kate Winslet, pela sexta vez), melhor roteiro adaptado e melhor fotografia.

sábado, fevereiro 07, 2009

MARGOT E O CASAMENTO (Margot at the Wedding)



Quando escrevi sobre AUSTRÁLIA e comentei que Nicole Kidman não havia feito nada de realmente bom desde REENCARNAÇÃO, algumas vozes se levantaram e falaram de MARGOT E O CASAMENTO (2007), que eu havia baixado há algum tempo e não tinha visto por causa da enorme quantidade de filmes e séries e o pouco tempo disponível que tenho para vê-los. Aproveitei-me, então, dessa renovação do interesse pelo filme para conferir esse belo e estranho trabalho de Noah Baumbach, diretor de A LULA E A BALEIA (2005) e roteirista de dois filmes de Wes Anderson. Só por esse currículo, já podemos ver Baumbach como um dos nomes mais representativos do atual cinema indie americano.

Já vi alguém comentando num dos blogs amigos aí ao lado que MARGOT E O CASAMENTO pode ser visto como um filme de horror. Talvez seja um pouco exagerada a afirmação, mas talvez nem tanto. O fato é que o filme causa uma sensação de desconforto constante, mesmo lidando com questões aparentemente normais, como conflitos familiares e de natureza sexual. O filme ganha pontos em não entregar logo de cara o passado ou mesmo o presente de seus personagens. Caímos de pára-quedas num ônibus onde se encontram os personagens de Nicole Kidman e seu filho adolescente, a caminho da casa da irmã (Jennifer Jason Leigh), que está prestes a casar com um sujeito pessimista e meio loser (Jack Black). Margot (Kidman) não se conforma com a "escolha" do futuro cunhado, que não considera à altura da irmã. A personagem de Kidman também tem uma maneira bastante singular de lidar com as pessoas, às vezes magoando-as com a franqueza, às vezes com mentiras. Fica no ar que existe um segredo ainda a ser desvendado.

MARGOT E O CASAMENTO se beneficia de um andamento narrativo pouco comum - pelo menos dentro do cinema mainstream -, embora seja até uma evolução do que se vem fazendo no cinema independente dos últimos anos pra cá; e de uma fotografia que privilegia os tons de marrom, copiando um pouco A PELE, que também traz Kidman de cabelos castanhos. Mas o estranhamento maior é notado nos diálogos, no modo natural com que as duas irmãs tratam de assuntos bem adultos na frente de adolescentes recém-saídos da infância. Há também a cena em que o garoto fala para a mãe que havia se masturbado na noite anterior ou de detalhes até um pouco inconvenientes e incomuns, como na cena em que uma das personagens defeca nas calças. O filme, incomum, trata de uma família também pouco convencional, pelo menos dentro do que se está acostumado a ver no cinema americano. No final, na opção pelo abrupto, depois de elipses de momentos importantes e de questões familiares e afetivas que pareciam ainda indefinidas, ficam as reflexões.

Entre os diálogos, me chamou a atenção - pra não dizer que eu fiquei até um pouco aterrorizado - o debate sobre os lapsos de memória que surgem após os trinta anos de idade e que eu também sinto às vezes. Pelo menos, depois do filme, eu fico imaginando que isso é natural. Ou não?

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

STEREO



Os critérios para escolher os filmes para ver ultimamente têm levado em consideração a duração. Assim, como já estava acumulando alguns filmes de David Cronenberg que ainda não havia visto, e como seus dois primeiros trabalhos são curtinhos – pouco mais de uma hora –, achei por bem começar com a estreia do cineasta na direção de longas-metragens. STEREO (1969) é um trabalho que já traz o DNA do cineasta que dirigiria os filmes inconfundíveis que aprendemos a respeitar e a gostar. Sua carreira tomou novo rumo recentemente, a partir de MARCAS DA VIOLÊNCIA (2005), mas Cronenberg continua imprimindo a sua marca e seus filmes continuam sendo enigmáticos, mesmo quando trazem uma trama aparentemente mais convencional.

Mas "convencional" definitivamente não é uma palavra que possa se aplicar ao experimental STEREO, um filme mudo, sem nomes de personagens, sem trilha sonora e com apenas imagens e um narrador falando coisas estranhas sobre um projeto científico que necessita algumas revisões para entender melhor do que se trata, embora a palavra "telepatia" seja uma constante na narração. Mas elementos que estariam presentes em outros de seus filmes aparecem tanto de modo enfático quanto sutil. Está lá o homossexualismo – que é discutido no filme e visto pelo narrador/cientista/pesquisador como sendo tão estranho quanto o heterossexualismo. Na verdade, o corpo humano é um objeto estranho em praticamente todos os filmes de Cronenberg. Um objeto que ele às vezes tenta ver de maneira nem sempre agradável. Às vezes com frieza, às vezes com maravilhamento.

A utilização do gore como elemento que seria mais presente em seus filmes dos anos 70 e 80 ainda não surgia em STEREO, talvez por ser claramente um trabalho de estudante, um filme com poucos recursos, mas com um senso estético de dar gosto. Os cenários são ótimos e passam a impressão de um filme de orçamento maior. O preto e branco, com uma acentuação maior no branco, torna o trabalho de Cronenberg quase asséptico, que me fez lembrar tanto THX-1138, de George Lucas, quanto QUINTETO, de Robert Altman, sendo que STEREO antecipou esses dois filmes. Não é um filme fácil de ver e é bom que só tenha uma hora de duração. Deve ser mais agradável para as pessoas mais cerebrais, mas não deixa de ser um filme no mínimo interessante e curioso.

P.S.: Sairam hoje os indicados para o Alfred, a premiação anual da Liga dos Blogues Cinematográficos. Confiram o belo trabalho de Chico Fireman e o resultado semifinal das preferências da Liga.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

KAGEMUSHA – A SOMBRA DO SAMURAI (Kagemusha)



Akira Kurosawa continua sendo, entre os grandes e respeitados cineastas mundiais, uma pedra no meu sapato. Dos filmes que vi do cineasta, quase nenhum eu gostei de verdade, embora perceba racionalmente virtudes nos filmes. Os de samurai – como YOJIMBO, O GUARDA-COSTAS (1961) e SANJURO (1962) - foram experiências soporíferas para mim. Fico até me perguntando se o problema é com o gênero, já que tive de ver "em fascículos" este KAGEMUSHA – A SOMBRA DO SAMURAI (1980). A longa duração também não ajuda. O filme teve um efeito parecido com suco de maracujá pra mim. Quer dizer, ainda estou para ver um filme de Kurosawa que me satisfaça, que me deixe com os olhos abertos e grudados na tela até o fim – um dia pego um com trama contemporânea para experimentar.

Meu encontro com KAGEMUSHA veio graças à coleção Cinemateca Veja, que vem trazendo toda semana um filme diferente dentro de um libreto informativo. Resolvi comprar KAGEMUSHA, incentivado pelo libreto que vem junto com o DVD, contendo diversas informações sobre o filme, o diretor, o elenco, a reconstituição de época, um guia que nos auxilia a entender o contexto histórico (ainda que eu tenha achado um pouco confusa essa parte, talvez por causa dos vários nomes dos líderes dos clãs), o cinema japonês e, finalmente, um pequeno texto sobre a tradição dos filmes de samurai, que estão para o cinema japonês, como o western está para o cinema americano e os filmes sobre o cangaço estão para o cinema brasileiro. E como eu não sou exatamente um expert em cinema japonês e muito menos em História japonesa, achei que o livrinho seria de grande ajuda. Recentemente, KAGEMUSHA ganhou uma edição em DVD duplo de luxo do selo Cinema Reserve, com direito a vários extras no segundo disco. Assim, quem deseja adquirir o filme, agora tem duas boas opções.

Nas cerca de três semanas que eu levei para terminar de ver KAGEMUSHA, posso dizer que a última etapa foi a melhor. Não pelo fato de o filme já estar no fim, mas porque KAGEMUSHA ganha um novo gás quando trata dos momentos finais do clã de Shingen Takeda, o grande derrotado dos três clãs que dominavam a região do Japão na época em que se passa o filme (1573 a 1575). Foi um período importante para a História do país, pois foi nessa época, com a batalha entre os clãs, que o Japão se unificou. É mais ou menos o equivalente a HERÓI, de Zhang Yimou, que trata da unificação da China.

O que diferencia KAGEMUSHA do hiper-colorido e estilizado trabalho de Yimou está numa narrativa mais rica, ainda que mais convencional, que destaca o fato de o clã de Shingen usar costumeiramente um sósia para proteger o seu líder. Esse sósia se torna de fundamental importância com a morte de Shingen. O sósia é um ladrão, apanhado por um dos súditos do rei. Boa parte do filme lida com a adaptação do sósia (o kagemusha do título) aos costumes da nobreza, bem como com sua tentativa de enganar a grande maioria dos súditos, inclusive o seu pequeno neto, que inicialmente desconfia que aquele homem não é seu avô, mas depois começa a se afeiçoar a ele. Há também as várias sequências de luta, com um uso de cores incomum, tanto para o próprio Kurosawa quanto para o espectador. Aliás, o filme representa um novo rumo para a carreira do diretor, mais acostumado a trabalhar com a fotografia em preto e branco. Foi também um momento difícil para o cineasta, já que o cinema japonês não estava muito bem das pernas no mercado internacional e mesmo nacional. E, sendo admiradores do trabalho de Kurosawa, George Lucas e Francis Ford Coppola convenceram a Fox a comprar os direitos de distribuição do filme para o mercado internacional, levantando as possibilidades de sucesso do filme e ajudando o cineasta a se reerguer, depois de um jejum de cinco anos desde DERSU UZALA (1975), que aliás, é o único filme de Kurosawa que me causou maior interesse, mesmo não tendo visto completo, quando passou na televisão.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

SIM SENHOR (Yes Man)



Assistindo SIM SENHOR (2008), lembrei-me do episódio "The Opposite", último da quinta temporada de SEINFELD e percebi, sem muita surpresa, o quanto apenas esse episódio da série é tão superior a esse filme e a tantas outras comédias. No citado episódio, George Constanza resolve fazer tudo ao contrário, já que tudo que ele fazia na vida dava errado. E o episódio mostra uma série de eventos resultantes de sua decisão. Sempre que vejo esse episódio bate uma inspiração e dá até vontade de experimentar o mesmo, só pra ver no que dá. Mas não é de "The Opposite" que SIM SENHOR se inspira. O filme é claramente derivado de O MENTIROSO, também estrelado por Jim Carrey, que mais uma vez não economiza nas caretas, quando o negócio é humor físico. Diria que SIM SENHOR é uma versão melhorada de O MENTIROSO, que por sua vez já contava com seus momentos bem divertidos.

SIM SENHOR também me fez lembrar de um livro do Osho – não lembro o título, já que li vários do guru. Osho também dizia num de seus discursos que, ao dizermos "sim", o mundo se abre para nós e coisas fantásticas acontecem. O filme e o protagonista, bem como os seguidores da seita da história, levam essa filosofia às últimas consequências. Tudo em prol da diversão e das diversas opções que podem surgir a partir de uma ideia básica. É o tipo de ideia, aliás, que, com um rápido brainstorming de uma equipe criativa, pode gerar centenas de situações.

Felizmente, o filme não exagera nas inúmeras possibilidades e fornece sequências divertidas e um interesse amoroso adorável para o protagonista, na figura da bela Zooey Deschanel (de FIM DOS TEMPOS). Ela é uma cantora de uma banda de rock que tem apenas alguns gatos pingados como fãs. O primeiro e o segundo encontro dela com o sujeito que outrora dizia "não" para tudo e todos e agora diz "sim" até para velhinhas taradas são dois momentos especiais do filme. Zooey nunca apareceu tão linda e adorável. Lembra a Jenna Fischer, só que mais bonita e com os olhos maiores. :)

O legal é que tão divertido quanto as cenas de Carrey dizendo "sim" são as cenas dele dizendo "não", no início do filme. Destaque para a cena dele na fila da videolocadora conversando com o amigo pelo celular. No final, SIM SENHOR se mostra uma diversão inofensiva e é bem capaz de nos esquecermos do filme rapidinho. Mas enquanto dura, SIM SENHOR agrada bastante. Peyton Reed, diretor que havia se mostrado bem mais estiloso em ABAIXO O AMOR (2003) e com um humor mais agridoce em SEPARADOS PELO CASAMENTO (2006), se mostrou bem mais convencional com esse filme. Mesmo assim, continua sendo mais um ponto positivo para sua carreira.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

OLHOS DIABÓLICOS (The Girl who Knew Too Much / La Ragazza che Sapeva Troppo)



No ano mais fértil de sua carreira, o grande Mario Bava lançou três pérolas. Pouco antes dos sensacionais BLACK SABBATH (1963) e THE WHIP AND THE BODY (1963), o genial cineasta realizou THE GIRL WHO KNEW TOO MUCH (1963), considerado pelos especialistas como o primeiro filme do gênero giallo. (Vou utilizar o título em inglês do filme pois é como ele é mais conhecido. OLHOS DIÁBOLICOS é o título de quando ele passou nos cinemas brasileiros.) Apesar de o título original fazer uma clara homenagem aO HOMEM QUE SABIA DEMAIS, de Alfred Hitchcock, a obra de Bava encontra mais relações com as literaturas de suspense baratas, os famosos gialli, pouco conhecidos no Brasil, mas acredito que quem já leu um gibi do Dylan Dog pode ter uma ideia do clima desses livros.

O fato é que, ainda que a narrativa tenha uma boa importância na trama, Mario Bava – e seus demais seguidores, em especial, Dario Argento – transformou o que seria uma simples e banal trama de mistério e assassinato em algo especial, que valoriza enormemente o aspecto visual. Embora Bava seja mais conhecido pela sua bela e original paleta de cores, THE GIRL WHO KNEW TOO MUCH, assim como sua estreia na direção, BLACK SUNDAY (1960), são adeptos do bom e velho preto e branco. Mas sem deixar de lado o extremo cuidado com a fotografia e a direção de arte. E ao mesmo tempo, conseguindo um efeito atmosférico excepcional, construindo um clima de suspense e terror únicos.

A sucessão de eventos que acontecem durante a primeira meia hora de filme já é de deixar o espectador entusiasmado e com um sorriso no rosto. Nessa frenética meia hora, a heroína estrelada pela bela Leticia Roman, já no avião, vindo de Nova York e com destino a Roma, dá de cara com um traficante de drogas. Ao chegar ao seu destino, a casa de sua tia moribunda, não leva muito tempo para que ela testemunhe a morte da velha, em circunstâncias arrepiantes e numa noite de tormenta. Depois disso, a jovem ainda é assaltada enquanto circula desesperada pelas ruas de Roma e testemunha um brutal assassinato, antes de perder os sentidos e acordar num hospital.

E isso é apenas o começo de uma trajetória de mistério e diversão, onde as sombras são tão importantes quanto a luz. Além do mais, o filme fornece uma boa leva de suspeitos, que por si só já servem como diversão para o espectador – tentar adivinhar quem matou a mulher. Se é que mataram mesmo, já que muitos afirmam que tudo é fruto da imaginação de uma mulher viciada em Agatha Christie e livros de suspense em geral. E diferente de Hitchcock, que costumava entregar logo de cara em seus filmes o assassino, Bava resolveu seguir uma tradição de "quem matou fulano?" e sem querer deu início ao giallo, um gênero que seria aprimorado por ele mesmo em BLOOD AND BLACK LACE (1964), ganhando características próprias e algumas regras que podem ser ou não seguidas pelos vários cineastas que resolveram se aventurar pelo estilo. Mas a base estava nesse belo filme em preto e branco desse cineasta sem igual.

P.S.: Está no ar a homenagem que Davi de Oliveira Pinheiro fez a David Lynch e com a participação do próprio cineasta. O curta se chama SOUL DETECTIVE e pode ser visto direto do site da Fangoria! E em melhor qualidade de som e imagem no endereço www.v2cinema.com. Confiram!